Chorando de barriga cheia

A sabedoria popular transmitida pelos famosos ditos populares, também conhecidos por ditados populares, continua ativa e presente em nosso dia a dia. No cotidiano dos onibus, metrô, trem, das filas de bancos e de orgãos públicos, principalmente de hospitais e postos de atendimento médico, dos balcões de bares e lanchonetes, dos programas e noticiários de televisão as pessoas a contar dos seus dramas, dificuldades e preocupações de todos os tipos. Mas será que, aqui que o dito popular pede licença, as pessoas não estão a "chorar de barriga cheia" não perceben que a solução para tudo está bem ali, ao lado ou em frente.


É grande a oferta em classificados populares dos jornais distribuidos nas estações de metrô, terminais de onibus, de pais e mães de santos, leitura de tarô, borra de café, cartas. búzios, das mãos. Também folhetos são distribuidos em bairros, centrais ou mais distantes, na Avenida Paulista e ruas dos bairros nobres; cartazes são pregados nos postes, contrariando e desacatando a lei da cidade limpa, que proibe este tipo de anuncio. Soluções para qualquer problema financeiro, espiritual, familiar, amor, vícios, desemprego, saude, depressão, inveja, infidelidade, vozes, vultos e o que for apresentado. Oferecem ainda o fazer e desfazer qualquer tipo de trabalho espiritual, o que parece ser aquela técnica de venda de menosprezar e diminuir o trabalho de concorrentes, tipo assim: "faça comigo que eu garanto o melhor resultado, não precisa consultar a concorrência, eu garanto", ou "cobrimos qualquer oferta de serviços da concorrência, garantimos o resultado". Imagino que, dentro das modernas leis da venda e do atendimento e por oferecerem serviços no atacado, possuirem uma equipe multidisciplinar para atender, apresentar soluções e resultados, com o atendimento inicial por uma recepção que faz a triagem dos problemas e o encaminhamento ao especialista. Alguns e algumas, já com nome na praça colocam seus nomes: Pai Octhávio, Mãe Adalgisa, Vidente Roberto, Vidente Carolina e com o custo da consulta, em alguns folhetos, a um preço  até que acessível de R$ 20,00. Através de uma consulta você saberá como abrir seus caminhos; para cada pergunta uma resposta, para cada caso uma solução.

Se preferir um uma linha diferente de atendimento o bairro do Brás, aquele de lojas, confecções e fábricas de roupas, concentra um grande número de estabelecimentos religiosos que atraem os crentes garantindo a cura do câncer, aids, diabetes, homosessualismo, doença do sangue, artrite e solução para pagamento de dívidas. Bispos, apóstolos e missionários se revezam durante o dia e a noite fazendo, dizem, a intermediação com Deus e o pedido dos dízimos e contribuições financeiras. 

 Acredito e confio no poder da fé, da oração, da crença nos Deuses de cada um e tenho dificuldade para entender esta manipulação da fé.       

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Barca de Noé

Barca de Noé
autor: Mochel

Não adiantou
Socós navegam no céu
Pernas de perdiz travessam campos de luz
Não adiantou prender catitus nos currais
Somos vendavais girando em torno do sol

Não serão de deus os filhos desses guarás
As totoriás são guardiãs dos quintais
Não adiantou prender mandubés nos currais
Somos vendavais girando em torno do sol

Dentro das manhãs rolinhas, fogo-pagô
Como as jaçanãs seremos todos azuis


Músicos:

Cássia Maria
Nei Couteiro
Noel Andrade
Thomaz Rohrer



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Katya Teixeira. Vem comigo.

Sábado, dezenove de maio de dois mil e doze. SESC Belenzinho, a abertura do espetáculo de lançamento do CD Feito de Corda e Cantiga . 



