JAIME ALEM E NAIR CÂNDIA, NO SESC POMPÉIA


Jaime Alem e a cantora Nair Cândia vão se apresentar no próximo 9 de fevereiro, no Sesc Pompéia, a partir das 21 horas. Essa noticia por si já bastaria para todos corrermos ao Sesc e garantir já o nosso ingresso.



São artistas de primeira grandeza e temos a certeza de sair de lá de alma lavada, pois não será um simples show de entretenimento numa noite de quinta feira: será um acontecimento, uma aula de cultura musical  brasileira.

Algumas palavras – insuficientes! - sobre a dupla:

- Jaime Além e Nair Cândia formam efetivamente um casal, de arte e de vida, e basta ver o sorriso de felicidade dos dois para saber que ali o Amor chegou pra ficar: amor pela Arte e pela causa – no caso, musica brasileira universal. A harmonia entre eles é perceptível no próprio jeito de ser:

- Jaime,  violeiro, arranjador, maestro, compositor, cujas peças sinfônicas tendo a viola caipira (ou brasileira, como ele prefere chamar) como instrumento solo, ainda vão dar o que falar;
- Nair, cantora de voz lírica marcante. Seu estilo refinado, eivado de sutilezas que só o intenso convívio amoroso e musical é capaz de produzir: sua voz emociona intensamente sem  o pieguismo, que seria até compreensível em se tratando de um casal de fato. Ouví-los, Jaime e Nair, é uma celebração à Vida e a Arte.  A dupla tem em comum a generosidade de emprestar toda bagagem musical adquirida em décadas a serviço da musica brasileira de caráter popular, sem qualquer  concessão comercial ou algo que o valha.

Vamos todos e todas, pois ao Sesc Pompéia! Será uma experiência inesquecível!



Se existe um artista, cujo trabalho possa ser considerado como uma conexão entre os muitos brasis que cabem dentro da idéia de uma Musica Popular Brasileira,  Jaime Além se apresenta como uma síntese dessa arte que deu tão certo no Brasil – sim, o Brasil musical é um Brasil que deu certo: nossos artistas, e falo de artistas com vinculo nas nossas raízes populares, cantigas e acordes gerados nas campos, nas ruas, nos morros, nos terreiros, nos salões, indiscutivelmente, é o que temos de melhor! O resto teremos de adequar, mas musical – culturalmente falando - estamos na vanguarda. Basta ouvi-lo para entender porquê.

A viola brasileira:

Nas últimas décadas, a viola caipira alcançou o patamar de instrumento de elite. Outrora, espécie de “patinho” feio da música, relegada ao nicho de instrumento quase exótico, apesar da longevidade, eis que a violinha se destaca, sobreira, desavergonhada, e hoje em dia se mostra sem pejo. É um instrumento consolidado, que avança pelos palcos do mundo, como nos mostra a francesa Fabienne Magnant, que a ombreia ao violão clássico.





Dois dos discos de Jaime Além, especialmente dedicados ao instrumento são sintomáticos:

- “Dez Cordas do Brasil” remetem, sem explicitar diretamente, ao instrumento que, não seria exagero se o considerássemos símbolo do Brasil; “Dez Cordas” é uma homenagem à viola caipira (ou brasileira, ou nordestina), evocando ao mesmo tempo as “afinações” características (cebolão, rioabaixo, etc.) e aos nossos grandes violeiros. Quem, ao pensar em dez cordas não se lembra de Tião Carreiro, Gedeão da Viola, Renato Andrade? A homenagem vale tanto para os mestres fundadores, como para os violeiros de hoje: Valdir Verona, Ricardo Vignini, Adelmo Arcoverde, Paulo Freire, Indio Cachoeira, Julio Santin, Levi Ramiro, Fernando Deghi e tantos outros,  continuadores da tradição.  
Ouvindo “Dez Cordas do Brasil” reconhecemos em cada faixa os muitos sotaques que a violinha vai arreunindo em sua caminhada;

- “Meu Relicário”, como sugere o título, evoca lembranças afetivas do próprio Jaime, do casal. Mas pensando bem, são lembranças e momentos de todos nós; ao partilhar, de um modo um tanto misterioso, nos reconhecemos em muitas passagens – ouçam, por exemplo, “Sua Presença Querida”: quem, qual cristão que um dia amou ou ama, não identifica entre seus afetos, uma “presença querida”?
Aqui, no álbum, a viola brasileira é o elo, o fio condutor das emoções e da própria história: a linguagem empreendida pelo artista é de fácil compreensão – revelando e/ou confirmando mais uma vez a versatilidade desse incrível e apaixonante instrumento – e ao mesmo tempo, distinta, singular, diferente.
Jaime Além tem uma relação de amor e carinho com a viola (que certamente receberia a aprovação de Gedeão da Viola, para quem a viola era como uma mulher amada). Tem com ela, viola, uma conversa de pé de ouvido e assim lhe extrai as mais guardadas confissões, seus segredos mais profundos, reservados somente aos que a sabem compreender. Neste CD, Jaime nos brinda com algumas peças da Suíte Caboclinha, resultado de suas conversas com ela, a viola. Queira Deus, haveremos ainda de ouvir esse trabalho completo feito especialmente para a Sinfonica de São José dos Campos. (Alguns dos movimentos, podem ser encontrados no youtube).

E tem muito, mas muito mais, a nos revelar, a violinha: num terreiro de chão batido de qualquer dos “sertões” brasileiros, num meio-fio da avenida São João, nos salões de bailes da vida (Miltinho Edilberto que o diga, através do seu uso nos chamados forrós universitários) ou nos salões de concerto.
Paciente, longeva e sábia, a viola é humilde, mas tinhosa: exige respeito. Mas quem souber dialogar com ela, tem uma amiga para toda vida.

DISCOGRAFIA:

A dupla lançou dois discos, hoje raridades:
- Jaime e Nair (1974) e Amanheceremos (1997),  
- CDs Canção do Outro Dia (1997) e Um Banquinho e Um Violão (2001).
Jaime lançou dois Cds solos, duas obras primas:
- Dez Cordas do Brasil (2009) e Meu Relicário (2014)









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TOP DEZ 2017





O  ser-tão paulistano, como sempre acontece todo fim e começo de ano, elege os TOP DEZ!
Como bem sabe quem conhece nossa proposta, em contraponto à grande mídia que por essa mesma época elege as figuras mais representativas da sociedade nas artes, na política, nos esportes, nas ciências, nos negócios, etc., nós destacamos dez personalidades e/ou entidades que foram importantes ou que colaboraram para a vida cultural de nossa cidade, e que dificilmente são citados nos órgãos da grande imprensa, pois, naturalmente seus interesses são de outra natureza, e o afirmamos sem qualquer pretensão de ajuizar valores.
O blog ser-tão paulistano, quem o segue conhece, procura dar espaço para artistas e personalidade que não encontram espaço noutros meios.

2016 foi um ano atípico na vida nacional, mas nem por isso nossa vida artística e cultural deixou de produzir arte de altíssimo nível. Segue abaixo, nossa homenagem, nossos TOP DEZ.  Destacamos DEZ mas poderia ser mais. A ordem é aleatória, e pudéssemos representar graficamente, todos estariam na primeira posição. São Dez figuras representativas, famosas ou não, mas exemplares, importantes no geral e no particular, reprodutores que são de idéias e conceitos de um mundo que pode ser melhor. Potencial, temos:tratamento ejaculação precoce

MARIO GIL, O CD “COMUNHÃO”

O mineiro Mário Gil tece com paciência sua arte de ourivesaria. Desde sua estréia com Luz do Cais, construiu a sólida reputação de ser dos nossos artistas mais criativos, forrando caminho para a produção do antológico Cantos do Mar, inaugurando parceria com um dos melhores letristas do país, Paulo César Pinheiro. Depois de um longo hiato quando se dedicou a produzir outros artistas, neste 2016, Mario lançou “Comunhão”, disco que revisita nossas origens, de Capiba a PC Pinheiro, com o mesmo frescor de novidade que só a arte popular consegue, com sua vivacidade. Mario Gil vai além: sua poética fala de um Brasil real, mas também onírico, imaginário. Lançou simultaneamente “Mar Aberto”, em parceria com Renato Braz, Breno Ruiz e Roberto Leãoqueima48horas.



