TOP DEZ 2017

TOP DEZ 2017

A cada final de ano, a mídia em geral elege as personagens mais representativas em cada segmento da sociedade: nas artes, no esporte, na política, no meio empresarial. Nós, do ser-tão paulistano, não obstante nos dedicarmos a divulgar no nosso pequeno espaço justamente quem não encontra espaço noutros meios, decidimos também prestar uma singela homenagem à quem entendemos merecem, ser consideradas como exemplares.

Especialmente nesse 2017, tivemos um ano bastante rico culturalmente e se tivéssemos de dobrar a quantidade de pessoas e/ou entidades que mereceriam ficar entre os destaques, o faríamos sem qualquer esforço. E tudo isso, vale destacar, apenas referente a quem não está na grande mídia, onde ocorreram grandes destaques, como novos discos do Chico Buarque e João Bosco, o livro das letras do Milton Nascimento, etc.
Ressaltamos, embora se faça desnecessário, que nosso universo cultural é riquíssimo e sempre vale a pena um olhar, uma busca, pois verdadeiros tesouros se ocultam nessa Grande e Desvairada Sampa!


O número 10 é um simples mote: dez figuras representativas, importantes  no geral e especialmente no particular, reprodutores que são de ideias e conceitos de um mundo que pode ser melhor!

A ordem que segue abaixo é aleatória, não obedece a um critério donde caberia dizer ser Primeiro ou Décimo:

O VIOLEIRO E O POETA

Mais um  Cd do violeiro VALDIR VERONA, mais uma parceria, desta feita com o poeta Juarez Machado de Faria. Todos conhecem as tradições violeiras do interior de São Paulo, Minas Gerais, do Nordeste, Mato Grosso, Goiás, etc. Mas pouco se sabia da viola gaúcha, embora seja um instrumento tradicional daquelas plagas. Valdir Verona, depois de estudar violão clássico, a exemplo de muitos outros músicos, encantou-se com a viola caipira  e tem produzido um vasto material tendo a viola como referência principal, a maioria em parceria – Levi Ramiro e o acordeonista Rafael De Boni  são exemplares.
Desta feita junta-se ao poeta de sua terra, Juarez de Faria, com quem havia composto “Meu Irmão Violeiro”, que deve figurar como um verdadeiro clássico do cancioneiro nacional. Dizer que Juarez é o “poeta do povo” é mero eufemismo: ele encarna a própria voz de seus contemporâneos, sem se deter somente na tradição, como podemos ver nos seguintes versos:
“...saiam os dedos e os olhos
De frente dos computadores.
A Primavera te chama
E quer mostrar suas flores
...que os cofres dos corações
Guardam, sim, outros valores.”

Versos assim, não encontrariam melhor guarida que os trinados violeiros de Valdir Verona!




MORA MUNDO

Pense num lugar acolhedor.
Pense num lugar super simpático, onde voce tem a exata sensação de estar em sua própria casa.
Pense num lugar onde voce tem toda a liberdade de manifestar-se, de “ser” voce mesmo(a) sem o risco de ferir melindres.
Pense num casa com quintal e banco de madeira, onde se pode prosear tranquilamente, sem pressa.
Pense num discreto bar, sortido com guloseimas feitas com muito carinho, diversas bebidas – incluindo cachaças artesanais – e uma coisa um tanto incomum nesses tempos de vale tudo: não custa os olhos da cara! Pois esse lugar existe, o lugar democrático na prática, onde verdadeiramente nos sentimos em casa, seja para ouvir boa musica com a sensação de estar, literalmente, na sala de casa!
O lugar é o Mora Mundo. Sim, é possível estar de  bem com a vida!
Fica na Rua Barra Funda, 391, pertinho da estação barra Funda, do metrô!