Vem comigo
Luis Perequê 

Eu venho de longe
De muito longe
Não tenho segredos, nem medo de amar
Inventei meu caminho e preciso passar 

Vem comigo que eu vou lhe mostrar
Quantos homens de bem
Tem os braços abertos pra nos abraçar
Muito além , muito além
Do que pensam do amor
Desses homens

Eu aprendi muito cedo
O segredo do fogo
E entre o jogo da vida
E a carta da morte
Eu tenho a sorte escondida em meu peito
Feito brasa esquecida acesa
Que eu reacendo as labaredas dos meus sonhos

Sei sonhar e partir
Vem comigo que eu já sei sonhar e partir
Vem comigo que eu já sei sonhar e partir
 
E tenho a sensação de não estar sozinho
Sei sonhar e partir
Vem comigo

Eu aprendi muito cedo
O segredo do fogo
Entre o jogo da vida
E a carta da morte
Eu tenho a sorte escondida em meu peito
Feito brasa esquecida acesa
Eu reacendo as labaredas dos meus sonhos

Sei sonhar e partir
Vem comigo que eu já sei sonhar e partir




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KATYA TEIXEIRA NO SESC BELENZINHO

Kátya Teixeira se situa no cenário da MPB atual como "independente" e nenhuma outra designação lhe cabe tão bem: sem ceder aos modismos, sem abrir mão daquilo que realmente acredita, ela segue uma trajetória coerente. O CD "Feito de Corda e Cantiga", o 3º de sua carreira, reúne os trabalhos de quatro singulares compositores: Chico Branco, Giordano Mochel, Jean Garfunkel e Luiz Perequê.
Assim é Katya Teixeira, diferente e entretanto, na confluencia dos caminhos de nossa música brasileira. O CD está na etapa final do 23º Premio da Musica Brasileira e terá o lançamento oficial no proximo 19 de maio, no SESC Belenzinho.
CATEGORIA: REGIONAL MELHOR ÁLBUM ‘Na Eira’, de Ponto Br. Produtor: André Magalhães ‘Não Me Peçam Jamais Que Eu Dê De Graça Tudo Aquilo Que Eu Tenho Para Vender’, de Herbert Lucena. Produtores: Herbert Lucena e Alexandre Rasec ‘Samba de Latada Ao Vivo’, de Josildo Sá & Paulo Moura. Produtores: Wagner Santos e Josildo Sá MELHOR DUPLA César Oliveira & Rogério Melo / ‘Rio-Grandenses (Volume I – Histórico e Volume II - Convidados)' Kleuton e Karen / 'Genuinamente Caipira’ Luiz Augusto & Amauri Garcia / ‘Meu Interior’ MELHOR GRUPO Pé de Mulambo / 'Segura Essa Munganga Aí, Menino!' Ponto Br / ‘Na Eira’ Quinteto Violado / '40 anos’ MELHOR CANTOR Chico Teixeira / ‘Mais Que o Viajante' Herbert Lucena / 'Não Me Peçam Jamais Que Eu Dê De Graça Tudo Aquilo Que Eu Tenho Pra Vender' Silvério Pessoa / ‘Collectiu – Encontros Occitans’ MELHOR CANTORA Kátya Teixeira / ‘Feito de Corda e Cantiga’ Roberta Nistra / ‘Roberta Nistra’ Socorro Lira / ‘Lua Bonita - Zé do Norte 100 anos’

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VEM AÍ, "FEITO DE CORDA E CANTIGA", O SHOW

Já fomos mui agraciados com o lançamento do 3º CD de Kátya Teixeira, o "Feito de Corda e Cantiga", título extraído de uma obra de Luiz Perequê, o artista caiçara (Parati), cuja obra tanto tem a ver com o trabalho da Katya e com todos e todas que cultivam a genuína arte nascida diretamente do povo, com toda gama de ingenuidade, pureza, criatividade.
O disco, um primoroso trabalho resultante de muita pesquisa e da dificil tarefa de escolher entre os quatro compositores por ela selecionados - Chico Branco, Perequê, Mochel e Jean Garfunkel - as peças representativas dos artistas literalmente vindos dos quatro cantos do Brasil, com suas linguagens distintas e complementares, representantes dos "sertões" que estão por toda a parte: veredas mineiras, florestas, terreiros, senzalas, morros, ruas. Katya Teixeira é artista que vai "aonde o povo está", interprete nata que capta a linguagem dos corações e das mentes, traduzindo e confluindo, amalgamando sentimentos e emoções do brasilcontinente mestiço.
Está marcado para o dia 19 de maio, 21 horas, no SESC Belenzinho, a apresentação do show "Feito de Corda e Cantiga", com a presença dos músicos que participaram da gravação em estúdio e grupos de fandango e dança. O trabalho não será mera reprodução das músicas ao vivo presentes no CD, mas sim uma recriação visual da trajetória que culminou no trabalho. Na próxima semana divulgaremos a lista completa dos participantes.

