A MUSICA DE MARIO GIL E O NOVO LEGADO DA M.P.B.

O cantor, compositor, violonista e produtor Mario Gil é uma referência para boa parte da atual musica brasileira, mas pode andar tranquilamente pelas  ruas de qualquer cidade brasileira sem muitas  possibilidades de ser abordado. É para esse público que o desconhece que reservo algumas palavras introdutórias a seguir: ele faz parte de um grupo de artistas surgidos no lastro do “Clube da Esquina” – que deve ter sido o último grande movimento da MPB pós Bossa Nova  e Tropicália .
Esses jovens artistas  talentosos, urbanos na maioria surgiram num ambiente que podemos chamar   “circuito universitário”, embora não considere a expressão correta. Embora muitos tenham realmente surgidos nesse meio, deve ser mais uma tentativa de rotular o movimento para de algum modo viabilizá-lo comercialmente. Mas o fato é que eles não se enquadram em nenhum  rótulo, exceto, talvez, independentes.  (A música independente, como sabemos, é uma modalidade comercial, onde os artistas produzem seus trabalhos à margem dos grandes estúdios, por conta própria ou com ajuda de amigos. Consolidou-se aos poucos, com mercado e público específicos).


Esse grupo, bastante abrangente, sem orientação (não houve nenhum marco inicial, nenhum manifesto, etc) e lugar definidos,  surge num momento de certo descrédito da  MPB, quando muitos consideravam a nossa música esgotada, saturada, envelhecida e era comum ouvir dizer que nada surgiria de importante depois de Caetano, Chico,  Gal, Bethânia, Milton Nascimento e outros. As pessoas suspiravam tristemente e diziam que  tinham sido os últimos, que a musica brasileira tinha acabado e qualquer novidade não passava de cópia, imitação barata...

Não era bem assim, como se provou depois. Um tanto timidamente eles surgem,  sem alarde, discretos, sem se importar em parecer aprendizes. Nos pequenos espaços onde se apresentavam, geralmente bares, misturavam-se com a platéia quando terminavam seus números e ali mesmo colhiam a impressão de seu trabalho. E para o público também era algo novo, poder conviver com o artista de carne e osso, sem o tumulto que cerca as grandes estrelas. Enfim, algo novo se desenhava no cenário, público e artista construíam juntos  novas possibilidades artísticas – de algum modo, isso continua, um certo clima de cumplicidade envolve esse ambiente de proximidade público artista, como podemos observar no Projeto Dandô, idealizado por Katya Teixeira, mas aí éoutra história, que foge ao nosso tema de agora...
Voltando à história dos jovens que remodelaram a nova música brasileira, a partir dos chamados espaços alternativos: uma grande leva de artistas surgia assim, e devido a qualidade de seus trabalhos, aos poucos saem de seus ‘guetos’ e se espalham pelos teatros, palcos maiores. Portadores de uma sólida tecnica duramente elaborada, não demoram para angariar um público fiel. Em outras palavras: sim, havia, ainda, uma fatia de mercado sensível e sedenta de música  e artistas de qualidade para criar, desenvolver e continuar nossa arte musical.
Fazem parte dessa leva que lentamente se consolidou por conta da alta qualidade  artistas como Monica Salmaso, Renato Braz, Consuelo de Paula, Mário Gil, só para citar alguns, um sem número de instrumentistas geniais. E nos últimos 15 ou 20 anos cada um deles seguiu sua trilha, em projetos individuais, eventualmente se encontrando, dividindo palco, colaborando entre si.


A influência de Dori Caymmi entre eles é perceptível, em alguns casos diretamente, como a participação em alguns trabalhos de Renato Braz, noutros nem tanto: mas se percebe a presença do mestre na busca de um padrão estético diferenciado, arranjos sofisticados , grande avidez na busca de uma técnica rigorosa que coloca em destaque  a criatividade que nunca faltou ao músico brasileiro. Aqui, um breve intermezzo e apenas para citar o óbvio: música é algo que o brasileiro sabe fazer, porque gosta. Desde criança se acostuma e assim como o futebol, é uma forma de lazer  acessível. Eis algo que as autoridades educacionais devem levar em conta, o ensino de música nas escolas, que deveria necessariamente fazer parte dos currículos, não exatamente para formar artistas, mas para formar cidadãos, indivíduos capazes de reconhecer e distinguir a musica boa da ruim.

A  ousadia desses jovens “filhos e filhas” da turma do “Clube da Esquina” (filhos e filhas num sentido cronológico e não exatamente genealógico) tem lógica e história: está no DNA do músico brasileiro e remonta a Zequinha de Abreu, Chiquinha Gonzaga, Villa-Lobos, João Pernambuco, e outros: virtuoses  mestres e mestras, cada qual  em seu tempo e lugar e que tiveram como mérito principal o aprofundamento da brasilidade, a identidade de um país que carecia de uma legitimação para deixar de importar o que se produzia mundo afora, principalmente a música americana fartamente distribuída por aqui com as primeiras vitrolas. Artistas como os citados acima criaram uma música brasileira que ia além do exotismo da riqueza de ritmos afros e indígenas, preconceito que ainda nos dias de hoje sobrevive sob forma de resquícios, não apenas na música, mas em muitos outros aspectos das artes (cinema, por exemplo) e da vida em geral: o importado é melhor!
A música brasileira desde há muito está preparada para ser ponto de partida para vôos maiores e novas invenções.  Não foi nenhum bravata Villa-Lobos ter declarado ao chegar em Paris que “...não vim aprender e sim ensinar e mostrar a música brasileira!



O Brasil vivenciava o fim de uma ditadura, através de um processo enviesado de abertura política com uma Anistia Geral e Irrestrita, enfim, uma solução política costurada pelas elites que nunca foi devidamente compreendida pelo povo em geral, historicamente excluído das decisões.  Era o ocaso de qualquer  Revolução e mesmo do protesto,  embora o vínculo com formas mais arejadas de pensar não fossem elementos à margem.
Esses jovens aparecem produzindo antes de tudo, música. Música despida de preconceitos. Mas a ousadia desse pessoal que apareceu num momento crucial da história brasileira  não era um acaso: desde Rogério Duprat e mesmo antes com Garoto, Laurindo Almeida, Moacyr Santos, etc., que o Brasil se acostumou à sofisticação de arranjos como se conhece nas peças ditas eruditas, confirmando a nossa vocação musical, que vem desde os tempos coloniais: o amalgamento branco, índio, negro, condimentado mais tarde com imigrantes de diversas partes do mundo. Algo que vai além dos aspectos sócio-culturais: o próprio entranhamento na  alma nacional.

Assim, podemos dizer sem pejo: a nossa é uma Terra fértil, autêntico Jardins de Delícias, onde o imaginário miraculoso ultrapassa os mitos. Como disse uma vez o rabequeiro Zé Gomes, uma das figuras que mais compreendiam o papel do artista na vida de uma nação: “O Brasil é um formigueiro de artistas, basta cutucar que eles vão aparecendo, aos enxames!”
A roça brasilis – faço aqui uma merecida referência ao livro de Josely Vianna, Roça Barroca, sobre a arte poética do povo guarani -   faz jus à primeira impressão destas terras aos olhos do estrangeiro, quando,  Pero Vaz Caminha, deslumbrado, escreveu a El Rey mencionando entre outras maravilhas  que “...nesta terra em se plantando tudo dá!

