DOIS MARES E MUITOS PARCEIROS

Quem conhece o trabalho de Kátya Teixeira, seus três Cds lançados – katchere, Lira do Povo e Feito de Corda e Cantiga, sabe da seriedade de sua proposta. Trabalhos distintos entre si, mas que se completam e mostram a cantora, a compositora, a pesquisadora, a instrumentista e em todos eles, a parceria, seja com consagrados músicos, seja com gente simples do povo - vaqueiros, congadeiros, lavadeiras. Mestiça e cigana da música, Kátya converge, conflui, brinca, diverte, ensina, dialoga e só não abre mão da autenticidade.
O Cd 2Mares, está sendo feito em parceria com o violeiro e cantador mineiro Luiz Salgado. Atualmente residindo em Araguari, tem lançados tres Cds – Trem Bão, Sina de Cantadô e o infantil Navegantes – além do DVD Noite e Viola. Voz marcante e dolente, ecoa o cantar dos aedos e rapsodos que ao longo dos séculos cantam para o povo o Amor, a Luta, a Devoção. O encontro e parceria musical de Katya e Luiz, é o podemos afirmar sem medo de erro como ideal, em qualquer dos âmbitos que o termo enseja.
2Mares diz por si: o mar português e brasileiro, mais de cinco séculos de laços culturais e políticos amalgamados, que se manteve fiel e igualmente distintos: em qualquer parte do mundo onde se ouvir uma cantiga portuguesa ou brasileira, se saberá a origem, e ao mesmo tempo lembrará o que de comum existe. Como nos lembra o músico e pesquisador Alexandre Silva, de Portugal, 2Mares “...representa um marco a ter em conta no mundo cultural luso-brasileiro, um marco que ajuda a recentrar o nosso intercâmbio em bases culturais sérias, que possa constituir-se como exemplo do melhor que se faz do outro lado deste Grande Mar Atlântico que nos separa, mas sobretudo nos une...”
A produção e lançamento do 2Mares esbarra no velho problema que assola a produção independente: dinheiro – ou seja, a falta dele! Porém, os tempos são de ação e não de lamentações. A Catarse viabiliza o projeto, onde é possível comprar o disco antecipadamente. Como esclarece o jornalista Julinho Bittencourt:
“...não se trata de dar nada a ninguém. O artista está gravando o seu disco, como é independente, não tem gravadora, nem patrocinador, nada. Então, ele vai na internet e vende o disco antecipadamente. Então, um monte de amigos juntos compram, tá na mão a grana pra fazer o serviço. Quando são artistas queridos, com um grande talento, como é o caso da Kátya Teixeira e do Luiz Salgado quem ganha mesmo é o público. Ganha porque esses dois fazem uma coisa que muito poucos artistas no Brasil se preocupam em fazer, que é resgatar a nossa cultura popular. Eles mergulham num tipo de canção que vai lá, nos lugares mais distantes da nossa geografia e nossa alma e desvendam com a música quem somos, de onde viemos e, por que não, para onde estamos indo.”
Deixo a palavra final com a cantora e compositora mineira Consuelo de Paula, cujo texto é um poema de rara beleza:
"Tem um rastro luminoso marcado na estrada. Tem um gesto gravado entre o centro da cidade de São Paulo e o interior do cerrado mineiro. Isto aconteceu porque duas aves cantadeiras resolveram se encontrar. E são daqueles encontros que depois de acontecidos nos dão a impressão de que sempre existiram. Os dois são meus parceiros de composição, e por isso, descrevo o gesto entre estes dois pássaros de asas inteiramente abertas. Um rastro deixado em forma de canção. Eles traçam outra linha entre a nossa Terra de Santa Cruz e a Península Ibérica através da lembrança dos encontros musicais impregnados em nossa alma.
Esse sentimento de pura arte resultou em novas canções que celebram apenas a beleza. Elas trazem as expressões mais profundas do ser humano.
Pairam acima das guerras. Insistem em falar de bonitezas. Seguem adiante com os cortejos que atravessam as dores e transformam tudo em cânticos amorosos. O CD 2 mares será naturalmente delicioso e emocionante. Kátya Teixeira e Luiz Salgado juntos: cantando, tocando e compondo!
Ouviremos cantorias como As Sete Mulheres do Minho (tema tradicional português musicado por Zeca Afonso) e Meu São Gonçalo (composição dos dois artistas) como se estivéssemos num barco que um dia foi caravela e amanhã será flor em forma de dança e música.
Enquanto isso as ondas destes dois mares vão escrevendo sobre nossos eternos desejos de encontros. Encontros marcados à luz e poesia".

Trava-se uma corrida com o tempo (sim, "com" e não "contra", pois precisamos dele como aliado!), pois o prazo final para arrecadar o dinheiro suficiente é 25 de junho, à meia noite:
Veja através do link abaixo o site do Cd 2Mares, com vídeos, fotos, depoimentos e mais detalhes, inclusive os textos completos do Alexandre Silva e do Julinho Bittencourt. O de COnsuelo de Paula foi reproduziso acima na íntegra.

