'DANDÔ' EM SAMPA: A MINEIRA SOL BUENO NO I.J.C.



No próximo 13 de agosto, domingo, as 17 horas, dentro da programação do Projeto Dandô – Círculo de Musica Dércio Marques, estará de apresentando a cantora, instrumentista, compositora mineira,  Sol Bueno.
O Dandô, idealizado por Kátya Teixeira, seguindo a trilha de Dércio Marques, conhecido fomentador da cultura brasileira regional, está sendo realizado durante este ano no Instituto Juca de Cultura (endereço no final do post). Recepcionando Sol Bueno, a cantora e paulistana Mari Ananias.


                                       Convidada; Sol Bueno


                                      Anfitriã: Mari Ananias

Sol Bueno, que está lançando seu primeiro CD, “Poeira Dançante”, é uma suave brisa trazendo nuvens de pétalas coloridas nos caminhos e veredas do Brasil. Musica para ouvir e ver, graças ao extraordinário tratamento gráfico dado ao encarte.
Num recente post neste mesmo blog sertão paulistano escrevemos que “...Poeira Dançante” dos pés descalços ou de alpercatas de couro, dos pés caminhantes dos andarilhos, dos trabalhadores, dos meninos que caminham longas distancias para chegar à única escola num raio de muitos quilômetros; é a poeira levantada pelos pés dançarinos nos terreiros da aldeia krahö, nos pontos de jongo. Tão tênue quanto os grãos de pó que se ergue é esse Brasil esquecido, mas viçoso e real, vibrante, embebido de suor, repleto de vida e história.
Não sei se somos justos com a definição, pois a artista são mais do que isso, mas só posso aqui reafirmar aquilo que foi escrito então.

Vale conferir. Vale comparecer, ouvir Sol Bueno e Mari Ananias, meninas que valem ouro; vale conhecer o espaço cultural Instituto Juca de Cultura e curtir a presença de gente bonita e agradável.

Uma breve palavrinha sobre o I.J.C.: criado pelo poeta e editor Paulo Nunes, é uma justa homenagem ao poeta mineiro José Joaquim de Souza, conhecido como Juca da Angélica, primeiro como carreiro por toda a região de Patos de Minas e depois como poeta popular. Sua poesia, quase toda ela retida na memória, correria o risco de ter morrido com ele em setembro do ano passado, não fosse o esforço pessoal do Paul Nunes, de seu flho Paulo Jose e de Luis André Nepomuceno, que conseguiram depois de muito esforço, transformar em livro físico, “Meu canto é Saudade”. As poesias ali contidas são, na verdade, um pálido reflexo da força da poesia oral. Uma centelha, que entretanto, possui força inaudita, pois já se tornou música através do CD “Puisia”, do Saulo Alves e Trio José (ver o texto “Juca da Angélica, Trio José e a Afirmação da Poesia”, neste blog) e filme, o  curta-metragem “Meu canto é saudade- A Poesia de Juca da Angélica”, de Diogénes S. Miranda.
Enfim, tudo a ver: no espaço consagrado à lírica de Seu Juca, a presença luminosa de Sol Bueno.







ONDE FICA:  próximo a Estação Sumaré do metrô,

Rua Cristiano Viana, 1142 - Sumarezinho - Estação Sumaré de Metrô
Quando: domingo, dia 13 de agosto, às 17:00 horas
Quanto: contribuição a partir de R$15,00

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AS FLORES DO MEU TERREIRO”, O NOVO DISCO DE KATYA TEIXEIRA



Em 23 anos de carreira, sempre que Kátya Teixeira prepara um novo trabalho, todos nós que acompanhamos sua trajetória nos seguramos nas cadeiras e prendemos a respiração, ansiosos pela surpresa que se nos apresentará desta feita.
São 23 anos de palco oficialmente, desde a noite em que subiu ao palco do Café Fubá, de Oswaldinho e Marisa Vianna; na verdade, é muito mais, é toda uma vida dedicada a música. Antes mesmo de nascer já pulsava música ritmada, ainda no ventre materno, ela que vem de uma família de artistas; musica era tão presente na casa dos pais como o alimento, o próprio ar  impregnado da poesia de João Bá, dos acordes do tio Vidal França, da tia Mazé Pinheiro, do pai Chico Teixeira.

Kátya já nasceu grande, trocadilho irresistível com suas performances que tornam o palco sempre pequeno, como se a paulistana filha de alagoano e mineira precisasse do mundo inteiro para se expressar devidamente.



“As Flores do Meu Terreiro” é seu sexto disco solo. Embora não deva constar da Discografia Oficial Solo, merece destaque a coletânea do “Dandô”, trabalho que resume sua atuação político-cultural, trabalho-ideia que pode ser chamado resistência cultural e de intervenção, pois estabelece um vinculo direto entre artista e público, sem mediações. O "Dandô" é, digamos, a materialização do sonho possivel de uma arte verdadeiramente popular envolvendo múltiplos artistas e generos variados. 
O saudoso Zé Gomes, juntamente com o violeiro Noel de Andrade chegou a sonhar com algo parecido, mas que envolveria  certa infraestrutura mínima: uma cidade, por exemplo, seria durante alguns dias um pólo irradiador da cultura local. A idéia, infelizmente, não progrediu. 
O "Dandô" foi tornado possível, porque apenas um artista se desloca de cada vez e assim é um trabalho de infiltração, marcado sempre pela extraordinária qualidade dos músicos e a proximidade do público. Apresentado em locais pequenos, geralmente é uma experiência inesquecível para quem participa. Maneira criativa e eficiente de valorizar a produção da arte autentica e popular, arte nascida e vivenciada no seio das comunidades, sem os carimbos comerciais que tem o intuito de apenas vender. Fazendo uma comparação um tanto grosseira, diria que os artistas que participam do "Dando" estão na nossa vida cultural da mesma forma que a simples comida caseira está para os chamados fast foods. Felizmente é uma experiência que se propaga e inclusive já existem movimentos semelhantes com ouras formas de arte ou de genero especifico: o Arreuni, encabeçado pelo violeiro João Arruda é um desses e sabemos de grupos de violeiros ("Violada", por exemplo) que se reúnem de forma parecida.
Ao longo da história são movimentos autonomos como esses que tornam possível a preservação da arte genuína ou a propagação da cultura em lugares que jamais chegaria do modo, digamos, tradicional. Vem a mente enquanto batuco meu teclado a atuação do poeta espanhol Garcia Lorca que nas primeiras décadas do século XX realizava incursões pelo interior da Espanha com sua trupe teatral itinerante, denominada La Barraca, levando arte aos mais distantes rincões da Peninsula Ibérica.