 Consuelo de Paula e Fernanda, do MoraMundo


INSTITUTO JUCA DE CULTURA

Localizado na Rua Cristiano Viana, 1142, o I.J.C., sob a batuta do poeta Paulo Nunes, é um recanto de brasilidade que merece ser conhecido e apreciado. Pequeno, simples, acolhedor, foi criado em homenagem a um dos maiores poetas da literatura oral que o Brasil já conheceu, José Joaquim de Souza, profissão de carreiro da região de Patos de Minas, mais conhecido como JUCA DA ANGÉLICA. Poeta popular, cuja obra só chegou ao nosso conhecimento graças ao hercúleo trabalho do Paulo Nunes, que a custo conseguiu convencer “seu” Juca a transpor seus versos para o papel no livro “Meu Canto é Saudade”. No rastro vieram  o CD “Puisia”, musicado por Saulo Alves e o Trio José e ainda um filme. (“seu” Juca pertencia à milenar estirpe de versejadores/epopeitas que acreditam pura e simplesmente na força da palavra falada. Essa tradição remonta também ao hassidismo, doutrina judaica pietista do século XVIII que acreditava ser o ensinamento oral o único verdadeiro, pois o ensinamento divino é transmitido pela palavra, através da alma).
O Instituto Juca de Cultura (IJC) é o local em São Paulo que recepciona os músicos do Projeto Dandô – Circulo de Musica Dercio Marques, movimento idealizado por Kátya Teixeira, refazendo o trabalho que o andarilho musical  Dércio fez a vida inteira: aglutinar pessoas de todos os cantos em torno da arte musical.




PURAHÉI TRIO

Uma surpresa maravilhosa conhecer o trabalho do PURAHÉI TRIO, formado pela flautista brasileira Maiara Moraes, a cantora paraguia Romy Martinez e o pianista e arranjador argentino Chungo Roy. Os jovens dedicam-se, digamos, a “inventariar” e “traduzir” em linguagem musical contemporânea o gigantesco acervo musical cultural existente nas regiões fronteiriças de Brasil (estados do Sul e Mato Grosso do Sul), Argentina e Paraguai que, embora sejam conhecidas e façam parte do cotidiano dos locais, é pouquíssimo conhecido do resto dos países. O meticuloso trabalho dos jovens redescobre a força musical de conhecidas canções como “Galopera”, “Pé de Cedro” e “Sonhos Guaranis”, como ressalta a importância de preservação da maior reserva de água doce do planeta, o chamado Aquifero Guarani.



CACAI NUNES

Quem primeiro falou-nos do violeiro pernambucano CACAI NUNES foi a violeira e guitarrista francesa Fabienne Magnant, interessada em adquirir sua obra, então fora de catálogo, Casa do Chapéu (felizmente a obra foi reeditada). Cacai é desses artistas que fizeram a viola caipira alçar vôos além do universo de origem, a zona rural, rumo a outros palcos e estilos, provando seu valor e versatilidade. Cacai tem sua linguagem própria, mas tem no sangue a sensibilidade que só os grandes violeiro possuem. Quem duvidar, que ouça a memorável “Inhuma do Cocho”, uma canção que revisita as profundezas do tempo e que tem futuro garantido nos corações.





BARULHO D’ÁGUA

O blog Barulho d’água, do Marcelino Lima & Andreia Beillo é sinônimo de boas novas e boa música – haverá algo mais musical que o singelo “burulhinho d’água”? O texto de apresentação de cada matéria é enganoso. Diz:
Veículo de divulgação de cantores, duplas, grupos, compositores, projetos, produtores culturais e apresentadores de música independente e de qualidade dos gêneros popular e de raiz.
Enganoso porque é muito mais do que isso. Suas resenhas de discos ou textos sobre artistas pouco conhecidos do grande público são de encher os olhos e enriquecer nossa cultura musical (vejam por exemplo, sua postagem Título de melhor rabequeiro do Brasil é pouco para reconhecer a contribuição de Zé Gomes (RS) à música do país) Como informa o titulo, uma justíssima homenagem a um dos maiores músicos e homem de cultura que esse país já viu e é pouco conhecido: o gaúcho Zé Gomes.
Barulho d’água, além de competente veiculo de informação musical, é pura demonstração de amor pela arte!