Acesse direto aqui o 2Mares no catarse: http://catarse.me/pt/2mares

Aqui um "tiquinho" de belezura, só depende de nós, o conteudo total:
https://soundcloud.com/2-mares/as-sete-mulheres-do-minho

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MURZELO ALAZÃO, O CAVALO DO POVO

...e o que seria o acontecimento do ano, desvelou-se no fiasco do ano! O Prinspe Zé Mangabeira, aquele que garante ser o herdeiro legítimo da verdadeira Familia Real Brasileira, anunciara há tempos, em pompa e circunstância, suas núpcias reais. O malogro, coisa que pode pegar um simples mortal desprevenido, era inteiramente impensável em se tratando de realezas, especialmente em tempos carentes de celebridades: porém, inexorável e implacável a lâmina afiada do destino nada poupou, não obstante o espanto que fez cálices se desprenderem de delicadas mãos a seguirem os indefectíveis “oh!”, que se seguem a tais gestos.
Entretanto, por mais improvável que fosse, aconteceu: mais vexatória a situação, impossível: diante do altar, horas e horas a consultar o relógio à espera da noiva; padre, autoridades, amigos, adversários, todos no aguardo e o raio da noiva que não chega. Zé Mangabeira firme, enfrentando em seu terno de veludo o insuportável calor e os risinhos irônicos, os pigarreios, a turba inimiga como aves de rapina saboreando o ataque. Passam-se as horas, os minutos, o temor cresce até que o mais temível e fatal dos temores se confirma: a noiva de Zé Mangabeira não comparecerá à cerimônia de casamento, pois fugiu com outro! Derreado, o Prinspe senta-se ao lado do altar e se põe a chorar... acreditem: nada há de mais triste neste mundo do que um Prinspe Herdeiro a chorar! O trajo amarfanhado, as plumas desbagaçadas e caídas, convidados a se retirarem pisando pétalas murchas, um desconsolo tocante. E para culminar, cruéis vilões a gargalharem sem pena o fiasco principesco.
Dentre seus detratores, prato cheio e feito: os que sempre ridicularizaram as pretensões Monárquicas do Prinspe, pegaram pesado: as zombarias ocorriam por toda parte, em rodas de desocupados, pelos bares da vida, programas humorísticos de televisão, todos, entre risos cruéis, só falavam no “enlace que tornou-se laço”, laço de ridicularias. Bem feito, vaticinavam: vítima de suas fantasias egocêntricas. Vez por outra, alguém piedoso amenizava as gozações, enaltecendo a capacidade de quem sonha o renascimento de uma Era de Ouro, anseio comum a indivíduos ou nações: desejo da volta do melhor de suas existências, situado num ponto qualquer do passado longínquo...”
Como se diz que desgraça pouca é bobagem, poucas horas depois, outra noticia explode: na cobertura onde mora, tumulto e confusão, caos! Zé Mangabeira ameaça matar-se. A comoção, a principio local, se amplia; comoção municipal, estadual, nacional. Amigos, bombeiros, súditos, curiosos, todos acorrem. Era preciso agir rápido e com determinação, pois a se confirmar o triste fim do último dos Mangabeiras, não seria apenas o fim trágico da estirpe fundadora do Império, mas era a própria Nação humilhada. Em rápida deliberação, se conclui pela nomeação de uma Comissão de alto nível e assim decidido, Joca Ramiro e seu cavalo, o garboso e inefável Murzelo Alazão são designados a comparecer ao local em desesperada tentativa de evitar a tragédia.
Uma rápida esquipada e lá estávamos á porta do prédio onde reside provisoriamente o futuro Rei do Brasil, assim que a Monarquia for restaurada. O inevitável: Defesa Civil, Corpo de Bombeiros, Policia Militar, Brigadas de cavalariços, o diabo-a-quatro. De cara um impasse: um coronel denominado Lustroso, repleto de condecorações e medalhas, não queria que eu me aproximasse montado no Murzelo. Esbravejou:
- Tirem esse maluco daqui! Quem esse caipira pensa que é, montado nessa velharia em plena cidade?
- Estou em missão oficial! – retruquei - E agradeça aos céus por isso, do contrário não poderia garantir sua segurança por ofender o mais poderosos dos equinos! Sou Joca Ramiro! Tenho autoridade! E este aqui é o inigualável Murzelo Alazão, cavalo que vale um reino! - bufando, o Coronel Lustroso ia sacando o sabre, quando a voz do Prinspe Zé Mangabeira trovejou lá do alto:
- Só falo com Joca Ramiro! Ele é meu Ministro Extraordinário no futuro Reino!- voz e ditos de Prinspes são assim: distinguem a grandeza inata da fidalguia, exalam autoridade natural e nobreza, mesmo a dizer coisas banais. Mas esse Coronel Lustroso era mesmo enviesado a reconhecer a altivez da realeza principesca, era um bruto destituído de pundonor:
- E que porra é Ministro Extraordinário? - achei o cúmulo, falta de decoro, estive a ponto de dizer “você sabe com quem está falando?”, mas felizmente contive-me, o tipo não era para rebaixar-me.
- Ora, meu caro! O que não falta é ministério neste país! – aparteei diplomaticamente , porém em seguida impus – Com licença, tenho carta branca e não tenho tempo a perder! – ante sua breve indecisão, forcejei as rédeas e avancei! Pretendia adentrar até a cobertura numa cena espetacular, o Murzelo trincando os cascos naqueles pisos de mármore, mas o acanhamento das instalações do edifício, deteram-nos. Convenci o Murzelo a se acomodar no saguão e ficar à minha espera, rédeas presas num pilar romano.
Subi a dita Cobertura, num apertadíssimo e rangente elevador. Bem, cobertura é, porque fica no último andar, mas as acomodações do Prinspe eram precárias. Desconfiei que aquele fosse o alojamento do zelador do prédio – seria esse o disfarce do futuro Rei do Brasil? Fingindo-se humilde zelador de decrépito prédio no Centro Velho?
Passei por barreiras, por membros da elite das Forças Especiais á espreita. De fora ouvia a voz trovejante do Prinspe: “Não se aproximem! Ou salto!” Adentrando a moradia, dei com a impagável cena: nos fundos do cômodo, todo despenteado , o Prinspe Herdeiro da Familia Real Brasileira, ameaçava se atirar pela janela enquanto segurava uma corda! Notei, com espanto, que a corda que o Prinspe segurava tinha uma das pontas presa no enferrujado cano onde pendia um velho chuveiro... que diabos queria fazer o Prinspe? Ao ver-me, exclamou cerrando o punho:
- Joca Ramiro, meu Ministro Extraordinário! Eu sabia que tu haveria de seguir-me neste derradeiro gesto! - Como assim, seguir-te?
- Saltando comigo! Serás glorificado, farás história, escreverás a história!
- Como escreverei a história se atirar-me contigo no derradeiro gesto? – A coisa estava mesma a se levar como grave! Zé Mangabeira não queria apenas matar-se, mas me levar junto! E como eu escreveria a História se me acabasse junto com a mesma? Cada uma! Mas, com vontades reais não se brinca e o causo estava longe de resolução - Meu amigo, o que o leva a tão extremo e tresloucado gesto?