Neste sexto disco, Kátya Teixeira não se repete, a exemplo dos discos anteriores, por mais importância e significado que possa ter tido a temática escolhida. É a constatação viva de que a arte popular é tão variada, o manancial é tão rico que não é possivel repetir-se, se assim o quiser! Para se ter uma idéia, vale a pena ouvir em sequencia os discos e formalizar, cada um, uma ideia de seu jeito inquieto de ser e de estar no mundo. Oiçam, pela ordem:

- Katcherê; - Lira do Povo; - Feito Corda e Cantiga; - Dois Mares; - Cantariar; - As Flores do Meu Terreiro.  (Além, é claro, de ouvir a Coletânea do Dandô, o ponto de intersecção entre povos, artistas e culturas do Brasil).

Se cada um dos trabalhos anteriores era o coroamento de uma idéia (por exemplo, Katcherê, o disco de estréia, é um convite a percorrer um caminho; Lira do Povo, dá voz ao próprio povo esquecido; Feito Corda e Cantiga, uma celebração às parcerias; Dois Mares, em parceria com Luiz Salgado, uma viagem simbólica pelos portos e mares português e brasileiro; Cantariar, uma longa história de parceiros, parcerias e influências mútuas, um resumo biográfico de sua trajetória), este As Flores do Meu Terreiro pode ser chamado o “disco dos afetos”, um retrato multifacetado de seu universo e do que a motiva. Disco dos afetos, pois as relações afetivas estão presente o tempo todo; não os temas amorosos tradicionais, mas o amor das amizades e parcerias sinceras, amor pela Arte e sobretudo, amor pelo povo que inspira a cantora, compositora e pesquisadora.



POESIA QUE LIBERTA

As Flores do Meu Terreiro foi lançado oficialmente no Sesc Belenzinho num significativo 13 de Maio e esse acaso  acabou por ter um significado mui especial. Este dia, 13 de maio, também pode ser, simbolicamente, chamado o Dia da Libertação do povo como um todo. Ou o dia da superação, pois no fundo é uma conquista de todos nós e assim deve ser sempre lembrado, refletido.
E no dia da libertação, foi lançado o Disco da Libertação, embora esteja longe de mim a ideia de dar ao evento qualquer dimensão politica; qualquer tentativa desse genero  o transformaria em simples panfleto; por isso, tal leitura é por conta e risco de cada um.

É um trabalho essencialmente poético e os poetas não necessitam da razão para expor suas verdades, ainda bem. A dimensão politica fica ao rés-do-chão e o artista move-se noutras dimensões, quiça espirituais e por isso sua visão aguçada e sensível pode aos nossos olhos parecer distorcida.
Walter Benjamin, no livro Um Lirico no Auge do Capitalismo, identifica o mal estar presente na poesia de Poe e Baudelaire como a revolta latente pressentida num sistema que então auferia riquezas à custa de terríveis sofrimentos, sujeira, exploração. Esse mundo brutal que o poeta impotente percebia, não conseguia traduzir em palavras racionais  pois tudo era horror (o capitalismo em seus primórdios pareceria aos nossos olhos acostumados a globalização do século XXI como um portal do inferno, com jornadas diárias de 20 horas sob o jugo de chicotes. Algo que o trabalho escravo que por vezes se descobre nos nossos dias é uma comparação bastante sutil), como é horror a exploração do homem pelo homem em qualquer aspectos que possamos imaginar - cultural, politico, econômico.
Que poderiam fazer pessoas como Poe ou Baudelaire ou outros como eles perante o horror, além de expressar-se do único modo que sabiam?

O poeta é um ser em carne viva. Para o bem ou para o mal. Existe muita verdade nas palavras do mexicano Octavio Paz quando este diz referindo-se à poesia: “...pão dos escolhidos, alimento maldito; isola, une.”
A voz do poeta é a voz do inconsciente. A outra Voz.

As Flores do Meu Terreiro pode, sim, ser o disco dos afetos e da libertação. Todo ele
é uma prece, ora solene, ora pungente, mas especialmente de uma alegria contagiante, descontraída, sincera, pois se sente que cada um dos que contribuíram para a feitura do trabalho o fizeram de coração: Paulo Nunes,  Consuelo de Paula, Paulo Matricó, Erick Castanho, dentre outros, passando pelo belíssimo trabalho gráfico produzido pelo Projeto Tear, de Guarulhos, feito com papel reciclável acompanhado de sementes flores da singela onze horas, perolado pelos desenhos de Naila Pommé.
A liturgia desse trabalho marcante, pontuado de oração, folia e dança é, afinal, uma festa, com momentos para reflexão. Talvez por isso seja uma obra feita para nos ajudar nos tempos que vivemos atualmente.



O disco,  como é costumeiros no trabalho de Katya e seus companheiros, é um chamamento para uma tomada de consciência para o valor de nossa gente.

A gente brasileira merece – e terá! – um destino melhor do que nossa política demonstra.
O valor de nossa gente é algo revolucionário e tem um frescor alegre. É muito antigo – se perde no tempo! – e igualmente acaba de nascer – pois a arte popular é isso: se renova constantemente e esse sopro renovador é o ar que nos liberta e afinal, nos salva!

O povo que produz artistas como Kátya Teixeira só pode ser um povo vencedor!



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COM TODAS AS LETRAS: PRESENÇA DOS IRMÃOS RAMIL



O que há de comum entre música e literatura? Ou melhor, o que há de comum entre uma dupla de cantores de MPB e dez escritores, com personalidades e estilos diferentes entre si?