TRILOGIA DO AMOR, por Consuelo de Paula

Falar do projeto Trilogia do Amor, que lenta, mas solidamente está sendo desenvolvido pela mineira de Pratápolis, Consuelo de Paula, não é um exercício de prestidigitação: ousamos antecipar que será “tão bunito qui só vendo e ouvindo”, como diria o poeta João Bá.
Consuelo, como boa mineira, produz ao ritmo do coração, da alma. E esse projeto, que tem o título provisório de “Movimentos de Amor e Luta”, como é seu hábito, rompe zonas de conforto que seu talento lhe reserva, para ousar – como, aliás, tem feito durante toda a sua carreira. Em tempos tão difíceis e confusos como os que vivemos atualmente, não apenas no Brasil, mas no mundo. “Amor e Luta” são elementos catalizadores dos desafios que os tempos atuais impõem e a incansável Consuelo, não se faz de rogada.
Até agora mostrado para os felizardos frequentadores do Teatro da Rotina (eis outro “espaço” cultural/musical merecedor de figurar entre os TopDez!) e do espaço Mora Mundo, é uma Consuelo que, junto com seu violão e sua voz, forma com o público um elo de cumplicidade poucas vezes percebido na história da musica: raros momento em que podemos ver a artista falando, cantando e tocando o “amor e a luta” na quentura do sangue, ao ritmo de sua respiração e temperado por sua ginga.
Outro possível titulo para esse trabalho em gestação, mas já delineado, seria Chamamento, onde, com seu jeito mineiro, nos convida à sua roda, onde se mistura toada, baião, samba, valseados, modinhas e batuques diversos: a artista em cena, criativa, apaixonada, sincera, inquieta.




POEIRA DANÇANTE

O Projeto Dandô – Circulo de Musica Dercio Marques, nos deu a oportunidade de conhecer a mineira SOL BUENO, cujo trabalho, “Poeira dançante”, tão belo e envolvente que nos faz sentir participantes de uma visão miraculosa, só possível na terra mística e encantada das Geraes. “Poeira Dançante”, o CD, é uma nuvem de pétalas coloridas cobrindo os céus do Brasil, mas traz nos versos, além da beleza dos pés dançantes, também os pés calejados e descalços, a luta nos terreiros e nos campos de um Brasil esquecido, porém, viçoso e real.



REBENTO

O título é apropriado para o mais recente trabalho do violeiro RICARDO VIGNINI. Oriundo do rock, Ricardo tem “passe” livre por todo o universo musical, pois poucos conhecem como ele a pujança e o valor do instrumento que poderia ser símbolo do Brasil, a viola caipira. “Rebento” é um disco “estradeiro”. Um “blues” caipira que viaja pelos sertões da viola, pelas vendas, pelos bares de beira de estrada, pelos pés de serra, pelas roças.
Ricardo Vignini é desses músicos que, a exemplo de Cacai Nunes e Fabienne Magnant, levam a viola caipira para outras esferas, descobrindo novas possibilidades para o instrumento e também para a descoberta e conquista de novos públicos, especialmente entre os jovens. Sua contribuição é imensa, ao lado das valorosas contribuições de Adelmo Arcoverde e Jaime Além, que compuseram para a singela violinha peças eruditas para viola e orquestra – vide “Concertina, em 3 Movimentos”, de Adelmo e a deliciosa “Suite Caboclinha”, de Jaime.
“Rebento” é a cara do Matuto, que promove uma importante intersecção – toca rock com viola capira e musica caipira eletrificada -, sem nenhum desrespeito a nenhuma das tradições, provando que Jordi Saval está mais do que certo quando afirma que “...em qualquer tempo, a musica sempre será uma possibilidade de diálogo entre os homens.No nascer dos tempos modernos, caravamas que atravessavam desertos, de várias regiões do Oriente Médio rumo á região do Mediterrâneo, acampavam uns próximos aos outros, muitas vezes sem conhecer um do outro o idioma, impossibilitando o diálogo. Mas bastava alguém sacar seu alaúde ou qualquer instrumento de percussão e iniciar-se uns batuques, que a comunicação se estabelecia.” Que o diga Tom Zé, que no primeiro encontro com David Birney passaram uma noite inteira “dialogando” sem que ele soubesse nada de inglês nem o outro qualquer coisa de português. Entenderam-se apenas musicalmente. Pois é musicalmente falando que ressaltamos o trabalho do Matuto Ricardo Vignini, parceiro do meu conterrâneo, o Indio Cachoeira.






