O BAR DO FRANGO APRESENTA: CORDEL, REPENTE, CANTORIA

Um evento típico da generosidade do povo do ser-tão paulistano!



Vai ser no Bar do Frango, sob a batuta do Tatau, no proximo domingo a partir das 18 horas.
O Bar do Frango do Tatau, é aquele que é para poucos, localizado na Zona Leste, local simples e acolhedor, onde os felizardos que o descobrem passam inesquecíveis momentos: boa musica, boa prosa, bons petiscos, boa cachaça e demais destilados e cerveja sempre no ponto - mesmo no rigoroso inverno atual do sertão paulistano.



O Bar do Frango, quem conhece sabe: é desses lugares que poderia ser um símbolo da generosidade hospitaleira do nosso povo paulistano, democrático por excelencia, reduto autêntico da cultura brasileira.



O próximo domingo, a partir das 18 horas, será dedicado àprática do Cordel e do Repente, duas verdadeiras representações da riqueza de nossos ritmos.
Ambos - Cordel e Repente - remontam séculos de existência em nossas terras brasílicas, provavelmente desde o século XVI, ou seja, existe desde que o Brasil existe. O mais impressionante é sua inserção entre as classes populares, tendo tido sua época de ouro no Nordeste do século XVIII até meados do XX.
O Cordel é basicamente a transcrição da literatura oral para a escrita, geralmente em forma rimada, impresso e ilustrado com xilogravuras nas "edições" mais caprichadas, mas a grande parte contém a dita xilogravura apenas na capa. O nome "cordel" deve ser porque desde os principios, nas feiras típicas do nordeste, os folhetos ficavam expostos em "barbantes" ou pequenas cordas...

O Repente são versos improvisados geralmente por dois "cantadores" -daí também ser denominada "cantoria" simplesmente. A riqueza e talento dos "repentistas" é impressionante, pois qualquer coisa, qualquer tema serve para versos perfeitamente rimados, criados na hora. Câmara Cascudo relata em sua obra "Vaqueiros e Cantadores" desafios de repente que duravam dias!

Bem, no bar do Frango, no próximo domingo, teremos uma pequena mostra dessas genuínas representações de nossa cultura popular!

Lá estaremos!


SERVIÇO:

O Bar do Frango está localizado na Av. São Lucas, 479, altura do nº 5.000 da Av Luiz Inacio de Anhaia Melo ou Av do Oratório, 2300. O metrô mais próximo é a estação Vila Prudente.

ENTRADA FRANCA!




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DO MARANHÃO PARA O MUNDO: PAPETE



Uma indestrutível Bandeira de Aço tremula no ponto mais alto do panteão musical brasileiro. E por lá brilhará para sempre, fazendo parte da imensa constelação de nossas maiores estrelas. Junta-se aos  conterrâneos João do Vale e Irene Portela, a Zé Gomes, a Dércio Marques, Vinicius de Moraes, Cauby, Vila-Lobos, aos Gonzaga pai e filho, a Tom Jobim, entre outros. Nos deixou cedo, a 26 de Maio de 2016, aos incríveis 68 anos, pois Papete tinha o entusiasmo e a curiosidade de um adolescente. Seus discos de estúdio conservavam frescor, leveza, informalidade, como se fosse um show ao vivo.


            “Boa noite meu povo
            Que veio aqui me ver
            Com essa brincadeira
            Trazendo grande prazer

            Salve grandes e pequenos
            Este é o meu dever
            Sair pra cantar boi
            Bonito pro povo ver”
            (trecho de Urrou do Boi, Toada de Coxinho do Boi de Pindaré)

            Enquanto esteve entre nós, foi um incansável lutador, que o jeito menino não ocultava: quando o assunto era cultura brasileira seus olhos brilhavam. Para ele, vida e arte caminhavam juntas, uma se inseria na outra. As batidas do coração de sua filha Manuela, gravadas quando ela ainda habitava o ventre materno e inseridas no final de uma canção de um de seus discos, revelam seu compromisso, o afinco e a leveza, arte e vida, entrelaçadas.
O foco principal de seu interesse sempre foi o universo de seu querido estado natal, Maranhão, o tão maltratado Maranhão, economicamente corroído por uma sequência trágica de governantes inescrupulosos, não obstante possuir riquezas inestimáveis. Lembro-me de certa vez ter lido uma declaração sua onde dizia com todas as letras que o Maranhão era o estado mais musical do Brasil.


Papete sabia das coisas e ao dizer isso, não estava longe da verdade: não foi uma bravata, nem qualquer intenção de denotar superioridade acendendo rivalidade entre irmãos: Papete tinha a alma leve e simples de homem do povo, de cujo seio jamais se afastou, apesar de possuir talento para ser uma estrela internacional. Mas ele (bem como seu conterrâneo Chico Maranhão) sempre quis ficar e se entende porque: uma rápida passada d’olhos pela imensa quantidade de ritmos, de danças, talentos, tudo temperado por um manancial multicor, mostra porquê: o Maranhão é um sol, uma poderosa usina de energia, um coração cujo pulsar cintila Brasil afora. Não é por acaso a terra de dona Irene Portela, Chico Maranhão, João do Vale, além do próprio Papete.

Embora os temas maranhenses ocupem a quase totalidade de sua obra, sempre foi um atento observador da cultura de todo o país e por toda sua obra se espalham temas típicos de várias regiões do país: Luiz Gonzaga (O Xote das meninas), Renato Teixeira (Vira (No Meu Quintal), Paulo Ruschel (Cancha Reta) são exemplos imediatos, além da longa parceria com Toquinho e inúmeras contribuições com Diana Pequeno, Almir Sater, Zé Gomes, etc.


Nascido José Ribamar Vianna, em Bacabal a 08/11/1947, era músico em tempo integral conforme concerne aos gênios. São antológicos os textos escritos sobre ele pelo produtor Marcus Pereira, impressionado com suas performances. Pela gravadora de Marcus, conhecido por ter feito um dos melhores mapeamentos musicais do Brasil - 16 belos e importantes discos, 4 para cada região do pais: Musica Popular do Nordeste, Centro-oeste, Sul e Sudeste -  Papete lançaria seus primeiros discos, além de atuar como pesquisador para a série ”Musica Popular.” O reconhecimento de seu trabalho ultrapassou fronteiras sendo ainda muito jovem. Foi eleito por três vezes como um dos 3 melhores percussionistas do mundo em 1982, 1984 e 1987, no Montreux Jazz Festival, na Suíça.