Os irmãos Kleiton & Kledir tem uma trajetória de ciclos amplos e surpreendentes, especialistas que são em versatilidades, sendo uma delas, a capacidade de construir pontes imaginárias entre os diferentes aspectos da cultura gaúcha. (Se considerarmos cultura latino americana, devemos acrescentar o caçula dos Ramil, o Vitor, autor de uma canção definitiva,  daquelas  que capta o imaginário de sofrimento e luta do povo sulamericano: Semeadura é digna dos grandes ícones Mercedes Sosa, Atahualpa Yupanqui, Victor Jara, Violeta Parra, Nicolás Guillén, Geraldo Vandré, Garcia Lorca, Jose Marti, etc.).

 Kleiton & Kledir  teceram a doze mãos um belíssimo tapete cujo resultado final é uma amostragem simbólica da literatura e música daquelas paragens. Por lá campeiam vanguardas que ombreiam aos grandes  centros, e não só do Brasil, mas do mundo: o irrepreensível e colorido mosaico criado e tecido pelos dez escritores e os dois músicos/compositores são dez pequenas aulas das interações possíveis entre duas formas de arte.

O álbum “Com Todas As Letras” – Biscoito Fino -, dos irmãos Kleiton & Kledir chama atenção por dois motivospouco comuns: primeiro, um disco com 10 faixas composto em parceria com 10 escritores gaúchos contemporâneos; segundo, as parcerias são inéditas. O fato de serem inéditas torna o resultado imprevisível, conquanto interessante o diálogo entre esses dois universos que lidam com a sensibilidade humana: encontros, conversas, experiências, fatos banais (ou não) que compõem a memória dos lugares e dos homens: por exemplo, uma das faixas, Mistérios do Bule Monstro (letra de Lourenço Cazarré), trata da existência de um enorme bule preso na fachada de uma loja em Pelotas. O porquê de aquele estranho objeto, tão dissonante quanto fosse um disco voador, sempre intrigou os transeuntes; era daquelas coisas inexplicáveis que ninguém nunca se ocupou em saber o porquê. Naturalmente na canção que evoca o Mistério, o mesmo não é decifrado – ainda bem, pois assim continuará desafiando a imaginação seja dos pelotenses  ou mesmo de quem não é de lá! Eu já criei minha teoria: o Bule Mostro deve acompanhar uma gigantesca cuia de chimarrão. A cuia? Onde estaria a Cuia e seu usuário? Talvez seja o lendários gaúchos  ancestral. Cito essa faixa porque especialmente chamou-me atenção o fato que deve persistir na memória de muita gente.



As demais faixas do disco tratam, cada qual uma experiência, com base nas vivências de cada um: homenagens, amores, visões de mundo, padrões estéticos, etc. brotadas dos encontros com Caio Fernando de Abreu, Cláudia Tajes , Luiz Fernando Veríssimo, Leticia Weirzchowski, Daniel Galera, Martha Medeiros, Alcy Cheuiche, Fabricio Carpinejar, Lourenço Cazarré, Paulo Scott. A cantora Adriana Calcanhoto tem participação especial na canção que abre o disco, “Lixo e Purpurina”. Acompanha o Cd um Dvd que conta os bastidores da produção, material essencial para se compreender a natureza do projeto como um todo. Ouvindo-se apenas o CD nas vozes dos cantores  e instrumentos não se dá conta dos pormenores e não apreende toda a riqueza gerada nos encontros. O projeto ganha aqui um aspecto didático ao lançar certa luz nos misteriosos processos de criação, que  o público em geral desconhece.



Letra & música é um casamento nem sempre perfeito; se não encaixados devidamente os pontos de intersecção que fazem surgir a “terceira coisa”, corre-se o risco de ver nascer uma cria, digamos,  destoante; tudo na escritura e na voz tem ritmo; mas ritmos de um e de outra nem sempre vão convergir  com a eficiência desejada. Letra & musica às vezes se encaixam maravilhosamente, tal como mostra lendárias parcerias mundo afora, outras vezes nem tanto. Esse trabalho especifico reflete a personalidade dos irmãos, aparentemente  opostos que se completam artisticamente: o instintivo Kledir e o contido Kleiton – ao menos é o que se deduz  assistindo o DVD com os extras. A longa e profícua carreira musical, sempre buscando incessantemente inovar mostra que eles se entendem e se fazem entender. Nos encontros com cada um dos escritores/poetas  são como  múltiplas personalidades que se refletem nos aparentemente  improváveis parceiros.

Seria apenas mais um disco não fosse o deliberado abandono da zona de conforto; seria mais fácil e seguro seguirem a receita óbvia de musicar poemas já compostos e conhecidos, pois de antemão já se teria um público para os re-conhecer. Mas isso de modo algum satisfaria os inquietos irmãos – característica que distingue os Ramil desde os primeiros tempos de sua trajetória, desde o inicio dos anos 1970, quando fizeram parte do grupo O Almôndegas.
Embora sejam escritores, o que deve ter facilitado a aproximação, não deve ter sido o elemento decisivo durante a feitura do trabalho cujo mote era produzir uma arte nascida do encontro direto entre músicos e escritores; interessava a eles trazer à luz os secretos caminhos percorridos pelos artistas, e de como aspectos comuns os conduzem através de trilhas aparentemente díspares. São um rol de sentimentos,  expectativas, dúvidas comuns e inerentes, grande parte indistinguíveis ao olhar desatento: mas são esses os percalços comuns a cantores/compositores e escritores/poetas. Essas dificuldades são conditio sine qua non dos respectivos ofícios, mas basta “provocar” um e outro para que uma ponte seja construída entre os universos e uma imediata comunicação é então res-estabelecida e trazida à luz do entendimento. O estilo narrativo em prosa é algo recente na história da humanidade. As narrativas antigas eram em formas de versos, desaparecendo apenas quando a ‘razão’ prevaleceu a partir do chamado Século das Luzes’, fazendo submergir a espontaneidade poética: letra & música, portanto, tem uma história antiga comum, onde talvez o cantochão ou o canto gregoriano, além das epopéias em verso, venham a ser elos perdidos de um tempo em que todos os seres humanos – ou mesmo todos os seres – se manifestavam musicalmente!
Tendo essa teoria alguma plausibilidade (com a palavra os especialistas em lingüista e musica), na verdade, o que fizeram foi o restabelecimento de uma ponte que no passado os uniu muito mais do que nos dias que correm.
O encontro de cada um dos 10 escritores com a dupla de irmãos fluiu com uma facilidade surpreendente, muito mais que a amizade e/ou admiração mútua possam fazer crer. Quero dizer que não foi a amizade ou admiração mútua a razão do sucesso do empreendimento: foi como se todos sempre estivessem, desde sempre, prontos, à espera do contato.  A compreensão da natureza da proposta foi imediata e nela mergulharam de cabeça, não apenas escrevendo versos inéditos, mas alguns deles participando mais diretamente, emprestando a voz em declamações ou tocando instrumentos que até então o faziam por mero hobby, como o violão de Daniel Galera e o sax de Luiz Fernando Veríssimo. O passeio litero-musical foi percorrido ora com avanços vertiginosos, ora curvas surpreendentes, ora sutilezas, ora o cuidadoso abordamento: só assim para captar na íntegra o criador em pleno refulgir!