KÁTYA TEIXEIRA, “AS FLORES DO MEU JARDIM”, “CANTARIAR”, “DANDÔ”

De  Kátya Teixeira pode se dizer que seja mineira, alagoana – terra de seus pais – e paulistana, sua terra natal. Mas também se pode dizer que seja africana, índia, portuguesa, celta, moçárabe. Donde quer que se origine um canto popular, encontra em sua alma ressonância. 2016 foi um ano pródigo. Além de prosseguir com o Projeto Dandõ – Circulo de Musica Dercio Marques, comemorou em alto estilo suas duas décadas de carreira com o belo “Cantariar”. E, deu prosseguimento à etapa de parcerias que desde “Feito Corda e Cantiga” vem encantando o Brasil e  países do Cone Sul da América, viajante incasável que é. Produziu e está prestes a ser encontrado nas melhores casas do ramo o comovente “As Flores do Meu Jardim.”



IMAGENS DO BRASIL PROFUNDO

As conversas musicais que acontecem quinzenalmente às quartas-feiras na Biblioteca Mario de Andrade, sob a coordenação do sociólogo Jair Marcatti são a porta de entrada para conhecermos um Brasil que, desde a histórica viagem de Mário de Andrade nos anos 1920, desafia o público geral e especialistas a indagarem a respeito de um Brasil que é “...além do litoral e qualquer Zona Sul”, como diz a canção do Milton.
Inspirado por Ariano Suassuna, Darci Ribeiro,  Guimarães Rosa e o próprio Mario de Andrade, à cada quinzena um convidado conta sua imersão nos ritmos do Brasil que forjaram uma identidade mestiça única no mundo. Imagens do Brasil Profundo evoca nossa natureza múltipla, amalgamada, diversificada. Em 2016 iluminaram seu palco artistas do porte de: Consuelo de Paula, Jean e Joana Garfunkel, Mario Gil, Carlinhos Antunes, dentre outros.
Passados mais de 70 anos do Projeto O Turista Aprendiz, de Mario de Andrade, o Brasil ainda é desconhecido para a maioria de seu povo. Projetos como  Imagens do Brasil Profundo, ajudam-nos refletir a imensa riqueza para a qual estamos de costas: a cultura brasileira.



ROBERTO BACH: “TERRA”

O tresloucado Roberto Bach não é um artista para multidões. Não que sua obra não seja acessível, ela o é. A única razão que encontro para que ele não seja um artista plenamente reconhecido por todo o país e assim colher os justos louros do sucesso é seu próprio comportamento inrascível perante o show business. Sem papas na língua e não suportando o cinismo moderno, Roberto Bach refugiou-se na Idade Média e é lá que se sente a vontade – embora ele próprio gostasse de uma sina diferente, que não a de um artista quase marginal, mas que produz uma obra única e original, a partir de receitas antiqüíssimas.
Pudera, Bach é um “goliardo”, um renegado, nenhuma das grandes “tribos “ do mundo da arte o aceita pacificamente, o que é uma pena, pois seu enorme e inigualável  talento fica praticamente desconhecido do grande público.
Depois da Trilogia Medieval – “Oliveira”, “Pequeno Concerto Campestre” e “A Colina dos Cavalos Fortes” – e um disco que reproduz fielmente os principais episódios de Os Sertões, de Euclides da Cunha (Os Sertões – Bahia Lavada Em Sangue), ele lança no final de 2016, “Terra”, baseado na obra de Glauber Rocha, outro renegado das artes. O “Terra” pode ser encontrado (antes que desapareça!) na loja Baratos Afins,  na famosa galeria da Rua 24 de Maio, centro de São Paulo.


O SUL EM CIMA, PROGRAMA DE RÁDIO

Ganhador do Prêmio APCA de Melhor Programa de Radio do Brasil, O Sul Em Cima, produzido por Mariusa Kineuchi e apresentado por Kleiton Ramil, é uma ampla janela por onde podemos vislumbrar a cultura pampeana de um modo que o resto do Brasil (talvez do mundo!) desconhece! Esqueçam os estereótipos que ao longo do tempo se formatou sobre os gaúchos - o bagual, o chucro, o vanera, o vanerão, etc e  etc.
Sim, existe o traje tradicional, a indumentária característica, mas da mesma forma como existe a do caipira do interior de São Paulo, do vaqueiro nordestino com seu traje de couro.
Existe um Sul urbano que se mescla ao rural, múltiplos dialetos, de muitas tribos, sem limites territoriais precisos, por onde circulam brasileiros, argentinos, uruguaios,  paraguaios. Refletido na música, vislumbramos um mosaico musical que vai do canto tradicional ao lírico. Uma verdadeira montanha russa de estilos, a cada domingo, uma surpresa, das 15 as 16 horas (horário de verão brasileiro) na Radio USP. O endereço na Internet: www.radio.usp.br.


POEMODA – A CANÇÃO EM VERSO E PROSA

Se alguém algum dia se perguntou se há vida inteligente na Internet, ouçam o Poemoda, as quartas feiras, das 21 as 22 horas (horário de verão brasileiro), magistralmente conduzido por  Etel Frota e Alan Romero, e contando com inúmeros colaboradores. A cada semana, uma seleção meticulosa sobre um tema corrente com nossos melhores artistas (músicos, poetas, escritores, etc.), entre nomes consagrados, ou pouco conhecidos, pois o critério fundamental é a qualidade.
Parafraseando o notável Carlito Maia: “...se o Poemoda não existisse, precisaria ser criado agora mesmo!” A cada dia arregimentando novos “poemoças” e “poemoços” POEMODA, a Canção em Verso & Prosa é uma pausa na azáfama cotidiana para se reabastecer de doçura e ternura !


PREMIO GRÃO DE MÚSICA

Em 2016 ocorreu a terceira versão do Premio Grão de Música. Idealizado por Socorro Lira, o troféu criado por Elifas Andreatto é um símbolo da resistência da música independente do Brasil.
Um grão que seja de pureza e de verdade, resgatando e preservando. Mas o Grão de Música é mais que um simples Grão, é um elo que agrega. Não é um prêmio em dinheiro – por ora, mas de reconhecimento. Uma festa bonita, sempre no auditório da Galeria Olido. Vale muito a pena ver a alegria do artista reconhecido por seus pares e o público!


NOEL ANDRADE & BLUES ETILICOS

O elo que os une é o violeiro Tião Carreiro. Noel Andrade, jovem violeiro, discípulo de Gedeão da Viola - que dispensa comentários - e que apesar de fidelíssimo às mais profundas tradições caipiras, tem a cabeça aberta musicalmente para buscar e ampliar novas linguagens musicais, juntou-se à conhecida banda Blues Etilicos e juntos apresentaram no Sesc Belenzinho o show “As Dez Cordas de Tião Carreiro.”
Não é de hoje de Tião Carreiro chama a atenção de fora do universo violeiro. Foi a inspiração direta da formação da banda Matuto Moderno, ao transformarem os solenes acordes da violinha em Hard Heavy!
Noel Andrade & Blues Etílicos encantaram o público colocando lado a lado e misturando linguagens e gerações. Belo projeto, que abre espaço para cada vez mais o velho Tião Carreiro ser reconhecido como grande músico e não apenas o criador e rei do pagode. A parceria de Noel & Blues Etílicos rendeu um CD que brevemente estará nas melhores casas do ramo.