Papete foi protagonista de um Era de Ouro da Musica Popular Brasileira, entre o final dos anos 1970 e 1990, quando houve uma importante revalorização da musica de caráter regional e importantes artistas que não orbitavam em torno dos “caciques” da MPB puderam lançar seus trabalhos e com isso fizeram histórias, produzindo álbuns que se tornaram raridades.  “Bandeira de Aço” e o famoso encarte que o acompanhava é um exemplo clássico. Eu tenho o LP, em bom estado, mas sem o encarte. Os amantes do vinil hão de entender o que quero dizer: certos discos fazem sentido quando você além de ouvir, pode ver ou tocar com as mãos, como é o caso do “Milagre dos Peixes”, do Milton, onde cada faixa ou grupo de faixas correspondia a uma cor. As cores do encarte, portanto, funcionavam como ‘código’, o “Milagre” em particular, pois as letras haviam sido censuradas e só a parte instrumental veio a publico. “Bandeira de Aço” foi relançado em CD, porém o foi com tremendo descuido: uma capinha mixuruca, onde só consta o titulo das musicas. Um erro irreparável, falta de respeito para com público e artista.


São muitos os seus discos antológicos. Bandeira de Aço deve ser o mais representativo, pois se trata de uma síntese da cultura popular que anima desde a capital até os mais distantes rincões, da praia ao sertão. A fusão com ritmos caribenhos dá um tempero especial. E por falar em disco antológico, como não lembrar de “Planador” e sua magnífica parceria com Almir Sater em “Luzeiro”? Ou o melhor solo de rabeca,  por Zé Gomes, na faixa “Pastorinha”?

Bela Mocidade é outro belo disco, dentre tantos. .É um trabalho que fala do Maranhão como um todo, onde cabe bem a expressão “tudojuntoemisturado”: cidade, interior, praia, passado, presente, pinceladas fortes de reggae, memórias afetivas.


Foram 18 albuns  ao longo de aproximadamente 40 anos de carreira, o que dá a média de quase 1 disco a cada dois anos, numa impressionante regularidade, sempre tendo o Maranhão como tema principal, porém, sempre voltado, sempre antenado com a cultura brasileira como um todo: a arte popular, de todos os recantos, manancial inesgotável – diferente de outros ritmos, melhor dizendo de outras modas que mesmo tendo grande valor, com o passar de alguns anos, cansa e se esgota por si.

Papete, ou melhor, o pesquisador de cultura popular José Ribamar Vianna, idealizou, coordenou e publicou no ano passado o livro “Os Senhores cantadores, amos e poetas do bumba meu boi do Maranhão”, cujo titulo altamente sugestivo fala por si.


UMA CURIOSIDADE: Enquanto finalizava esse texto ouvindo um de seus LPs na minha simpática vitrola, deparei-me com um texto datilografado dentro da capa do disco, um breve comentário sobre ele. Quem o escreveu? Não sei. Pode ter sido eu mesmo muito tempo atrás, mas de fato creio que não, tem particularidades nas quais não me reconheço. Mas é um comentário tão espontâneo e sincero que acho importante reproduzi-lo aqui, na integra. A hipótese mais crível é que o antigo dono ou dona  do LP, apos ouví-lo teve um rompante poético e descarregou no papel tudo o que sentiu. Verdade é que ficou lindo, muito bom, pois é a cara do Papete e acredito que ele certamente gostaria de saber o que seu trabalho inspirava nas pessoas.
Um texto de puro sentimento e verdade. Assim, com o mesmo ímpeto que o autor deve ter escrito, tomei a decisão de aqui reproduzir, nesse singelo texto que tem somente a intenção de mencionar a grande importância de Papete para a musica e para a cultura brasileira de um modo geral.
Eis o texto (se alguém identificar o autor, agradeço a informação):


“PAPETE

Papete arrasta voce para um universo de sons incomuns, luminosos ou sombrios, que lembram uma entrada pelos matos, um avanço em que o sol brinca de esconde-esconde, um serpentear de um riacho e, de repente, uma cachoeira.

Manifesta sua força quando toca uma singela modinha, nas beira da calçada, antes que a lua apareça ou quando participa da “folia de reis”.

Fala, de perto a parcela de sangue selvagem de cada um, provoca um chacoalhar de sentimentos, surpreende voce, confunde um pouco, depois lhe permite um enriquecimento da consciência. Pode ser uma “brincadeira” bastante séria: “Dou um doce a quem souber”...reserve um tempo para Papete, ouça-o várias vezes e voce saberá.” (autor desconhecido)



Papete se foi. Mas o seu estandarte está impresso a fogo vivo na Bandeira de Aço que tremula elegante e soberana em lugar nobre: o coração de cada brasileiro.

“Na ilha de São Luis tem um boizinho chamado Barrica, que no mês de junho gostam de brincar à luz das fogueiras na terra e  das estrelas no céu.  Barrica emociona: traz a esperança de que nossa alegria há de durar para sempre, como para sempre há de durar o valor de nossa  gente”
(introdução a Rompendo Fogo)



DISCOGRAFIA:
Berimbau e percussão (Discos Marcus Pereira)  1975)
Bandeira de aço (Discos Marcus Pereira)  1978)
Água de Coco (1980/1979)
Planador (1982)
Papete (1987)
Rompendo fogo (1989)
Bela Mocidade (1991)
Voz dos arvoredos (1992)
Laço de Fita (1994)
Música Popular Maranhense) (1995)
PAPETE (1996)
O melhor de Papete (1997)
Tambô (1999)
Era uma vez... (2004)
Jambo (2006)
Aprendiz de cantador (2008)
Estrada da Vitoria ( 2010)
Senhor José (2013)



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CONSUELO DE PAULA NA BIBLIOTECA MARIO DE ANDRADE



Não há imagem mais apropriada: do Brasil profundo, e de todos os Brasis, ecoa um poderoso tambor comandado mãos firmes e por uma voz delicada e suave, que viaja pelas muitas idades de nossa terra e pousa em cada coração, em cada ouvido; e o pulsar dessa voz é como pétalas multicoloridas: é voz que nos atinge de corpo e alma, voz de Consuelo de Paula que canta o Brasil e sua gente, reverberando em cada célula do país mestiço; Consuelo canta para e por todos nós.

Na próxima quarta feira, 4 de maio, a mineira de Pratápolis radicada em São Paulo inaugura a terceira temporada do projeto Imagens do Brasil Profundo, as 20 horas, na simpática e tão significativa para a vida cultural da cidade, Biblioteca Mario de Andrade, logo ali no inicio da Rua da Consolação,próxima as estações de metrô República e Anhangabaú.
Ver e ouvir Consuelo de Paula é uma dádiva para nossos olhos e ouvidos. Sua presença, sua performance no palco, a maneira como se doa em cada trabalho, seja um show, a produção de um CD ou a consolidação de suas muitas parcerias, faz de cada um de seus trabalhos uma experiência única, eivada de emoção, de alegria, de autenticidade.



Neste show da próxima quarta feira, deverão ser evocadas suas memórias da rica musicalidade de sua Pratápolis natal e região, quando desde a tenra idade se acostumou aos ritmos de Moçambique, Toada de Congo, Folia, Jongo, Samba, Baião e Maracatu, acompanhada por seu violão e seus tambores. Esperemos que nos brinde com as interpretações soberbas de sua intensa e rica carreira: são seis álbuns – Samba Seresta e Baião, Tambor e Flor, Dança das Rosas, Casa, Negra (também em DVD) e O Tempo e o Vento –participações em trabalhos de outros artistas e um farto material, suficiente para alguns discos solos ou em parceria. Também atua como produtora e lançou em 2011 um livro de poesias, em parceria com Lucia Arrais Morales.