Fosse  basear-se no trabalho de um único escritor  - por sinal, existem trabalhos desse gênero, é mais comum do que imaginamos. Um exemplo conhecido é Euclides da Cunha, cujo Os Sertões já inspiraram pelo menos três obras de vulto: Os Sertões (Fabio Paes), Canudos (Gereba) e Bahia Lavada Em Sangue (Roberto Bach), esse ultimo tema de pelo menos dois posts neste Ser-tão paulistano. Sabemos também de trabalhos baseados em cenas do próprio Érico Veríssimo, de Jorge Amado e Guimarães Rosa. A linha condutora num trabalho conhecido seria mais segura, conquanto previsível. Mas “Com Todas as Letras” foi tudo novo. Calcule-se o desafio de penetrar no universo particular de cada escritor e dali colher a experiência: só mesmo a visão múltipla e a experiência cosmopolita dos Ramil, alicerçados por seus longos anos de estrada, que os tornaram imunes ao risco do erro, tornando assim plausível e agradável a experiência; experiência que somada e aguçada pela juvenil curiosidade que os move – quem os vê trabalhando pensa que estão fazendo pela primeira vez, sem mostrar nenhum traço de arrogância - é que seria capaz de os impulsionar e por cima convencerem outros a embarcar numa canoa a remo e se deixar conduzir rio abaixo ao sabor tremulante de correntezas e remansos, sujeitos a todos os perigos do incerto percurso.

Riscos no caminho não devem ter faltado. Todos são escritores dos dias de hoje, o único escritor do passado é justamente o autor que décadas atrás havia inspirado a dupla a comporem juntos musica: Caio Fernando Abreu, falecido precocemente em 1996, a quem o disco é dedicado; também ele, Caio, representante da nova, urbana e cosmopolita literatura gaúcha, praticamente da mesma geração que eles. Não estaria longe da verdade se dissesse que os irmãos Ramil podem ser considerados os correspondentes musicais do escritor Caio. A idéia ganhou força em 2015 e decidiram levar a cabo a idéia, sob a coordenação do escritor e professor Luiz Augusto Fischer.
Parecem ter adivinhado o sonho secreto de todo escritor que gosta de música: ver e ouvir suas palavras vestidas de som e musica! O resultado surpreende positivamente, seja aos amantes da literatura ou da música: e uma nova forma de ampliar olhares, horizontes. Juntos compartilham, e para o publico em geral, altamente gratificante.
A  receita está dada e fica a ideia que poderia ser seguida por outros músicos/escritores/poetas Brasil afora.


MUSICA GAÚCHA: UMA PASSADA D’OLHOS PELA HISTÓRIA

Vale umas poucas palavras que seja sobre a história da região e seu povo, simples tentativa evitar as escorregadelas nos estereótipos e/ou lugares comuns ao vir à mente a ideia do ser gaúcho, especialmente visto pelos olhos de um não gaúcho.
Embora possa vir a ser parte da própria identidade, presumir o “gaúcho típico” é mergulhar na lenda, do mesmo modo que se pensa no “sertanejo nordestino”, no “caipira paulista” ou o “caiçara do litoral”. Certa vez assistindo a uma apresentação de um jovem cantor gaúcho, um militante das causas populares e que faz uso orgulhosamente da indumentária típica, ao ser questionado por um espectador se se considerava um “gaúcho típico”, ele respondeu: “Sou gaúcho, mas dizer ‘gaucho tipico’, teria de ser xucro e homofóbico.” Um produtor musical, gaúcho de Pelotas, costuma extravasar em tom de descontraído desabafo: “Mira lá, tchê! Sou de Pelotas e sou vejetariano! Como tu achas que me chamam?

Enfim, os gaúchos, tão orgulhosos de sua história e tradição, possuem no imaginário, especialmente dos não gaúchos, a figura do ser talhado a formão, submetido às agruras do minuano nas solidões pampeanas: qualquer representação artística referente ao “gaúcho” ha de fazer vir à mente o solitário destemido, com solidez de rocha.
Como comumente acontece nos grupos sociais estigmatizados, acabam por aceitar com orgulho a imagem que lhes foi impingida, pouco importa o tenha sido em tom pejorativo: basta ver os cartazes nas churrascarias metropolitanas ou nos populares CTGs espalhados pelo Brasil para disso se perceber. Dessa imagem jamais se livrarão, para o bem ou nem tanto, por mais que camadas de modernidades se acumulem ao longo da história. Por mais que transformações se sucedam, a figura gravada no imaginário prevalece, ao menos num primeiro momento.

Quando surgiu lá pelos anos 1970, O Almôndegas, a primeira e imperbe presença dos irmãos Ramil no cenário da MPB, causaram um primeiro impacto: mostrava ao resto do país a vida urbana do pampa, que por sua vez contrastava a idéia tradicional que se fazia não apenas do gaúcho em si, mas da musica gaúcha além dos ritmos tradicionais conhecidos – a musica lacrimejante de Teixeirinha, as marchinhas de quadrilha, chotes, vanera, vanerão, por mais que na maior parte das vezes fosse apenas um arremedo da verdadeira tradição, que por sua vez travava infindáveis batalhas para não desaparecer e virar definitivamente lenda. O trabalho de resgate começou com Os Gaudérios, nos anos 1950 e se cristalizou com os chamados Troncos Missioneiros, sendo os mais conhecidos representantes Noel Guarani, Jayme Caetano Braun e Cenair Maicá, entre outros.
O Almôndegas – e mais tarde Kleiton & Kledir estavam para os tradicionais gaúchos mais ou menos o mesmo que a jovem guarda ou iê-iê-iê para a musica caipira/sertaneja no eixo Rio-São Paulo. O Almôndegas duraram alguns discos e os irmãos seguiram carreira, como Kleiton & Kledir. O caçula dos irmãos, Vitor, segue carreira paralela.  Os três também se notabilizam também por exercerem uma profícua carreira literária.