- A honra, meu ministro extraordinário! Lamentavelmente é chegado um tempo em que honras principescas e reinóis são aviltadas e enxovalhadas! Incapaz de suportar as vicissitudes desses tempos bárbaros, só me resta despedir-me deste vale de lágrimas! Saio da vida para entrar na História, salvaguardando a Honra Real! Minha estirpe milenar não será difamada! O que é a dor física? Apenas uma distração! – Pasmo estava e continuei. Parodiar Getúlio Vargas era o cúmulo!
- Que mais desumano e contra as mais elementares leis da civilização ocidental do que um Prinspe ser abandonado no altar, exposto a zombaria das massas incultas? Agora, meu corpo não passa para mim de um empecilho, de um obstáculo e dele me desprendo antes do tempo tanto quanto possível. – que falastrão está a me sair esse Zé Mangabeir, agora cita Rousseau. O que não faz um rabo de saia na vida de um homem! Perde o tino, desgoversa-se! Mas, não coloquemos toda a culpa no pobre rabo de saia! ´ É o amor, a paixão a desnortear corpos e mentes, nem nobres Prinspes escapam de tais armadilhas!
- Ora, ora! Chamo-o a luz da verdade! Os amores, meu caro! Ah, por vezes belos tanto quanto volúveis, não há de faltar pretendente ao Real Trono do Brasil e...
- Ministro e Conselheiro! Contenha tuas ímpias e torpes opiniões! Como ousas tratar meus sentimentos com sórdida leviandade? E o que faltava! Minha Dama não era uma qualquer, mas a Musa Definitiva! Mil versos já haviam sido compostos a louvar sua glória! – dedo em riste Zé Mangabeira encarou-me com olhos terríveis, porém a seguir, bradou, como a clamar aos céus: - E a infiel a tudo desprezou, tratando de arranchar-se com um cabrinha sem eira nem beira, um joão-ninguém-qualquer, sem títulos nobiliarquicos, sem honrarias de qualquer monta... Ah, Ministro! Que tempos são esses? Trocar-me por um fuleiro...
- Impossivel!
- ..., sem servos! Nem um cavalo manco o chifrim possui! Sem prestígio nas belas letras, nas armas, um destituído! - Bem, andei tomando informações e corre à boca pequena que se trata de um lendário Rei das Terras do Norte, um descendente de sábios! – falei com cuidado, não era hora de contrariar o Prinspe.
- Conversa fiada! Um bufão, um mandrião chinchorro! Um mequetrefe solerte, eis o que resulta o falsificador! Pensando bem, que se lasquem! Mas, como suportar isso? Mundo insano e cruel, devo mesmo dar-te adeus!
A coisa se apresentava grave, ecce facti ignis! Estava o Prinspe disposto a não arredar pé do intuito de por fim à ignomínia que se tornara sua vida. Creio ter encontrado uma solução desesperada e igualmente suicida – com perdão do jogo de palavras!
- Meu Prinspe! Bem sabes que sou seu fiel seguidor e conselheiro e como vossa intenção irremovível é dar cabo a vida, que assim seja, mas uma morte digna, para ser cantada em prosa e verso! Que seja a morte do século, que neste local se erija uma torre, um altar ao homem que com altivez suprema desprezou a própria glória, em nome do amor!
- Eu sabia! Eu sabia! És extraordinário, Ministro Extraordinário!
- Contudo, se reparares bem, o local não é adequado! Lá embaixo é uma via pública, o bairro é mal afamado... Já imaginou o escândalo de um Prinspe esbagaçado numa fétida ruela? Já podes imaginar a língua do povinho...
- Que diacho! Tens razão... Ah, mas eu não pretendia mesmo saltar e sim enforcar-me! – abaixou a voz: - Não contes a ninguém, mas tenho medo de altura!
- Tirar a vida por privação do abundante ar! Cena impressionante, trágica, tornar-te-às um mártir! Ato corajoso, semelhante ao haraquiri! Já vejo as manchetes na grande imprensa: Zé Mangabeira, o samurai tupiniquim! Contudo rogo-te que não faças isso da maneira como pretendes... - Estou decidido, nada agora me impede! – e começou a lacear a corda no próprio pescoço e se aproximando do cano enferrujado do chuveiro.
- Não, não faças isso! – falei decidido - Apelo à sua consciência cívica, um Prinspe não haveria de ser causador de um vexame de tal monta e...
- Não é vexame, é o gesto final!
- Não, não é o gesto final que me refiro e sim à forma ridícula como Vossa Alteza pretende se enforcar! Não vês que este cano está enferrujado e que não aguenta o peso de vosso corpo? Será apenas uma frustrada tentativa de suicídio, serias motivo de chacota por toda a cidade, onde já se viu! O sacrifício de um Prinspe é coisa para constar nos anais da História como algo grandioso, espetacular, para ser gravado na mente dos povos, não como um gesto tresloucado de desespero! No máximo conseguirias provocar uma inundação! Poderias ser processado por dano ao patrimônio! E sem mais cano para apoiar a corda, como é que eu poderia acompanhar-te no prodigioso e sensacional “gesto final”?
- Então, está acabado! Que tempos são esses? Nem morrer com honras se é mais possível? É chegado o tempo dos músculos em vez de cérebros!
Sem opção, Zé Mangabeira desceu os muitos lances dos 15 andares do velho e decadente prédio. No exato instante em chegamos ao saguão, o Coronel Lustroso estava desatrelando o Murzelo do pilar romano. Contrariado, perguntei ao homem a razão de tal atrevimento:
- Ora, esse pangaré deve ter comido ração estragada, pois está soltando cada pum! – Eu ia avisar que jamais fizesse tal ofensa a um cavalo nobre como o Murzelo Alazão, mas foi tarde. Num relincho terrível, o mais poderoso dos cavalos ergueu as patas dianteiras e num rápido e inesperado rodopio girou as ancas e então fechei os olhos para não ver a desgraceira. Ouvi o barulho e o grito de horror! O arremate certeiro de alguns quilos de material coliforme fecal atingiu em cheio o coronel em seu uniforme coberto de condecorações e medalhas! A terrível defecada pastosa de cor esverdeada escorria do uniforme, culminou nas botas lustradas. Estupefato e patinando para não cair, aturdido a perder o rumo, o ilustrado homem, soltou as rédeas.
Um alarido se levantou da multidão: o povo andava louco da vida, o Coronel Lustroso tinha fama de bater em pobres coitados e agradar poderosos. Era chegada a hora da vingança, mesmo de modo insólito. Aplausos e hurras e olas e vivas ensurdecedores! O povo gargalhava e batia palmas e dançava um improvisado carnaval.
Zé Mangabeira, acreditando ser a ele que se destinavam os aplausos, acenava para a multidão, um sorriso alucinado cortava seu rosto, os olhos brilhavam! Num salto elegante e vistoso, alçou a sela do Murzelo, que, faceiro e de cauda empinada, ergueu a cabeçorra e sacudiu as ancas, trincando os cascos. Constrangido, o coronel não sabia se dava ordens peremptórias para prender o atrevido cavalo por desacato ou se livrava das fezes frescas que emporcalhavam seu uniforme de gala. Como a adivinhar-lhe os pensamentos, o Murzelo lançou-lhe um relincho jocoso, à guisa de imitar uma gargalhada e seguiu altaneiro por entre a multidão em festa...

