Jorginho do Sertão (por Joca)

...
O Jorginho do Sertão
Rapazinho de talento
Numa carpa de café
Enjeitô treis casamento

*

Cornélio Pires




O JORGINHO DA INTERNETE

Meses e meses viajando no infinito oceano internético, numa daquelas madrugadas radiantes – internauta que se preza sempre aguarda o tesouro que surge no último momento – eis que as primeiras réstias de sol iluminam de cheio sua cara, no exato momento que seu sorriso se alastrou: seus olhos encontraram os de Heloísa, rosto risonho e franco, brilhante. Mensagem enviada, mensagem devolvida, doces palavras são trocadas incessantemente. Agora, um princípio de noite, gole de café, mordida no sanduba de pão com queijo, e, como um raio, os olhos negros de Luíza se destacam: fisgam Jorginho: troca de mensagens, encanto mútuo, gentis e doces palavras...

Fim de noite, Jorginho desligou a máquina. Ao cessar o zumbido da ventoinha, silêncio que soa absoluto, concomitantemente tremenda sensação de alívio. Alma leve! Puxa! Duas gatas de uma vez! E que gatas! Inacreditável! Tem vida na internet! Eh, quanta felicidade!

A partir de então, intensa e efusiva troca de mensagens, bate-papos diários. Sua mãe – e as mães, que sempre notam as mudanças – que geralmente implicava com a mania do filho de ficar o tempo todo no computador, ao ver aquela expressão de felicidade no rosto do filho, desistiu de dar-lhe broncas, pois, desta vez parecia realmente feliz, sem os olhos vermelhos.

Logo Jorginho – expert nessas coisas – soube definir claramente os perfis: Heloísa, denominada Helô, era aquela com quem trocava diálogos picantes, eivadas fantasias, com o tempo, até temperados com picardia, certas intimidades, certas safadezas! Já Luíza, moça de fino trato, linguagem um tanto lúdica, poetiza sensível, era aquela com quem travava um linguajar mais intelectualizado, discussão de idéias, os destinos do mundo. Se fantasias havia, eram de um mundo encantado ou encantador...

Fato mesmo, evidente, era que todos naquela relação triangular - na qual ele era o senhor das ações - se completavam. Nas conversas com ambas, a construção de imensas expectativas, um encontro real sempre adiado. Jorginho, em suas mensagens, nunca deixava de enaltecer Sampa, procurando (e conseguindo!) tirar o véu de cidade fria e esquisita. "Não só de prédios, multidões, correrias, poluição vive Sampa. Aqui tem rock, tem samba, tem o Trianon, o Ibirapuera, o Masp, a Casa das Rosas, o MIS, os SESCs, o Chopp do Leo, a Feijoada do Bolinha, os bares de Pinheiros e da Vila Madalena, as cantinas do Bixiga, o Bar Lua Nova – Recanto dos Cantadores, o Centro Cultural, os bailes da Penha, os recantos discretos e elegantes do Largo do Café, .... Venha, venha! Repetia sempre entusiasmado, sinceramente entusiasmado!

Eis que certa noite, início de noite, duas mensagens quase instantâneas pipocam na tela. Helô e Lú desembarcariam no aeroporto de Congonhas, às oito da manhã seguinte. Jorginho entrou em pânico, sem nem mesmo se perguntar exatamente porque, sem nada raciocinar. Deu-se conta de que se tratava com cada uma delas como se fossem musas únicas, a quem dedicava os mais elevados e únicos pensamentos. Num gesto desesperado, abruptamente desligou o computador, como se a máquina ligada fosse a exposição nítida de seus muitos pecados, de sua leviandade, de suas mentiras e libidinagens.... Corpo inteiro tremendo, afastou-se do computador, esconjurando-o. Máquina infernal, prova irrefutável de sua... traição! Ficou parado, afastado do monitor, a tela escura impassível, parecendo um grande olho a observá-lo e censurá-lo, aquele olho que lhe conhecia todos os seus segredos, manias, taras!

Correu para a mãe – sempre a mãe! – que na varanda cerzia uma blusa de lã no cotovelo.

- Mãe! Estou perdido!
- Como perdido!? Há meses que ocê não sai de casa, vidrado naquele computadô, como é que pode tá perdido? Ocê tá em casa, menino, não tá perdido!
- Mãe! Vê se me entende... Eu tô namorando, mãe! Pela internet, é a mesma coisa, a gente se gosta muito!...
- Namorando? Mas, como é que pode! Por acaso, ocê pediu a mão da moça pro pai dela?
- Não é dela, mãe! Delas! São duas!
- Bem... – a mãe pôs de lado a blusa, a agulha e os fios de lã. – Mesmo assim, ainda vigora minha pergunta: pediu a mão pros pais delas? – Jorginho fez que não com a cabeça. A mãe continuou: - Oxente, então não tem validade esse namoro! Namoro só é sério mesmo quando pede pros pais. Isso é coisa de computadô! Joga esse trem fora e esquece! Vai ver, essas moças nem existem!
- Ah, mãe! – Jorginho se ergue, nervoso, tenso. – A senhora tá como o homem que pega a mulher no sofá com outro... joga fora o sofá, como se ele fosse a causa... Ara!