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A ULTIMA VIAGEM DOS INTERPRETES DO BRASIL

"Sino da capela, dobra em oração Cigarra cantando tarde de verão Cabocla sambando, noite de São João Esse é o Brasil Caboclo Esse é o meu sertão" OU: "Tenho meu cavalo preto Com o nome de ventania Um laço de doze braça O couro de uma novilha Tenho um cachorro bragato Que é pra minha companhia Sou um caboclo folgado Ah, eu não tenho familía"
Da mesma forma que Adoniran Barbosa foi o maior interprete do povo paulistano - sim, "povo paulistano", compreendendo como o"espírito", linguagens e costumes específicos da metrópoles repleta por "tribos" -; Cartola, porta-voz de uma poesia musical do povo brasileiro - sim, "povo brasileiro", pois com sua lírica ultrapassou fronteiras sociais -, a dupla sertaneja Tonico e Tinoco certamente entram para a história como os maiores interpretes da música caipira, e por que não?, do Brasil, compreendendo nesse aspecto algo que poderíamos chamar "brasilcaipira", um complexo universo seja territorial, de linguagem, de sentimentos que nada tem a ver com a figura do matuto atrasado e tomado de vermes ou, pior ainda!, da ridicularização que o pobre caipira é submetido por ocasião das festas, com calças no meio das canelas ou remendos nos cotovelos, joelhos e bunda, além do estraçalhado chapéu de palha e falhas nos dentes. Caipira de verdade veste terno, se barbeia, passa talco e perfume, põe chapéu e faz bonito na cidade com sapatos impecáveis de lustro com a graxa que ele mesmo manipula.
Cada obra da dupla tem uma história (ou causo, como eles deveriam preferir), portanto seriam precisos grossos tomos para caber-lhes a grandiosidade. Pra começar, fundaram um gênero, a moda de viola, para diferenciar da expressão "sertaneja" (desde pequeno, talvez por influência de meu pai pernambucano, que sempre considerei como sertão o interior do nordeste) ou dos cururus, catiras e cateretês que vigoravam no interior de São Paulo quando eles surgiram. Brasil Caboclo e Cavalo Preto, das quais reproduzimos trechos na abertura deste texto são dois clássicos das centenas que produziram, interpretando fielmente o universo caipira tanto ou melhor que qualquer estudioso de cátedra universitária. Mereceriam um honoris causa, sem dúvida...
Reproduzimos abaixo trecho do artigo do jornalista JULIO MARIA, publicado no jornal O Estado de São Pauli, no último 05/05/2012. A ULTIMA VIAGEM Sem Tinoco, a cultura caipira perde um de seus últimos e mais legítimos representantes Por Julio Maria
Quando se juntava ao irmão Tonico, Tinoco (D) intrigava pela unidade das duas vozes Aquele dia era como se o caboclo soubesse que a marvada o esperava num canto qualquer, com o mesmo espírito estraga-prazeres que teve com o amigo Chico Mineiro naquela festa boa lá pelo sertão de Goiás. A bicha era tinhosa. Depois de Chico havia sido o mano Tonico. Ele não merecia aquela rasteira da morte, tombo mais besta na escada do prédio onde morava, em 1994. Só tinha 77 anos, um sorriso de moleque e uma doçura de mãe. A voz de Tinoco nunca mais foi a mesma pela simples razão de que não existia sozinha. Sem Tonico, Tinoco tinha meia voz. Podia