Moda de Rock

Projeto bem precisa ser divulgado. Moda de Rock é algo muito interessante mesmo! Confiram.

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Flagrantes da vida real.

Naqueles tempos do século passado, anos cincoenta, sessenta, as fontes de informação eram poucas e raras lá pelas bandas do interior. Rede social para as crianças eram as ruas e os quintais e, ruas no bom sentido, o das brincadeiras de rua com as mães despreocupadas de possíveis "más influências" daquelas ruas. Redes sociais dos adultos eram as conversas entre vizinhos no fim de tarde e início da noite, os filhos ouvindo em silêncio, de longe, participando ali da transmissão oral do conhecimento.

Notícias do que acontecia no Brasil e no mundo chegavam pelos poucos aparelhos de rádio e os que possuíam os aparelhos repassavam as notícias naquelas conversas. Livros nas bibliotecas, públicas ou das escolas, eram poucos, situação não muito diferente dos dias de hoje. Lares com melhor condições possuíam a Enciclopédia Barsa, privilegiada fonte de consulta, mesmo que em muitas casas ser utilizada como decoração de estantes e uma certa demonstração de poder e falso conhecimento. Afinal eram vários volumes, grandes e pesados e impunha respeito.

Uma publicação, até pelo baixo custo, eram a Seleções do Reader’s Digest, adquirida através de assinatura e enviada ao representante local que fazia a distribuição aos assinantes. Fazia parte da propaganda dos Estados Unidos de mostrar que o american way of life, seu sucesso, a sua democracia e seu capitalismo eram superiores ao socialismo da então União Soviética. Seu conteúdo mostrava a força americana em invenções, descobertas e superações do homem americano e sua influência no mundo “livre”. Algumas seções eram fixas: Piadas de caserna, Flagrantes da vida real, Rir é o melhor remédio, entre outras, com muitos “causos” enviados pelos leitores.

Em um desses relatos, em Flagrantes da vida real, alguns estudantes viajando de ônibus fizeram uma brincadeira com os outros passageiros. Esconderam na mochila, junto aos livros, um despertador que em certo momento da viagem tocou e um dos estudantes tirou da sua bolsa um aparelho de telefone, daqueles usados apenas nas casas, e atendeu “conversando” com um familiar do outro lado. O motorista teve que parar o ônibus em conseqüência do susto dos demais passageiros, que consideraram aquela conversa como do outro mundo e ficaram completamente assustados.

Para os mais jovens: despertador era um relógio pesado, alguns medindo até 15 centimetros de diametro, com duas campainhas e que ficava ao lado da cama sobre o criado mudo. Telefone era um aparelho muito usado para fins de comunicação e que foi inventado por Alexander Graham Bel lá pelo final do século dezenove. Criado mudo era um pequeno móvel com gavetas e com a sua "tampa" usada para colocação de bíblias, abajur, água para beber à noite e etc.

Ninguém ali poderia imaginar a possibilidade daquele tipo de conversa via telefone sem fio. Ou, é possível, que alguns daqueles estudantes tenham participado anos depois da invenção do que nós conhecemos por telefone celular. Hoje o telefone móvel presente em todas as classes sociais é usado, em alguns momentos, para conversa entre duas pessoas, alguns adultos principalmente. Boa parte da galera desconhece essa função do aparelho e usam para envio de mensagens, ouvir musica, acessar redes sociais, jogos e como relógio.


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Ainda as "gentes diferenciadas".

O povo, ou melhor, os moradores do bairro de Higienópolis continuam a se surpreender com o, agora sim povo, do outro lado. Recentemente eles protestaram contra a possível construção de uma estação de metrô em seus domínios. Uma quatrocentona moradora declarou: "Eu não uso metrô e não usaria. Isso vai acabar com a tradição do bairro. Você já viu o tipo de gente que fica ao redor das estações do metrô?,drogados, mendigos, uma gente diferenciada". Outro que: "Higienópolis correria o risco de ver um aumento de ocorrências indesejáveis, além da transformação da região num camelódromo".

Na época foi organizado em uma tarde de sábado o Churrascão da Gente Diferenciada, com centenas de pessoas na avenida Angélica fazendo churrasco, ouvindo musica com som portátil e outras "aberrações" dos diferenciados. A estação vai ser construida.