Ipsis facti, como diria Elomar Figueira: de sambas, serestas, baiões, toadas, múltiplas outras experimentações:
tambores nos cais,
violas e rabecas em clamores.
Ponteados de violões
tecendo e bordando canções;
vozes líricas,
ternas vozes
em cantos de amor e guerra
em contradança;

são imagens como essas que avoam pelos céus do Brasil, que essa turma de novos talentos surgidos num momento de profunda apatia evoca, quando, apagadas as luzes das Utopias,  fizeram desaparecer do horizonte os ideais libertários dos anos 1960. A crítica musical brasileira está a dever ao publico um painel que abranja o cenário que esses jovens – que hoje se aproximam da maturidade – estão construindo, um legado que o futuro há de prestar tributo, pois são eles que estão mantendo viva a tradição brasileira da boa música nos confusos e incertos dias de hoje.

Mario Gil Fonseca é mineiro radicado em São Paulo há muitos anos e sua mineiridade salta à vista. Discreto e perseverante, sua atuação musical é trabalhada com a paciência de um ourives. Como todo artista quer ver seu trabalho reconhecido,  mas tem a compreensão do quão é difícil a afirmação do artista que antes de tudo tem a pretensão de ser fiel às origens, compromisso tácito, mas sem imposições, de retratar seu tempo e seu povo, não abrindo mão e não se divorciando das motivações e sentimentos, e tampouco da possibilidade criativa - no caso dele, a inovação, a busca de novos timbres,  ponto de partida, tronco fundamental da obra. Tudo isso sem barulhos, sem contundência revolucionária – mas o que poucos se dão conta é de que no fundo acaba por lentamente construir uma revolução musical silenciosa, juntamente com seus parceiros.

Sua  robustez criativa revela-se em seu primeiro disco, o seu primeiro recado: Luz do Cais, CD que não muitos ouviram, é um instigante  cartão de visitas. Tudo está ali: uma proposta musical, avessa a preconceitos, revelando algo das muitas fontes de onde bebeu: composições autorais, parcerias, reeleituras de clássicos - Eleanor Rigby, dos Beatles. Chama  atenção as faixas de abertura e encerramento do CD –“Lá” e “Kindergarten” que parecem conduzir o leitor a universos atemporais, passado, presente e futuro tendo berimbau, violão o sax como fios condutores...


Sua formação musical, como ele mesmo afirma, vem da influencia do pai, musico amador, e da intensa atuação na noite paulistana, atividade que exerceu  durante muitos anos com capricho e denodo. Rigoroso, além de memorizar o vasto repertório exigido dos cantores noturnos, aprimorava um estilo que o tornaria permeável às influências dos muitos parceiros e por conseguinte, dos muitos brasis que encontramos nas metrópoles. E foram muitos os brasis que descobriu e continua a descobrir. Mário é desses artistas que agrega, característica que lhe asseverou ao longo do tempo a imensa versatilidade que seria uma constante em sua trajetória: um trabalho autoral, personalíssimo, mas que dialoga intensamente com outras vertentes e linguagens (seu ultimo trabalho, “Comunhão”, é simbólico nesse aspecto. Voltaremos a ele pouco adiante).
Antes disso, vale a pena relembrar e mencionar sua participação no segundo disco de Consuelo de Paula, “Tambor & Flor”,  à força mágica que empreenderam na faixa “Deusa da Lua”, de Mestra Virgínia, uma cantiga  selvagem, ctônica, ígnea, pois parece ter sido talhada a ferro e fogo, que os arranjos de Mário e a voz de Consuelo transformaram como que num outro instrumento de combate, uma espécie de epopéia do espírito nacional:

 “...a serpente mãe das trevas
Morava naquela montanha
Naquela mata medonha
Lá naquele lugar traidor...”

...e tome-lhe trinados de violões,  percussões como arcabuzes, golpes de espada, aríetes; a memória da terra, do povo, memória coletiva! A junção força e delicadeza produziram uma obra prima do cancioneiro nacional  – infelizmente pouco conhecida do grande público. Aqui,  violões e voz remetem a profundidades do mais recôndito interior brasileiro e montanhas galesas, mas também podem ser os sopés andinos, montanhas argentinas,trabalhadores do mar, do campo, das fábricas, sobressaindo, sempre, a face altaneira do povo. Ainda lembrando a parceria Consuelo X Mario Gil: a mera e simples participação nos vocais de “Canto de Guerra”, no CD “Dança das Rosas”. Pra se ouvir quem puder, sem palavras.

Depois da apresentação de Luz do Cais, que mesmo não tendo uma grande repercussão entre o publico, lançou Mario Gil na roda dos artistas criativos. E seu rol de parceiros certamente alcançou um ponto culminante ao conhecer Paulo Sergio Pinheiro e com ele compor e lançar um dos melhores discos autorais de toda a história da MPB, o antológico “Cantos do Mar”, disco que com certeza coroou um trabalho ou uma etapa, pois Mário ficou muito tempo sem gravar, mas trabalhando intensamente como produtor através de seu estúdio, o “Dançapé”.



“Comunhão” é seu ultimo disco solo e mesmo faz jus à sua trajetória, com a coerência costumeira. Mario Gil derrama-se em candura, pura poética repleta de imagens de um Brasil real, mas também imaginário, onírico. A emoção e lirismo que transmite é com sobriedade, em momento algum se apega a nostalgias ou a qualquer espécie de pieguismo. Contido e preciso, é o artista que representa muitos sendo um artista para poucos – poucos, diga-se, em comparação aos milhões de discos que a industria discográfica despeja no mercado:


“Caruana”, parceria com Paulo Sergio Pinheiro, é ponto alto, sem desmerecer nenhuma outra. A meu ver, aqui, em Caruana, a emblemática parceria com Paulo César Pinheiro atinge o ápice: sons que soam misteriosos, subterrâneos, que junto as palavras parecem eclodir: simples e fortes, ombreando com a magia que só o povo mestiço é capaz de produzir.
Tem a densidade dramática de “Anabela”, “Cargueiro” ou “Lenda Praieira” (do CD “Cantos do Mar”), mas é nessa cantiga com ressonâncias indígenas e africanas que grande parte das nossas profundas raízes são expostas reveladas em toda a sua beleza e verdade: artista e história sócio antropológica  dão-se mãos:

Êh! Rio-mar, Êh! Rio-mar
Povo de Caruana é que mora lá
De Aruaque, de Jê, de Juparaná
De Aruã, de Araúna, de Aruaná

É o guardião do rio-mar
Caruana anda naquele mundaréu...

 (Caruana: espírito que habita o fundo dos rios. Espírito bom, que livra feitiços e cura doenças. “Caruana” bem que poderia ser o espírito da musica e em vez de morar no fundo dos rios, habitaria o fundo do corações dos homens e uma vez invocado, o livraria dos maus feitiços e encantamentos.)