Quem, fora do Rio Grande do Sul, tem entre 40 e 50 anos há de lembrar da dupla de cabeludos com sotaque estranho, tratando as pessoas por “ti” ou “tu”. Assim ficaram gravados no imaginário da MPB: musica popular urbana com sotaque gaúcho. Até então quando se falava “musica gaúcha” se pensava, quando muito o folclore pasteurizado, com a mesma autenticidade de uma fantasia carnavalhesca: a verdadeira tradição, como citado acima, resistia bravamente nos nichos.
Com os Ramil,  a musica gaúcha popular urbana deixou de ser para consumo local para ganhar palcos no eixo Rio-São Paulo. Kleiton & Kledir  - pode-se com justiça dizer - romperam paradigmas ao levar o sotaque sulista para apreciação das grandes massas fora de Porto Alegre e adjacências. Fizeram emergir por entre a dura couraça do “gaúcho típico”, de bombachas e chimarrão, outro gaúcho, urbano e cosmopolita – seria o cumprimento da profecia  de Barbosa Lessa na “Milonga do Moço Novo”, tornada clássica na voz de Noel Guarani, cantando as venturas do moço que sonha usufruir as modernidades dos novos e grandiosos centros urbanos que deixam para trás as velhas estâncias, “...pra deixar de ser bagual.” ?



Os Ramil nunca foram baguais – “eu tinha orgulho em ser grosso debochava da finura/ não dava bola pra gente de educação e cultura”(Milonga do Moço Novo, Barbosa Lessa) - , sempre foram filhos da cidade, mas são herdeiros diretos da cultura, essa mesma cultura que os fizeram sentir-se exilados em terras cariocas quando para lá se dirigiram para se firmarem como artistas de massa – afinal, o Rio era então, ainda, a capital, a Meca, para onde os artistas deveriam se voltar.
A cultura gaúcha está neles impregnada a partir dos costumes cotidianos, e não exatamente como expressão artística – no caso deles, sua música, em si, era universal: falavam da paixão, das dúvidas e ansiedades do ser resultante da Modernidade, que muitos equivocadamente denominam pós-modernidade, na falta de outra denominação (só haverá uma pós modernidade quando esta for inteiramente superada, deixada para trás. Por ora o que temos são camadas pós, pós, de variações do mesmo ad infinitum, à que damos tal denominação na falta de outra, pois nos tempos 'modernos', qualquer coisa há de ter rótulo). O que a Modernidade ou Pós Modernidade faz  é aproximar mundos e no pior dos casos, destruir. A pedra de toque é o universalismo, colocar-se no mundo, absorver o que pode e dar o seu recado, mostrar o que se passa em sua aldeia. O caçula da família,  Vitor, é um exemplo candente dessa universalidade: como um visionário, antes dos 20 anos, criou um universo imaginário, a Terra de Satolep, nada mais nem menos que a cidade natal, Pelotas, escrita ao contrário. Cumprindo um ritual daqueles tempos recém saídos da ditadura, Satolep era a pátria de Joquim (...nau da loucura no mar das idéias...), revolucionário cuja história brotou de uma versão de Joey, de Bob Dylan (mas Joquim não é Joey, transplantado, acreditem). Faço essa breve citação do trabalho de Vitor apenas para ilustrar a vocação cosmopolita e universalista que caracterizam os Ramil.
Pois bem: disse atrás que a cultura gaúcha, os valores, etc., neles habita de tal modo que em plenas praias cariocas os devem ter feito sentir saudades do chimarrão... O gauchismo não é somente um território físico e político, mas  sentimental.
Duas canções brotadas desse conjunto de valores -Pátria Gaúcha ou Missioneira- fincados profundamente naquelas terras ermas, tratam desse universo: ambas canções explicitam esse sentimento gauchesco: “Milonga das 3 Nações” , autoria Fernanda Rosa, presente no CD Yrupa Punherei – Canções das Margens do Rio, do grupo Purahéi Trio e “Milonga das Três Bandeiras, de Jayme Braun, no LP “Pampa y Guitarra”, disco de estréia de Noel Guarani, lançado originalmente na Argentina. Dois temas, compostos em momentos distintos por compositores distintos, distantes gerações e curiosamente constroem uma ponte entre o ontem e o hoje.  O Gaúcho ignora fronteiras políticas: naquele vasto território o idioma “oficial” é três: guarani, português, castelhano...

(O programa O Sul Em Cima, acessível através da Internet, a respeito do qual já escrevemos neste blog, produzido por Mariusa Kineuchi e apresentado por Kleiton, tem mais a dizer sobre a atuação deles, da ponte que constroem entre os diferentes ritmos que, ao contrário de “invadir” e tomar posse do território, o tornam maior e mais rico: Brasil, Uruguai, Argentina e Paraguai se amalgamam).

Ressalte-se, assim, que a presença dos Ramil na vida e cultura riograndense vai além da musica, ou melhor, de estilos musicais: inquietos, inconformados, eles buscam diferentes formas de expressão, sem deixarem de ser quem são. E, parodiando Ferreira Gullar, fazem arte “porque a vida não basta”. Ou melhor, uma arte só não basta, as linguagens, especialmente musicais, dotadas de símbolos mutantes, necessitam dialogar entre si para continuar vivas; não basta louvar-se a si mesma ou ser “fiel” a si mesma; é preciso ampliar horizontes.
E que do mesmo modo que o sangue percorre as diferentes partes do corpo, que a arte – a substancia vital da Grande Nação Sulamérica – verdadeira, autentica e multifacetada percorra caudalosamente os canais rios correntes por onde navegam índios, gringos e mestiços. E que venha a Arte aquecer “A Fria Luz do Horizonte”, interessante filme que muito aborda esse sentimento gaúcho, seu jeito de ser mundo e do modo como se sentem exilados em própria terra: a Arte aproxima e faz ver o outro em nós. Temos a possibilidade de sermos únicos num mundo cada vez mais próximo do esfacelamento, a prevalecer interesses nacionalistas.