ELEMENTAL

O CD  de estréia do mineiro  Erick Castanho remete à obra prima de Dércio Marques, “Segredos Vejetais”. O bom da história é que Erick não apenas segue os passos do mestre, como dá seu recado em sua própria voz, fazendo jus à máxima dos sábios medievais japoneses, para quem “...o importante não é fazer o que os mestres do passado fizeram, mas procurar o que eles procuravam.”
Assim, as questões que foram levantadas “precocemente” em “Segredos Vejetais”, como a destruição do cerrado e a consequente preocupação com a preservação do bioma,  não é apenas um capricho saudosista, mas um fator de importância fundamental para a construção do futuro do próprio planeta. O futuro bate às portas, é inevitável e quanto melhor estivermos preparados para encarar os desafios, mais chance teremos de sobreviver. Érick Castanho não é um ativista, é um artista. Ou melhor: é um ativista de outra natureza, que fala diretamente aos corações, através de sua arte.





E neste final de post, o último do ano,  menção honrosa ao casal PAULO FREIRE e ANA SALVAGNI, unidos no amor e na musica. O último disco da Ana, em parceria com Eduardo Lobo, “Canção do Amor Distante”, nos brinda com histórias de amor, desde o amor provençal, até os nossos dias: da poesia de Hilda Hiust a Adonirã Barbosa, Paulo Cesar Pinheiro,  Elomar. E o Paulo, com suas parcerias, suas viagens, suas prosas,  parcerias, nos revelando um Brasil do qual devemos ter muito orgulho.

Menção honrosa para os eternos embaixadores da cultura rio-grandense, os irmãos RAMIL, Kleitor, Vitor e Kledir!

Para  SABAH MORAES, NEY COUTEIRO, toda a família Couteiro Moraes;

Para Oswaldinho & Marisa Vianna;

Jair Marcatti, meu antigo professor de história contemporânea, que coordena o importante projeto “Imagens do Brasil Profundo”, quarta sim, quarta não, na biblioteca Mario de Andrade;

Para Walter Lajes, violeiro e cantador dos sertões de Vitória da Conquista;
Ao menestrel, especialista em musica medieval,  Roberto Bach:

À Karine Telles, cantora brilhante dos palcos paulistanos;

Super abraço a João Bá e seu pupilo João Arruda; ao multinstrumentista Antonio Joao GALBA;
Saudações a Noel Andrade; ao milongueiro Giancarlo Borba, produtor do disco da Sol Bueno!
Dani Lasalvia, que venha o disco novo;
À Antonio Pereira, cantor, cantador, compositor, violonista, um dos maiores talentos desta terra brasilis!


Nossos agradecimentos a toda essa gente que tanto faz pela cultura nacional.
E sinceras desculpas pelos tantos que não pude mencionar aqui, por mera falta de espaço! Seriam centenas, graças a Deus!

ENFIM, UM SUPER E FELIZ ANO NOVO A TODOS E A TODAS!