ser Tião Carreiro a seu lado que não saía igual. Sem Tinoco, Tonico se sentiria da mesma forma. Antes de serem grandes, ainda quando eram João e José, o povo de Botucatu, no interior de São Paulo, dizia que os dois juntos tinham não duas, mas uma voz só. Ninguém conseguia explicar como aquilo acontecia. Eram irmãos, poderia ser carga genética. Mas se fosse só isso, por que outros irmãos não soavam da mesma forma? Já que o trem da última viagem lhe dava sinais, que fosse em grande estilo. Tinoco, 91 anos, entrou como criança no Teatro Franco Zampari, em São Paulo, na quarta-feira, para gravar um especial do programa Viola Minha Viola, da TV Cultura, dedicado a ele por Inezita Barroso. Ali, parecia indestrutível. Sorria de tudo e fazia piadas com uma agilidade de pensamento que ia juntando os risos da plateia uns aos outros, tirada após tirada. As duplas chegavam para cantar suas músicas e ele, de seu canto, acompanhava todas de cor. Inezita percebeu que sua mão tremia e achou melhor pedir à produção que não o deixassem segurar o microfone. Às vezes o peito cansava, e ele seguia em frente. Se fosse contar a real de seus últimos tempos, seria um rio de lágrimas. Há três anos, decidiu rifar seu Gol 98 para pagar o tratamento que sua mulher Nadir fazia para se livrar de um câncer. A tarde era de festa, e foi como um mestre de cerimônias que Tinoco resolveu se despedir. "Gente, meu aniversário é hoje. Vamos cantar parabéns pra mim?" Aniversário coisa nenhuma. A data certa de seu nascimento é 19 de novembro de 1920, mas, vai querer entender, Tinoco decidiu pregar a peça. E todo mundo caiu. As duplas entravam no estúdio e Tinoco inflava de orgulho. Duo Glacial, Divino e Donizeti, Ivan Lobo e Vitor Cesar, Mazinho Quevedo, todos cantando peças de um monumento erguido pelos dois irmãos fundadores de um caipirismo fantástico cantado a duas vozes, uma cultura de viola e de comportamento, de causos em verso e prosa. Ali, sentado ao lado de Inezita, poderia ver um filme sendo rodado em película enquanto todos cantavam juntos, e com lágrimas da plateia, Moreninha Linda.
Em mais de 60 anos de carreira, Tonico e Tinoco venderam 150 milhões de discos, gravaram 83 álbuns, mais de mil músicas e subiram ao palco juntos por 40 mil vezes. Se ganhasse um mísero real por cada disco vendido, seus últimos dias teriam sido bem diferentes. Mas ali, nada de esbravejar contra o Ecad. Tinoco queria festa. Olhou para Inezita e pediu que cantassem juntos. E Inezita mandou a Vingança do Chico Mineiro, autêntica representante do gênero que também criaram chamado moda de resposta, o troco à história do amigo Chico Mineiro, baleado na tal festa lá do sertão de Goiás. Aqui pelo sertão de São Paulo, era tudo cururu antes de Tonico e Tinoco. ‘Sertão de São Paulo’ já é uma heresia de dar agulhada no peito de caboclo paulista. "E quem disse que São Paulo tem sertão? Sertão é no nordeste", diz Inezita, dizia Tinoco. Os irmãos preferiam Caipira, assim mesmo, escrito em maiúscula e dito sem abaixar a voz. O cururu que encontraram aqui era o ritmo dos violeiros do interior, uma música de desafio entoada por um cantador e um violeiro. Com aquelas