Recentemente foi inaugurada a Linha Amarela que, por enquanto, vai da Luz até o Butantã e no futuro até Vila Sonia, passando pelos lados do Morumbi. Por sinal o povo, ou melhor, também, moradores do Morumbi estão protestando e já entraram na justiça contra a instalação da linha 17 que sairá da estação Jabaquara até a futura estação Morumbi da linha amarela. Esta faz o que antes se chamava baldeação e hoje é chamada de transferência entre as linhas Verde, Vila Madalena-Vila Prudente e a Vermelha, Jabaquara-Tucuruvi. As inaugurações serviram para "desafogar" as estações Sé e Paraiso que dividiram os passageiros com a recém inaugurada estação Paulista. Dizem que de cabeça de juiz nunca é possível saber o que pode sair e de cabeça de técnico do Metrô é o mesmo. A estação Paulista fica na rua da Consolação e a estação Consolação fica na avenida Paulista.

A relativa proximidade de Higienópolis com a estação Paulista, que faz baldeação, ou transferência, com a linha Verde, chamou a atenção de um morador que foi conhecer os serviços do metrô, os trens coreanos super modernos, automatizados e sem necessidade de motorneiro. Como o bom e autêntico passageiro de primeira viagem ficou chocado: "Parece saída de show de rock. A linha foi recém-inaugurada e já precisa construir mais duas. Estou curioso para saber como as pessoas faziam antes." A descoberta de um novo mundo, na maior cidade do Brasil e na mais famosa avenida de São Paulo. "Estou curioso para saber como as pessoas faziam antes." Em que mundo será que ele vive ou vivia até chegar a esta duvida existencial?. Quero dizer a ele que centenas daquelas pessoas faziam antes, e continuam fazendo, percursos de onibus, trem e metrô e muitos ficando até tres horas no transporte coletivo. E estas mesmas pessoas que cuidam dos seus filhos, da limpeza da sua casa e da sua segurança.

Qual será a próxima "descoberta" e quando a gente diferenciada de Higienópolis vai mais uma vez nos surpreender?.


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Aniversário de São Paulo

Vinte e cinco de janeiro e as comemorações do ano novo paulistano, o início ano quatrocentos e cincoenta e oito. São muitas as festas espalhadas por toda a cidade, atendendo a todos os gostos, todas as tribos, todos os bairros desde o velho, antigo e bom centrão até os saraus da periferia, cada vez mais aceitos, com maior participação das pessoas apresentando suas musicas, poesias e romances.

A Cinemateca exibe até o dia vinte e nove o CINEMEAT
ECA SP com filmes em que a cidade é cenário, personagem e tema. A oportunidade de rever filmes, como O Bandido da Luz Vermelha, e conhecer os edificios do antigo Matadouro Municipal, inaugurados no ano de 1.887, mais precisamene no dia cinco de janeiro. São duas salas de exibição com equipamentos modernos e de segurança. É possível o acesso à biblioteca, aos jardins, aos amplos salões, um deles com uma simpática lanchonete, em que são mostrados equipamentos antigos de filmagem e de exibição de filmes.
Cinemateca Brasileira

Uma comemoração diferente é a Caminhada Noturna, chamada de Caça aos Fantasmas do centro de São Paulo, com início à zero hora do dia vinte cinco, concentração nas escadarias do Teatro Municipal, depois às dependências do próprio teatro, em seguida passando pelo Edificio Martinelli, Galeria do Rock, Casa da Marquesa, Igreja da Boa Morte, Monumento à Mãe Preta, no Largo do Paissandu e encerrando em frente ao prédio da prefeitura. Esse prédio foi erguido pelo Conde Francisco Matarazo no ano de 1.930 e foi sede das Industrias F. Matarazzo.

O Edificio Martinelli, na rota da caminhada, teve a sua construção iniciada no ano de 1.924 em uma época em que os edificios não passavam de cinco andares. O italiano Giuseppe Martinelli queria construir o edificio mais alto da América Latina e a idéia incial de doze andares assustou a população, com discussões que chegaram até a camara de vereadores. O persistente construtor conseguiu, por diversos meios e malabarismos, chegar à altura de trinta andares. Muitos, engenheiros inclusive, diziam que o edificio iria cair e para garantir e provar a segurança o próprio Giuseppe Martinelli resolveu ali morar, construindo a sua casa no úlimo andar.