Continuar Lendo ►

"Elemental", de Érick Castanho: Uma Homenagem a Dércio Marques



Quem conhece a obra de Dércio Marques deve estar relativamente familiarizado com o termo “elemental”, largamente presente em seu disco “Segredos Vejetais”, provavelmente seu trabalho mais elaborado. Não sei se é seu melhor disco – difícil escolher dentre tantas obras primorosas e pontuais, que ora focam um Brasil profundo, ora América Latina ou andanças pela Peninsula Ibérica, onde travou um contato fundamental com José Afonso, o grande artista português e um surpreendente Paco Bandeira, diferente do “Paco” conhecido pelos próprios portugueses;  melhor é deixar que cada um faça sua escolha pessoal, pois Dércio era muitos, como mostra sua discografia.
Literalmente um andarilho a serviço da música, que de vez em quando parava e erigia uma torre, sob forma de disco. Embora houvesse uma unidade intrínseca entre eles, eram independentes entre si, mantendo, entretanto, uma invariabilidade rara na procura incansável da brasilidade contida na música. Embora o Brasil seja um país essencialmente musical, tais aspectos identitários facilmente se perdem nos desvãos dos caminhos, a ponto de tornar os próprios “invisíveis”. Durante toda a sua vida Dércio arregimentou um número grande de seguidores e simpatizantes de sua “causa”. O “Projeto Dandô – Círculo de Música Dércio Marques”, do qual faz parte Érick Castanho, é uma justa homenagem ao menestrel, buscando na prática restabelecer a rede de vínculos entre artistas e público de diferentes lugares do Brasil e América Latina, exatamente como ele fazia, embora, no seu caso, fosse algo mais intuitivo do que regiamente projetado..
.
 Dentre o “projeto” de vida de Dércio, em sua existência intensa e aparentemente caótica, verdadeira máquina criativa, compondo com parceiros das mais diversas procedências e estilos, “Segredos Vejetais” é simbolicamente seu legado: tudo está ali, os ritmos brasileiros e latinos, as lendas e sobretudo seu imenso amor pela natureza, que talvez tenha sido a face de sua militância mais intensa e clara,  apontando sem meios termos para as denuncias da devastação que à época da produção do disco já se encontrava em processo acelerado. Obra profundamente poética, onde a fantasia não encontra limites e os “espíritos da natureza”, seres geralmente arredios, ganham cor, forma e voz.  Outros trabalhos deram continuidade, mas tudo já estava de algum modo presente em “Segredos Vejetais”. Na musica que poderia ser subtítulo do disco, “Natureza Oculta”, de Milton Edilberto, estão presentes várias citações dos elementais, que permeiam todo o trabalho. 
(”Elementais” são os espíritos da natureza. Silfos, Salamandras, Ondinas e Gnomos, que  comandam respectivamente o Ar, Fogo, Água e Terra.)

“Elemental” é o nome do disco de estréia do mineiro de Ituiutaba, residente em Uberlândia, Érick Castanho, um fruto da grande árvore derciana. (Não por acaso, Dércio é da mesma região. Diz a lenda que Uberaba e Uberlandia disputam a primazia de ser a cidade natal do musico).