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GRAZIELLA HESSEL NO SHOW "ESPELHO"

O repertório do show “Espelho” que a cantora e compositora Graziella Hessel apresentará na próxima sexta-feira, 07 de junho, no Painel Cultural diz e muito de sua trajetória, e, especialmente do que ela pensa sobre o papel da música em nossas vidas e na sociedade como um todo. Serão 17 canções abrangendo um grande painel que inclui Noel Rosa e Vadico (Conversa de Botequim); Baden Powel e Vinicius de Morais (Os Afro-Sambas Capoeira, Consolação e Canto de Ossanha); Chico Buarque em dois momentos de criação distintos (Feijoada Completa e As Vitrines); Milton Nascimento de Fernando Brant viajando pelos interiores do continente latino americano (San Vicente e Ponta de Areia); Cartola e Elton Medeiros (O Sol Nascerá); Cartola, Herminio Belo de Carvalho E Carlos Cachaça (Alvorada); Maysa, sua grande especialidade (Ouça). Tom Jobim aparece em vários momentos, em parcerias com Newton Mendonça (Samba de Uma Nota Só e Desafinado), Chico Buarque (Eu Te Amo), Dolores Duran (Estrada do Sol) e Wave. Além dessa constelação de compositores, duas faixas de sua própria lavra (Roda e Caravelas). A mescla de artistas de vários momentos da história da MPB, a atemporalidade dos clássicos, assim chamados por comporem nossa – por assim dizer! – identidade cultural.

O palco para Grazzie (evoquei o carinhoso apelido, comum entre os amigos e familiares também por conta do seu CD, de sugestivo título: Grazie a Dio) não é somente o espaço onde exerce e desfila sua técnica vocal apuradíssima e versatilidade musical; o palco é também o espaço onde exerce seu papel de educadora e projetista social, pois para ela música é muito mais que entretenimento, mesmo que sejamos todos enlevados pela leveza terna, pura beleza de suas interpretações. Alguns espetáculos realizados ao longo dos últimos anos:
Tempos e Terras Brasileiras, A Noite do meu Bem, Samba Anedotas, Chuva de Vinicius, Frutos da Garoa, Mais Maysa, entre outros.

Merece destaque o importante trabalho pedagógico que realiza junto às comunidades: Corais Populares, Oficinas de Canto e Violão, musicalização infantil, técnica em terapia ocupacional em trabalhos em escolas, teatros, Hospitais.

No show “Espelho” estará acompanhada do violonista Lucas Mandetta, que assegura uma viagem alegre e colorida pelos sons do Brasil.