Ainda na rota da caminhada há a a Casa da Marquesa, também conhecida como Solar da Marquesa, construida entre os anos de 1.739 e 1.754 e que entre os anos de 1.834 e 1.867 pertenceu à Maria Domitila de Castro Canto e Melo, a Marquesa de Santos, a amante de D. Pedro I.

Dia vinte e cinco é também o aniversário do Mercado Municipal, monumental e portentosa construção iniciada no ano de 1.928 e inaugurado no ano de 1.933. Acompanhando os números gigantescos de São Paulo ele é considerado o maior mercado varejista de alimentos do mundo, que recebe nos finais de semana e feriados até 50.000 visitantes. A festa começa na noite do dia vinte e quatro e vai até a tarde do dia vinte cinco, com interrupção à meia noite para uma queima de fogos de quinze minutos e na sequência é oferecido bolo de aniversário aos presentes.

Caipira lá dos lados do interior e Paulistano por adoção e gosto: "Obrigado São Paulo".

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Ser Tão Elis Eternamente

O que você fazia no dia dezenove de janeiro de mil novecentos e oitenta e dois?. A resposta à pergunta foi rápida: era bancário e trabalhava na rua Joaquim Floriano, Itaim Bibi. O Bibi foi acrescentado para diferenciar do Itaim Paulista da distante zona leste e lugar, já naquela época, de "uma gente diferenciada". Seu Bibi foi dono de chácaras que depois se transformaram no elegante bairro.

A maior parte do comércio, lojas, bares e restaurantes eram dirigidos pelos moradores do bairro, que ali também residiam em casas térreas, espaçosas com jardins na frente e quintais no fundo do terreno. A "força da grana que destroi coisas belas" transformou as casas e o antigo comércio em espigões e a Joaquim Floriano é rua de comércio chique. Muito provável que o Botequim do Hugo, na rua Pedroso de Alvarenga, seja um dos últimos imóveis, comercial na frente e residência ao lado. Construido em mil novecentos e vinte e sete foi durante muitos anos um empório, mantém a originalidade do local e é hoje um "bar da moda". Vale uma visita.

Naquele dezenove de janeiro por volta do meio dia o meu amigo Joãozinho telefona bastante aflito e com dificuldades para falar: "Zé, você não sabe o que aconteceu, quem morreu". O Joãozinho era representante comercial, ouviu a notícia pelo rádio do carro e naquele momento sentiu que precisava avisar os amigos. "Acabei de ouvir no rádio que a Elis Regina morreu". Foi um choque, Elis era a Maior, a cantora de maior sucesso no momento e já considerada uma das maiores vozes da música brasileira.

A rede social daquele momento eram o telefone e o rádio e a notícia foi se espalhando, muitos com dificuldade para acreditar e entender. As rádios interromperam as programações normais e passaram a transmitir direto do hospital, os fãs fecharam a Teodoro Sampaio e choravam abertamente. O velório foi no Teatro Bandeirantes, ali na Brigadeiro Luiz Antonio no coração do Bixiga. Durante a tarde, noite e madrugada milhares de fãs fizeram enormes filas para a despedida emocionada.

Foi ali no Teatro Bandeirantes que vi, várias vezes, o show Falso Brilhante e impossível esquecer o início com Ela entrando no palco cantando "No dia em que eu vim-me embora minha mãe chorava em ai, minha irmã chorava em ui e eu nem olhava pra trás, no dia que eu vim-me embora não teve nada de mais".

Ou em uma cadeira de balanço "balançando" no alto do palco: "quero ver o sol atraz do muro, quero um refúgio que seja seguro, uma nuvem branca sem pó nem fumaça, quero uma estrada que leve a verdade, uma floresta em lugar da cidade, uma estrela pura de ar respirável, quero um lago limpo de agua potável...".

A manhã do dia seguinte ficou gravada para sempre, a cidade estava triste, as pessoas compreendiam e sentiam que a musica brasileira ficava pobre, muito pobre e acompanharam o caixão, do Bixiga até o Morumbi, com a certeza que igual a Ela nunca mais.

Elis soube se posicionar contra o regime da época, deu oportunidade a inúmeros compositores novos e desconhecidos, valorizava os músicos que a acompanhavam.

O toca discos está "à toda" neste momento com muitos, muitos elepês de Elis rodando na vitrola.