Elemental, o disco, é daqueles felizes empreendimentos que melhoram a cada audição que realizamos. Uma celebração da cultura brasileira e latina, de forma alegre, leve e descontraída, como num sarau entre amigos reunidos para homenagear temas sagrados do folclore, das folias, referências à matriz luso brasileira, nos belos temas instrumentais “Ventos do Minho e Histórias Além-Mar”. Vale mencionar o desafio de executar "Riacho de Areia". Deve ser a musica folclórica mais gravada do Brasil: Dercio Marques, Doroty Marques, Tavinho Moura, Almir Sater, Milton Nascimentos, Consuelo de Paula, apenas para citar alguns artistas. Cada versão melhor que a outra, definitiva! E por outro lado, como fazer um Cd que fale do folclore, sem cantar "Riacho de Areia"? A cantiga, de domínio público, é passagem obrigatória na "travessia" pelo universo mágico das Geraes – tão simbólica quanto a própria palavra – Travessia - que encerra o romance icônico, Grande Sertão: Veredas. Para cantar Riacho de Areia, Erick Castanho optou por simplicidade e  sentimento aos versos sumamente sonhecidos, o "sentimento" profundo que evoca as coisas da terra, sem muitos floreados instrumentais. Mas houve espaço para criação: compôs um interessante "retalho" com "Rio", do cantador Luiz Salgado, participação indispensável no disco e tudo isso entremeado com versos declamados pelo poeta coração do Brasil, o impagável e impressionante João Bá! Como diria o próprio Bacurau Cantante: “Ficou bunito que só vendo!”
O transculturalismo, as inúmeras referências evocadas por Érick, a exemplo de Dércio, reuniu mais de 30 músicos, num todo harmônico. Linda homenagem ao andarilho agregador que espalhava sementes e chamava todos à roda. E nessa roda, arreunida especificamente, não podemos deixar de mencionar Kátya Teixeira e João Arruda (os demais músicos nos desculpem).






 O disco de Érick Castanho – nome de batismo Érick Guimarães França – culmina, enfim, uma existência musical fruto da convivência cotidiana não só com as coisas do folclore – folias, congadas, toadas -  mas também do blues e do rock, enriquecendo sua experiência como músico, moldando-lhe um estilo, provando que a boa musica ultrapassa fronteiras e preconceitos, enriquece a vida: a Arte, notadamente a musical, talvez venha a ser o “Alvorecer” inevitável, tal como escreve no texto do encarte seu parceiro musical e pai, Aldo França.O alvorecer, a música e o texto, é um chamado, um aviso: é nossa inevitável oportunidade. O que pode o artista, num mundo passando por profundas, rápidas e aparentemente indolores mudanças, no rastro da globalização, seu brilho reluzente e suas falsas promessas de democracia definitiva? (o grifo em itálico é por minha conta e risco).

Talvez seja característico da própria democracia sua permanente instabilidade e deve ser melhor que a encaremos sempre assim. Num mundo assim, fortemente contrastado por dualidades, é tentador para o artista ceder à falsa consciência e assim deixar-se cair na vala comum, deixando de lado sua verdadeira missão, para a qual recebeu dons além dos reservados aos comuns mortais: a capacidade de dialogar diretamente com a sensibilidade de quem o ouve e vê. Ouçamos os poetas, os músicos, deixemo-nos embriagar pela arte, uma das linguagens de Deus, que todos que habitam abaixo dos céus compreendem!


“O alvorecer é a luz que vem sobre a escuridão...
Não há como impedir o amanhecer de um novo dia.
Quando chega a ‘hora’, os pássaros começão a cantar
e os primeiros raios de luz dão as cores no horizonte
antecipando o sol que vai nascer.
E do despertar para a luz de um novo tempo
é inexorável!
O nosso mundo, nunca mais será  o mesmo.
A continuidade da vida humana na terra exige
uma mudança radical dos costumes e na sua postuta
no seu habitat planetário para o prosseguimento da vida.
Cada ser é responsável pelo seu próprio Amanhecer...
É inevitável!...
Vejam  os sinais...
A luz do conhecimento já ilumina todo o caminho.
Não há como retroceder!”

            (Aldo França)





Continuar Lendo ►

CONSUELO DE PAULA NO TEATRO NA ROTINA

A terceira semana de novembro, em São Paulo, promete. O puro talento da música brasileira vicejará no pequeno mas nobre palco do Teatro da Rotina, na Rua Augusta, sentido Centro: Consuelo de Paula desvenda seu processo criativo em mais um desdobramento do projeto "Chamamento". 