Enfim, “Comunhão” bem poderia ser: um breve painel, breve sobrevôo sobre os Brasis de Capiba a Paulo Cesar Pinheiro; por sambas de roda, por frevos, por “acalantos”, outras canções. Por todo o disco e em tudo, permeia cores e sabores, mil saberes através dos quais vislumbramos convites a conhecer a terra e o lugar: um grande, um imenso Brasil, real e mágico, em seu despertar!

Falamos no reduzido espaço do blog de Mário Gil, que presta tributo ao Brasil e sua gente e principalmente aos de sua geração, companheiros de palco e, porque não?, de platéia, pois existe uma imediata identificação que o distanciamento no tempo talvez um dia nos permita colher um retrato desses artistas tomam a frente da MPB num momento tão delicado de nossa História – é transição?
Outro  Cd  está sendo lançado simultaneamente ao “Comunhão”,  “Mar Aberto”, em parceria com Renato Braz, Breno Ruiz e Roberto Leão: é simbólico, soa como um desdobramento do grande mar (rioterramar) que se abre e acolhe, em comunhão...

Termino essas mal traçadas linhas com fragmentos de versos de sua canção “Elogio”, que faz parte do “Luz do Cais”. Esses singelos versos bem dizem algo de sua missão enquanto artista:

(...)
Mágicos dedos de um brasileiro
Tem um gringo cego
Um vereador que é violeiro
E um baiano que não é negão

Trago um lobo no peito
Um Caymmi de antemão
Um computador com defeito
Que não dá idéia na canção

Dorme menina, tem medo não
Esses fantasmas só procuram mais uma canção
(...)



Uma Arte atemporal, sem tempo definido, sem lugar e sem rótulo ou outras armadilhas que possam prender o ouvinte num primeiro momento para depois abandoná-lo ou forçá-lo a buscar renovados ares num mundo poluído. 
Uma Arte povoando os espaços imagético, sensorial; arte com história. Para a história!



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O BAR DO FRANGO APRESENTA: CORDEL, REPENTE, CANTORIA

Um evento típico da generosidade do povo do ser-tão paulistano!



Vai ser no Bar do Frango, sob a batuta do Tatau, no proximo domingo a partir das 18 horas.
O Bar do Frango do Tatau, é aquele que é para poucos, localizado na Zona Leste, local simples e acolhedor, onde os felizardos que o descobrem passam inesquecíveis momentos: boa musica, boa prosa, bons petiscos, boa cachaça e demais destilados e cerveja sempre no ponto - mesmo no rigoroso inverno atual do sertão paulistano.



O Bar do Frango, quem conhece sabe: é desses lugares que poderia ser um símbolo da generosidade hospitaleira do nosso povo paulistano, democrático por excelencia, reduto autêntico da cultura brasileira.



O próximo domingo, a partir das 18 horas, será dedicado àprática do Cordel e do Repente, duas verdadeiras representações da riqueza de nossos ritmos.
Ambos - Cordel e Repente - remontam séculos de existência em nossas terras brasílicas, provavelmente desde o século XVI, ou seja, existe desde que o Brasil existe. O mais impressionante é sua inserção entre as classes populares, tendo tido sua época de ouro no Nordeste do século XVIII até meados do XX.
O Cordel é basicamente a transcrição da literatura oral para a escrita, geralmente em forma rimada, impresso e ilustrado com xilogravuras nas "edições" mais caprichadas, mas a grande parte contém a dita xilogravura apenas na capa. O nome "cordel" deve ser porque desde os principios, nas feiras típicas do nordeste, os folhetos ficavam expostos em "barbantes" ou pequenas cordas...

O Repente são versos improvisados geralmente por dois "cantadores" -daí também ser denominada "cantoria" simplesmente. A riqueza e talento dos "repentistas" é impressionante, pois qualquer coisa, qualquer tema serve para versos perfeitamente rimados, criados na hora. Câmara Cascudo relata em sua obra "Vaqueiros e Cantadores" desafios de repente que duravam dias!

Bem, no bar do Frango, no próximo domingo, teremos uma pequena mostra dessas genuínas representações de nossa cultura popular!

Lá estaremos!


SERVIÇO:

O Bar do Frango está localizado na Av. São Lucas, 479, altura do nº 5.000 da Av Luiz Inacio de Anhaia Melo ou Av do Oratório, 2300. O metrô mais próximo é a estação Vila Prudente.

ENTRADA FRANCA!




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DO MARANHÃO PARA O MUNDO: PAPETE



Uma indestrutível Bandeira de Aço tremula no ponto mais alto do panteão musical brasileiro. E por lá brilhará para sempre, fazendo parte da imensa constelação de nossas maiores estrelas. Junta-se aos  conterrâneos João do Vale e Irene Portela, a Zé Gomes, a Dércio Marques, Vinicius de Moraes, Cauby, Vila-Lobos, aos Gonzaga pai e filho, a Tom Jobim, entre outros. Nos deixou cedo, a 26 de Maio de 2016, aos incríveis 68 anos, pois Papete tinha o entusiasmo e a curiosidade de um adolescente. Seus discos de estúdio conservavam frescor, leveza, informalidade, como se fosse um show ao vivo.


            “Boa noite meu povo
            Que veio aqui me ver
            Com essa brincadeira
            Trazendo grande prazer

            Salve grandes e pequenos
            Este é o meu dever
            Sair pra cantar boi
            Bonito pro povo ver”
            (trecho de Urrou do Boi, Toada de Coxinho do Boi de Pindaré)

            Enquanto esteve entre nós, foi um incansável lutador, que o jeito menino não ocultava: quando o assunto era cultura brasileira seus olhos brilhavam. Para ele, vida e arte caminhavam juntas, uma se inseria na outra. As batidas do coração de sua filha Manuela, gravadas quando ela ainda habitava o ventre materno e inseridas no final de uma canção de um de seus discos, revelam seu compromisso, o afinco e a leveza, arte e vida, entrelaçadas.
O foco principal de seu interesse sempre foi o universo de seu querido estado natal, Maranhão, o tão maltratado Maranhão, economicamente corroído por uma sequência trágica de governantes inescrupulosos, não obstante possuir riquezas inestimáveis. Lembro-me de certa vez ter lido uma declaração sua onde dizia com todas as letras que o Maranhão era o estado mais musical do Brasil.


Papete sabia das coisas e ao dizer isso, não estava longe da verdade: não foi uma bravata, nem qualquer intenção de denotar superioridade acendendo rivalidade entre irmãos: Papete tinha a alma leve e simples de homem do povo, de cujo seio jamais se afastou, apesar de possuir talento para ser uma estrela internacional. Mas ele (bem como seu conterrâneo Chico Maranhão) sempre quis ficar e se entende porque: uma rápida passada d’olhos pela imensa quantidade de ritmos, de danças, talentos, tudo temperado por um manancial multicor, mostra porquê: o Maranhão é um sol, uma poderosa usina de energia, um coração cujo pulsar cintila Brasil afora. Não é por acaso a terra de dona Irene Portela, Chico Maranhão, João do Vale, além do próprio Papete.