vozes que mais pareciam uma, não teve jeito. Firmou-se a moda de viola. A partir dali, ganhava força o formato ‘dupla caipira’ de primeira e segunda voz. E aí, a porteira se abriu. Como fez Luiz Gonzaga com seu sertão, Tonico e Tinoco passavam a representar um outro homem do campo que só ganhou força quando as gravadoras viram que eles eram muitos. E que de cada tijolo que faziam parecia sair um prédio. Chico Mineiro, Tristeza do Jeca, Beijinho Doce, Paraguaia, Luar do Sertão, A Moda da Mula Preta, Chico Mulato, Estrada da Vida, João Carreiro. Chitãozinho e Xororó, antes de ser dupla, era música que cantavam em circo do interior. Um programa só era pouco. Depois das modas, tinham os causos. Ou melhor, para cada uma delas havia uns três deles. A vida de Tonico e Tinoco já começa em forma de moda. Pois lá estavam eles para registrar seu primeiro disco, estúdios da Gravadora Continental, ano de 1944. Hora de cantar o cateretê Invés de me Agradecê. O lado A do disquinho de 78 rotações de duas músicas da época saiu que foi uma beleza. Quando foi a vez de soltar a voz para gravarem o lado B, emocionados com o feito do A, soltaram a bicha demais. Já poderosa por ser ‘duas em uma’, saiu tão alta que danificou o microfone. Gravar um disco na época era coisa cara, eles não teriam outra chance. Invés de Me Agradecê saiu então com um lado só, e os irmãos perceberam que era hora de educar a emoção. Foram ter aulas com um professor.
A saga de Chico Mineiro foi consagradora, mas quase não aconteceu. Depois de lançarem cinco discos, Tonico e Tinoco ouviam o público reclamar, tinha gente que não entendia bem o que eles diziam. Ou as frases não eram bem pronunciadas ou havia caipirês demais ali. A gravadora decidiu que aquele seria o último disco. Quando o torpedo saiu, ninguém acreditou. Chico Mineiro deu nome nacional aos irmãos e rendeu dinheiro suficiente para que os dois comprassem suas primeiras casas próprias. E ainda havia gente dizendo que música caipira era coisa de gente sem cultura. Que bom, sobrava mais. Algo falava a Inezita Barroso que era hora de colocar aquele homem de volta à cena, nem que fosse pela última vez, por algumas horas. Um dos seus mais notáveis programas, já na galeria de melhores pelo valor histórico, será apresentado amanhã, às 9h. Um show seu estava previsto para a Virada Cultural, às 13h de amanhã. Assim que terminaram as gravações, Inezita desceu de elevador ao lado do parceiro. Sentiu seu peito cansado, ainda trêmulo, mas sem perder o sorriso. No dia seguinte, quinta-feira, passou mal e foi hospitalizado. Na madrugada, à 1h40 de quinta para sexta, seu pulmão e seu coração pararam no Hospital Municipal Doutor Ignácio Proença de Gouvêa, na Mooca, zona leste de São Paulo. Os médicos disseram que Tinoco havia sofrido um silencioso enfarte dois dias antes, mas não percebeu. Dois dias antes era exatamente quando ele estava em um de seus melhores momentos, revendo a trajetória que fez ao lado do irmão, em um programa de televisão com gente que cantava suas músicas e ria de tudo o que ele dizia. Era como se a tinhosa lhe desse um dia a mais para tirá-lo de cena. Sua felicidade ali era invencível.