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FUTEBOL DE FAZENDA

Em tempos que o futebol tornou-se o negócio mais rentável do mundo, ocorre-me lembrar de uma época em minha vida, a não tão distante infancia no Pontal do Paranapanema, onde o futebol literalmente fazia parte de nossas vidas e não era visto como meio de vida. Não, não se preocupem! Não é um ataque de nostalgia, não vou dizer que “...no meu tempo é que era bom...” ou coisa parecida. Talvez sirva de alento para lembrar aos incautos que o futebol não é simplesmente negócio ou paixão a ser explorada, muitas vezes de maneira cínica e oportunista. Quando o que vale são os interesses meramente comerciais e financeiros, entramos num perigoso campo, cujos desdobramentos pagamos caro: a exploração desenfreada explora os piores instintos e a exposição massificada de cenas de homens se estapeando selvagemente corre o risco de tornar primeiro febre, posteriormente, “paixão nacional”... Fico a imaginar nossos adolescentes “treinando” nas periferias para serem futuros e milionários astros do mma (se escreve em minúsculo mesmo!)

O trecho abaixo são cenas antigas, porém, repito: não se trata de endeusar o passado, mas de refletir sobre os pequenos gestos cotidianos de cada um de nós, que no conjunto compõem a História que alicerça nosso futuro. Ocorre-me uma frase do “filósofo da complexidade”, Edgar Morin: “A História faz os homens que a faz.”




Nos finais de tarde, ao chegar do cafezal, nos reuníamos no campinho diante da sede da fazenda para o racha que duraria até a escuridão chegar. Aquilo era mais que um jogo, era mesmo um modo de ser. A apoteose ocorria aos domingos, depois da Missa, quando times das fazendas circunvizinhas de reuniam para disputadíssimos “torneios”. Na torcida, nossos pais, vizinhos, moças, rapazes, gente de todas as idades.

Categoria no trato com a bola era o quesito balizador: tinha os de muita categoria, os de categoria regular e os pernas-de-pau sem categoria nenhuma. Naquela comunidade que deveria reunir aproximadamente 150 pessoas, excetuando as crianças muito pequenas e os muito velhos, regularmente existiam quatro equipes: 1° e 2° quadros, os juvenis e o grupo oficial dos pernas-de-paus, o MandaBrasa, que sempre faziam as preliminares das partidas e eram uma espécie de bufões. Não importava se perdiam ou ganhavam, eram a atração. Entretanto, o esforço dos pernas-de-pau mandabrasa nada tinha de patético: divertiam, mas eram modelos de garra, de esforço.

Quando se perfilavam para o início das pelejas, os MandaBrasa eram os mais elegantes dentro das limitações: meias de cores diferentes, mas levantadas; velhas chuteiras imprestáveis para os outros jogadores ou kichutes; camisas por dentro do calção. Solenes, litúrgicos, aguardavam as palmas. Mal o juiz autorizava o inicio e partiam em grupo na direção da bola, um bando desenfreado; não era raro dois jogadores da mesma equipe chocarem-se disputando a bola.




O time do MandaBrasa nunca ganhou um jogo, sequer empatou; fosse um clube com estatuto regular, certamente entraria para o Guiness book e desbancaria o Íbis, de Pernambuco, considerado o pior time do mundo. Entretanto, nunca houve grupo de jogadores mais felizes e unidos na busca de um ideal – e qual era o ideal “mandabrasa”? Simplesmente estarem em campo, correndo, disputando, jogando, sendo vistos pelos amigos, filhos, esposas. De algum modo, o “mandabrasa” era a personificação do torcedor comum, aquele que quer estar em campo, literalmente sentindo o calor de uma partida. Por conta disso, tinham a maior torcida, pois até os adversários torciam por eles – situação que certamente mudaria se num dado momento o MandaBrasa desandasse a marcar gols e ganhar jogos.

Nos jogos, havia uma proibição geral: jogadas maldosas e palavrões, em respeito à senhoras e moças. Era de bom tom se comportar bem: de certo modo, o futebol retomava sua origem nobre, quando os homens literalmente jogavam de paletó e gravata. Jogadas ríspidas só valiam se fosse para retribuir outra do mesmo gênero no momento imediatamente anterior, espécie de vendetta caipira, onde os alvos felizmente se resumiam às canelas dos adversários.