Quem for ao evento,sairá de alma lavada, com a certeza de vivenciar uma experiência encantadora e fascinante: Consuelo é a artista das sete vozes, de muitas outras vozes, de muitos outros timbres, de muitas novas cores, capaz de dar vida as múltiplas facetas  da terra mestiça: terra de serestas, de baiões, de toadas, de sambas, de toadas. Sempre na “...na mais pura macieza, na maior delicadeza...”, como ela própria diz na adaptação acrescida a um dos clássicos do nosso cancioneiro popular: a antológica Riacho de Areia.

SERVIÇO:

CONSUELO DE PAULA, no projeto “Imagens do Brasil Profundo”,
dia 04 de maio, quarta feira, 20:00 horas
Local: Biblioteca Mário de Andrade
Endereço: Rua da Consolação, 94

Entrada Franca.






  

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OS TRES MUNDOS DA VIOLEIRA FABIENNE MAGNANT

  

Certa vez o saudoso músico gaúcho, Zé Gomes, tido entre seus pares como imparcial rigoroso conhecedor da arte musical, foi chamado a emitir opinião sobre um violeiro que gozava de grande sucesso de publico e critica: era a coqueluche do momento, aquele com quem todos queriam tocar  e todos queriam assistir, um desses fenômenos que marcam época, que tanto podem ser para sempre consagrados como rapidamente esquecidos.

Diante do vídeo, com seu jeito peculiar de observar, demorava mais do que o usual para expor a esperada opinião. Certos movimentos incompreensíveis com a cabeça confundiam os interlocutores, não se sabendo se era de aquiescência ou reprovação; passavam-se os minutos, longos, e nada do aguardado diagnóstico: lá pelas tantas , é visível nele certa inquietação, misturada a admiração;  algo o incomodava – quem o conhecia, sabia. Por fim, inopinadamente, num gesto de impaciência, mas também de alívio, vaticinou:
 “Mas ele só toca!

Um violeiro que toca. E que toca bem, que é uma virtuose em seu instrumento; tem estilo e pleno domínio de sua arte: o que se pode querer mais? Pergunta intrigante, mas não totalmente estranha em se tratando da compreensão do sentido da arte e da música em particular.

Embora não conste em nenhum manual, quando se fala da arte autêntica e de seu valor intrínseco, a questão fundamental não se resume a técnica, embora a mesma seja um componente até mesmo obrigatório. A indagação intrigante é sempre cabível aos sinceramente curiosos: afinal, qual o objetivo da arte?
Entreter, informar, desenvolver sensibilidades? Que seja isso ou muito mais, que seja no show business ou um batuque numa roda de amigos; sabe-se que uma singular relação se estabelece entre artista e público e que a mesma tem componentes misteriosos, incompreensíveis. O que pode explicar a magia que desperta e conduz a emoção, esse elemento que permeia todas as formas de arte, erudita ou popular? Que seja a emoção imediata ligada ao presente, ou outras, mais antigas, dispersas, distantes no tempo e espaço, a emoção é o guia, que nos permite transcender o ordinário comum, em geral, banal.



A Arte constrói pontes que se ramificam e ligam os elos invisíveis da vasta memória humana; ela própria é um caminho de dimensões indefinidas, construção atemporal, através da qual a odisséia humana se realiza e a história se cumpre no vasto mosaico onde as culturas humanas se expressam em suas peculiaridades e no que tem de comum, a ALMA - o resquício divino que nos bafejou.

É na História dos povos e na Alma que os anima que podemos, talvez, encontrar o que  chamamos sentido da vida: são dimensões simbólicas que nos induzem sempre que nos deparamos com uma expressão de arte pura – som, imagem, palavras, etc. É nesse momento que alcançamos o limite da técnica e o ultrapassamos; também nesse momento nos damos conta das limitações artísticas que apenas reproduz o que foi imposto exteriormente, e não a expressão do conteúdo latente, que se encontra nas dobras da memória. A arte pura, entretanto, instiga os fugazes insigths reveladores que vem à tona quando despertados, levando-nos inevitavelmente à emoção.

Por isso, não é raro um artista impressionar pela técnica, sem, contudo, emocionar!  Talvez por isso o veterano Zé Gomes tenha mencionado intuitivamente que o habilidoso violeiro “apena. tocava!...” (Músico 24 horas por dia, ele não se impressionava com virtuosismos, para ele era apenas a faceta externa, que poderia não significar nada além dos confetes brilhantes atirados aleatoriamente para impressionar o público e em alguns casos, até mesmo ludibriá-lo. Ao artista se requer algo mais, numa palavra, Alma! Seu diagnóstico, pouco claro a principio, no fundo era simples: àquele violeiro, possuidor de grande virtuose, faltava “alma”, esse elemento sutil, etéreo, que se constrói dinamicamente a cada momento, e que se mostra em toda sua magnitude no espaço entre o artista e seu público – pouco importa que seja o pequeno palco de um bar ou a arena de um estádio: em todas as situações, prevalece a linguagem da alma, a essência do diálogo público/artista).

                                                    o multinstrumentista Zé Gomes 

VIOLAS E VIOLEIROS, UM UNIVERSO À PARTE

O mundo dos violeiros é um universo à parte, repleto de crenças, lendas, elementos mágicos. No seio das comunidades camponesas sua figura mistura-se à atmosfera local: para o violeiro tradicional, habitante do grande Brasil do interior (ou Brasil profundo), a viola é mais que um instrumento, tem a dimensão de um ser, com personalidade e vontade próprias e seu comportamento pode ser determinado pela atitude do violeiro para com ela, a viola. Um dos maiores violeiros da história, Gedeão da Viola, referia-se ao instrumento comparando-o à “mulher amada”, devendo ser tratada com carinho para “tocar bonito”. Por outro lado,  reage mal ao violeiro abusado que busca subjugá-la com floreios e adereços dispensáveis; Zé Côco do Riachão, outro mítico violeiro, lhe emprestava feições sacras, era o instrumento de fiel devoção que o acompanhava nos ofícios de folias, procissões, reizados e demais festas religiosas. A viola está presente em todo o Brasil, é quase um acessório de indumentária, um objeto capaz de determinar um estilo de vida.
No país continente, a viola é mais que um símbolo cultural, em torno da mesma se respira uma aura espiritual, umbilicalmente ligada à história das comunidades.

Mesmo com o advento da globalização, as muitas maneiras brasileiras de tocar viola estão longe de uma uniformização, cada lugar ou região tem sua peculiaridade.  No estado de São Paulo, por exemplo,  a viola tocada no litoral é mais alegre do que sua similar interiorana, onde é mais melancólica, dolente, triste até (seria a solidão do caipira, como é comum chamar o camponês do interior, ao contrário do caiçara do litoral, mais gregário e naturalmente festeiro?).  De cada estilo ou gênero, tanto no litoral quanto no interior, sobejam as inúmeras variantes: o catira, com sua batida característica, em dupla e junto ao grupo de dançarinos que acompanha com palmas e sapateados; atenção para o cururu, o pagode, consagrados por Tião Carreiro. E a viola nordestina, cujos trinados induz muito naturalmente à narração de sagas e epopéias, com seu aspecto solene e reflexivo? E por aí vai: o jeito de tocar o instrumento, seu timbre, sua afinação, sua cor, sua personalidade conta a história de um povo e sua região.