Sabe aquele tiragostinho de bom gosto que é para "atiçar" os sentidos?. O bom gosto nos sentidos do ouvir, do ver, de sentir a musica de Graziella Hessel. Bem no clima de São Paulo, com um sentidozinho portenho à la o genial  Piazzolla. Preparando o espirito para sexta-feira.




Serviço: Painel Cultural, sexta feira, 07 de junho, as 21:00 horas.
PROJETO "Sons do Brasil" - SAGITA PRODUÇÕES (11) 5561-9981
Rua Bernardino de Campos, 210 – Brooklin Ingressos: R$ 15,00

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Ser tão paulistana.

"Sou uma paulistana apaixonada pelas coisas do Sertão. Embora possa parecer contraditório, apesar de completamente inserida no contexto urbano, sem qualquer pretensão de abraçar a lúdica vida do campo, confesso que a música, os hábitos e a cultura do sertão me atraem constantemente. Gosto da maneira de falar dos nordestinos, da comida caseira dos mineiros, da aparência dos cantadores regionais e, principalmente, da música, da poesia e da literatura de tais localidades.  Isso tudo sem deixar de amar a cidade grande onde nasci. A vida na metrópole com sua proximidade a todo tipo de informação é minha opção de vida, não chegando a me incomodar essa aparente contrariedade. No entanto, confesso que o que me fez conseguir entender melhor esse pequeno paradoxo existente no meu modo de ser, dividido pelo cego amor entre a cidade e o campo, foi deparar com um interessante blogue na internet, de nome “Ser-Tão Paulistano”.
Sim, o “Ser-Tão Paulistano” é um blogue que fala das coisas do sertão. No entanto, ele foi criado no contexto da cidade grande. Deliciosamente organizados, seus assuntos vão desde uma agenda paulistana de eventos que acontecem na cidade e que são voltados à cultura regional, dicas de passeios temáticos e lúdicos nos arredores da cidade e até mesmo receitas naturais para tratamento de bronquite.
De forma interessante pude perceber que a própria estrutura traçada pelos autores do “Ser-Tão Paulistano” na forma de conduzir os assuntos tratados no blogue, remonta essas minhas antigas reflexões sobre a possível contrariedade existente entre nascer e morar na cidade e amar as coisas do sertão. Mais interessante ainda, o blogue me traz a possibilidade de viver as coisas do sertão que amo imensamente dentro da própria cidade grande, que também aprecio.
Então, em primeiro lugar, “Ser-tão Paulistano” ilustra um modo de vida de alguém, ainda que não seja nascido nesta cidade, mas que esteja tão integrado no contexto de São Paulo, a ponto de não poder se identificar mais como um indivíduo que é somente paulistano, mas sim como um cidadão muito paulistano, mais ainda, um “ser tão paulistano”, no sentido de intensidade mesmo. Divagando um pouco mais, podemos perceber que essa análise não se limita ao indivíduo, mas abrange também à localidade em que ele está inserido: à nossa cidade de São Paulo. Assim, Sampa passa a ser entendida como um grande sertão, a floresta urbana de prédios, aço e concreto, que tanto nos assusta e encanta. Encontramo-nos, então, diante do nosso “sertão paulistano”, que amamos de forma paradoxal. Finalmente, podemos voltar à ideia mais óbvia, ao início de toda essa reflexão e ao objetivo maior do blogue “Ser-Tão Paulistano”, que é também o meu objetivo: o de unir pessoas que amam as coisas do sertão no seu sentido literal, ou seja, as coisas desse nosso Brasil imenso, que não se limitam à cidade de São Paulo. Então “Ser-Tão Paulistano” é também o grupo composto não só por paulistanos, mas sim por todos aqueles que, inseridos no contexto da metrópole, amam as coisas do sertão mineiro, nordestino, goiano, amazonense, enfim, que amam o nosso imenso sertão brasileiro...

Desta forma, concluindo, o blogue “Ser-Tão Paulistano” me abre as seguintes possibilidades: “ser tão paulistana”, estar completamente inserida nesse nosso “sertão paulistano” e interagir com pessoas que apreciam as coisas do sertão... Enquanto as férias e a possibilidade de passar alguns momentos agradáveis em algum sertão do Brasil estão distantes, vou ficando mesmo por aqui, passeando pelo “Ser-tão Paulistano” e suas inúmeras possibilidades de vivências culturais."    
                                                          Soninha Gomes


O Vinícius. o de Morais, disse que "a vida é a arte dos encontros, embora haja tantos desencontros pela vida" e, com a permissão do poeta Joel Joca Ramiro, dos desencontros que surgem os encontros e vice versa, não necessariamente nesta ordem.

O Ser Tão Paulistano nasceu dos primeiros olhares seguido do encontro no Café Fubá com a Fernanda e o Giba, o da Viola, ao som do melhor da moda de viola, da melhor musica regional, da melhor musica brasileira, das boas conversas, boas risadas e das boas trocas de boas energias. Início, e manutenção, de grandes amizades com  trilha do violão, da viola e da voz do Oswaldinho, da percussão e voz da Marisa, dos causos contados pelo Giba, o da Viola, da visita constante, e com direito a "canjas" de músicos, poetas, artistas, cantadores e cantadeiras. No complemento da noite o café no bule, coado com coador de pano e o insuperável bolo de fubá feito pela Marisa.  O Café Fubá se foi, desencontro?, e a esperança de que até o fim do ano estará em funcionamento na Pompéia o novo espaço do Oswaldinho e da Marisa, reencontro e novos encontros?.  Em uma noite de homenagem ao grande João Bá o encontro com o Joel, Joca Ramiro, que de imediato deixou o nosso sitio mais rico com seus belíssimos textos. Lembrar Nelson Rodrigues "a vida como ela é" e a "arte do encontro" com a Soninha só poderia ter acontecido no Bar do Frango, citado aqui em muitas e muitas crônicas e "avisos" de apresentações mais do que especiais. Soninha é paulistana, nascida e criada na zona leste, pelas bandas da Vila Carrão e Vila Formosa, mora em Santo André por questões profissionais mas não perde a régua e o compasso, sempre percorrendo os Caminhos de Peabiru, está sempre por lá, a zona leste, e um pedacinho de lá é o Parque São Lucas onde se localiza o afamado Bar do Frango. Entre trabalhos academicos, da labuta de funcionária pública, da organização e divulgação dos eventos do Bar do Frango, das leituras dos poetas e pensadores sempre sobra um tempinho, ufa!, para a produção de textos "que manifestam minha visão do mundo". É o primeiro de muitos a serem postados no Ser Tão Paulistano. 