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DE VIOLAS E DE VIOLEIROS: SABEDORIA CAIPIRA, TRADIÇÃO QUE VEM DE LONGE

A sabedoria “caipira” pode não estar qualificada entre as grandes correntes filosóficas do pensamento ocidental, mas seguramente se insere entre as atividades humanísticas desenvolvidas para auxiliar o Ser Humano em sua trajetória, afinal, a “Sofia” (literalmente “sabedoria”) está presente no mundo desde a Criação – “...existe nela, Sofia, o caráter de plasmadora do Universo; é o Espírito Amigo dos homens, do Poder Divino, um eflúvio da glória do Todo Poderoso, resplendor da Luz Eterna...” (C.G. Jung). O estudo da sabedoria, seja denominada culta ou popular/leiga, tem como finalidade servir de instrumento para que o Homem usufrua da melhor maneira possível essa dádiva dos Deuses, a vida, especialmente captando e potencializando os recursos disponíveis ao redor de si para compreender o Sentido da Existência.

Um amigo português, António Alexandre Silva, um grande estudioso da história e dos costumes de sua gente, me contou a seguinte anedota sobre os alentejanos, que, segundo ele, podem ser considerados como os “baianos” de lá, pois o Alentejo, ao sul do país, dominado por monótonos campos de cultivo e calor abafado, ajudaram a criar por lá o mesmo estereótipo do povo da terra de Caymmy, tão difundido para o bem ou para o mal, mas de riquezas extraordinárias, seja na música, na culinária, na linguagem.
Diz a anedota citada por Alexandre: “...duas raparigas da cidade, andando de automóvel pela zona rural, avistaram dois alentejanos e combinaram entre si se divertirem á custa dos “caipiras”. E lá foram:
- Rapazes, vimos vocês e caímos de amores! Nunca vimos gajos tão formosos e gostosos e queremos vocês de qualquer jeito! Vocês topam? – os dois alentejanos, agradavelmente surpresos, não titubearam:
- Sim, sim, queremos! Agora!
- Calma, rapazes! Temos que nos preparar. Façam assim: estão vendo aquelas moitas de bambu, a beira do ribeirão? Pois vão lá, tirem a roupa e nos esperem, pois já estaremos lá! Aguardem cinco minutos!
E lá foram os dois. Despiram-se e ficaram a espera. Aguardaram com expectativa juvenil os tais cinco minutos regulamentares e nada das raparigas aparecerem. 10, 15 minutos, nada, a expectativa juvenil já quase completamente arrefecendo! 20 minutos, 30 minutos e os dois se entreolharam, naquele mútuo entendimento onde as palavras são desnecessárias:
- Compadre, acho que as raparigas nos fizeram de tronchos! Não vão aparecer coisa nenhuma!”
- Mas, o que faremos? Olhe para nós, aqui, pelados...” - o outro acendeu um cigarro:
- Ora, compadre! Já que estamos aqui, na moita, então vamos cagar!”

(A história poderia ter sido contada pelo grande violeiro, cantador e contador de causos, Levi Ramiro. É dele – que por sua vez atribui a autoria a seu pai – a incrível história, verdadeiro tratado de filosofia caipira, onde o matuto resume em uma frase o que custaria anos de estudo ou uma colheita de maçãs desabada sobre a cabeça: “quem tem tempo caga longe!”)




Levi Ramiro, cantador, violeiro, compositor, contador de causo, luthier, aqui com uma invenção sua, a cabacítara







Dos confins do Alentejo, talvez tenha vindo por engano nalgum navio, algum alentejano desgarrado – os alentejanos não costumam migrar, sendo aferrados à sua terra. Mas esse provável desgarrado talvez tenha trazido com ele uma “viola campaniça”, comum no Alentejo, instrumento bastante parecido com nossa viola caipira. Segue abaixo, reprodução de parte de matéria do site português, Moderniça, por Ernesto Veiga de Oliveira, especialista em violas portuguesas:

"A viola campaniça é um dos vários tipos de cordofones tradicionais portugueses, típico da região campaniça alentejana, o Campo Branco do Baixo Alentejo. É um cordofone com dez cordas (cinco ordens de cordas duplas), de enfranque muito pronunciado, e que se crê que tenha evoluido a partir da vihuela de mano medieval. Tem a seguinte afinação (da corda mais aguda para a mais grave): ré ré - si si - sol sol - DÓ dó - SOL sol.