A VIOLEIRA FRANCESA FABIENNE MAGNANT

Essa pequena reflexão sobre a viola e o mundo dos violeiros ocorreu-me ante o espanto que me tomou ao ver a francesa Fabienne Magnant tocar viola. À primeira vista, algo insólito, quase um exotismo. Seria uma jogada de marketing? Ou o que chamavam viola caipira seria outro instrumento, assim denominado? Mas não, era mesmo a nossa violinha, chamada caipira ou brasileira.  Mas, reparando melhor, também era outra viola: estava lá o mesmo timbre, mas com outros recursos, explorando sonoridades até então desconhecidas, ou pouco comuns.
A figura de Fabienne empunhando a viola e a tratando com singular familiaridade, lembra uma cigana, ao trafegar com tranqüila desenvoltura entre o intrincado mundo das cordas dedilhadas: seus dois últimos discos são verdadeiros portais de segredos subitamente revelados, vislumbres de três mundos distintos, distantes e complementares entre si: o nordeste brasileiro representado pela viola caipira, o mundo clássico europeu através do violão “erudito” e a Espanha mourisca com a guitarra flamenga. Atemo-nos neste breve texto à viola caipira, embora os dois outros instrumentos não sejam deixados de lado. Afinal, formam uma Trindade (não por acaso, o último CD muito apropriadamente se chama La Trinidad).
A viola caipira que tanto lhe chamou a atenção, sua descoberta na verdade é uma redescoberta do instrumento europeu de remotas origens árabes que deve ter chegado ao Brasil com os primeiros colonizadores, por fins do século XVII, inicio do XVIII.



VIOLEIRA?

Fabienne se apresenta nos palcos do mundo como violonista e violeira. Violeiros, assim denominados, só existem no Brasil e em Portugal, e com conotações diferentes: no Brasil, viola e violeiro se inserem num espaço sócio-cultural muito amplo, que se confunde com a própria identidade; na terrinha (como carinhosamente os brasileiros chamam Portugal), é mais um qualitativo poético, além de assim ser chamado o construtor do instrumento.

Nos anúncios e informes destinados ao público europeu, a grafia tem uma leve modificação, a colocação de um trema (¨) no segundo ‘i’, (caipïra).  Fabienne violeira leva ao revela ao mundo um importante aspecto de nossa cultura, como estabelece um divisor de águas: empunhando a viola caipïra, faz com que a mesma ganhe uma inesperada dupla cidadania, passando a ser conhecida pelo mundo a “viola caipira do Brasil” e assim deve constar nos compêndios e dicionários musicais que se escreverem de aqui por diante na Europa e no resto do mundo: deixa, aos poucos, de ser um instrumento desconhecido e exótico. A viola, finalmente, se insere na categoria dos cordofones dedilhados, com status elevado ao mesmo nível da guitarra portuguesa ou do bandolim. Um salto e tanto para um instrumento que até pouquíssimas décadas atrás estava restrito ao nicho de seus praticantes e de um público especifico, apesar de ser importante ressaltar que a mesma nunca foi uma desconhecida no mundo da música: em 1970 Bach foi gravado com arranjos para viola brasileira, a partir de transcrições para violino por Theodoro Nogueira, e o executante não foi um violeiro e sim o violonista clássico Geraldo Ribeiro (nesse disco raríssimo tem um importante artigo escrito por Theodoro: “Anotações Para Um Estudo Sobre a Viola: Origem do Instrumento e Sua Difusão no Brasil”.



A novidade empreendida por Fabienne Magnant é por sua inserção ser “consolidada”, pois a viola caipïra passa a fazer faz parte do seu repertório e nos concertos divide igual espaço com o violão clássico e a guitarra flamenga. Ainda vai longe, esse trio!

A peculiaridade é uma violonista clássica apresentar-se como violeira, fato em si, extraordinário, merecedor de toda a atenção, seja por parte dos estudiosos e do público. Seu grande mérito é não somente ser uma violeira habilidosa e virtuosística; ela conseguiu captar, incorporar em si a “alma” que anima não apenas o instrumento, mas a atmosfera em torno do mesmo: ela mergulhou a fundo no universo da viola e pressentiu sua importância ao longo de sua trajetória. Seu resgate não é de nenhum estilo ou gênero; seu resgate é o do papel que a viola (ou qualquer outro nome que tenha tido no passado) teve (tem) na vida das comunidades, seja sob a forma de entretenimento descontraído ou ofício religioso, seja na forma utilitária ou puramente estética.

A presença da violeira francesa surge num momento bastante profícuo, quando outros músicos (re)descobrem outras finalidades puramente musicais.
Seria a profissionalização do músico a principal razão? O estudo e a especialização certamente influenciam, mas não é tudo: o fator principal que se revela é que a viola, apesar de sua longa trajetória, é um instrumento ainda em desenvolvimento – ou, que ainda não foi utilizada em todo o seu potencial. Alguns trabalhos recentes mostram a riqueza e exuberância e especialmente, sua extrema flexibilidade no diálogo com outros instrumentos e gêneros, experiências que exploram desde o rock à musica erudita - vide os trabalhos das duplas Valdir Verona e Rafael De Boni; Toninho Ferraguti e Neymar Dias; os trabalhos solos de Ivan Vilela, Adelmo Arcoverde, Jaime Alem, Ricardo Vignini e Zé Helder, etc. Sua adaptabilidade e versatilidade surpreende e encanta: pode ser executada por um roceiro solitário no terreiro de seu ranchinho nos cafundós do interior do Brasil ou numa sala de concerto; seja como solista, em duo ou acompanhante, ou ainda acompanhando grupos, como a “Orquestra Popular de Câmara”, com o violeiro Paulo Freire. Até na música experimental, com a própria Fabienne com peças de Phillip Glass, experiência essa disponível apenas no Youtube, para os curiosos. Muita atenção para suas composições clássicas especialmente para viola caipira, ponto de partida pioneiro, pois é a primeira vez que ocorre fora de terras brasileiras: a viola caipïra se torna universal e a ponte possível entre o arcaico e o moderno.