Embora os temas maranhenses ocupem a quase totalidade de sua obra, sempre foi um atento observador da cultura de todo o país e por toda sua obra se espalham temas típicos de várias regiões do país: Luiz Gonzaga (O Xote das meninas), Renato Teixeira (Vira (No Meu Quintal), Paulo Ruschel (Cancha Reta) são exemplos imediatos, além da longa parceria com Toquinho e inúmeras contribuições com Diana Pequeno, Almir Sater, Zé Gomes, etc.


Nascido José Ribamar Vianna, em Bacabal a 08/11/1947, era músico em tempo integral conforme concerne aos gênios. São antológicos os textos escritos sobre ele pelo produtor Marcus Pereira, impressionado com suas performances. Pela gravadora de Marcus, conhecido por ter feito um dos melhores mapeamentos musicais do Brasil - 16 belos e importantes discos, 4 para cada região do pais: Musica Popular do Nordeste, Centro-oeste, Sul e Sudeste -  Papete lançaria seus primeiros discos, além de atuar como pesquisador para a série ”Musica Popular.” O reconhecimento de seu trabalho ultrapassou fronteiras sendo ainda muito jovem. Foi eleito por três vezes como um dos 3 melhores percussionistas do mundo em 1982, 1984 e 1987, no Montreux Jazz Festival, na Suíça.

Papete foi protagonista de um Era de Ouro da Musica Popular Brasileira, entre o final dos anos 1970 e 1990, quando houve uma importante revalorização da musica de caráter regional e importantes artistas que não orbitavam em torno dos “caciques” da MPB puderam lançar seus trabalhos e com isso fizeram histórias, produzindo álbuns que se tornaram raridades.  “Bandeira de Aço” e o famoso encarte que o acompanhava é um exemplo clássico. Eu tenho o LP, em bom estado, mas sem o encarte. Os amantes do vinil hão de entender o que quero dizer: certos discos fazem sentido quando você além de ouvir, pode ver ou tocar com as mãos, como é o caso do “Milagre dos Peixes”, do Milton, onde cada faixa ou grupo de faixas correspondia a uma cor. As cores do encarte, portanto, funcionavam como ‘código’, o “Milagre” em particular, pois as letras haviam sido censuradas e só a parte instrumental veio a publico. “Bandeira de Aço” foi relançado em CD, porém o foi com tremendo descuido: uma capinha mixuruca, onde só consta o titulo das musicas. Um erro irreparável, falta de respeito para com público e artista.


São muitos os seus discos antológicos. Bandeira de Aço deve ser o mais representativo, pois se trata de uma síntese da cultura popular que anima desde a capital até os mais distantes rincões, da praia ao sertão. A fusão com ritmos caribenhos dá um tempero especial. E por falar em disco antológico, como não lembrar de “Planador” e sua magnífica parceria com Almir Sater em “Luzeiro”? Ou o melhor solo de rabeca,  por Zé Gomes, na faixa “Pastorinha”?

Bela Mocidade é outro belo disco, dentre tantos. .É um trabalho que fala do Maranhão como um todo, onde cabe bem a expressão “tudojuntoemisturado”: cidade, interior, praia, passado, presente, pinceladas fortes de reggae, memórias afetivas.


Foram 18 albuns  ao longo de aproximadamente 40 anos de carreira, o que dá a média de quase 1 disco a cada dois anos, numa impressionante regularidade, sempre tendo o Maranhão como tema principal, porém, sempre voltado, sempre antenado com a cultura brasileira como um todo: a arte popular, de todos os recantos, manancial inesgotável – diferente de outros ritmos, melhor dizendo de outras modas que mesmo tendo grande valor, com o passar de alguns anos, cansa e se esgota por si.

Papete, ou melhor, o pesquisador de cultura popular José Ribamar Vianna, idealizou, coordenou e publicou no ano passado o livro “Os Senhores cantadores, amos e poetas do bumba meu boi do Maranhão”, cujo titulo altamente sugestivo fala por si.


UMA CURIOSIDADE: Enquanto finalizava esse texto ouvindo um de seus LPs na minha simpática vitrola, deparei-me com um texto datilografado dentro da capa do disco, um breve comentário sobre ele. Quem o escreveu? Não sei. Pode ter sido eu mesmo muito tempo atrás, mas de fato creio que não, tem particularidades nas quais não me reconheço. Mas é um comentário tão espontâneo e sincero que acho importante reproduzi-lo aqui, na integra. A hipótese mais crível é que o antigo dono ou dona  do LP, apos ouví-lo teve um rompante poético e descarregou no papel tudo o que sentiu. Verdade é que ficou lindo, muito bom, pois é a cara do Papete e acredito que ele certamente gostaria de saber o que seu trabalho inspirava nas pessoas.
Um texto de puro sentimento e verdade. Assim, com o mesmo ímpeto que o autor deve ter escrito, tomei a decisão de aqui reproduzir, nesse singelo texto que tem somente a intenção de mencionar a grande importância de Papete para a musica e para a cultura brasileira de um modo geral.
Eis o texto (se alguém identificar o autor, agradeço a informação):


“PAPETE

Papete arrasta voce para um universo de sons incomuns, luminosos ou sombrios, que lembram uma entrada pelos matos, um avanço em que o sol brinca de esconde-esconde, um serpentear de um riacho e, de repente, uma cachoeira.

Manifesta sua força quando toca uma singela modinha, nas beira da calçada, antes que a lua apareça ou quando participa da “folia de reis”.

Fala, de perto a parcela de sangue selvagem de cada um, provoca um chacoalhar de sentimentos, surpreende voce, confunde um pouco, depois lhe permite um enriquecimento da consciência. Pode ser uma “brincadeira” bastante séria: “Dou um doce a quem souber”...reserve um tempo para Papete, ouça-o várias vezes e voce saberá.” (autor desconhecido)



Papete se foi. Mas o seu estandarte está impresso a fogo vivo na Bandeira de Aço que tremula elegante e soberana em lugar nobre: o coração de cada brasileiro.

“Na ilha de São Luis tem um boizinho chamado Barrica, que no mês de junho gostam de brincar à luz das fogueiras na terra e  das estrelas no céu.  Barrica emociona: traz a esperança de que nossa alegria há de durar para sempre, como para sempre há de durar o valor de nossa  gente”
(introdução a Rompendo Fogo)



DISCOGRAFIA:
Berimbau e percussão (Discos Marcus Pereira)  1975)
Bandeira de aço (Discos Marcus Pereira)  1978)
Água de Coco (1980/1979)
Planador (1982)
Papete (1987)
Rompendo fogo (1989)
Bela Mocidade (1991)
Voz dos arvoredos (1992)
Laço de Fita (1994)
Música Popular Maranhense) (1995)
PAPETE (1996)
O melhor de Papete (1997)
Tambô (1999)
Era uma vez... (2004)
Jambo (2006)
Aprendiz de cantador (2008)
Estrada da Vitoria ( 2010)
Senhor José (2013)



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CONSUELO DE PAULA NA BIBLIOTECA MARIO DE ANDRADE



Não há imagem mais apropriada: do Brasil profundo, e de todos os Brasis, ecoa um poderoso tambor comandado mãos firmes e por uma voz delicada e suave, que viaja pelas muitas idades de nossa terra e pousa em cada coração, em cada ouvido; e o pulsar dessa voz é como pétalas multicoloridas: é voz que nos atinge de corpo e alma, voz de Consuelo de Paula que canta o Brasil e sua gente, reverberando em cada célula do país mestiço; Consuelo canta para e por todos nós.