JOSE VICENTE NETO, ENTRE CÉU E MAR

O CD O Tempo e o Vento é um marco na discografia brasileira. Tem uma história linda, inspirado que foi pelos versos de Cecilia Meireles. Não só Cecília, mas por outras latinidades e brasilidades:  O Tempo e o Vento fala de vida, é leve e é denso, fincado que está nas raízes do tempo, ao passo que nos faz planar/levitar entre o sol e o vento. É um desdobramento que continua.
Inspirou o poeta Jose Vicente Neto, conterrâneo de Consuelo em surpreendentes e arrojados versos, nascidos da audição do disco. Como ele mesmo disse: “...me desassoguei, sobrevoei sonhos! Arranquei amarras! Arrevoei!”




ELOMAR E JOÃO OMAR NO SESC BELENZINHO

O show que Elomar e João Omar, acompanhados pelo violoncello de Ocello Mendonça, deveria transformar-se em tournée, pelo  Brasil e pelo mundo. Poucas vezes o universo elomariano foi tão bem bem sintetizado: para quem conhece a trajetória do velho bardo de Vitória da Conquista, tudo esteve ali representado: as cançonetas do universo catingueiro – ou sertanez como ele prefere -, algumas árias de suas peças eruditas, além das canções conhecidas, aquelas que todos cantam junto como Campo Branco e Arrumação.
 E de arremate, João Omar e seu violão brindou o público com algumas composições de sua própria lavra, além de peças de autoria de seu pai, especialmente compostas para violão. Definitivamente João Omar se consagra como grande interprete. O mundo é o limite!



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"TERRA", O NOVO DISCO DE ROBERTO BACH



O trovador Roberto Bach está mais do que nunca decidido a desvendar histórias e mistérios da Bahia. Mas não da Bahia comum.  A que falamos aqui vai além do que nos conta os livros de história e os estereótipos que cercam batucares de tambor num mundo mítico onde reina o eterno carnaval, fantasia que ainda norteia turista menos avisado.

Fora as fantasias grotescamente comerciais, a ditas “pra inglês ver”, a Bahia é um manancial invejável de cultura e história que vai do conhecido mundialmente Jorge Amado ao quase desconhecido e também escritor Jorge Medauar, tão bom e tão importante para a compreensão da cultura baiana quanto o xará mil vezes mais famoso. E o mais espantoso é que há muita coisa ainda por descobrir em relação à Bahia; há uma aura mística que envolve praticamente todos os aspectos da vida de quaisquer das regiões do Estado, do rural ao urbano, do litoral ao interior profundo; são tantos e tão diversificados os aspectos da vida baiana que grande parte deles passam despercebidos aos olhos de todos: misticismo, magia e realidade se imbricam, aguçando a imaginação artística, porém, são poucos que logram tocar-lhe verdadeiramente o cerne.

Roberto Bach decidiu-se por dar atenção ao interior/sertão baiano, que, apesar de razoavelmente conhecido, é pouco explorado – ou pelo menos, não tanto quanto deveria. Seu olhar atento, curioso e de certo modo sentimental, rendeu por ora seus dois últimos CDs:  “Os Sertões”, baseado na obra de Euclides da Cunha, onde conta e canta através de 13 canções, que fazem as vezes de “capítulos”,  o pior massacre de nossa história e agora prepara  “Terra”, com forte referência à obra do cineasta Glauber Rocha, natural de Vitória da Conquista.


Antonio Roberto de Oliveira Bach vive há mais de 30 anos em Vitória da Conquista, fez daquela cidade do sertão baiano seu porto seguro. Isso certamente não foi acaso, pois aquele é um lugar que parece dotado pela Providência de dons poéticos, como se uma substancia desconhecida existente em suas águas ou no próprio ar tornasse a produção artística algo corriqueiro. Se não, vejamos: é por aquelas paragens que nasceu e vive o bardo Elomar Figueira de Melo, um dos “troncos” ou esteios fundamentais da música brasileira, a ponto de ombrear com Vila-Lobos, Noel Rosa, Gonzagão,  Noel Guarani, Chiquinha Gonzaga, Caymmi. Elomar imortalizou a geografia rústica da região ao torná-la cenário de suas peças que evocam a cultura ibérica antiga até o Oriente Médio.

Vitória da Conquista, lugar de beleza áspera e forte, é terra de poetas, cantadores, artistas plásticos. E não deve ser por acaso ser a terra natal do cineasta Glauber, o mais importante do cinema brasileiro, a despeito de gostar ou não de seus filmes. Independente de sua estética cinematográfica ou de sua proposta ideológica, Glauber foi antes de tudo, um  pensador da cultura brasileira: com ele o Brasil se descobriu capaz de produzir seu próprio cinema, sem se submeter aos modelos dos grandes centros, Europa e EUA. Glauber merecia ser melhor conhecido, deveria servir mais de inspiração para todos nós. Um CD com musicas inspiradas em sua figura e em sua atuação é um alento num país que não dá muito valor à sua história; a falta de cuidado para com os patrimônios nacionais é o puro reflexo disso, mas tenho forte esperança de que um dia isso mudará.



UMA PONTE ENTRE CANUDOS E VITÓRIA DA CONQUISTA

A Bahia retratada por Roberto Bach são dois recortes precisos e representativos, Canudos e Vitória da Conquista. A distancia  temporal e espacial entre as duas é facilmente ligada por uma ponte: são duas presenças fortes no imaginário nacional: a tragédia dos sertanejos seguidores de Antonio Mendes Maciel, o “Conselheiro” e o universo Glauberiano.
A construção dessa ponte imaginária de Canudos a Vitória da Conquista desenha um novo ciclo da carreira de Roberto Bach: os dois trabalhos surgem a seguir à sua fase medievalesca. A alcunha “menestrel” lhe cai adequadamente, pois provavelmente seja o nosso mais autentico trovador do Brasil, conhecedor profundo da música e da cultura medieval, de caráter europeu, mas que encontrou no interior do nordeste brasileiro ecos cujas ressonâncias persistem até os dias de hoje, graças ao isolamento (ou abandono) a que a região foi submetida. A musica do Quinteto e da Orquestra Armorial, o próprio Elomar citado aqui, em todos eles a influência medieval se destaca. Roberto  Bach muito pesquisou compositores e escritores dessa época fascinante e pouco conhecida do mundo: a atmosfera mítica e mágica do período pode ser pressentida em sua trilogia Oliveira, Pequeno Concerto Campestre e A Colina dos Cavalos Fortes, que alguns chamam não sem razão de Renascentista – eu prefiro  medieval.
(Por ocasião do lançamento d’A Colina dos Cavalos Fortes declarou que sua obra do período estava esgotada, sob o risco de repetir-se a si mesmo).

O disco Os Sertões, trabalho baseado em Euclides da Cunha, é uma espécie de repetição do mundo medieval, mas nele não está mais a dolência das cantigas de amor ou de amigo, nem a ironia das cantigas de escárnio; n’Os Sertões o mundo “medieval” é pressentido sob seu ponto de vista mais cruel, ao retratar a tragédia sertaneja ocorrida no final do século XIX na cidadela de Canudos. O título desse disco foi posteriormente mudado para “Bahia Banhada em Sangue” e novos arranjos acrescentados, com a introdução de guitarras elétricas a la Pink Floyd – que  valeram o subtítulo de “Musica Progressiva Brasileira”. Essas variantes e acréscimos apenas dão conta da mente febril e quase delirante desse Goliardo em época errada, nascido por acaso no século XX.
(Os Goliardos – numa definição superficialíssima - eram monges/clérigos pobres  expulsos dos mosteiros e para sobreviver tocavam e cantavam nas festas profanas. Escreviam poemas satíricos, cínicos, anticlericais, eivados de desprezo e rancor. Atacavam diretamente a Igreja, a quem acusavam de hipocrisia moral, mas atacavam diretamente qualquer forma de hierarquia organizada e por isso foram duramente perseguidos. Músicos talentosos e malditos, são hoje chamados os hippies da Idade Média. Uma de suas peças que sobreviveu ao tempo é a Ópera Carmina Burana, versos Goliardos musicados por Carl Orff).