A VIOLA CAIPÏRA, ária

Até meados da década de 1980, a viola caipira, mesmo tendo entre seus praticantes reconhecidos e afamados mestres, não gozava do prestígio hoje auferido. Era um acanhado instrumento, coisa de caipira, então um termo pejorativo. Houve um súbito interesse dos jovens quando alguns violeiros se apresentaram na televisão em programas de repercussão nacional como o Som Brasil, da Rede Globo com Rolando Boldrin e Viola Minha Viola, da TV Cultura, primeiro com Moraes Sarmento, posteriormente com Inesita Barroso. Músicos com formação erudita foram atraídos por sua sonoridade (Renato Andrade foi dos primeiros). Para encurtar a história, hoje em dia é ensinada em universidades e grandes conservatórios brasileiros. Livros e teses tem-se escrito sobre a viola – vide o texto de Saulo Alves, “O Processo de Escolarização da Viola Caipira”, acadêmico uspiano, cantor, compositor e violeiro.

Os puristas não precisam ficar enciumados: Fabienne não se “apropriou” e levou; sua entrada em cena acrescenta e não reduz ao recolocar o instrumento no lugar de honra de onde nunca deveria ter saído. Aos poucos felizardos que tiveram a oportunidade de conhecer seu trabalho (seus CDs não são, ainda, distribuídos no Brasil) ela mostra  capacidades prodigiosas da viola que nos eram desconhecidos. Fabienne incorporou, à sua maneira, o espírito da viola, o que a mesma tem de profano e sagrado. Antes de prosseguir, um aviso se faz necessário: Fabienne não toca modas, nem qualquer outro gênero brasileiro, não esperem dela os conhecidos pinicados aos quais estamos acostumados. Em vez de repetir ou imitar os trejeitos brasileiros, ela nos mostra outros mundos, desconhecidos, e aí reside o encanto.

É salutar e muito bonito ver o que ela faz da viola brasileira, a viola caipïra, com trema no segundo i: ao introduzi-la num cenário contemporâneo, equivocadamente chamado pós moderno, na verdade ela está resgatando para os palcos europeus e do mundo a ancestralidade do instrumento e precisamente na característica que numa época distante por lá deve ter sido predominante. Um ancestral da viola (alaúde árabe de 5 cordas???) pode ter testemunhado uma então improvável passagem de um mundo tribal-nômade dos desertos para os burgos e futuras cidades ao longo do mediterrâneo.

A atual viola caipira tem longa linhagem, que se perde no tempo, e sua versatilidade não é de hoje: sua chegada mesma ao Brasil pelas mãos dos colonizadores e a longa adaptação aos folguedos populares, amalgamando as inúmeras raças do país mestiço, é a primeira grande evidência. O violeiro paulista, Fernando Deghi, talentoso músico e estudioso do instrumento e do seu universo dos violeiros, através de seus discos e concertos nos dá vislumbres do papel social e até espiritual da viola caipira, cujos acordes parecem viajar ao sabor de folhas ao vento (não por acaso, o titulo de uma de suas composições, presente no CD Violeiro Andante, “Hojas al Viento”).

Da viola e seus mistério, até onde é possível rastrear suas origens, acreditamos que a mesma faz parte da evolução da música e dos instrumentos em geral: por um certo tempo permaneceu reclusa nos sertões do Brasil até que, cansada de tanta solidão, resolveu de novo dar as caras.
No Brasil seu enraizamento é mais forte, está impregnado no coração, é algo que  foge ao padrão estético ou do entretenimento. Está na alma popular e também cumpre um papel social de agregação. Como talvez tenha sido a vihuela espanhola em tempos idos, o alaúde em seus diversos formatos, a guitarra barroca, a tiorba, a cítara, a guitarra romântica, etc... No Mato Grosso, mais precisamente na região do Pantanal, ao longo dos séculos permaneceu intocada a viola-de-cocho, esta sim, instrumento rústico de notória origem popular e que foi (re)descoberta pelo Zé Gomes, de quem falei na abertura desse texto. Mas aqui entraríamos já noutra(s) história(s)...

OS TRES MUNDOS DE FABIENNE, andante alegro

De formação clássica – estudou no Conservatoire Superieur de Musique de Paris onde se formou em 1991 - Fabienne Magnant fez várias viagens ao Brasil, tendo estudado e trabalhado com Guerra Peixe e Baden Powel, entre outros. Dessa primeira experiência nasceu seu primeiro disco, “Memóire Vivante Brésil”, (1995, esgotado). Na segunda temporada brasileira, 1999, viajou ao nordeste (Salvador, Recife), quando entrou em contato com a viola caipira e de volta ao Rio de Janeiro, adquiriu um exemplar na famosa loja Do Souto, uma referência do ramo.

No Brasil não perdeu tempo e o contato com a musica dos mestres antigos e atuais, de Garoto a Marco Pereira, fez dela uma brasileira honorária: compreendeu como poucos a genialidade de um Garoto, que deveria ser popular no nosso país e não conhecido apenas de uns poucos iniciados; captou o colorido vibrante e alegre de um Marco Pereira – sua interpretação de “Bate Côxa” é das coisas mais comoventes que já ouvi: tudo está ali, a alegria, a sensualidade inocente, o ritmo percussivo que parece brotar do coração. Sob seus dedos, as cordas mestiças brasileiras encontraram ressonância, incorporando o jeito brasileiro, uma escola que mistura dinamicamente vários estilos e escolas de variadas partes do mundo: mesmo em suas próprias composições ali sentimos a presença brasileira como na deliciosa “Clin d’oeil” (difícil acreditar que uma francesa a tenha composto!) ou na enigmática “Pollen”, que poderia ser um “romance” armorial brasileiro. As faixas ao longo dos CDs são desnorteantes pela surpresa gerada, como na faixa Symphorythmes, onde não sabemos o que são ecos caribenhos ou samba – ou as duas coisas deliciosamente misturadas! O delicado Baião Sans Nom é todo estruturado como um tipico e natural baião dançante, mas ao final, uns curiosos efeitos sonoros parecem aos ouvidos brasileiros como fintas e negaceios, imprevisíveis, onde se tenta descobrir, em vão, onde vai dar, como se fosse uma jogada de Garrincha, a alegria do povo! Coisas de feiticeira, coisa de cigana!

Como se fosse num exercício de prestidigitação, Fabienne Magnant viaja e nos leva junto em suas explorações musicais. Tece cuidadosamente a mistura de intensidade e moderação,  firmeza e delicadeza, as passagens entre o classicismo, os gingados afros e as danzas mouriscas. Os instrumentos que são utilizados como se fossem naves, não o são de forma superficial ou gratuita: verdadeiramente, ela incorpora de cada um deles a essência, o que cada um tem de peculiar, de singular. Seu Cd produzido logo na sequencia do seu contato com a viola caipira, Le Sens des Senses, é um vibrante e vivo quadro dos três mundos sobre os quais é Rainha. O texto do produtor e parceiro de palco, o percussionista François Kokelaere é preciso: “...ela nos faz descobrir um mundo musical que só ela conhece. Nos dá a chave de um segredo bem guardado.” Assim é Fabienne Magnant, talento raro e misterioso contido em sua alma cigana (é neta de ciganos italianos e franceses).