Na próxima quarta feira, 4 de maio, a mineira de Pratápolis radicada em São Paulo inaugura a terceira temporada do projeto Imagens do Brasil Profundo, as 20 horas, na simpática e tão significativa para a vida cultural da cidade, Biblioteca Mario de Andrade, logo ali no inicio da Rua da Consolação,próxima as estações de metrô República e Anhangabaú.
Ver e ouvir Consuelo de Paula é uma dádiva para nossos olhos e ouvidos. Sua presença, sua performance no palco, a maneira como se doa em cada trabalho, seja um show, a produção de um CD ou a consolidação de suas muitas parcerias, faz de cada um de seus trabalhos uma experiência única, eivada de emoção, de alegria, de autenticidade.



Neste show da próxima quarta feira, deverão ser evocadas suas memórias da rica musicalidade de sua Pratápolis natal e região, quando desde a tenra idade se acostumou aos ritmos de Moçambique, Toada de Congo, Folia, Jongo, Samba, Baião e Maracatu, acompanhada por seu violão e seus tambores. Esperemos que nos brinde com as interpretações soberbas de sua intensa e rica carreira: são seis álbuns – Samba Seresta e Baião, Tambor e Flor, Dança das Rosas, Casa, Negra (também em DVD) e O Tempo e o Vento –participações em trabalhos de outros artistas e um farto material, suficiente para alguns discos solos ou em parceria. Também atua como produtora e lançou em 2011 um livro de poesias, em parceria com Lucia Arrais Morales.

Quem for ao evento,sairá de alma lavada, com a certeza de vivenciar uma experiência encantadora e fascinante: Consuelo é a artista das sete vozes, de muitas outras vozes, de muitos outros timbres, de muitas novas cores, capaz de dar vida as múltiplas facetas  da terra mestiça: terra de serestas, de baiões, de toadas, de sambas, de toadas. Sempre na “...na mais pura macieza, na maior delicadeza...”, como ela própria diz na adaptação acrescida a um dos clássicos do nosso cancioneiro popular: a antológica Riacho de Areia.

SERVIÇO:

CONSUELO DE PAULA, no projeto “Imagens do Brasil Profundo”,
dia 04 de maio, quarta feira, 20:00 horas
Local: Biblioteca Mário de Andrade
Endereço: Rua da Consolação, 94

Entrada Franca.






  

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OS TRES MUNDOS DA VIOLEIRA FABIENNE MAGNANT

  

Certa vez o saudoso músico gaúcho, Zé Gomes, tido entre seus pares como imparcial rigoroso conhecedor da arte musical, foi chamado a emitir opinião sobre um violeiro que gozava de grande sucesso de publico e critica: era a coqueluche do momento, aquele com quem todos queriam tocar  e todos queriam assistir, um desses fenômenos que marcam época, que tanto podem ser para sempre consagrados como rapidamente esquecidos.

Diante do vídeo, com seu jeito peculiar de observar, demorava mais do que o usual para expor a esperada opinião. Certos movimentos incompreensíveis com a cabeça confundiam os interlocutores, não se sabendo se era de aquiescência ou reprovação; passavam-se os minutos, longos, e nada do aguardado diagnóstico: lá pelas tantas , é visível nele certa inquietação, misturada a admiração;  algo o incomodava – quem o conhecia, sabia. Por fim, inopinadamente, num gesto de impaciência, mas também de alívio, vaticinou:
 “Mas ele só toca!

Um violeiro que toca. E que toca bem, que é uma virtuose em seu instrumento; tem estilo e pleno domínio de sua arte: o que se pode querer mais? Pergunta intrigante, mas não totalmente estranha em se tratando da compreensão do sentido da arte e da música em particular.

Embora não conste em nenhum manual, quando se fala da arte autêntica e de seu valor intrínseco, a questão fundamental não se resume a técnica, embora a mesma seja um componente até mesmo obrigatório. A indagação intrigante é sempre cabível aos sinceramente curiosos: afinal, qual o objetivo da arte?
Entreter, informar, desenvolver sensibilidades? Que seja isso ou muito mais, que seja no show business ou um batuque numa roda de amigos; sabe-se que uma singular relação se estabelece entre artista e público e que a mesma tem componentes misteriosos, incompreensíveis. O que pode explicar a magia que desperta e conduz a emoção, esse elemento que permeia todas as formas de arte, erudita ou popular? Que seja a emoção imediata ligada ao presente, ou outras, mais antigas, dispersas, distantes no tempo e espaço, a emoção é o guia, que nos permite transcender o ordinário comum, em geral, banal.



A Arte constrói pontes que se ramificam e ligam os elos invisíveis da vasta memória humana; ela própria é um caminho de dimensões indefinidas, construção atemporal, através da qual a odisséia humana se realiza e a história se cumpre no vasto mosaico onde as culturas humanas se expressam em suas peculiaridades e no que tem de comum, a ALMA - o resquício divino que nos bafejou.

É na História dos povos e na Alma que os anima que podemos, talvez, encontrar o que  chamamos sentido da vida: são dimensões simbólicas que nos induzem sempre que nos deparamos com uma expressão de arte pura – som, imagem, palavras, etc. É nesse momento que alcançamos o limite da técnica e o ultrapassamos; também nesse momento nos damos conta das limitações artísticas que apenas reproduz o que foi imposto exteriormente, e não a expressão do conteúdo latente, que se encontra nas dobras da memória. A arte pura, entretanto, instiga os fugazes insigths reveladores que vem à tona quando despertados, levando-nos inevitavelmente à emoção.

Por isso, não é raro um artista impressionar pela técnica, sem, contudo, emocionar!  Talvez por isso o veterano Zé Gomes tenha mencionado intuitivamente que o habilidoso violeiro “apena. tocava!...” (Músico 24 horas por dia, ele não se impressionava com virtuosismos, para ele era apenas a faceta externa, que poderia não significar nada além dos confetes brilhantes atirados aleatoriamente para impressionar o público e em alguns casos, até mesmo ludibriá-lo. Ao artista se requer algo mais, numa palavra, Alma! Seu diagnóstico, pouco claro a principio, no fundo era simples: àquele violeiro, possuidor de grande virtuose, faltava “alma”, esse elemento sutil, etéreo, que se constrói dinamicamente a cada momento, e que se mostra em toda sua magnitude no espaço entre o artista e seu público – pouco importa que seja o pequeno palco de um bar ou a arena de um estádio: em todas as situações, prevalece a linguagem da alma, a essência do diálogo público/artista).