O Cd/Dvd “Com Todas as Letras” mais uma vez lançam os Ramil no mundo, orgulhosamente mostrando sua aldeia e seus companheiros. Não apenas através da musica, mas de muitas outras atividades: são testemunho que a arte não é coisa distante e apartada da vida: arte e artistas e público, não devem ser distantes entre si; não devem ser a fria e distante luz num horizonte inalcançável.
Com Todas as Letras deve ser ouvido, visto, lido especialmente nas entrelinhas; pessoas e arte são elos, interligados: são vida!



 Caio Fernando de Abreu: Lixo e Purpurina
 Participação de Adriana Calcanhoto
 Kleiton, Kledir  e Claudia Tajes_ Felizes Para Sempre
 Luiz Fernando Veríssimo: Olho Mágico
Leticia Weirzchowski: Piscina 
 Daniel Galera: Vinte e Oito Escovas de Dentes
 Martha Medeiros: Pingo nos Is
 Alcy Cheuiche: Lado a Lado
 Fabricio Carpinejar: Cansado de Ser Feliz
 Lourenço Cazarré: Mistérios do Bule Monstro
Brincando na Praça dos Enforcados

 Paulo Scott: Rochas




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“POEIRA DANÇANTE”, DE SOL BUENO



“Poeira Dançante”:  a imagem evoca o interior profundo dos sertões do Brasil. De imediato traz-me  à mente imagens nostálgicas de outros tempos, tempos idos que a modernidade avassaladora assegurou ter ficado para trás, quando os caminhões fizeram desaparecer as boiadas e os carros de bois. “Poeira” , poeticamente falando, nos é possível ao ouvirmos o clássico sertanejo de autoria de Luiz Bonan e Serafim C. Gomes, consagrada pelo Duo Glacial, gravada por muita gente, destacando-se a versão de Pena Branca & Xavantinho – seria a versão definitiva?

“Um  carro de boi lá vai / Gemendo lá no estradão / Suas grandes rodas fazendo / Profundas marcas no chão...”

 “Poeira” é a imagem de um tempo perdido, de um tempo que se foi? Ledo engano. A Poeira da terra é de fragilidade apenas aparente: modernidades vem e vão, como todas as modas. A tradição perpetuada, por mais que a tentem destruir, sempre dá um jeito de renascer, pois suas raízes são profundas, transcendem a alma. “Poeira Dançante” é o título do álbum de estréia da mineira de Pitangui, Sol Bueno.



“Poeira Dançante” – atenção para a imagem roseana, e aqui pediria licença aos guardiães de nossa querida língua portuguesa para escrever dansante. Sim, com “S” e suas sinuosidades, “s” de sensível. “s” de sensual!
Dansa com “s”existiu na cabeça de Guimarães Rosa, que achava o “S” mais adequado para exprimir a liberdade do corpo dansante, ao contrário da quebra de continuidade que o cedilha (Ç) sugere.

Ouvir “Poeira Dançante” e ver o belíssimo tratamento gráfico dado ao encarte, é dar-se conta que é musica para ver e ouvir. Musica e imagem sugerem mais que nostalgia e poesia; as partículas de terra são “sinais” que se seguimos ao embarcarmos e nos embrenharmos pelos sertões mineiros, em busca de um Brasil que muitos julgam desaparecido: é a “Poeira Dançante” dos pés descalços ou de alpercatas de couro, dos pés caminhantes dos andarilhos, dos trabalhadores, dos meninos que caminham longas distancias para chegar à única escola num raio de muitos quilômetros; é a poeira levantada pelos pés dançarinos nos terreiros da aldeia krahö, nos pontos de jongo. Tão tênue quanto os grãos de pó que se ergue é esse Brasil esquecido, mas viçoso e real, vibrante, embebido de suor, repleto de vida e história.





Se se pode dizer de um trabalho que o mesmo é uma extensão da pessoa que o idealiza, que se diga com todas as letras que o trabalho de Sol Bueno é a personificação da pessoa em forma de arte. A cantora, compositora, instrumentista é uma agregadora da arte de viver. Salta aos olhos a naturalidade e singeleza com que desfila suas vivências com os recursos disponíveis – vocais, corporais,técnicos, etc. Para ela, arte não é um fazer, mas um viver; nela arte e modo de viver se confundem,  se imbricam.

Como ela mesma diz num texto de divulgação do trabalho, expressa um sentimento de “poesia necessária”, ou seja, mais que recursos estéticos ou técnica apurada, sua música tem frescor e alegria e justamente por conta disso, carrega toda a força da ancestralidade, sua e de seu povo, do lugar onde nasceu e vive.

O CD compõe-se de 13 canções, 13 símbolos que remetem à paisagens, pessoas, situações triviais da labuta cotidiana e também da poesia com cheiro de flores silvestres, inigualáveis pores de sol. A bússola que a guia aponta para perdidas memórias que ela pressente pulsante nas mais fundas camadas de seu ser e do seu povo. O canto puro, aureolado por violas, rabecas, caixas, tambores, violões que se fundem aos sons de pássaros, dos rios, dos ventos, testemunhos vivos da força pujante do cerrado e da bacia do Velho Chico. História viva.
Que não se enganem com a doçura do canto; é musica forte e densa, inquebrável: uma tremenda força oculta-se em seu corpo e alma de cabocla, de fragilidade apenas aparente, como a densa poeira que sutilmente se impregna.

“(...)
Não se sabe de como sua chegada,
mas o estar ali da borboleta.
Soprava delicadamente nos olhos,
uma doce afronta de querer voar,
de acreditar na dança bailada de quando a
poesia voa das coisas,
da necessidade de arriscar sonhar.
Mesmo que breve, mesmo que pouco,
mesmo que ainda semente,
e ainda asfalto.

(...)