LENDAS E MITOS: Intermezzo breve brevíssimo
(Do Caipira e do Blues)

...as lendas que cercam o mundo dos violeiros possuem algo das correlatas que envolvem os bluseiros tradicionais do Mississipi: as histórias de “pacto” com o diabo, a tristeza e melancolia, a virtuose instrumental, estranha até para os próprios protagonistas, sempre dispostos a encontrar explicações sobrenaturais. A que se deve fundamentalmente tais características, que beiram a ingenuidade e o misticismo? A origem rural é uma explicação plausível, mas insuficiente, pois tais ocorrem em determinadas regiões e atingem determinados grupos sociais. Clássicos do cancioneiro caipira como “Chico Mineiro”, “Cabocla Tereza”, “Boi Soberano” são pródigas de poesia e violência intrínseca. Há algo mais que uma ideologia ou a defesa de um modo de vida : há o meio social com suas histórias, as crenças produzidas sob o isolamento.
Se compararmos à melancolia nostálgica do blues, há certa relação com as trágicas modas de viola, as histórias de vinganças amorosas. Mas a comparação cessa por aí, seu efeito é meramente simbólico ao relacionar imaginários de mundos de origem rural com suas respectivas crenças e costumes. Não há como auferir maiores aprofundamentos, relacionando o sofrimento nostálgico da África natal à saudade do português degredado – ambos separados para sempre de seu torrão natal – pois, a viola caipira e o blues, não obstante alguns aspectos em comum (histórias de pacto com o demônio, amores trágicos, etc.), num dado momento distinguem-se claramente: a viola chamada carrega em seu bojo um forte conteúdo do mundo rural europeu e medievo, e também ecos de sagas orientais; por sua vez, a ancestralidade bluseira remete aos campos e savanas das aldeias africanas. Outro fator a marcar diferença do universo da viola caipira do violão bluseiro é sua presença nos rituais religiosos, nos reizados, folias, quermesses, cantos de louvação, enquanto o correlato do blues são os tambores, ou instrumentos de cordas de arco, como violinos ou mesmo acordeons ou os simples vocais nos cantos religiosos, os spirituals.
Lembrando a relação estreita que na viola junta os extremos sagrado/profano, atenção para a íntegra da peça operística de Elomar Figueira de Melo, “O Auto da Catingueira”, notadamente no trecho “Das Violas da Morte”, onde um singelo e alegre Desafio, gênero típico nordestino, descamba para a violência e as vias de fato.

VISITA À ESPANHA

Depois de sua experiência caipira, a curiosidade de Fabienne a põe em contato com o violão flamengo, na Andaluzia: nascia La Trinidad, seu último disco, por ora. Considero que Sens des Sens e La Trinidad, são trabalhos que se relacionam, interpenetram musicalidades, ora com delicadezas de vôos suaves, ora a sensualidade delicada e pungente, ora os vibrantes e vigorosos passos de danza; alegria, pureza, sensualidades, cores suaves e fortes, assim é o percurso em sua navearte planetária, vôo rasante por três mundos: o nordeste brasileiro, a Espanha mourisca, a Europa clássica.
Os dois CDs, Sens des Sens e La Trinidad, se estruturam em formas de percepção em nossos ouvidos que, como foi mencionado desde o inicio destas poucas linhas, ultrapassam a técnica, aqui tornada mero acessório (se podemos chamar assim!), pois em cada peça, seu mergulho é vertical, alcança profundezas onde só a Alma pode chegar: vai direto no coração! E nas terras onde habitam a alma e o coração, é mundo além de toda a técnica: por lá, não se admite o artista que domina o instrumento, mas que o conquista com mimos e carinhos...



VIAJANDO COM FABIENNE, finalle grandioso e dulcíssimo!

A música de Fabienne Magnant é um convite que às primeiras notas um apelo magnético nos atrai irresistivelmente e então sentimos um sopro vigoroso de novos ares no mundo: em tempos de globalização, quando existe a possibilidade de uniformização de tendências das atividades humanas – a arte inclusa – ela propõe um contraponto estabelecendo pontos de equilíbrio; sugere convivência harmoniosa entre culturas tão distintas. Percebemos em seu toque ecos de antiqüíssimos sons, quando caravanas tribais que tinham como patriarcas Jacob e Ismael e se encontravam ao longo do Mediterrâneo e fomentavam entendimentos que pareciam ser para sempre. Como um filme em flasheback, suas notas igualmente evocam imagens de salões, de desertos, portos, oásis, de terreiros de terra batida, de alegres reuniões madrugadeiras. Ao ouvi-la, reconhecemos algo comum e familiar nos acordes que por tanto tempo ficaram adormecidos... até serem despertados por seus dedos mágicos e novamente ganharem vida.
A francesa tímida de ares galegos, com seu doce sorriso nos a induz a viajar; foi lhe concedido pelos deuses o dom de alcançar as origens ignotas de muitos mundos e ao fazê-lo, concatena e religa o passado ao presente, e (quiçá!) aponta o futuro.

Fabienne é fonte receptora e foco emissor de poderosas forças: ela habita um castelo sendo ela própria morada da Sensibilidade. No seu Castelo, fez do violão seu Rei e da viola sua Rainha, como diz François Kokelaere no texto de apresentação em Le Sens des Sens. As vigorosas danzas ao som de pés no chão e palmas, a sensualidade, a dolência dos romances, a solenidade das epopéias líricas revelam mundos de cores, sabores e saberes que fazem vibrar nossas almas renovadas após a audição de sua poderosa e doce música...




DISCOGRAFIA:

- Memóire Vivante du Brèsil, 1995, (esgotado, breve será relançado)
- Canto Instrumental, 1998, duo com Paul Mindy, (esgotado)
- Le Sens dês Sens, 2003 (distribuído por Buda Musique)
- La Trinidad, 2010 (distribuído  por Buda Musique)









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NOEL DE ANDRADE E BLUES ETILICOS NO SESC BELENZINHO



Será no próximo sábado, 16 de abril, no Sesc Belenzinho: no mesmo palco, o violeiro Noel de Andrade e a banda Blues Etílicos.



Apesar de inédita, ou pelo menos pouco usual, é um encontro que no fundo tem tudo a ver, pois o blues e a viola caipira se originam do mesmo meio social: o mundo rural norte americano e brasileiro. Não faz muito tempo um grande evento no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, fez algo parecido com o espetáculo sonoro “Do Mississipi ao Velho Chico”, reunindo artistas de cá e de lá, de Woody Mann a Xangai, durante várias noites.

O encontro de Noel e a da Banda promete mais novidades e gera grande curiosidade porque os “Etílicos” são bluseiros “modernos”, que compõe a cena urbana, não são – nem poderiam ser – originários do mundo rural. Entretanto, aí reside sua força e originalidade, pois eles trafegam com liberdade e segurança por todo o mundo do blues, por todas as épocas e lugares e com certeza ajudam a difundir o conceito de que o blues é antes de tudo um estado de espírito.