Até à década de 1950, a viola campaniça era comumente utilizada no acompanhamento do cante alentejano e era o principal ou único acompanhamento dos “balhos”, os bailes realizados ao fim-de-semana ou nas festas. A sua afinação está bem adaptada à exposição da melodia das modas e cantigas alentejanas, com o toque em intervalos de terceiras, sendo que as cordas mais graves são geralmente tocadas soltas, fornecendo permanentemente a tónica e a quinta.
Com a progressiva eletrificação das aldeias do interior, o advento dos conjuntos de baile e a maior relevância que foi ganhando o acordeão nas funções de animação das festividades, as próprias alterações nos gostos musicais de grande parte da população e no maior acesso a outras sonoridades, a viola campaniça perdeu gradualmente a sua importância e considerava-se que este instrumento se encontrava praticamente extinto, que restavam poucos exemplares e quase nenhum tocador vivo...
"

Lá na terrinha como cá, assim como em todos os quadrantes da terra, violas e violeiros fazem história....
Faço questão de ressaltar que a provável alusão da semelhança da viola campaniça com a caipira nada tem de “científica, está calcada puramente na observação visual. O espaço deste blog é muito pequeno para um alongamento de tais questões. Acredito que nossa viola caipira, sua construção e afinações são criações genuinamente brasileira, sendo descendentes diretas das violas oriundas de diversas regiões de Portugal – beiroa, braguesa, trasmontina, campaniça, amarantina, toeira, de arame, etc. Todas descendentes da vihuela espanhola, tendo como característica principal dez cordas ou cinco cordas duplas oitavadas. A guitarra portuguesas de seis cordas foi introduzida em Portugal através da França, mas minha ignorância musical não me permite afirmar que esteja na origem direta do nosso violão. O estudioso Ernesto Veiga costuma agrupar estes instrumentos na curiosa denominação “cordofones beliscados”, muito apropriadamente.

Na primeira postagem do ano, um abraço cordial, fraterno, caloroso do povo do ser-tão paulistano a todos e todas!


Alguns exemplos de violas, daqui e de lá:




viola campaniça


viola de fandango















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A ARTE SALVA O ANO E HAVERÁ DE SALVAR O MUNDO!

Nesta que talvez venha a ser a última postagem de 2011, tempo para um breve, porém, nada sistemático balanço: ou melhor, uma rápida olhada num ano célere, que mal começou: ficou-me a impressão de que foi um ano com alguns meses a menos...
Ano de mulher presidente que governou com sobriedade e sapiência, mas nem sua sisuda cara de diretora de escola espantou os lacaios da corrupção milenar das terras brasilianas, não obstante a espantosa queda em série de ministros – com exceção do Jobim, que chutou o balde, os demais levam na testa o carimbo “suspeito”. Renovação? Veremos, veremos, tenho esperança! (Se o Brasil quiser de fato ser um dos condôminos do futuro do mundo, precisa com urgência combater a sério os alarmantes níveis de corrupção e investir muito, mas muuuito em educação. Depende dos políticos, dos juristas,mas principalmente de cada um de nós).

... precisamos mesmo de esperança, num ano confuso, com alegrias, mas também tristeza pela perda de amigos e gente importante do mundo das artes, gente que fará falta. Paradoxalmente, muito da esperança está aninhada eventos da Primavera Árabe, onde vendavais trazem alentos, mas também extrema violência.



Ao tirar o pó e mexer em coisas no fundo da mala, deparo-me com velhos amigos, meio esquecidos: Viola de Todos os Cantos, do Levi Ramiro e Vento Viola; O Clube da Esquina, do Milton e Lô Borges; Sonhos Guaranis, de Renato Teixeira; Espelho d’Água, filme que tem como mote as lendas do Velho Chico, produção de Carla Camurati; Desmundo, de tão real é quase um documentário. Rever essas produções é alento, pausa para ouvir e ver o que ainda dizem com sabor de novo: os clássicos não envelhecem!



Por falar em clássicos, fomos agraciados com excepcional safra dos nossos artistas do ser-tão paulistano: Ricardo Vignini e seu parceiro Zé Helder, do Matuto Moderno lançaram Moda de Rock, clássicos do rock arranjados para viola caipira, que deve estar entre os melhores lançamentos do ano e como prêmio, o instrumento vindo da Península Ibérica e que se tornou um dos símbolos de brasilidade, alça vôos e em janeiro deverá pousar em Nova Yorque para duas apresentações.