Foi assim, desde o primeiro sopro,
o primeiro casulo, o primeiro pó.
A borboleta no asfalto, poesia do
Improvável, era também eu asas.
Eu coragem.

(...)

Eu memória da terra
eu o vaso grande,
eu escritas de sonho do era guardado em mim.
Eu sino da memória...
acordada de mim.
Eu em todos os outros,
todos de tudo em mim.
Era eu Poeira Dançante.”


(TRECHO de “Canto Leve”, segunda faixa do álbum)


O DISCO

O CD foi produzido através de financiamento coletivo – uma nova modalidade de produção que dá aos artistas e público interessado uma oportunidade de ir à luta. Foram muitas as participações, ela mesma conta:

 “A capa foi feita por meu irmão, Ronaldo Bueno, e por ele conhecer meu amor pelas ervas, assim ele pintou a arte: com café e chás... o CD físico tem também esse cheiro, que a gente pôs de um a um. Amarrado com embira de bananeira. Embrulhado na chita que minha mãe costurou...” 



A direção e produção musical é dela própria e do gaúcho Giancarlo Borba, o “cantor militante”, sobre quem já escrevemos nesse Ser-tão Paulistano. As gravações se deram entre Minas Gerais e Rio Grande do Sul e contaram as participações de Sérgio Pererê, Meninas de Sinhá, Erick Castanho, Letícia Leal, Rodrigo Salvador, Ana F., Gladson Braga e Marcelo Taynara, João Paulo Torres. Participação especial da Dona Bela, já falecida, rainha na guarda de Moçambique. 



As Faixas:

1    Floração Derradeira
2    Canto Leve
3    Sino do Rosário
4    Ladainha do Viver
5    Tribuzana
6    Estação
7    Águas Batuqueiras
8    Ó Deus Salve o Meu Cerrado
9    É de Côco
10 Ori
11 Mbari
12 Debaixo da Meia-Noite
13 Cantiga do Moinho


O disco vem coroar sua militância cultural mais que ativa dessa integrante do Dandô – Circuito de Música Dércio Marques, do qual é Coordenadora em Minas Gerais.
O Projeto Dandô, idealizado por Katya Teixeira, é uma ousada proposta envolvendo artistas de todo país, que já ultrapassa nossas fronteiras, tendo alcançado terras chilenas, uruguaias, argentinas. Brevemente estará desembarcando na Galícia, na Peninsula Ibérica.



A propósito, Sol Bueno estará em São Paulo em agosto, no Instituto Juca de Cultura (IJC), quando teremos oportunidade de conhecê-la ao vivo e adquirir o CD.
Oportunamente o blog divulgará a data exata.




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KATYA TEIXEIRA LANÇA CD NO SESC BELENZINHO



Será neste sábado, num significativo 13 de maio, Kátya Teixeira estará no Sesc Belenzinho, lançando seu mais recente trabalho, As Flores do Meu Terreiro.



A incansável Kátya, oficialmente paulistana, mas que pode ser chamada  mineira, alagoana  – terra de seus pais – ou gaúcha, dado que faz constantes incursões aos pampas, encantando aquela gente com a força de seu canto e a simpatia irradiante, reflexo de sua alma iluminada, tornando verdade a frase do amigo Zé Maria, que faz parte de seu staff, segundo o qual “...ela não é só um rostinho bonito!”. Pura verdade. Sua identificação com paulistas, mineiros, gaúchos e mesmo portugueses e argentinos, por toda parte onde anda, é pautada pela sinergia que flui do que há de mais genuíno no ser humano: a cultura popular, em toda a sua pureza, por mais que a influência mercadológica sufoque com seu alto volume e superficialidades,  o sentimento puro do povo. Recordações de uma frase lapidar que ouvi certa vez do Naná Vasconcelos ao comentar sobre a lambada, um ritmo em voga em plenos anos 1980: “Só sobrevive se tiver raízes!”



As Flores do Meu Terreiro é um trabalho ímpar em sua trajetória. Poderia dizer ser o disco dos afetos, das amizades, onde densidades alternam levezas. Depois de seu cartão de visitas “Katchere”, do mergulho radical “Lira do Povo”, da homenagem aos inúmeros  parceiros, representados aqui por  Chico Branco, Giordano Mochel, Jean Garfunkel e Luiz Perequê em “Feito Corda e Cantiga”, da viagem intramar com o mineiro Luiz Salgado em “Entre Dois Mares”, da comemoração de 20 anos de carreira com "Cantariar", vem à luz essa cria iluminada, “As Flores do Meu Terreiro”, permeado de tanta delicadeza e ao mesmo tempo uma força estranha, que sua audição é como se fosse um sarau na sala ou na varanda de casa, com toda a familiaridade de sons extras na roça.



Ah, e não é possivel deixar de mencionar sua atuação no projeto Dandô –o Circulo de Música Dércio Marques, onde a menina retoma o trabalho de mestre Dércio Marques, eterno andarilho da música. Importante ressaltar que o Dandô é nada mais nada menos que um novo mapeamento musical do Brasil.
É comum ouvir dizer que a musica brasileira parou no Clube da Esquina ou nos anos 80. Há quem diga que o ciclo de qualidade tenha se fechado com a Bossa Nova ou a Tropicália ou mesmo no passado longinquo do começo dos anos 1950. Ledo engano: a música brasileira sempre esteve viva e pujante. Quem duvidar que acompanhe o Projeto Dandô e suas inúmeras”revelações” ao público: Paulinho Matricó, Nádia Campos, Sol Bueno, Giancarlo Borba, tantos e tantos outros, além de artistas  mais conhecidos e consagrados como Valdir Verona, Julio Santin, Levi Ramiro, entre outros.




Vamos todos ao Sesc Belencinho, sábado, 13 de maio, 21:00 horas. Garanto, asseguro e dou fé de que será inesquecível, uma verdadeira experiência musical, a afirmação de um Brasil riquíssimo, bem diferente do que aparece nos cadernos de política dos jornais.


Vamos curtir e lavar a alma com a arte honesta,vibrante e alegre de Kátya Teixeira, a Musa da musica brasileira!