Bem vinda Soninha. Ah!  todos convidados para, no próximo Sarau, ouvirem entre outras, uma emocionante declamação da poesia de Carlos Drumond de Andrade pela Soninha, um dos seus poetas de cabeceira.  

A cantora e escritora Graziella Hessel sempre cantando e nos encantando, em todos os sentidos, com sua presença no Bar do Frango pede para "dizer" que: "Sonia Gomes, a Soninha, adorável articuladora, em menos de dois meses se destaca na divulgação e apoio aos artistas frequentadores do Reduto Cultural "Bar do Frango", além de vir também enriquecendo o público de lá ao lhes apresentar textos e pensamentos de grandes filósofos. Sua presença eu nomeio de "doce revolução"; sua incorporação ao Espaço, ao meu ver, trata-se de determinismo histórico: complexidade, aprofundamento tão necessários às expressões e idéias artísticas. Soninha, apaixonada por música. é mestre em Filosofia Política e Bacharel em Direito, com visão própria sobre o mundo contemporâneo e pensadores. Um "Salve, Salve" a essa grande guerreira!."    

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Sou + Virada

As padarias e os botecos dividem hoje o palco para as livres manifestações das pessoas com as decantadas redes sociais e, ainda bem, salve o livre arbítrio, para o bem ou para o mal.

A Virada Cultural em São Paulo é um dos eventos mais esperados, uma oportunidade de conhecer principalmente o Centrão, todas as tribos que por aqui habitam, os mais variados ritmos musicais, espetáculos de dança, artes plásticas, cinema entre muitas e muitas escolhas.  Dezenas de palcos, centenas de atrações e trez milhões de pessoas à procura de diversão, alegria, cultura, congraçamento de raças, opiniões, gostos, culturas como um exemplo de que as pessoas procuram estar juntas e ampliar suas relações. É bonito e até mesmo emocionante ver, estudar e, principalmente, aceitar a diversidade das pessoas com suas roupas, seus gestuais, suas alegrias e tristezas. Criticas existem quanto ao critério em que são escolhidos os artistas que se apresentam na Virada, as discordâncias estão dentro do aceitável, mesmo que as críticas partam dos artistas que não foram escolhídos. Não há efetivamente quem seja contra a realização do evento, as possíveis partes não escolhidas, pois de uma forma ou de outra a cultura é o que prevalece. Há os que acham que o dinheiro envolvido seria mais útil em educação e hospitais e os que assim pensam são aqueles que não dependem da escola e assistência médica fornecida pelo estado. Quase certo que frequentam caríssimos espetáculos, principalmente se houver globais que fazem o convite no programa do faustão, escolas particulares, planos de assistência médica e consideram que o "povão" não deve ter oportunidade de aprendizagem e conhecimento. E ai na segunda feira a repercussão de toda e estrutura montada e todo o resultado de bom para as pessoas foi esquecido pela enorme repercussão de atos de bandidagem. A Folha de São Paulo tem a manchete A Virada do Arrastão e pouco "fala" da parte artística, nas rádios os ouvintes se manifestam criticando que o evento chamou a atenção dos bandidos, nas redes sociais as mesmas críticas contrárias à realização da Virada. Um ouvinte de rádio diz que este evento seria ideal na Suécia e no Japão, lá existe civilidade, e que no Brasil o povo não sabe se comportar. O que ele diria do quebra quebra recente em Paris quando os torcedores comemoraram (?) o campeonato conquistado pelo seu clube?. Pessoas conversando, alguém cita a violência da virada e está aberto o coral das opiniões: "que horror", "que vergonha", "onde se viu juntar tantas pessoas", "não pode ter este tipo de coisa", (tipo de coisa é o evento). Nesse grupo de pessoas, as quais conheço, ninguém passou pelo menos por perto, estavam sim em lugares mais seguros, nas suas casas assistindo o zorra total ou em bares e restaurantes "seguros" Um leitor escreveu para a folha: "fui pela primeira e última vez na Virada Cultural. Me senti na Idade Média. Desorganizado, sujo, mal iluminado, sem segurança, fétido, sem criatividade", com toda a certeza é apenas uma opinião individual, rancorosa e preconceituosa. É certo que houveram arrastões, assaltos, um jovem morreu, infelizmente, alguns locais mal iluminados e outras falhas de organização. Propor o fim do evento, cercar com paredes, restringir o horário, e outras, não é a solução. Cobrar que haja melhor policiamento, que a prefeitura providencie a iluminação ideal para todos os dias do ano, estudar formas de melhorar é o que devemos fazer. Não é proibindo a livre manifestação, o direito de circular que se resolve, o Estado é o responsável pela segurança, por educação, por trabalho e por cultura.