                                                    o multinstrumentista Zé Gomes 

VIOLAS E VIOLEIROS, UM UNIVERSO À PARTE

O mundo dos violeiros é um universo à parte, repleto de crenças, lendas, elementos mágicos. No seio das comunidades camponesas sua figura mistura-se à atmosfera local: para o violeiro tradicional, habitante do grande Brasil do interior (ou Brasil profundo), a viola é mais que um instrumento, tem a dimensão de um ser, com personalidade e vontade próprias e seu comportamento pode ser determinado pela atitude do violeiro para com ela, a viola. Um dos maiores violeiros da história, Gedeão da Viola, referia-se ao instrumento comparando-o à “mulher amada”, devendo ser tratada com carinho para “tocar bonito”. Por outro lado,  reage mal ao violeiro abusado que busca subjugá-la com floreios e adereços dispensáveis; Zé Côco do Riachão, outro mítico violeiro, lhe emprestava feições sacras, era o instrumento de fiel devoção que o acompanhava nos ofícios de folias, procissões, reizados e demais festas religiosas. A viola está presente em todo o Brasil, é quase um acessório de indumentária, um objeto capaz de determinar um estilo de vida.
No país continente, a viola é mais que um símbolo cultural, em torno da mesma se respira uma aura espiritual, umbilicalmente ligada à história das comunidades.

Mesmo com o advento da globalização, as muitas maneiras brasileiras de tocar viola estão longe de uma uniformização, cada lugar ou região tem sua peculiaridade.  No estado de São Paulo, por exemplo,  a viola tocada no litoral é mais alegre do que sua similar interiorana, onde é mais melancólica, dolente, triste até (seria a solidão do caipira, como é comum chamar o camponês do interior, ao contrário do caiçara do litoral, mais gregário e naturalmente festeiro?).  De cada estilo ou gênero, tanto no litoral quanto no interior, sobejam as inúmeras variantes: o catira, com sua batida característica, em dupla e junto ao grupo de dançarinos que acompanha com palmas e sapateados; atenção para o cururu, o pagode, consagrados por Tião Carreiro. E a viola nordestina, cujos trinados induz muito naturalmente à narração de sagas e epopéias, com seu aspecto solene e reflexivo? E por aí vai: o jeito de tocar o instrumento, seu timbre, sua afinação, sua cor, sua personalidade conta a história de um povo e sua região.



A VIOLEIRA FRANCESA FABIENNE MAGNANT

Essa pequena reflexão sobre a viola e o mundo dos violeiros ocorreu-me ante o espanto que me tomou ao ver a francesa Fabienne Magnant tocar viola. À primeira vista, algo insólito, quase um exotismo. Seria uma jogada de marketing? Ou o que chamavam viola caipira seria outro instrumento, assim denominado? Mas não, era mesmo a nossa violinha, chamada caipira ou brasileira.  Mas, reparando melhor, também era outra viola: estava lá o mesmo timbre, mas com outros recursos, explorando sonoridades até então desconhecidas, ou pouco comuns.
A figura de Fabienne empunhando a viola e a tratando com singular familiaridade, lembra uma cigana, ao trafegar com tranqüila desenvoltura entre o intrincado mundo das cordas dedilhadas: seus dois últimos discos são verdadeiros portais de segredos subitamente revelados, vislumbres de três mundos distintos, distantes e complementares entre si: o nordeste brasileiro representado pela viola caipira, o mundo clássico europeu através do violão “erudito” e a Espanha mourisca com a guitarra flamenga. Atemo-nos neste breve texto à viola caipira, embora os dois outros instrumentos não sejam deixados de lado. Afinal, formam uma Trindade (não por acaso, o último CD muito apropriadamente se chama La Trinidad).
A viola caipira que tanto lhe chamou a atenção, sua descoberta na verdade é uma redescoberta do instrumento europeu de remotas origens árabes que deve ter chegado ao Brasil com os primeiros colonizadores, por fins do século XVII, inicio do XVIII.



VIOLEIRA?

Fabienne se apresenta nos palcos do mundo como violonista e violeira. Violeiros, assim denominados, só existem no Brasil e em Portugal, e com conotações diferentes: no Brasil, viola e violeiro se inserem num espaço sócio-cultural muito amplo, que se confunde com a própria identidade; na terrinha (como carinhosamente os brasileiros chamam Portugal), é mais um qualitativo poético, além de assim ser chamado o construtor do instrumento.

Nos anúncios e informes destinados ao público europeu, a grafia tem uma leve modificação, a colocação de um trema (¨) no segundo ‘i’, (caipïra).  Fabienne violeira leva ao revela ao mundo um importante aspecto de nossa cultura, como estabelece um divisor de águas: empunhando a viola caipïra, faz com que a mesma ganhe uma inesperada dupla cidadania, passando a ser conhecida pelo mundo a “viola caipira do Brasil” e assim deve constar nos compêndios e dicionários musicais que se escreverem de aqui por diante na Europa e no resto do mundo: deixa, aos poucos, de ser um instrumento desconhecido e exótico. A viola, finalmente, se insere na categoria dos cordofones dedilhados, com status elevado ao mesmo nível da guitarra portuguesa ou do bandolim. Um salto e tanto para um instrumento que até pouquíssimas décadas atrás estava restrito ao nicho de seus praticantes e de um público especifico, apesar de ser importante ressaltar que a mesma nunca foi uma desconhecida no mundo da música: em 1970 Bach foi gravado com arranjos para viola brasileira, a partir de transcrições para violino por Theodoro Nogueira, e o executante não foi um violeiro e sim o violonista clássico Geraldo Ribeiro (nesse disco raríssimo tem um importante artigo escrito por Theodoro: “Anotações Para Um Estudo Sobre a Viola: Origem do Instrumento e Sua Difusão no Brasil”.



A novidade empreendida por Fabienne Magnant é por sua inserção ser “consolidada”, pois a viola caipïra passa a fazer faz parte do seu repertório e nos concertos divide igual espaço com o violão clássico e a guitarra flamenga. Ainda vai longe, esse trio!

A peculiaridade é uma violonista clássica apresentar-se como violeira, fato em si, extraordinário, merecedor de toda a atenção, seja por parte dos estudiosos e do público. Seu grande mérito é não somente ser uma violeira habilidosa e virtuosística; ela conseguiu captar, incorporar em si a “alma” que anima não apenas o instrumento, mas a atmosfera em torno do mesmo: ela mergulhou a fundo no universo da viola e pressentiu sua importância ao longo de sua trajetória. Seu resgate não é de nenhum estilo ou gênero; seu resgate é o do papel que a viola (ou qualquer outro nome que tenha tido no passado) teve (tem) na vida das comunidades, seja sob a forma de entretenimento descontraído ou ofício religioso, seja na forma utilitária ou puramente estética.