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GRAZIELLA HESSEL NO BAR DO FRANGO




No próximo sábado, dia 6  de maio, quem for ao Bar do Frango vai presenciar um exemplo vivo do  sincretismo musical e cultural paulistano: numa breve pausa em suas atividades a cantora, compositora e projetista cultural, Graziella Hessel, se apresentará no local, acompanhada pelo violonista Lucas Tokumoto e o gaitista  Adriano Adiala (gentilmente cedido pela Produtora Agua Grande).

Graziella é uma artista atemporal. Em qualquer época que tivesse nascido, em qualquer lugar, decididamente seu destino seria um só: artista por natureza e oficio. Sua marca registrada é um profundo e sincero amor pela arte. Sua apurada técnica vocal, é um recurso expressivo que remete à tradição bem brasileira das grandes vozes femininas: O timbre jazzístico, muito apropriado ao improviso, a faz navegar com segurança pelo cancioneiro nacional e seus multos sotaques. Quem for ao Bar do Frango no próximo dia 06 terá a fortuna de ouvi-la interpretando um variado leque de compositores – Nelson Cavaquinho, Chico Buarque, Eduardo Gudin, Milton Nascimento, Dolores Duran, Maysa - além de composições de sua própria lavra.



Seu CD solo “Grazie a Dio”, com letras do poeta e jornalista Diorindo Lopes e arranjos do músico e compositor Edson Tobinaga, é exemplo vivo de sua versatilidade e cuidado apurado com a poética.

Ao longo de sua carreira, participou de diversos projetos idealizados por ela que nos remetem a momentos importantes da musica brasileira. Alguns deles:
- Tempos e Terras Brasileiras
- A Noite do Meu Bem
- Frutos da Garoa
- Chuva de Vinicius
- Mais Maysa...


Apresenta-se em espaços universitários, eventos patrocinados pela Prefeitura de São Paulo, Unidades do SESC, Centros Culturais, Bibliotecas, Escolas, Casas Noturnas, etc.

Merece destaque o importante trabalho pedagógico que realiza, fruto de sua experiência como professora e formação acadêmica em canto e violão popular e canto-coral. Seu trabalho é todo voltado para a comunidade menos assistida: Corais Populares, Oficinas de Canto/Violão e Musicalização Infantil. São freqüentes suas apresentações com os respectivos grupos em Escolas, ONGs, Hospitais, entre eles, o Projeto Arquimedes/Talentos Especiais (SECSP), CESCLA (Santa Casa), CEU Rosa da China, NCIs (SMADS), etc.







OS CONVIDADOS:

ADRIANO ADIALA: Artista exclusivo da Produtora Água Grande, o gaitista carioca é um músico, cantor, compositor e instrumentista (harmonicista) que há 30 anos realiza espetáculos musicais em diversos países, divulgando a produção musical brasileira. Um artista sensível e com a consciência do valor da nossa arte musical, Adriano segue a rara linhagem de instrumentistas da harmônica cromática (gaita de boca), cujo exemplo vivo mais conhecido é o saudoso mestre Edu da Gaita, dono de um estilo que realizou uma perfeita sincronia entre o Jazz, a MPB e a Bossa Nova.
Em 1998, após mudar-se para Minas Gerais, criou o projeto “Meninos Gaitistas do Brasil”, dedicado à formação de crianças em áreas de complexidade social.
Ao retornar ao Rio de Janeiro em 2003, Adriano trouxe na bagagem o acúmulo de vivências e experiências com o desenvolvimento do projeto. Realizou turnês pela Europa com o espetáculo “Artesanato Brasileiro”, homônimo de seu CD solo, em que interpreta canções de grandes compositores da música brasileira.



LUCAS TOKUMOTO: o jovem violonista percorre com segurança os vários territórios onde reina o violão brasileiro, desde o  popular ao gosto dos cantores da noite aos complexos arranjos das canções de Chico Buarque e Guinga, por exemplo. Foi aluno do compositor e violonista Chico Branco, estudou na Escola Municipal de Música de São Paulo e  no tradicional Conservatório Municipal de Tatuí. Recentemente estudou com o mestre Luizinho Sete Cordas. Quem o ouve, já nos primeiros acordes reconhece o inconfundível fraseado tipicamente brasileiro, nos levando diretamente a Dilermando, Garoto ou João Pernambuco, bambas do violão, navegantes lépidos entre o popular e erudito.



O LUGAR:

Já falamos noutras ocasiões sobre o famoso Bar do Frango – “aquele que é para poucos” – mas nunca é demais mencionar sua importância para a cultura musical paulistana. Está encravado no coração da Zona Leste, importante referência, sob vários pontos de vistas, notadamente  cultural.
Não é coincidência, é mais do que simbólico: uma confluência de fatores constrói a história do Bar do Frango, lugar extremamente querido por seus freqüentadores, que ali se sentem literalmente em casa. Dizer que o Bar do Frango, do Tatau e de todos nós que o apreciamos, é um nicho de resistência cultural pode soar um tanto presunçoso, além de resvalar em outro perigo, o do mero clichê. Todo cuidado é pouco para não perder pé na confusa realidade que nos cerca nesses incertos tempos cinzentos.

Quem chega ao Bar do Frango, de imediato percebe que por lá nada é cinza ou incerto. Quem adentra seu espaço, com suas cadeiras e mesas de madeira e sua decoração caótica, cosmopolita, de um modo ou de outro se sente em casa, se sente no Brasil, num Brasil mestiço, vibrante e sobretudo alegre e cordial, onde a esperança é uma luz num horizonte possível.  



O Bar do Frango, nos seus mais de 20 anos de existência e resistência pode ser considerado um microcosmo da Zona Leste de São Paulo, sua imensa variedade cultural, um imenso mosaico que abriga desde Centro de Tradições Nordestinas à música de vanguarda altamente sofisticada; do experimentalismo de Arrigo Barnabé, às invenções criativas do Isca de Policia ao blues de sotaque paulistano de Edvaldo Santana.

O Bar do Frango sintetiza tudo isso: visões do Planalto de Piratininga,  do Cerrado, do Sertão e do Mar!


SERVIÇO

O Bar do Frango está localizado na Av.São Lucas, 479.
Referências: Av do Oratório, 2.300, Av Luiz Ignacio de Anhaia Melo, altura do nº 5.000
Aceita cartão de débito.

Entrada Franca

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