E  depois d’Os Sertões ou Bahia Banhada em Sangue, ele acaba por estabelecer (ou restabelecer) a ponte, pois muitos dos personagens reais da tragédia canudense poderiam ser personagens de quaisquer dos filmes de Glauber: os retoques finais dessa ponte estão sendo finalizados e o CD “Terra” deve estar pronto em  meados de novembro.

Quem conhece os filmes de Glauber vai entender: a referência a “Terra” remete diretamente ao cineasta e é um convite a realizar uma viagem sonora  e sentimental pelas terras que povoaram e inspiraram a mente inquieta  do criador revolucionário de  “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, “Terra em Transe” e “A Idade da Terra”.




Ouvindo suas 10 faixas, mais um bônus, as canções são andanças pelo universo glauberiano: ora são referências sentimentais da infância, ora se referem à atuação do artista que via na arte um instrumento de transformação sócio-cultural, ora o poeta louco, delirante, que misturava neorealismo com nouvelle vague, numa estética hiperrealista. Seus personagens vagueiam por um sertão atemporal, sem rumo, como sobreviventes de um cataclisma apocalíptico: seres renegados, sem terra, sem educação, verdadeiros parias em sua própria pátria.
Existe, assim, uma ponte nem tão imaginária entre massacre de Canudos e o universo glauberiano, como se esse último fosse o limbo onde as sofridas almas dos protegidos do Conselheiros que vagueavam dispersas pelos muitos sertões, finalmente encontrassem incerto e precário pouso.
Roberto Bach ouviu suas vozes e traduziu seus dramas, transformando em música que ora nos encanta com uma dolência quase inocente ora nos fere com a aspereza de estocadas impiedosas de punhais, violentas explosões onde se sente o cheiro de pólvora e pela Terra respinga sangue. Uma característica dessa nova fase do compositor é a incursão por novos estilos, como “cirandas” e “reisados”, elementos fundamentais do universo sertanejo.

Como num exercício de prestidigitação, somos transportados no tempo: os cinco séculos, desde o Descobrimento (que o paraguaio Roa Bastos chama de “Encobrimento”, em seu livro A Vigilia do Almirante), que contemplam o interminável drama sertanejo. Entra governo sai governo muda regime político e o sertão ainda é o mesmo.

As musicas do “Terra”:

1 – Terra
2 – Casa de farinha
3 – Ciranda de praia
4 – Dentro de mim
5 – Lembranças apenas
6 – As folhas e a vida
7 – Os três segredos da vida
8 – Reisado
9 – Roupa de feira
10 – O poeta louco

Faixa bônus: Chuva em açoite


 CONCLUSÃO?

Nalgum ponto acima eu disse que Roberto Bach é um goliardo nascido na época errada. Ou talvez não.Talvez tenha nascido exatamente na época em que seu espírito rebelde e provocador, que nega veementemente fazer média com as hipocrisias reinantes nessa época confusa, e que –exatamente em tempos como esses, seja o profeta a brandir versos e acordes denunciadoras. E por isso é amaldiçoado.
Seu disco está pronto, é uma obra prima, assim como seus trabalhos anteriores, porém é escandalosamente ignorado por todas as mídias. Obras clássicas que são, de inegável valor artístico e cultural, um dia será reconhecida, aplaudida, quiçá estudada, esmiuçada. Por ora Roberto Bach procura parcerias para lançar seu trabalho.



SERVIÇO: em São Paulo, o CD estará à venda na loja BARATOS AFINS, uma referência há décadas da produção independente da Musica Popular Brasileira.Atualmente lá pode ser encontrado "A Colina dos Cavalos Fortes", obra que encerra a trilogia medieval (ou renascentista).




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AMAURI FALABELLA: A VIOLA INVADE A CIDADE


O jeito de tocar e cantar, tão familiar e tão autêntico, coloca quem ouve Amauri Falabella frente a um enigma: simplesmente não é possível acreditar que ele não tenha nascido e vivido no interior mais profundo do país.

No entanto, conforme sugere o titulo de seu segundo CD,  “Violeiro Urbano”, Amauri é inteiramente urbano. Nasceu e vive em Guarulhos, onde trabalha e exerce intensa atividade educacional e cultural. Cantor, compositor, trovador, violeiro, ele tem dentro de si uma verdadeira Legião, onde se misturam, condensam, amalgamam, os inúmeros estilos que o influenciaram desde sempre: de Vital Farias à Elomar; de Vidal França à Dércio Marques, passando pelos mestres da arte popular e o requinte de letras e arranjos sofisticados. Amauri é um servo fiel da arte musical.


Sua especial ligação com a viola caipira, um instrumento de origem européia, mas que encontrou no Brasil o seu jeito definitivo de ser, é dessas coisas misteriosas, inexplicáveis,

“Sou um violeiro diferente
Não nasci no interior
Eu jamais toquei boiada
Não conheço quase  nada
Das coisas do sertão
Mas quando pego a viola
Sinto uma coisa esquisita
Minha alma se agita ai ai ai
Não consigo largar dela ai ai ai”
(...)

Os versos acima abrem a musica título de “Violeiro Urbano” e são nítida, reconhecidamente autobiográficos. O que seria isso, se não a memória ancestral, viajante dos tempos que ao encontrar guarida, ali se instala? E que instrumento mais adequado e receptivo poderia encontrar a Musa Música que o coração, os dedos e a mente prodigiosa do criador de “Ciranda Lunar”, um viajante das estrelas? (Ele não é apenas violeiro, é músico completo, compõe versos e arranjos, e sobre qualquer um desses aspectos de sua arte, poderíamos aqui discorrer. Fiquemos, por ora, com o violeiro, dado o espaço reduzido do blogue).

Amauri Falabella dedilha a viola com técnica e sentimento, autenticidade, pois para ele, é meio de expressão. Um intérprete do sentimento da condição do homem moderno que vive o drama da separação da natureza. Quando empunha a viola ou o violão, o faz como o escritor empunha a caneta, o lavrador empunha a enxada ou o motorista profissional que segura o volante do carro ou caminhão. Um menos avisado poderia alegar tratar-se de técnica apurada, tal como se dá em muitos casos de  músicos brilhantes, virtuoses. Mas com ele, é algo além da técnica.Amauri é Alma: alma sertaneja e alma caipira.


CAIPIRA E SERTANEJO

Alma sertaneja e alma caipira. Existem sutis diferenças, sendo a mais evidente e mais importante a referência imaginária de lugar. O caipira comum característico é do interior paulista, e no seu toque facilmente reconhecemos a melancolia fruto de sua vida dura e da labuta na roça, ao contrário, por exemplo, do violeiro do litoral, mais gregário e festeiro. Variantes caipira se estendem entre São Paulo, Minas, partes de Goiás, o território aqui considerado não coincide com o mapa geográfico.
Já de Minas pra riba vamos encontrar a viola sertaneja, e seu timbre característico nos lembra as sagas medievalescas, os romances – talvez o termo mais adequado, nesse caso, seja rimance, do português arcáico. Para a execução dessas peças, a viola sertaneja de Adelmo Arcoverde é o exemplo mais evidente (naturalmente que quando falo da alma sertaneja de Amauri Falabella, não me refiro ao estilo de tocar, mas sim a evocação nostálgica imagética a que sua arte nos induz).
Caipira, Sertanejo: as figuras simbólicas mais conhecidas no imaginário são o Jeca Tatu e o Vaqueiro Encourado, mesmo com todos os riscos que traz ao entendimento a recorrência a tais estereótipos.
Praticamente todas as regiões rurais do país tem o jeito peculiar de tocar viola, seu timbre peculiar: ao se ouvir o violeiro, pode-se com relativa facilidade reconhecer  o estado ou região de origem de acordo com o estilo. Isso não se dá com Amauri, é ponto fora da curva,  pois, como sugere o título de seu segundo CD, é um Violeiro Urbano: não se lhe reconhece a origem: é Todos e Um, é coisa de alma, e as duas –  caipira e a sertaneja -, convivem harmoniosamente no mesmo ser.