A presença da violeira francesa surge num momento bastante profícuo, quando outros músicos (re)descobrem outras finalidades puramente musicais.
Seria a profissionalização do músico a principal razão? O estudo e a especialização certamente influenciam, mas não é tudo: o fator principal que se revela é que a viola, apesar de sua longa trajetória, é um instrumento ainda em desenvolvimento – ou, que ainda não foi utilizada em todo o seu potencial. Alguns trabalhos recentes mostram a riqueza e exuberância e especialmente, sua extrema flexibilidade no diálogo com outros instrumentos e gêneros, experiências que exploram desde o rock à musica erudita - vide os trabalhos das duplas Valdir Verona e Rafael De Boni; Toninho Ferraguti e Neymar Dias; os trabalhos solos de Ivan Vilela, Adelmo Arcoverde, Jaime Alem, Ricardo Vignini e Zé Helder, etc. Sua adaptabilidade e versatilidade surpreende e encanta: pode ser executada por um roceiro solitário no terreiro de seu ranchinho nos cafundós do interior do Brasil ou numa sala de concerto; seja como solista, em duo ou acompanhante, ou ainda acompanhando grupos, como a “Orquestra Popular de Câmara”, com o violeiro Paulo Freire. Até na música experimental, com a própria Fabienne com peças de Phillip Glass, experiência essa disponível apenas no Youtube, para os curiosos. Muita atenção para suas composições clássicas especialmente para viola caipira, ponto de partida pioneiro, pois é a primeira vez que ocorre fora de terras brasileiras: a viola caipïra se torna universal e a ponte possível entre o arcaico e o moderno.




A VIOLA CAIPÏRA, ária

Até meados da década de 1980, a viola caipira, mesmo tendo entre seus praticantes reconhecidos e afamados mestres, não gozava do prestígio hoje auferido. Era um acanhado instrumento, coisa de caipira, então um termo pejorativo. Houve um súbito interesse dos jovens quando alguns violeiros se apresentaram na televisão em programas de repercussão nacional como o Som Brasil, da Rede Globo com Rolando Boldrin e Viola Minha Viola, da TV Cultura, primeiro com Moraes Sarmento, posteriormente com Inesita Barroso. Músicos com formação erudita foram atraídos por sua sonoridade (Renato Andrade foi dos primeiros). Para encurtar a história, hoje em dia é ensinada em universidades e grandes conservatórios brasileiros. Livros e teses tem-se escrito sobre a viola – vide o texto de Saulo Alves, “O Processo de Escolarização da Viola Caipira”, acadêmico uspiano, cantor, compositor e violeiro.

Os puristas não precisam ficar enciumados: Fabienne não se “apropriou” e levou; sua entrada em cena acrescenta e não reduz ao recolocar o instrumento no lugar de honra de onde nunca deveria ter saído. Aos poucos felizardos que tiveram a oportunidade de conhecer seu trabalho (seus CDs não são, ainda, distribuídos no Brasil) ela mostra  capacidades prodigiosas da viola que nos eram desconhecidos. Fabienne incorporou, à sua maneira, o espírito da viola, o que a mesma tem de profano e sagrado. Antes de prosseguir, um aviso se faz necessário: Fabienne não toca modas, nem qualquer outro gênero brasileiro, não esperem dela os conhecidos pinicados aos quais estamos acostumados. Em vez de repetir ou imitar os trejeitos brasileiros, ela nos mostra outros mundos, desconhecidos, e aí reside o encanto.

É salutar e muito bonito ver o que ela faz da viola brasileira, a viola caipïra, com trema no segundo i: ao introduzi-la num cenário contemporâneo, equivocadamente chamado pós moderno, na verdade ela está resgatando para os palcos europeus e do mundo a ancestralidade do instrumento e precisamente na característica que numa época distante por lá deve ter sido predominante. Um ancestral da viola (alaúde árabe de 5 cordas???) pode ter testemunhado uma então improvável passagem de um mundo tribal-nômade dos desertos para os burgos e futuras cidades ao longo do mediterrâneo.

A atual viola caipira tem longa linhagem, que se perde no tempo, e sua versatilidade não é de hoje: sua chegada mesma ao Brasil pelas mãos dos colonizadores e a longa adaptação aos folguedos populares, amalgamando as inúmeras raças do país mestiço, é a primeira grande evidência. O violeiro paulista, Fernando Deghi, talentoso músico e estudioso do instrumento e do seu universo dos violeiros, através de seus discos e concertos nos dá vislumbres do papel social e até espiritual da viola caipira, cujos acordes parecem viajar ao sabor de folhas ao vento (não por acaso, o titulo de uma de suas composições, presente no CD Violeiro Andante, “Hojas al Viento”).

Da viola e seus mistério, até onde é possível rastrear suas origens, acreditamos que a mesma faz parte da evolução da música e dos instrumentos em geral: por um certo tempo permaneceu reclusa nos sertões do Brasil até que, cansada de tanta solidão, resolveu de novo dar as caras.
No Brasil seu enraizamento é mais forte, está impregnado no coração, é algo que  foge ao padrão estético ou do entretenimento. Está na alma popular e também cumpre um papel social de agregação. Como talvez tenha sido a vihuela espanhola em tempos idos, o alaúde em seus diversos formatos, a guitarra barroca, a tiorba, a cítara, a guitarra romântica, etc... No Mato Grosso, mais precisamente na região do Pantanal, ao longo dos séculos permaneceu intocada a viola-de-cocho, esta sim, instrumento rústico de notória origem popular e que foi (re)descoberta pelo Zé Gomes, de quem falei na abertura desse texto. Mas aqui entraríamos já noutra(s) história(s)...

OS TRES MUNDOS DE FABIENNE, andante alegro

De formação clássica – estudou no Conservatoire Superieur de Musique de Paris onde se formou em 1991 - Fabienne Magnant fez várias viagens ao Brasil, tendo estudado e trabalhado com Guerra Peixe e Baden Powel, entre outros. Dessa primeira experiência nasceu seu primeiro disco, “Memóire Vivante Brésil”, (1995, esgotado). Na segunda temporada brasileira, 1999, viajou ao nordeste (Salvador, Recife), quando entrou em contato com a viola caipira e de volta ao Rio de Janeiro, adquiriu um exemplar na famosa loja Do Souto, uma referência do ramo.

No Brasil não perdeu tempo e o contato com a musica dos mestres antigos e atuais, de Garoto a Marco Pereira, fez dela uma brasileira honorária: compreendeu como poucos a genialidade de um Garoto, que deveria ser popular no nosso país e não conhecido apenas de uns poucos iniciados; captou o colorido vibrante e alegre de um Marco Pereira – sua interpretação de “Bate Côxa” é das coisas mais comoventes que já ouvi: tudo está ali, a alegria, a sensualidade inocente, o ritmo percussivo que parece brotar do coração. Sob seus dedos, as cordas mestiças brasileiras encontraram ressonância, incorporando o jeito brasileiro, uma escola que mistura dinamicamente vários estilos e escolas de variadas partes do mundo: mesmo em suas próprias composições ali sentimos a presença brasileira como na deliciosa “Clin d’oeil” (difícil acreditar que uma francesa a tenha composto!) ou na enigmática “Pollen”, que poderia ser um “romance” armorial brasileiro. As faixas ao longo dos CDs são desnorteantes pela surpresa gerada, como na faixa Symphorythmes, onde não sabemos o que são ecos caribenhos ou samba – ou as duas coisas deliciosamente misturadas! O delicado Baião Sans Nom é todo estruturado como um tipico e natural baião dançante, mas ao final, uns curiosos efeitos sonoros parecem aos ouvidos brasileiros como fintas e negaceios, imprevisíveis, onde se tenta descobrir, em vão, onde vai dar, como se fosse uma jogada de Garrincha, a alegria do povo! Coisas de feiticeira, coisa de cigana!