É proibido proibir.   

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A escolha de cada um.

Logo nos primeiros dias bombou, aqui pelos lados de Sampa, um site concebido para receber protestos de consumidores inconformados com os preços cobrados em restaurantes, bares, lanchonetes, padarias e demais considerados e com a proposta, pelo nome, de incentivar o boicote destes lugares. O site já está sendo analisado para atender outras capitais e exportando  o jeito paulistano de reclamar.

O conceito de inflação é amplo, geral e irrestrito e, como os bons economistas, os proprietários dos estabelecimentos tem uma definição própria e exclusiva de administração dos custos. Estações rodoviárias e aeroportos são "um caso à parte" e estão nos primeiros lugares dos preços por demais abusados. Os comerciantes desses locais agem como se fossem donos do último oásis antes da travessia do deserto. Os dos aeroportos alegam os altos custos de aluguel, condomínio, funcionários diferenciados e impostos, sempre os impostos, como justificativa.

Após a publicação dos protestos dos consumidores os donos de restaurantes sairam da toca e responderam com a alegação de serem casas diferenciadas, pagarem em dia os salários dos funcionários, até parece que não é a primordial  responsabilidade de patrão, adquirirem produtos das melhores procedências, chefes de cozinhas importados, alta carga de impostos  e choramingas tradicionais. O conhecido padeiro francês, sempre lembrado por ter sido casado com uma atriz global, em defesa dos seus preços chamou os responsáveis pelo site de nomes, imagino, não constarem do vocabulário dos seus clientes e citados em bares de menor nomeada. Sempre considerei que as pessoas frequentam os lugares que querem, fazem as suas ceias e lanches nos lugares que escolhem, consideram os preços e o tamanho dos seus bolsos. Se estabelecimentos de renomados e internacionais proprietários cozinheiros cobram os preços muito acima é por terem fregueses, ou clientes, com condições de pagar  mesmo que seja só por exibicionismo. Não é a conhecida lei da oferta e da procura?. 

Não li nenhuma reclamação do preço do churrasquinho grego do Centrão, do dogão das Kombis, do yakyssoba feito pelo china, ou coreano,  na esquina da Paulista com a Brigadeiro, da tapioca preparada pela cearense do Largo do Cambuci, das fatias de melancia e abacaxi dos carrinhos de mão. Há um discreto charme da burguesia de procurar locais da moda, com enormes filas, garçons ocupados e atendendo mal, mas com "gente bonita", de preferência com celebridades que chegam e passam como um cometa. O conceito de "gente bonita" é outra coisa difícil de engulir, já que o papo é sobre comidas, pois me parece que gente bonita só existe nos jardins e vilas olimpias e vejo muita gente bonita, bonita mesmo lá, um pequeno exemplo, nas rodas de musica e amizade do Parque São Lucas. Se estão na sabedoria do atendimento e dos preços não fica bem no outro dia propor o boicote do lugar. Não faço defesa dos proprietários, acho mais fácil prático e harmônico ter em mente que se cobram aqueles preços é porque tem o seu público.

De minha parte e, acompanhado dos meus amigos, continuarei a frequentar os bares,  botecos e restaurantes onde o proprietário também é amigo e sente-se feliz com a nossa presença, conversaremos, daremos risada, ouviremos boa musica.  

E sempre que possível, nas passagens pelos lados do Centrão e da Praça da Sé, o sempre bom churrasquinho grego. Com suco grátis.    

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Lucas Ventania no Bar do Frango


Naqueles tempos, ainda hoje esporádicamente, lá pelos lados do interior, a gente ouvia, ainda hoje ouve esporádicamente, alguém se expressando: " que ventania, heim?". Batata !!!!, pensava ou comentava com os amigos um leitor de Nélson Rodrigues. Lá vinha alguém cambaleando, naqueles tempos apenas os homens cambaleavam pelas ruas, em um não ensaiado e individual dois prá lá, dois prá cá. O "coração traiçoeiro batia mais que um bongô" e junto com as pernas "tremia mais que as maracas descompassado de amor". Boemios e bêbados românticos nas ruas a inspirar poetas e os gozadores de plantão, onde o "brincar com a desgraça alheia", por mais difícil de entender em uma época de politicamente correto, era saudável, entre amigos e tudo terminava, muitas vezes, com todos conduzindo o "infeliz"  até o portão de sua casa. Ah, sim, ventania era um vento não muito forte e não muito fraco, e vice versa, que "ventava" apenas para o apreciador da branquinha. Ventania também era um goleiro do ABC, negro, magro e que embaixo das traves voava para agarrar as bolas chutadas pelos adversários e, que se bem ou mal me lembro, também era um apreciador das noites e das branquinhas e na volta para casa tinha um dificuldade de se defender das ventanias do percurso.

Tenho a pretensão que o Tatau, sonhador proprietário do Bar do Frango,  vai compreender esta minha viagem e entenda que tem momentos em que a "memória volta prá traz" e aconteceu agora quando ele avisa para o próximo sábado a presença do cantador Lucas Ventania. Tenho ainda a pretensão que o cantador compreenda, como bom mineiro lá de Alpinópolis, também conhecida como Ventania as minhas divagações.