Ao dedilhar e trinar sua viola, Amauri se transmuda e se alterna, é caipira, é sertanejo, sem deixar de ser o poeta trovador, sendo igualmente o Aedo: ouvir Amauri é ter a impressão de estar ouvindo um andarilho, desses que andam por toda parte e dotado de invejável memória, nos conta histórias de lugares distantes, figura muito comum na Idade Média quando andavam pelas vilas e burgos literalmente cantando novidades que de outro modo demoravam meses para chegar.Tais personagens eram comuns no Brasil dos séculos XVII e XVIII, causando indignação ao viajante Auguste Saint-Hilaire que num determinado trecho do seu livro “Viagem Às Nascentes do São Francisco”, diz que “...nesta terra basta ter uma viola às costas para divertir às pessoas e assim garantir pouso e comida!” 
Amauri, assim como Dércio, Perequê, Adelmo, Wilson Dias, Levi Ramiro, Paulo Freire, Zé Côco do Riachão, "seu" Manoel de Oliveira e muitos outros são herdeiros diretos dessa estirpe de poetas e músicos solitários que percorriam léguas e léguas a pé, depois em lombo de mula, mais tarde de trem, hoje de jeep, ônibus, carro ou avião. Não importa o meio de transporte, importa a função!


Amauri é poeta do ar - voa com os pássaros;
é poeta das flores – faz de pétalas floridas pouso e morada;
é poeta das águas, é poeta dos amore;
é poeta das amizades.
E assim viaja pelos mundos, reais ou imaginários, como uma ave benfazeja e encantatória:

Vai pela vida,  Poeta,
avoa,  avoa nas varandas
entoando modas e cirandas,
 com tambores, violas, violões.
Enternecendo poentes
bordando versos e canções
herança de um país
convidando à contradança!


Sua música evoca Minas e o interior de São Paulo. É música florida, se ouve junto o marulhar de águas, cantos de pássaros, sente-se no ar um clima de arreuniões festeiras.

DISCOGRAFIA

São quatro discos lançados até agora, além de muitas participações em discos de amigos e parceiros.
Cada um dos discos é uma história distinta, diferente, mas existe unidade entre os trabalhos e por isso poderíamos perguntar se seria cada um dos quatro discos, o desdobrar de uma história única, contínua? Uma sinfonia, é a vida de Amauri?
Todos e Um.

Cada um de seus discos merece ser agraciado como deve ser um dos artistas mais importantes de sua geração. Que se ouça, e que cada um diga por si:

Ciranda Lunar – 2001, trabalho antológico.A canção-título é um clássico

Violeiro Urbano – 2005, verdadeiro manifesto de sua crença artística


Amauri Falabella – 2009, destaque para as parcerias, que continuariam no CD seguinte


Parcerias – 2015, uma verdadeira arreunião de parceiros, de diversas partes do Brasil



UMA DEFINIÇÃO?

É simples e difícil falar e escrever sobre Amauri Falabella. Palavras não bastam, pois são pobres e insuficientes para definir um artista de sua grandeza. Ele tem o Brasil, suas cores, seus ritmos, suas melodias, tem tudo dentro de si. E tudo isso, todo esse gigantismo artístico contrasta com a doçura e humildade de sua pessoa, que dedica a cada verso, a cada estrofe, a cada acorde a dedicação de um ourives.
Sua auto-definição,

“...sou passarinho sonhador,
 fiz meu ninho numa estrela,
levo no bico pra longe toda a dor...”

 é um retrato bastante fiel e também involuntário  de si mesmo. Explica por si a delicadeza e lirismo com que pinta delicadamente cada etapa de sua trajetória,  e então nos damos conta de que Amauri compõe mesmo é uma Sinfonia. Uma Sinfonia que poderia se chamar Brasil. Cada disco lançado, um andamento revelado.

Para explicar um poeta, só mesmo outro poeta – no caso, uma poeta: a melhor definição que encontrei para Amauri Falabella estão gravadas no encarte de seu último (até aqui) trabalho, adequadamente chamado “Parcerias”.
Com a palavra, Consuelo de Paula:

Amauri Falabella caminha sobre as manhãs.
Segue pela outra margem do grande rio.
Ele conhece a alma da viola, seu fado é
inventar canções por ‘veredas que não tem fim’.
Ele canta num vislumbre do tempo com sua energia fluente:
‘o estalar da madeira
tinindo no violão
arrochando o peito da gente
numa forma de oração’.
Arranha as cordas de sua voz e de seus violões, entoando:
‘o sândalo perfuma o machado que o fere’!
E o andarilho continua até que o beijo seja flor,
sem nunca quebrar a corrente d’água,
Deixando a vida correr como um rio,
até que um dia possa cantar a última moda.
Por isso Amauri reúne parceiros,
cantadores, instrumentistas e amigos neste CD
que representa seu clã de rainhas e reis coroados
pelo extremo amor e dedicação à música brasileira.
Nosso violeiro andante conhece bem os vãos
entre as cordas da viola por onde passam encantos
e surpresas, por onde passa a
Arte que habita o profundo e a pele
destas parcerias. Já podemos ouvir
‘no vento uma cantiga nova
Soando na imensidão da pétala da rosa’”

(Consuelo de Paula)



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O SUL EM CIMA



O Cd “O Sul em Cima”, coletânea realizada a partir do programa radiofônico de mesmo nome, produzido por  Kleiton Ramil, chega aos nossos ouvidos como uma agradável provocação.
            A provocação começa pelo programa de rádio, um veiculo que atinge milhões de pessoas e é parcialmente ignorado. O rádio sempre foi a tecnologia de comunicação mais acessível e popular,  desde os primórdios, nas primeiras décadas do século. Para o rádio, não tem tempo ruim: entra década, sai década, tecnologias das mais variadas surgem e desaparecem, e o rádio continua, firme, pois a verdade é que não tem adversários e muito ao contrário: mídias que poderiam ser rivais, terminam por se associar a ele, rádio. É o caso, por exemplo, do telefone celular. 
O rádio teve sua Era de Ouro, quando reinou soberbo e quando se pensou que estaria com seus dias contados com o advento da televisão, eis que o rádio nem dá bola: a TV fica na dela e o rádio e no seu canto,  cumprindo seu papel, inconteste.


            A longevidade desse velho e fiel companheiro deve ser comemorada! Versátil, ágil, adapta-se praticamente em todo apetrecho tecnológico, seja simples e/ou complexo: computadores, celulares, tablets ou minúsculos aparelhos do tamanho de uma caixinha de fósforo que se acopla diretamente ao ouvido, sem falar no tradicional rádio de pilha, de tamanhos variados. (Faz parte de minha memória afetiva um grande Semp, com 4 faixas de onda, de onde, no interior paulista, ouvíamos a antiga Rádio Nacional.) O rádio é como o livro, portátil, simples e denso de conteúdo e que acompanha você por toda a parte.
            Ouvindo o intrigante CD “O Sul Em Cima”, oriundo de um programa de rádio, não posso deixar de tecer essas considerações: duplo motivo pra comemorar, a longevidade do rádio e um programa de uma hora de duração com entrevistas, musica, informação. O Programa é produzido e apresentado por Kleiton Ramil, figura de destaque na moderna cultura riograndense – escritor, compositor, cantor - e se apresenta com a proposta de “...divulgar novos artistas do Sul do Brasil. Entenda-se o Sul como Rio Grande do Sul – Poro Alegre, o epicentro – Paraná, Santa Catarina no Brasil e os vizinhos Uruguai e Argentina.” (informação extraída do encarte do Cd).”