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Tonico e Tinoco

A sexta feira começa ttriste para a musica caipira, a verdadeira e única.

 Morreu Tinoco, da dupla Tonico e Tinoco.




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NA TRILHA DOS COROADOS, COM LEVI RAMIRO

O jornalista Washington Novaes diz que costumamos olhar as sociedades indigenas pelo que eles não tem e nunca pelo que eles tem. É uma conclusão que parte do ponto de vista do pensamento europeu ocidental pós revolução industrial e o espaço aqui é curto para análises mais aprofundadas. Partimos, então, de uma constatação óbvia: uma sociedade com milhares de anos de existencia, tendo sobrevivido, deve ter lá os seus méritos... Métodos de análise, principalmente as ideias de Levi-Strauss e aqui entre nós do inesquecível Darci Ribeiro nos ensinaram os estágios civilizatórios de um povo decorre especialmente da necessidade; isso nos dias de hoje é quase uma obviedade, mas não há muito que a raça era fator determinante e povos inteiros foram exterminados por supostamente pertencerem a raças ditas inferiores. Demorou, mas o conceito de cultura ganhou dimensões além da técnica e do verniz palatável ao gosto mediano... E lentamente, começamos a recuperar o pouco que sobrou do imenso patrimônio da América pré-colombiana: sua culinária, sua música, suas técnicas de manejo ambiental que não degradavam as florestas e sua riquíssima mitologia. Foi com imensa expectativa que ouvi o novo CD do violeiro, compositor e luthier Levi Ramiro, denominado Na Trilha dos Coroados. Chamou-me especialmente atenção, pois no lugar onde nasci, lá no Pontal, sempre se ouviu falar nos Indios Coroados (ou Croados), que habitaram num passado longínquo e mitológico uma região imprecisa abarcando partes do Pontal, desde a Serra do Mar até a divisa de Goias. Os Coroados não eram uma etnia, mas sim como eram reconhecidos os indios que cortavam o cabelo formando uma coroa; poderiam ser de qualquer das etnias a seguir: Puris, Xumetós, Corópos, Pitás, Goitacáz, Araris, kaicang ou mesmo a mestiçagem aleatória entre eles; fato inegável é que os Coroados ou croados fazem parte do imaginário da história do interior do Estado de São Paulo e quando criança ouvi muito causos onde os "croados" eram personagem,quase sempre um aliado do herói, como o guia ou o curandeiro, mas, não poucas vezes no papel de vilão. Conta-se que muitos indios, de outras partes (Mato Grosso, Paraná, Rio Grande do Sul), sem qualquer ligação com esses habitantes primitivos do estado de São Paulo, também eram denominados "coroados" pelos portugueses, bastava a coroa do corte de cabelo...
Ao chegar no nome Kaicang, passou a me interessar diretamente, pois nasci à poucas dezenas de metros de um ribeiro com esse nome, apesar de no dialeto capiau pontalense a pronuncia correta ser "córgo", "corgo Canganha", para ser mais exato... Levi Ramiro, com as violas que ele mesmo constrói, mais um time de músicos do melhor naipe, faz uma viagem poético-musical por toda a vasta região, mostrando as belezas ainda presentes e recriando/refazendo percursos e assim contando parte da história, seja dos indios ou mesmo de alguns de nós ou dos elementos naturais, as referências às batalhas, as entradas (bandeiras), as guerras, a onça, os trilhos, a espiritualidade, os rios, as estações abandonadas... Durante a trajetória de caminhada pelos diversos temas, conhecemos alegrias, festanças, tristezas, perdas, sentimos saudades... Mas não é uma viagem melancólica, pessimista, de ódios ou de revoltas; é simplesmente uma viagem pelo conhecimento tão necessário em tempos em que almejamos, enquanto nação, ladear ombro a ombro com as potencias mundiais: progresso, sim, mas sem jamais esquecer quem somos e de onde viemos...
Uma observação: Levi parece não aprovar o nome Rio Feio, pois para ele, "...as águas limpidas e frias e cercadas de natureza, contradizem o nome dado a ele." Até onde minhas lembranças me levam, a alcunha "Feio" não era por conta de sua feiúra - se é que tal é possivel! - mas sim devido a sua sinuosidade e perigos iminentes. Contava meu pai que as altas copas de árvores formavam um túnel verde escuro e pescar nas suas margens exigia respeito e conhecimento das artimanhas do senhor daquelas paragens: o rio e sua temível hóspede, a sucuri. Como andará hoje em dia, o Rio feio? Haverá desmatamento em suas margens? Muito provável. Então, o pobre deve estar mesmo se sentido feio, despelado e assim, não assusta mais nem criancinhas antes do sono... Que o trabalho de Levi Ramiro seja ouvido e refletido, que mostre a todos a história de um lugar onde a beleza é guerrelheira pertinaz. Junqueirópolis, terra natal do grande Indio Cachoeira já foi chamada "Cidade Verde", por conta da exuberância de suas florestas de madeiras de leis; Flora Rica, pertinho de Irapurú, terra de de outra fera da viola, Julio Santin, tem um nome bastante apropriado, ao qual num tempo não tão distante poderia ser acrescentado Flora e Fauna Ricas...
Serviço: Musicos participantes: o também violeiro Ricardo Vignini; Carlinhos Ferreira na percussão e efeitos; Duo Portal percussão, efeitos, flauta, kalimba; José Esmerindo, violão; Ana Colomar, violoncello; Gustavo Lima, clarinete; Adriano Grimberg, piano; Ze Helder, Shaiene,Tania Grimberg, vocais.

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