Como se fosse num exercício de prestidigitação, Fabienne Magnant viaja e nos leva junto em suas explorações musicais. Tece cuidadosamente a mistura de intensidade e moderação,  firmeza e delicadeza, as passagens entre o classicismo, os gingados afros e as danzas mouriscas. Os instrumentos que são utilizados como se fossem naves, não o são de forma superficial ou gratuita: verdadeiramente, ela incorpora de cada um deles a essência, o que cada um tem de peculiar, de singular. Seu Cd produzido logo na sequencia do seu contato com a viola caipira, Le Sens des Senses, é um vibrante e vivo quadro dos três mundos sobre os quais é Rainha. O texto do produtor e parceiro de palco, o percussionista François Kokelaere é preciso: “...ela nos faz descobrir um mundo musical que só ela conhece. Nos dá a chave de um segredo bem guardado.” Assim é Fabienne Magnant, talento raro e misterioso contido em sua alma cigana (é neta de ciganos italianos e franceses).



LENDAS E MITOS: Intermezzo breve brevíssimo
(Do Caipira e do Blues)

...as lendas que cercam o mundo dos violeiros possuem algo das correlatas que envolvem os bluseiros tradicionais do Mississipi: as histórias de “pacto” com o diabo, a tristeza e melancolia, a virtuose instrumental, estranha até para os próprios protagonistas, sempre dispostos a encontrar explicações sobrenaturais. A que se deve fundamentalmente tais características, que beiram a ingenuidade e o misticismo? A origem rural é uma explicação plausível, mas insuficiente, pois tais ocorrem em determinadas regiões e atingem determinados grupos sociais. Clássicos do cancioneiro caipira como “Chico Mineiro”, “Cabocla Tereza”, “Boi Soberano” são pródigas de poesia e violência intrínseca. Há algo mais que uma ideologia ou a defesa de um modo de vida : há o meio social com suas histórias, as crenças produzidas sob o isolamento.
Se compararmos à melancolia nostálgica do blues, há certa relação com as trágicas modas de viola, as histórias de vinganças amorosas. Mas a comparação cessa por aí, seu efeito é meramente simbólico ao relacionar imaginários de mundos de origem rural com suas respectivas crenças e costumes. Não há como auferir maiores aprofundamentos, relacionando o sofrimento nostálgico da África natal à saudade do português degredado – ambos separados para sempre de seu torrão natal – pois, a viola caipira e o blues, não obstante alguns aspectos em comum (histórias de pacto com o demônio, amores trágicos, etc.), num dado momento distinguem-se claramente: a viola chamada carrega em seu bojo um forte conteúdo do mundo rural europeu e medievo, e também ecos de sagas orientais; por sua vez, a ancestralidade bluseira remete aos campos e savanas das aldeias africanas. Outro fator a marcar diferença do universo da viola caipira do violão bluseiro é sua presença nos rituais religiosos, nos reizados, folias, quermesses, cantos de louvação, enquanto o correlato do blues são os tambores, ou instrumentos de cordas de arco, como violinos ou mesmo acordeons ou os simples vocais nos cantos religiosos, os spirituals.
Lembrando a relação estreita que na viola junta os extremos sagrado/profano, atenção para a íntegra da peça operística de Elomar Figueira de Melo, “O Auto da Catingueira”, notadamente no trecho “Das Violas da Morte”, onde um singelo e alegre Desafio, gênero típico nordestino, descamba para a violência e as vias de fato.

VISITA À ESPANHA

Depois de sua experiência caipira, a curiosidade de Fabienne a põe em contato com o violão flamengo, na Andaluzia: nascia La Trinidad, seu último disco, por ora. Considero que Sens des Sens e La Trinidad, são trabalhos que se relacionam, interpenetram musicalidades, ora com delicadezas de vôos suaves, ora a sensualidade delicada e pungente, ora os vibrantes e vigorosos passos de danza; alegria, pureza, sensualidades, cores suaves e fortes, assim é o percurso em sua navearte planetária, vôo rasante por três mundos: o nordeste brasileiro, a Espanha mourisca, a Europa clássica.
Os dois CDs, Sens des Sens e La Trinidad, se estruturam em formas de percepção em nossos ouvidos que, como foi mencionado desde o inicio destas poucas linhas, ultrapassam a técnica, aqui tornada mero acessório (se podemos chamar assim!), pois em cada peça, seu mergulho é vertical, alcança profundezas onde só a Alma pode chegar: vai direto no coração! E nas terras onde habitam a alma e o coração, é mundo além de toda a técnica: por lá, não se admite o artista que domina o instrumento, mas que o conquista com mimos e carinhos...



VIAJANDO COM FABIENNE, finalle grandioso e dulcíssimo!

A música de Fabienne Magnant é um convite que às primeiras notas um apelo magnético nos atrai irresistivelmente e então sentimos um sopro vigoroso de novos ares no mundo: em tempos de globalização, quando existe a possibilidade de uniformização de tendências das atividades humanas – a arte inclusa – ela propõe um contraponto estabelecendo pontos de equilíbrio; sugere convivência harmoniosa entre culturas tão distintas. Percebemos em seu toque ecos de antiqüíssimos sons, quando caravanas tribais que tinham como patriarcas Jacob e Ismael e se encontravam ao longo do Mediterrâneo e fomentavam entendimentos que pareciam ser para sempre. Como um filme em flasheback, suas notas igualmente evocam imagens de salões, de desertos, portos, oásis, de terreiros de terra batida, de alegres reuniões madrugadeiras. Ao ouvi-la, reconhecemos algo comum e familiar nos acordes que por tanto tempo ficaram adormecidos... até serem despertados por seus dedos mágicos e novamente ganharem vida.
A francesa tímida de ares galegos, com seu doce sorriso nos a induz a viajar; foi lhe concedido pelos deuses o dom de alcançar as origens ignotas de muitos mundos e ao fazê-lo, concatena e religa o passado ao presente, e (quiçá!) aponta o futuro.

Fabienne é fonte receptora e foco emissor de poderosas forças: ela habita um castelo sendo ela própria morada da Sensibilidade. No seu Castelo, fez do violão seu Rei e da viola sua Rainha, como diz François Kokelaere no texto de apresentação em Le Sens des Sens. As vigorosas danzas ao som de pés no chão e palmas, a sensualidade, a dolência dos romances, a solenidade das epopéias líricas revelam mundos de cores, sabores e saberes que fazem vibrar nossas almas renovadas após a audição de sua poderosa e doce música...




DISCOGRAFIA:

- Memóire Vivante du Brèsil, 1995, (esgotado, breve será relançado)
- Canto Instrumental, 1998, duo com Paul Mindy, (esgotado)
- Le Sens dês Sens, 2003 (distribuído por Buda Musique)
- La Trinidad, 2010 (distribuído  por Buda Musique)









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