            O CD tem 18 faixas com 16 artistas diferentes, e surpreende. Surpreende a quem porventura tenha idéias pré-concebidas das coisas do Sul –como era o meu caso, por sinal.
            Apesar da rapidez e disponibilidade de informações que temos a disposição por conta da internet, tudo é muito parcial e incompleto: existe uma abundância de informação, milhões delas, mas ninguém é capaz de assegurar que tenhamos à disposição o que realmente interessa, o que é útil de fato. Informações/dados redundantes, repetidos, de pouca importância e eis que descobrimos horrorizados que a previsão do filósofo Edgar Morin no seu livro “Para Sair do Século XX” se cumpre, quando nos diz que “...a superinformação pode acabar por se tornar subinformação.“ 
E assim, descobrimos que nós, aqui do eixo Rio São Paulo, temos uma ideia inteiramente equivocada da verdadeira cultura do chamado Sul do país: para mim, a cultura musical  se dividia entre os ritmos estereotipados ao longo do tempo – xote, vanera, vanerão, etc. – e o tradicional de raiz – milongas, chacareras, cantigas de galpão, etc. Nunca havia pensado na existência de uma cultura musical urbana do Sul. Achei relevante mencionar isso, com ares de despojado meã culpa, porque creio ser esse um pensamento lugar-comum do nosso público consumidor, mesmo entre alguns supostamente mais atentos. E esse desconhecimento resulta numa perda enorme, pois o que se produz por aquelas bandas é extremamente rico e tem muito a nos mostrar/ensinar/trocar. Por incrível que pareça, o Sul, tão mais próximo a nós paulistas e cariocas, é incrivelmente desconhecido entre nós. Explicações para isso é pano pra manga que não cabe discutir aqui por falta de espaço, mas creio que passa por interesses mercadológicos, digamos assim... Que rótulo caberia ao pessoal do Sul? (Se não me engano, parte desse dilema é exposto no filme "A Linha Fria do Horizonte". Grande parte dos gaúchos não faz caso do isolamento a que é submetido econômica e culturalmente. Mas outra grande parte anseia por uma maior integração. Entretanto, em se tratando de país continente como é o nosso caso, a produção de uma cultura para consumo local não é incomum. Nos EUA, nosso exemplo mais próximo, existem escritores e artistas de qualidade ímpar e original que jamais serão conhecidos nos grandes centros).



            Ouvir da primeira a ultima faixa do CD “O Sul Em Cima”, com seu desfilar alucinante de ritmos, de estilos, é como ser sacudido e desafiado a uma luta direta no tatame: a música fala diretamente aos sentidos, sem pudor, sem subterfúgios, sem embromações. A música desses meninos e meninas não é para relaxar ou simplesmente curtir distraidamente: é musica que te sobressalta. Mesmo que não se identifique plenamente com o tema, te obriga a ficar atento ao que vem a seguir, pois não sabes o que te espera no próximo acorde ou no próximo verso. É uma montanha russa.

            O resultado é um Sul diferente do lugar-comum. A conexão instantânea e sem graça, imposto pela linguagem padrão das redes sociais – que nos dá a falsa impressão de estar conectado com o mundo – não dá conta da realidade pujante expressa no mundo real; o conhecimento  da realidade é um processo um pouco mais amplo. É a isso que sou levado a pensar depois de ouvir a jovem música do Sul. E o dinamismo ancorado na excelente qualidade dos artistas, revelam uma sólida formação musical que não os faz perder o chão: eles partem da tradição e a remodelam!

            Se a intenção deles era nos deixar com água na boca, conseguiram ir além. O CD é algo mais que um “painel” da jovem musica sulina e um desfile multicolorido, alegre e descontraído. O ecletismo reflete os  vários estilos e tendências. De comum, tem a leveza, a atitude descontraída  perceptível naqueles que estão  seguros do que querem e do que representam, e essa leveza deve provir do intenso diálogo musical que travam entre si. A cultura  do Sul, caldeirão multifacetado que abrigou  açorianos, portugueses, gringos diversos, índios e mestiços se junta no CD e poderiam juntar-se num mesmo palco, fazendo lembrar o projeto “Orquestra Mediterrânea”, realizado por Carlinhos Antunes, para o SESC, em São Paulo, com artistas de várias partes do mundo, juntando árabes, judeus, ciganos, etc.
            Por isso, não é de se estranhar  encontrar o canto lírico, a balada dolente, paisagens pampeanas de rios, praias, montanhas. E numa das curvas da “montanha-russa”, a alucinante atmosfera de “baladas”,  sintetizadores, percussão eletrônica, teclados, golpes de guitarra elétrica, que nos abduz e em transe nos leva para uma nave que segue mundo afora, como num moto perpétuo. O disco, bem como o programa radiofônico, resulta numa ideia que pode ser exemplar e se espalhar: uma harmonia possível, com todos os sotaques possíveis! A musica e sua linguagem universal, foi em outros tempos ponto de intersecção entre os homens, quando caravanas de mercadores se encontravam no deserto e ao longo do Mediterrâneo, fomentando um desenvolvimento cultural crucial para a Humanidade.

            O universo do gaúcho ignora a geografia política, tem suas próprias regras, sua própria lógica: permeando seu mundo, a milonga é um elemento comum. A partir da “Milonga da Moça Gorda” e “Milonga Para Los Perros”,  ninguém mais vai ouvir o ritmo consagrado por Atahualpa Yupanqui e  Noel Guarani do mesmo jeito: mais do que a performance em si, vale pensar e saber que a milonga é algo muito mais profusamente inserido no espírito gaúcho: é, antes de tudo, um modo de ser ou de estar no mundo. A desconstrução provocada pela “Moça Gorda” e a estilização ousada e moderna de “Los Perros” demonstra isso.
Ao fim da audição, continuamos viajando na nave doida em que eles nos fizeram embarcar. E aqueles sons loucos continuam ressoando/ecoando em nossos ouvidos. Qual tema prevalecerá?
Que fazer?
Querer  que El Tiempo Para?  Andar  a esmo Por Aí? Ou preferimos Um Canto a Terra? Ou ainda passar por Berlin? Quem sabe nos reunir Por Uma Noite apenas ou decifrar um Hai Kai, contemplar Paisagens, concentrar na Viva Voz, fazer Combinações entre Awakening e as escalas de Quel Sguardo Sdegnosetto, atentar aos Ruídos do vento no monte SaintMichel? Ou nos render aos apelos de Besame?

O que escolher? O berço dolente ou a inquietude corrosiva? Retornemos e ouvimos novamente: talvez desta vez  nos deixemos levar mares afora pelas sereias encantatórias, as incríveis Marias Nuas, sob o brilho da Estrela Guria!


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A MUSICA DE MARIO GIL E O NOVO LEGADO DA M.P.B.