Poderiamos falar de muitos outros trabalhos, que não caberiam neste blog:mas vale a pena mencionar o novo CD de nossa Musa do ser-tão, Katya Teixeira, a quem nunca cansamos de assistir, ouvir e admirar. “Feito de Corda e Cantiga” é uma confraria musical reunindo um time de primeira: os compositores Giordano Mochel, Jean a Paulo Garfunkel, Luis Perequê e o “roseano” Chico Branco, mais uma arreunião – do verbo arreunir, criado pelo grande Chico Maranhão, espalhado pelo mundo por Doroty Marques – de músicos como Ney Couteiro, Ricardo Vignini, Thomas Rorher, Noel Andrade, Cássia Maria, etc., as presenças marcantes do guru ZéMaria, Daniel Figueiredo, Amauri Falabela, Marcello Pretto, André Venegas. É um trabalho que vai muito além da música para entretenimento: “tem o cheiro e a cor da terra”, como bem poderia afirmar Vital Farias; “são acordes vicejantes da alma de nossa gente”, como afirmou entusiasmado o empolgadíssimo Zé Mangabeira, com o qual concordou Joca Ramiro! Para ressaltar e ilustrar tais afirmações, conto abaixo uma cena, presenciada não faz muito tempo, num dos shows da Katya, na área de convivência do SESC Vila Mariana:



“Começa o espetáculo e um velhinho pareceu incomodado com a agitação inevitável do espaço, o entra e sai de passantes, gente indo ao restaurante ou á piscina, outros que em vez de educadamente dar a volta, insiste em passar pelo meio do publico e outros que adoram correr pela passarela de ferro, que une os blocos.

De cara amarrada e justamente indignado, o idoso se preparava para sair, visivelmente contrariado, como quem tem coisa melhor para fazer numa tarde de domingo do que ficar no meio daquela “confusão”! Já estava quase fora quando trinaram os acordes de um desses ternos de reis, incrementado com novos arranjos com viola, percussão, violão e as brincadeiras vocais que ela executa com peralta leveza, antes de encetar a letra propriamente dita. O velhinho deteve-se, como que fulminado por aquele sopro pungente da característica voz cristalina e, meio curvado, voltou-se na direção do palco, os olhinhos meio que piscando atrás das grossas lentes dos óculos. Sua expressão que continuava enfesada aos poucos se desanuviou e ele buscou uma cadeira vazia, onde sentou-se e pôs a mão no queixo, assim permanecendo, um quê de admiração e incredulidade pelo que via e ouvia. Vez ou outra, como que contrariando o dono, pés, mãos e cabeça moviam-se ao embalo dos trinados da viola, dos molejos percussivos, dos volteios vocais.

Que sensações, que lembranças aquele canto tradicional evocavam naquele octogenário, que num momento irritava-se com o peso dos anos e a seguir marcava passo, seguindo os ponteios com movimentos corporais aparentemente involuntários? Que magia transformou os singelos acordes e a pungente voz que o conduziram desde a ranzinice e o cansaço de uma existência certamente atormentada por artroses e outros aborrecimentos, de volta, outra vez – como diz a fábula! – ao menino que sempre pulsará em seu coração, que sempre estará à espera?
A música tem esse poder instantâneo de deslumbrar, ofuscar, pois sua reação é imediata, rasgante, visceral. Naturalmente só ocorre quando o artista é dotado do raro dom de sensibilizar e isso é muito mais do que técnica, é alma e coração.”

Assim, a arte cumpre seu outro papel: além de emocionar, louvar a beleza e lembrar sempre a origem divina da vida, igualmente tem o poder de transformar essa mesma vida, apontar novos horizontes, pois a descoberta é incessante...



Finalizando, 2012 promete: já está no forno, dourando, o disco do Noel de Andrade, denominado “Charrua”. Aguardem!

E:
para que não nos acusem de parcialidade, 2011 marcou a volta de Chico Buarque ao disco, num belíssimo trabalho. Mas deste, a grande mídia fala bastante


E. T.
Em qualquer balanço de 2011, não pode faltar a lembrança dos cursos de introdução à história da arte, no MASP, sempre ao primeiro sábado de cada mes (a começar por fereveiro) e a belíssima temporada da peça O Casamento Suspeitoso, de mestre Suassuna, no teatro do SESI.

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