Noel é um violeiro formado na tradição, foi discípulo do grande Gedeão da Viola, figura icônica do mundo da viola. Entretanto, sempre foi um inconformado, nunca se contentou em viajar somente no ambiente característico dos violeiros. Isso é enriquecedor. Mesmo reconhecendo que o mundo dos violeiro é um grande e vasto mundo, e que um violeiro pode viver muitas e muitas vidas apenas tocando viola (a exemplo do que pensava, não por mera coincidência, o grande Lightnin' Hopkins, que simplesmente se negava a tocar e cantar outra coisa além do blues), a viola caipira vai muito além dos acordes e do timbre: a cada vez mais se prova que é um instrumento extremamente versátil, capaz de dialogar com muitos outros generos e estilos – breve estaremos escrevendo aqui sobre a violeira francesa, Fabienne Magnant.
Sim, é enriquecedor o inconformismo de Noel de Andrade, pois com isso, metaforicamente, ele insere a viola e violeiros no mundo do Grande Sertão fazendo ecoar as palavras de Guimaraes Rosa: “...o sertão, seu moço, está em toda a parte...”



O encontro do próximo dia 16 no Sesc Belenzinho é aguardado com expectativa. Há uma ansiedade no ar para sentir como será o trinado da viola junto com baixos, guitarras elétricas, bateria. E a escolha do artista temático, Tião Carreiro, não poderia ser melhor. Embora seja mais conhecido entre o público tradicional como o cantor que formou várias duplas caipiras ao longo da carreira, sendo a mais célebre com o eterno parceiro Pardinho, Tião Carreiro foi um dos maiores violeiros de todos os tempos, dono de um estilo único capaz de fazer sua viola de 10 cordas cantar docemente e também pegar pesado: um cururu pode ser hard como bem demonstra outro violeiro rebelde, o Ricardo Vignini. Tião foi uma espécie de John Lee Hooker e nos dias de hoje tem um seguidor involuntário, o meu conterrâneo de minha terra junqueiropolense, o Indio Cachoeira.

Noel tem um disco gravado, o Charrua, trabalho que demonstra o modo como o autor vê o universo violeiro, muito amplo, viaja desde o litoral caiçara até montanhas e chapadões, não esquecendo os salões de bailes do interior. Atualmente prepara um novo trabalho.

A Banda Blues Etilicos está na estrada faz mais de 30 anos e se não me falha a memória eles tem uns 13 discos gravados.


Bom, chega de prosa fiada e corremos todos ao Sesc Belenzinho, sábado, dia 16, as 21:30 horas.



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CANTARIANDO COM KATYA TEIXEIRA



Ao completar 21 anos de carreira, Katya Teixeira festeja a data e nos brinda a todos com um show no Sesc Belenzinho, marcado desde já pelas credenciais de que será belo, inesquecível, emocionante:  o espetáculo “Cantariar”, para celebrar as inúmeras parcerias, musicas de suas participações em discos parceiros ao longo do tempo: João Bá, Vidal França e Mazé Pinheiro, Eliezer Teixeira, Luiz Carlos Bahia, Ney Couteiro, Consuelo de Paula, José Eduardo Gramani, Dércio Marques e Doroty Marques, Amauri Falabella, Erick Castanho, Antonio Pereira de Manaus, João Arruda, Levi Ramiro, João Evangelista Rodrigues, Viola Quebrada, Tarancón.



Uma carreira plena e intensa, a inquietude de quem tem muito a mostrar, o tempo todo, da arte oculta na memória e no coração dos povos, a arte pura que as grandes mídias não se ocupa em divulgar, mas que aí está. De sua própria lavra são, até o momento, quatro CDs:  Katcherê, Lira do Povo, Feito Corda e Cantiga e 2Mares, este último em parceria com o violeiro, cantor e compositor mineiro Luiz Salgado.  Há outro já no forno, “As Flores do Meu Terreiro”, que deverá ser lançado pelo meio do ano.

Sim, há muito a comemorar: 21 de carreira – prestes a completar 22 -  4 CDs, todos “independentes”, cada qual trazendo uma proposta distinta e clara, cada qual ricamente madurado e elaborado. Dezenas de projetos, muitos em parceria com o  SESC SP, como a antológica série “Diálogos Sonoros”, rica mistura de música, teatro e literatura. Outro projeto marcante foi o “Mulheres do Sol”, produzido em parceria com Marinéa Mochizuki (Trattore), realizado no Centro Cultural Banco do Brasil, série de 5 shows onde a cada noite dividia o palco com uma grande dama da música latina.  Sua última grande empreitada, que deverá ser projeto permanente,  Dandô – Circuito de Musica Dércio Marques, cuja principal característica é a autonomia, ousada proposta de fomentar a arte popular. A ideia nasceu como uma homenagem ao grande Dércio Marques, o aedo andarilho da música, que dedicou vida e carreira a formar músicos e público pelo Brasil afora e até nos países vizinhos. De vez em quando parava e fazia um disco, como um peregrino que erguesse torres, imagem lindamente sugerida pelo jovem filósofo Duda Bastos.

Em todos esses anos, sempre que Kátya empunhando seus instrumentos e com seus vastos e rebeldes cabelos sobe ao palco, uma expectativa se acende no público, pois uma força magnética dela irradia e se espalha, em ondas; mesmo quem a conhece e acompanha suas atividades prende por instantes a respiração, pois sabe que algo surpreendente saíra de seu alforje,  seja a emoção de uma cantiga dolente, seja a força de um canto guerreiro negro ou índio ou um canto de trabalho. Ou um breve pronunciamento, uma história, dentre as muitas que recolhe em suas andanças: se há uma imagem provável da surpreendente Kátya é aquela que une num mesmo ser a delicadeza do Lírio Silvestre e a força indestrutível do Carvalho. Ou melhor, de um Jequitibá, para salientar a brasilidade!

Seu canto transita desenvolto de uma cantiga infantil a um brado desafiador. Regida pelos acordes primitivos de sua viola-de-cocho ou sua Rabeca “Zéfinha”, é canto que envolve ora  com doçura e aroma de pétalas, ora o rasgo dilacerante de punhal. Voz que ressoa doce e meiga como noite de luar ou  selvagem e crua como as força das marés, do vento e do fogo; seu canto celebra o amor, e a dor, e a luta; corpo e voz atemporais viajando, formando e/ou restabelecendo elos invisíveis entre o tempomemória  e o porvir. Ao fim de suas apresentações, uma estranha energia continua pulsando, pairando na atmosfera e cada um dos assistentes tem a intima certeza de levar consigo séculos de história de um povo alegre, forte, caloroso.


Os contados 21 anos marcam sua subida num palco, o então Armazém Bar, sob os aupícios abençoados de Oswaldinho e Marisa Vianna. Mas na verdade seus anos musicais datam de muito antes, pois desde os 10, 11 anos já empunhava um violão com quase o seu tamanho e aos 13 participou do disco de seu tio, Vidal França, dentre outras peraltices. Na verdade, sua carreira é sua vida, sua casa sempre foi um alegre caldeirão onde o tempo todo recendia música e cultura popular. Conta ela: “... a primeira vez num palco acho que foi num festival do colégio aos 11 anos, cantando uma música do meu avô que era seresteiro. Na realidade aprendi mesmo a cantar foi com minha mãe e a família dela, que faziam isso o tempo todo. Do lado paterno, de meu pai Chico e o meu tio Eliezer,  me forneceram base e fundamentos da realidade brasileira,  por conta  das pesquisas da cultura tradicional e aspectos políticos da arte,  bem como o contato com os artistas...