E saiu. Ou melhor, entrou novamente em seu quarto, seu mundo. Sentou-se na cadeira e, num relance, uma miríade de coisas explodiu, pululou em sua mente, um redemunho de confusão: o computador estava ligado: quem ligou? Esse bicho parece ter vida própria, se liga quando bem estende? Helô, Lú, sorrisos, olhares. Aqueles lugares citados de Sampa onde jamais tinha ido, conhecia tudo pela internet, assim como conhecia Londres, Paris, Budapeste, Nova Iork, Praga. Luzes, muitas luzes minúsculas pipocavam. Os rostos de Helô e Lú surgiam alternadamente na tela dando gargalhadas... Outros rostos, anônimos, alguns conhecidos também gargalhavam, apontavam para ele diretamente... Pareceu ouvir claramente as palavras: Jorginho, o Galinha da Rede! Vozes/risos/palavras, www.com.br, orkut, pernas, bytes, bits, kb, gigas, tudo girava em torno de Jorginho que, sentado, voltou a olhar o monitor agora desligado, no entanto, fitando e censurando-o, implacável. As luzes, rostos, sons desapareceram como faíscas, no ar... Então, o trinado de uma velha canção entrou cortante em sua mente, ricocheteando naquela miríade de cursor piscando, bytes, bits, Helô, Lú. Jorginho falou:

- Ah, já sei: Não posso casar c`o as duas! Então, não caso com nenhuma!
Desceu até a garagem, sob o olhar atento da mãe. Dentro da garagem, olhou a velha motocicleta, coberta de poeira. Disse consigo mesmo:
- Será que ainda funciona?

*
... Jorginho pegou o cavalo
ensilhô na mesma hora
foi dizê pra morenada
adeus que eu já vou me embora

*
(trecho de Jorginho do Sertão,
de Cornélio Pires)



Serviço:

________________

Parque Trianon – Rua Peixoto Gomide, 949
Parque Ibirapuera – Av Pedro Álvares Cabral, s/n
MASP – Av. Paulista, 1578
Casa das Rosas – Av. Paulista, 37
MIS – Av. Europa, 158
Chopp do Leo – Rua Aurora, 100
Feijoada do Bolinha – Av. Cidade Jardim, 53

Bar Lua Nova Recanto dos Cantadores – R. Cons. Carrão, 451, esq. Com R. 13 de Maio.



9 comentários:

  1. Joca, Joca... simplesmente adorei!

  1. joca disse...:

    Fernanda, pois não que esse trem de internet não já chegou inté aqui, o sertão? Agora, entre um combate e outro, ora contra o Hermógenes, ora do lado dele, tem cangaceiro que abre o notebook e em vez de balas dispara mensagens...

  1. liza disse...:

    mininu, essi trem , o tar di computadô devi di sê bão dimais da conta! mais cuma nóis diz aqui nu sertão: eita bichu pirigoso
    sô!!

    i ocê, tá é di parabéns!!!!

  1. j disse...:

    Ô Joca, a profecia está para se concretizar: "o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão". Precisamos também falar mais de Cornélio Pires - bela lembrança. Grande abraço.

  1. José Maria disse...:

    Eu de novo, a publicação do comentário acima foi mais ligeira "qui eu".

  1. JOCA disse...:

    Minina Liza: esse tem di computadô podi di ser dimais da conta di bão, mas também é bicho pirigoso... Riobaldo, fio de Cumpadi Rosa dizia: viver é pirigoso.... Digo qui vivê no computadô, podi ser ainda mais... se eu fosse um chinês, diria: um zóio no passado e otro no futuro! Assim dia, um caipira paulistano....

  1. Se o sertão vai virar mar eu não sei. Se o mar vai virar sertão, eu também não sei. O jorginho foi e tratou logo de sair de motoca. Cá debaixo da minha janela acabou de passar um burrinho carregando uma carroça... ia um tropeiro em cima dela ou um morador, catadô de lixo, da metrópole?

  1. JOCA disse...:

    Ah, Fernanda! Que bela imagem! Isso é Sampa. Aqui, no meu bairro, jabaquara, tem um vendedor de peixe que anda numa carroça puxada por um cavalo.... ele põe o cavalo pra pastar nas áreas verdes que existem ao lado da Rodovia dos Imigrantes. Isso mostra que a cultura caipira, realmente, está inserida entre nós. E tem gente de peso que acha isso, Antonio Candido, por exemplo...

  1. Iara disse...:

    Joca!!!
    O Jorginho é menino custoso, mas sabe que dá trela só pra bichim computadô é um trem danado de esquisito, uai!! Tem que vê as formosura das coisa e botá tento em amor de moça, adispois de a coisa um cadim andada! Mió é o ocê, trazeno esses ecrito assim no jeito de lê e de gostá. Sim Sinhô!!!!!

    Beijos, seu moço bão das letra!!!

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