A Sonia Gomes, relações públicas e hostess informal do Bar do Frango, "nóis é periferia mais nóis é chique", conta que que "apesar de ter vivido grande período de sua vida fora do Brasil, Lucas coloca como ponto alto de sua arte as matizes do sul de Minas, expressando no seu canto a simplicidade do lugar onde nasceu, localidade bucólica, repleta de serras e cachoeiras. Lucas gravou três CDs: "Nós é Jeca mais é jóia", "Pedaço de Chão" e "Lucas Ventania". Mais amadurecido em seu terceiro CD, que leva o próprio nome do artista, Lucas Ventania realizou um verdadeiro trabalho de pesquisa histórica e instrumental com relação à música brasileira de raiz, ou seja, a verdadeira música caipira. Nesse trabalho, o mineiro utiliza largamente instrumentos típicos da autêntica música do sertão, como a sanfona e a viola caipira de dez cordas. Ventania, termo que ajuda a compor seu nome artístico foi adotado em homenagem à sua cidade natal, Alpinópolis, ou Ventania, como é popularmente conhecida na região. Vale a pena conferir."

Concordo,o Joca Ramiro, confrade das boas letras aqui do lado também concorda e já confirmou a sua mesa preferida, ao lado do balcão e de frente para o palco. 

O Bar do Frango fica na Av. São Lucas, n, 479, quase ao lado da Igreja de São Lucas. A Avenida São Lucas começa na Luis Inácio de Anhaia Melo, altura do 5.000. A Avenida do Oratório também é uma boa referência pois cruza com a São Lucas. Não tem couvert artístico, consumação mínima, wi-fi. Tem preço justo, boa comida, boa musica e bons amigos. Precisa de mais?. 


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PAULO VANZOLINI

“De noite eu rondo a cidade A te procurar...”
Não é fácil escrever sobre Paulo Vanzolini: louvá-lo, elevá-lo aos píncaros da glória não combina com seu jeito bonachão e simples, um senhor que se o encontrássemos na rua e não o reconhecêssemos, levaríamos conosco para o resto do dia seu jeito amigável e simpático de ser. E, por outro lado, não dar à sua obra o valor e o destaque que merecem da história da música e da ciência do Brasil, é injusto.
São Paulo tem muitas caras, as caras dos imigrantes e emigrantes, as muitas tribos. A cidade abraça descolados e radicais de vários matizes; pelas ruas, cores e gestos, idades se misturam; na mesma calçada cruzamos o empresário, o hippie, o mauricinho, a dondoca, a perua, a lady elegante, o operário. Inúmeros são, sem conta, os personagens que poderíamos denominar como “a cara de São Paulo”: artistas, anônimos, esportistas, artistas plásticos, até mesmo políticos (vá lá, um pouquinho de boa vontade), contudo, dentre tantos que podem significar a cara de nossa cidade, sem qualquer sombra de dúvida, Paulo Vanzolini está em qualquer lista, pois sele amava como poucos essa cidade à qual dedicou toda a sua vida profissional. E fazia isso simplesmente sendo o que era: o cientista com importante trabalho de pesquisa e o compositor que extraía seus temas diretamente de suas andanças pela cidade. A música Ronda, cujos versos iniciais eu cito na abertura dessa missiva, é sintomática em qualquer tentativa de entender ou tentar definir Paulo Vanzolini: sempre à procura de desvendar mistérios – como é natural a todo cientista, desvendar os mistérios da alma de nossa gente: o Cuitelinho, recolhido por ele no interior paulista, que foi incorporada ao folclore nacional e é conhecida até no exterior, precisamente em Portugal.
- doutor em zoologia, distinção conferida nada menos pela Universidade de Harvard, herpetólogo (especialista em répteis), professor emérito da USP, autor da lei que criou a FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), teve entre seus alunos o escritor e médico Dráuzio Varella. Era respeitado por seus pares cientistas como pesquisador meticuloso e tinha o mesmo cuidado com os sambas que compunha, chegando às vezes a demorar um ano numa composição até dá-la por pronta... Em suma, um pouquinho só de Paulo Vanzolini, o sambista-cientista, que circulava com igual desenvoltura entre os dois mundos, convivia com Aziz Ab’Saber, Ernest Mayr, Adoniram Barbosa, Carlinhos Vergueiro, Eduardo Gudin, Elton Medeiros, Toquinho, Chico Buarque, entre outros.
Discografia:
2003) Acerto de contas • Biscoito Fino • CD
(1997) Paulo Vanzolini • Movieplay • CD
(1990) Paulo Vanzolini-grandes compositores-série inesquecível • RGE • LP
(1981) Paulo Vanzolini por ele mesmo • Eldorado • LP
(1974) A música de Paulo Vanzolini • Marcus Pereira • LP
(1967) Onze sambas e uma capoeira • Marcus Pereira • LP
CUITELINHO
Cheguei na beira do porto
Onde as onda se espaia
As garça dá meia volta
E senta na beira da praia
E o cuitelinho não gosta
Que o botão de rosa caia,ai,ai
Ai quando eu vim
da minha terra
Despedi da parentália
Eu entrei no Mato Grosso
Dei em terras paraguaias
Lá tinha revolução
Enfrentei fortes batáia,ai, ai
A tua saudade corta
Como aço de naváia
O coração fica aflito
Bate uma, a outra faia
E os óio se enche d´água
Que até a vista se atrapáia, ai.
O “Cuitelinho” remonta ao folclore pantaneiro, fala da saudade do soldado que retorna da Guerra do Paraguai. “Cuitelinho” é outro nome que se dá ao Beija-Flor. O tema foi recolhido durante uma pescaria - não sei se no Pantanal ou no interior paulista e foi gravado por muita gente, inclusive Pena Branca e Xavantinho, Nara Leão, Dércio Marques, Milton Nascimento, etc. Observação: Paulo Emilio Vanzolini não tocava nenhum instrumento.

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