Quando lançou seu primeiro disco, Katcherê, aos 25 anos, podemos sem erro afirmar que “já nasceu grande”. Sim, “nasceu grande”, pois “tudo o que sempre viveu e acreditou” estava ali, sem tirar nem por: as referências índias e negras,composições próprias, as parcerias que marcariam para sempre sua carreira (Jean Garfunkel, Vidal, João Bá, Ney Couteiro, Mazé Pinheiro, etc), a musica de Irene Portela, sempre jovem e poderosa e os belos arranjos de Vidal França. Se Katya tivesse ali encerrado sua carreira já teria dado uma enorme contribuição para a música brasileira e seu disco mereceria ser citado nas enciclopédias dali por diante.

Mas quando se esperava uma espécie de Katcherê II – pois o caminho por ela iniciado era apenas um inicio de desbravar – eis que cinco anos depois de uma longa pesquisa por sul e norte/nordeste do Brasil, eis que como uma feiticeira encantatória, nos lança aos olhos e ouvidos atônitos o Lira do Povo, disco que surpreende em tudo, a começar pela confecção física do álbum, cada unidade inteiramente feita à mão e sua voz misturada a da gente do povo: rezadeiras, lavadeiras, vaqueiros, mães e pais de santo, todos ganham voz de verdade no disco. De Portugal chega uma versão de “Adeus Ó Serra da Lapa”, de Zeca Afonso. De entremeio, uma rara participação do “mago” Stenio Mendes Nogueira, mestre de tanta gente. Lira do Povo é um disco indecifrável: world-music, etno-music, mpb?


Vontade de mergulhar em lusofonias e africanidades não faltou. Tinha o projeto de juntar Bahia-África-Minas-Trás-os-Montes-Ãlentejo numa gigantesca parceria com artistas locais, que a falta de grana refreou, mas Katya faz valer a máxima “se não tem tu vai com tu mesmo” e em vez de lamuriar, convidou alguns amigos para uma animada prosa com direito a café de bule, bolo de fubá e cachaça e assim nasceu “Feito Corda e Cantiga”, com composições de Chico Branco, Garfunkel, Mochel e Luiz Perequê. E, claro!, participação dos Caiçaras do Acaraú, Fandangueiros e Vida Feliz de Cananéia, que também participaram do show de lançamento, no mesmo Sesc Belenzinho. Noite de gala, inesquecível para quem viu e ouviu.

Bom, se a ideia de uma mega parceria mundial, por razões financeiras ainda não se concretizou sob a forma de uma gigantesca vídeo-conferência-show via satélite, seu projeto seguinte veio como a dar uma “palhinha”: o Cd 2Mares, parceria com Luiz Salgado, vôo de pássaro mítico formando uma ponte sobre o mar brasileiro e o mar português. Trabalho antológico, onde pela primeira vez na história um Santo quase vira casaca: mostra de verdade a transformação ocorrida com São Gonçalo do Amarante, que de severas vestimentas negras e vetustas em Portugal, ao chegar ao Brasil, desbunde total – sorte dele não existir na época redes sociais, pois se a noticia chega ao vaticano, seria excomengado: deixa crescer os cabelos, põe roupas coloridas e cai na dança: mistérios que só a sabedoria popular é capaz de explicar. Méritos aos artistas que resgataram as cantigas e ao poeta Paulo Nunes que reescreveu a trajetória de São Gonçalo em terras tropicais...


O espetáculo “Cantariar” coroa uma trajetória honesta e coerente. Quando ela sobre no sagrado espaço do palco, todos nós nos sentimos representados, pois é a voz de todos, a voz de um povo. Sentimos orgulho por fazer parte de sua geração, como devemos sentir orgulho da história que construímos e das nossas capacidades.  Kátya agrega em si essa capacidade que poucos artistas conseguem sintetizar, a de verdadeiramente ser interprete. Quando ela solta a voz, é a própria voz da lavadeira, da doceira, do operário, do camponês, do vaqueiro, do pescador, do escravo, do índio.  Ver, ouvir e aprender com Katya Teixeira, seu amor pela nossa arte e por nossa gente, é enxergar caminhos: se fosse possível sintetizar numa frase ou num nome, num corpo ou numa voz o sentido de “arte popular”, tudo caberia num nome: Kátya Teixeira, que carrega consigo legiões.



SERVIÇO:

Dia 09 de Abril, 21:00 horas, SESC Belenzinho.

Kátya Teixeira apresenta nesse show repertório do CD Cantariar, coletânea comemorativa de seus 21 anos de carreira. A apresentação terá a participação de músicos que fizeram parte dessa jornada como a percussionista Cássia Maria, o violonista Ney Couteiro, o rabequeiro e saxofonista Thomas Rohrer,Vidal França, Amauri Falabella, Oswaldo Rios (Viola Quebrada), Antonio João Galba, integrantes do grupo Tarancón e Daniela Lasalvia.



Repertório do Show e do CD “Cantariar”

1-     Dois Sertões - 2013 - Ronaldo Pereira e Poli Brandani
2-     Os grilos são astros - Cantos da Mata Atlântica/ Dércio Marques e Doroty Marques - 1999 - Rosinha de Valença
3-     Encantado - Capiau/ Levi Ramiro - 2013 - Levi Ramiro e João Evangelista Rodrigues
4-     O Canto das Águas Serenas - Espelho D ´Água/ Dércio Marques - 2001 - Regina Rosa
5-     Fotossíntese - Cavaleiro de Macunaíma / João Bá - 2013 - João Bá e Ney Couteiro
6-     Roxa cor da saudade - Parceria/ Amauri Falabella - 2015 - Kátya Teixeira e Amauri Falabella
7-     Canteiros do Coração - Afluentes / Antonio Pereira - 2007 - Antonio Pereira
8-     Flor de algodão - Meus Retalhos/ Viola Quebrada - 2015 - Rogerio Gulin, Etel Frota e Oswaldo Rios
9-     Vento viajeiro - Venta Moinho/ João Arruda - 2013 - Kátya Teixeira e João Arruda
10-  Além de Olinda - Mexericos da Rabeca /José Eduardo Gramani - 1997 - José Eduardo Gramani
11- Canto Lunar - Vuelvo para Vivir / Tarancón - 1997 - Denise Emer
12- A Lua Girou - Elemental/ Erick Castanho - 2015 - DP – folclore BA
13- Canto Cego - Capiau/ Levi Ramiro - 2013 - Levi Ramiro
14- Dia Santo - Sertão e Mar/ Vidal França e Mazé Pinheiro - 1994/1995 - Eliezer Teixeira e Luiz Carlos Bahia
15- Teus Olhos - Sonhares/ Ney Couteiro - 2008 - Consuelo de Paula e Ney Couteiro




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