O cantor, compositor, violonista e produtor Mario Gil é uma referência para boa parte da atual musica brasileira, mas pode andar tranquilamente pelas  ruas de qualquer cidade brasileira sem muitas  possibilidades de ser abordado. É para esse público que o desconhece que reservo algumas palavras introdutórias a seguir: ele faz parte de um grupo de artistas surgidos no lastro do “Clube da Esquina” – que deve ter sido o último grande movimento da MPB pós Bossa Nova  e Tropicália .
Esses jovens artistas  talentosos, urbanos na maioria surgiram num ambiente que podemos chamar   “circuito universitário”, embora não considere a expressão correta. Embora muitos tenham realmente surgidos nesse meio, deve ser mais uma tentativa de rotular o movimento para de algum modo viabilizá-lo comercialmente. Mas o fato é que eles não se enquadram em nenhum  rótulo, exceto, talvez, independentes.  (A música independente, como sabemos, é uma modalidade comercial, onde os artistas produzem seus trabalhos à margem dos grandes estúdios, por conta própria ou com ajuda de amigos. Consolidou-se aos poucos, com mercado e público específicos).


Esse grupo, bastante abrangente, sem orientação (não houve nenhum marco inicial, nenhum manifesto, etc) e lugar definidos,  surge num momento de certo descrédito da  MPB, quando muitos consideravam a nossa música esgotada, saturada, envelhecida e era comum ouvir dizer que nada surgiria de importante depois de Caetano, Chico,  Gal, Bethânia, Milton Nascimento e outros. As pessoas suspiravam tristemente e diziam que  tinham sido os últimos, que a musica brasileira tinha acabado e qualquer novidade não passava de cópia, imitação barata...

Não era bem assim, como se provou depois. Um tanto timidamente eles surgem,  sem alarde, discretos, sem se importar em parecer aprendizes. Nos pequenos espaços onde se apresentavam, geralmente bares, misturavam-se com a platéia quando terminavam seus números e ali mesmo colhiam a impressão de seu trabalho. E para o público também era algo novo, poder conviver com o artista de carne e osso, sem o tumulto que cerca as grandes estrelas. Enfim, algo novo se desenhava no cenário, público e artista construíam juntos  novas possibilidades artísticas – de algum modo, isso continua, um certo clima de cumplicidade envolve esse ambiente de proximidade público artista, como podemos observar no Projeto Dandô, idealizado por Katya Teixeira, mas aí éoutra história, que foge ao nosso tema de agora...
Voltando à história dos jovens que remodelaram a nova música brasileira, a partir dos chamados espaços alternativos: uma grande leva de artistas surgia assim, e devido a qualidade de seus trabalhos, aos poucos saem de seus ‘guetos’ e se espalham pelos teatros, palcos maiores. Portadores de uma sólida tecnica duramente elaborada, não demoram para angariar um público fiel. Em outras palavras: sim, havia, ainda, uma fatia de mercado sensível e sedenta de música  e artistas de qualidade para criar, desenvolver e continuar nossa arte musical.
Fazem parte dessa leva que lentamente se consolidou por conta da alta qualidade  artistas como Monica Salmaso, Renato Braz, Consuelo de Paula, Mário Gil, só para citar alguns, um sem número de instrumentistas geniais. E nos últimos 15 ou 20 anos cada um deles seguiu sua trilha, em projetos individuais, eventualmente se encontrando, dividindo palco, colaborando entre si.


A influência de Dori Caymmi entre eles é perceptível, em alguns casos diretamente, como a participação em alguns trabalhos de Renato Braz, noutros nem tanto: mas se percebe a presença do mestre na busca de um padrão estético diferenciado, arranjos sofisticados , grande avidez na busca de uma técnica rigorosa que coloca em destaque  a criatividade que nunca faltou ao músico brasileiro. Aqui, um breve intermezzo e apenas para citar o óbvio: música é algo que o brasileiro sabe fazer, porque gosta. Desde criança se acostuma e assim como o futebol, é uma forma de lazer  acessível. Eis algo que as autoridades educacionais devem levar em conta, o ensino de música nas escolas, que deveria necessariamente fazer parte dos currículos, não exatamente para formar artistas, mas para formar cidadãos, indivíduos capazes de reconhecer e distinguir a musica boa da ruim.

A  ousadia desses jovens “filhos e filhas” da turma do “Clube da Esquina” (filhos e filhas num sentido cronológico e não exatamente genealógico) tem lógica e história: está no DNA do músico brasileiro e remonta a Zequinha de Abreu, Chiquinha Gonzaga, Villa-Lobos, João Pernambuco, e outros: virtuoses  mestres e mestras, cada qual  em seu tempo e lugar e que tiveram como mérito principal o aprofundamento da brasilidade, a identidade de um país que carecia de uma legitimação para deixar de importar o que se produzia mundo afora, principalmente a música americana fartamente distribuída por aqui com as primeiras vitrolas. Artistas como os citados acima criaram uma música brasileira que ia além do exotismo da riqueza de ritmos afros e indígenas, preconceito que ainda nos dias de hoje sobrevive sob forma de resquícios, não apenas na música, mas em muitos outros aspectos das artes (cinema, por exemplo) e da vida em geral: o importado é melhor!
A música brasileira desde há muito está preparada para ser ponto de partida para vôos maiores e novas invenções.  Não foi nenhum bravata Villa-Lobos ter declarado ao chegar em Paris que “...não vim aprender e sim ensinar e mostrar a música brasileira!



O Brasil vivenciava o fim de uma ditadura, através de um processo enviesado de abertura política com uma Anistia Geral e Irrestrita, enfim, uma solução política costurada pelas elites que nunca foi devidamente compreendida pelo povo em geral, historicamente excluído das decisões.  Era o ocaso de qualquer  Revolução e mesmo do protesto,  embora o vínculo com formas mais arejadas de pensar não fossem elementos à margem.
Esses jovens aparecem produzindo antes de tudo, música. Música despida de preconceitos. Mas a ousadia desse pessoal que apareceu num momento crucial da história brasileira  não era um acaso: desde Rogério Duprat e mesmo antes com Garoto, Laurindo Almeida, Moacyr Santos, etc., que o Brasil se acostumou à sofisticação de arranjos como se conhece nas peças ditas eruditas, confirmando a nossa vocação musical, que vem desde os tempos coloniais: o amalgamento branco, índio, negro, condimentado mais tarde com imigrantes de diversas partes do mundo. Algo que vai além dos aspectos sócio-culturais: o próprio entranhamento na  alma nacional.

Assim, podemos dizer sem pejo: a nossa é uma Terra fértil, autêntico Jardins de Delícias, onde o imaginário miraculoso ultrapassa os mitos. Como disse uma vez o rabequeiro Zé Gomes, uma das figuras que mais compreendiam o papel do artista na vida de uma nação: “O Brasil é um formigueiro de artistas, basta cutucar que eles vão aparecendo, aos enxames!”
A roça brasilis – faço aqui uma merecida referência ao livro de Josely Vianna, Roça Barroca, sobre a arte poética do povo guarani -   faz jus à primeira impressão destas terras aos olhos do estrangeiro, quando,  Pero Vaz Caminha, deslumbrado, escreveu a El Rey mencionando entre outras maravilhas  que “...nesta terra em se plantando tudo dá!

Ipsis facti, como diria Elomar Figueira: de sambas, serestas, baiões, toadas, múltiplas outras experimentações:
tambores nos cais,
violas e rabecas em clamores.
Ponteados de violões
tecendo e bordando canções;
vozes líricas,
ternas vozes
em cantos de amor e guerra
em contradança;

são imagens como essas que avoam pelos céus do Brasil, que essa turma de novos talentos surgidos num momento de profunda apatia evoca, quando, apagadas as luzes das Utopias,  fizeram desaparecer do horizonte os ideais libertários dos anos 1960. A crítica musical brasileira está a dever ao publico um painel que abranja o cenário que esses jovens – que hoje se aproximam da maturidade – estão construindo, um legado que o futuro há de prestar tributo, pois são eles que estão mantendo viva a tradição brasileira da boa música nos confusos e incertos dias de hoje.

Mario Gil Fonseca é mineiro radicado em São Paulo há muitos anos e sua mineiridade salta à vista. Discreto e perseverante, sua atuação musical é trabalhada com a paciência de um ourives. Como todo artista quer ver seu trabalho reconhecido,  mas tem a compreensão do quão é difícil a afirmação do artista que antes de tudo tem a pretensão de ser fiel às origens, compromisso tácito, mas sem imposições, de retratar seu tempo e seu povo, não abrindo mão e não se divorciando das motivações e sentimentos, e tampouco da possibilidade criativa - no caso dele, a inovação, a busca de novos timbres,  ponto de partida, tronco fundamental da obra. Tudo isso sem barulhos, sem contundência revolucionária – mas o que poucos se dão conta é de que no fundo acaba por lentamente construir uma revolução musical silenciosa, juntamente com seus parceiros.

Sua  robustez criativa revela-se em seu primeiro disco, o seu primeiro recado: Luz do Cais, CD que não muitos ouviram, é um instigante  cartão de visitas. Tudo está ali: uma proposta musical, avessa a preconceitos, revelando algo das muitas fontes de onde bebeu: composições autorais, parcerias, reeleituras de clássicos - Eleanor Rigby, dos Beatles. Chama  atenção as faixas de abertura e encerramento do CD –“Lá” e “Kindergarten” que parecem conduzir o leitor a universos atemporais, passado, presente e futuro tendo berimbau, violão o sax como fios condutores...


Sua formação musical, como ele mesmo afirma, vem da influencia do pai, musico amador, e da intensa atuação na noite paulistana, atividade que exerceu  durante muitos anos com capricho e denodo. Rigoroso, além de memorizar o vasto repertório exigido dos cantores noturnos, aprimorava um estilo que o tornaria permeável às influências dos muitos parceiros e por conseguinte, dos muitos brasis que encontramos nas metrópoles. E foram muitos os brasis que descobriu e continua a descobrir. Mário é desses artistas que agrega, característica que lhe asseverou ao longo do tempo a imensa versatilidade que seria uma constante em sua trajetória: um trabalho autoral, personalíssimo, mas que dialoga intensamente com outras vertentes e linguagens (seu ultimo trabalho, “Comunhão”, é simbólico nesse aspecto. Voltaremos a ele pouco adiante).
Antes disso, vale a pena relembrar e mencionar sua participação no segundo disco de Consuelo de Paula, “Tambor & Flor”,  à força mágica que empreenderam na faixa “Deusa da Lua”, de Mestra Virgínia, uma cantiga  selvagem, ctônica, ígnea, pois parece ter sido talhada a ferro e fogo, que os arranjos de Mário e a voz de Consuelo transformaram como que num outro instrumento de combate, uma espécie de epopéia do espírito nacional:

 “...a serpente mãe das trevas
Morava naquela montanha
Naquela mata medonha
Lá naquele lugar traidor...”

...e tome-lhe trinados de violões,  percussões como arcabuzes, golpes de espada, aríetes; a memória da terra, do povo, memória coletiva! A junção força e delicadeza produziram uma obra prima do cancioneiro nacional  – infelizmente pouco conhecida do grande público. Aqui,  violões e voz remetem a profundidades do mais recôndito interior brasileiro e montanhas galesas, mas também podem ser os sopés andinos, montanhas argentinas,trabalhadores do mar, do campo, das fábricas, sobressaindo, sempre, a face altaneira do povo. Ainda lembrando a parceria Consuelo X Mario Gil: a mera e simples participação nos vocais de “Canto de Guerra”, no CD “Dança das Rosas”. Pra se ouvir quem puder, sem palavras.

Depois da apresentação de Luz do Cais, que mesmo não tendo uma grande repercussão entre o publico, lançou Mario Gil na roda dos artistas criativos. E seu rol de parceiros certamente alcançou um ponto culminante ao conhecer Paulo Sergio Pinheiro e com ele compor e lançar um dos melhores discos autorais de toda a história da MPB, o antológico “Cantos do Mar”, disco que com certeza coroou um trabalho ou uma etapa, pois Mário ficou muito tempo sem gravar, mas trabalhando intensamente como produtor através de seu estúdio, o “Dançapé”.



“Comunhão” é seu ultimo disco solo e mesmo faz jus à sua trajetória, com a coerência costumeira. Mario Gil derrama-se em candura, pura poética repleta de imagens de um Brasil real, mas também imaginário, onírico. A emoção e lirismo que transmite é com sobriedade, em momento algum se apega a nostalgias ou a qualquer espécie de pieguismo. Contido e preciso, é o artista que representa muitos sendo um artista para poucos – poucos, diga-se, em comparação aos milhões de discos que a industria discográfica despeja no mercado:


“Caruana”, parceria com Paulo Sergio Pinheiro, é ponto alto, sem desmerecer nenhuma outra. A meu ver, aqui, em Caruana, a emblemática parceria com Paulo César Pinheiro atinge o ápice: sons que soam misteriosos, subterrâneos, que junto as palavras parecem eclodir: simples e fortes, ombreando com a magia que só o povo mestiço é capaz de produzir.
Tem a densidade dramática de “Anabela”, “Cargueiro” ou “Lenda Praieira” (do CD “Cantos do Mar”), mas é nessa cantiga com ressonâncias indígenas e africanas que grande parte das nossas profundas raízes são expostas reveladas em toda a sua beleza e verdade: artista e história sócio antropológica  dão-se mãos:

Êh! Rio-mar, Êh! Rio-mar
Povo de Caruana é que mora lá
De Aruaque, de Jê, de Juparaná
De Aruã, de Araúna, de Aruaná

É o guardião do rio-mar
Caruana anda naquele mundaréu...

 (Caruana: espírito que habita o fundo dos rios. Espírito bom, que livra feitiços e cura doenças. “Caruana” bem que poderia ser o espírito da musica e em vez de morar no fundo dos rios, habitaria o fundo do corações dos homens e uma vez invocado, o livraria dos maus feitiços e encantamentos.)

Enfim, “Comunhão” bem poderia ser: um breve painel, breve sobrevôo sobre os Brasis de Capiba a Paulo Cesar Pinheiro; por sambas de roda, por frevos, por “acalantos”, outras canções. Por todo o disco e em tudo, permeia cores e sabores, mil saberes através dos quais vislumbramos convites a conhecer a terra e o lugar: um grande, um imenso Brasil, real e mágico, em seu despertar!

Falamos no reduzido espaço do blog de Mário Gil, que presta tributo ao Brasil e sua gente e principalmente aos de sua geração, companheiros de palco e, porque não?, de platéia, pois existe uma imediata identificação que o distanciamento no tempo talvez um dia nos permita colher um retrato desses artistas tomam a frente da MPB num momento tão delicado de nossa História – é transição?
Outro  Cd  está sendo lançado simultaneamente ao “Comunhão”,  “Mar Aberto”, em parceria com Renato Braz, Breno Ruiz e Roberto Leão: é simbólico, soa como um desdobramento do grande mar (rioterramar) que se abre e acolhe, em comunhão...

Termino essas mal traçadas linhas com fragmentos de versos de sua canção “Elogio”, que faz parte do “Luz do Cais”. Esses singelos versos bem dizem algo de sua missão enquanto artista:

(...)
Mágicos dedos de um brasileiro
Tem um gringo cego
Um vereador que é violeiro
E um baiano que não é negão

Trago um lobo no peito
Um Caymmi de antemão
Um computador com defeito
Que não dá idéia na canção

Dorme menina, tem medo não
Esses fantasmas só procuram mais uma canção
(...)



Uma Arte atemporal, sem tempo definido, sem lugar e sem rótulo ou outras armadilhas que possam prender o ouvinte num primeiro momento para depois abandoná-lo ou forçá-lo a buscar renovados ares num mundo poluído. 
Uma Arte povoando os espaços imagético, sensorial; arte com história. Para a história!



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