CONSUELO DE PAULA:


A mineira Consuelo de Paula encontra-se em estado de graça. A conclusão de um ciclo, uma importante etapa de sua carreia, a histórica parceria com Rubens Nogueira, culminando na gravação de um dos mais importantes discos brasileiros dos últimos anos, o antológico “O Tempo e o Branco”, inicia novos “movimentos” em sua trajetória.
Os movimentos de amor e luta, segundo a própria, resultam da mistura dessas duas palavras, sempre tão necessárias em qualquer tempo - agora mais do que nunca: Amor e Luta. São “movimentos” empreendidos pela artista que podemos chamar catalizadores na busca e estabelecimento de uma postura frente aos desafios que os tempos atuais impõem.

Começou no mesmo Teatro da Rotina, com o show solo no primeiro semestre deste ano, prosseguindo na casa Mora Mundo, no bairro Campos Elyseos, no dia do seu aniversário. Retorna agora, em 16 de novembro ao Teatro da Rotina – tudo isso, lembremo-nos, depois do lançamento, em noite de emoção e gala, de “O Tempo e o Branco”, no Auditório do Ibirapuera.
Para cada uma destas apresentações solo, Consuelo compôs canções especiais. Os palcos pequenos, o clima intimista, tem lhe permitido novas experiências com seu violão e seu público. Quem conhece seu trabalho sabe que Consuelo jamais se repete, por mais tentadora que possa ser a possibilidade daquilo que a maioria dos artistas mais almeja, o chamado “sucesso”. O “sucesso” para ela é a empatia, a emoção, a consciência do que sua Arte provoca no público, à flor da pele, no pulsar do sangue, no ritmo do coração.



Depois de O Tempo e o Branco, com acordeon, viola caipira e voz, em arranjos sofisticados sobre poemas compostos inspirados em Cecilia Meireles, esperava-se um mergulho em sua pura alma lírica, desvendando complexidades -  quem sabe o implemento de um eruditismo sempre latente? Mas eis que Consuelo retoma fios de meada que remetem à sua origem de batuques, congadas e contradanças e os shows solo, onde se permite para nosso deleite, inteira liberdade,  trazem à luz um intenso diálogo amoroso entre ela e seu violão, do qual nascem canções praticamente prontas, ao mesmo tempo, letra e melodia.

Consuelo, a palavra, público, violão: elos de um organismo que se complementa simbioticamente. Estaria a artista lançando as bases fundacionais de um próximo CD, já em gestação, cuja argamassa é o amor de um coração brasileiro amalgamado pela capacidade de luta de um povo, cuja essência, ela conhece como ninguém? Consuelo conhece seu país, é dessasa artistas que torna seu público cúmplice de seu trabalho, daí o chamamento, tornado aqui palavra-chave, enigmática.

Os movimentos do amor e luta são trabalhados na quentura de seu sangue, de sua respiração, temperado por sua ginga. Ela mesma afirma: “Cada um de nós tem seu ritmo próprio e o mesmo só possível expressar plenamente num trabalho. É isso que quero mostrar: minha respiração, minha ginga, meu pulso!”
E da parte que nos toca, nós que conhecemos, compreendemos e admiramos seu trabalho, podemos dizer que sua arte encontra eco e ressoa fortemente em nossas almas. Na alma do povo!

Ao chamamento junta-se, simultaneamente, o seu jeito mineiro, onde se mistura toada, baião, samba, valseados, modinhas, batuques diversos. No Teatro da Rotina, local privilegiado dada a proximidade, veremos a artista em plena efervecência criativa: apaixonada, sensível, sincera, inquieta. Para esse show especial deverá cantar outros compositores e muito provavelmente teremos inéditas. Sorte de quem lá comparecer e curtir suas criações recém nascidas, em estado puro!
A obra de Consuelo está pronta há muito tempo. Nasceu com ela, com seu ser, nasceu com o mundo e igualmente acaba de nascer, pois sua essência é fundamentalmente poética. E a poesia, parafraseando Octávio Paz, antecede à linguagem e ultrapassa a linguagem. Sua obra é um imenso bloco, do tamanho do país – que ela chama sua Casa. Cada disco, uma nova ala da Casa que ela esculpe com denodo e carinho. E depois de pronta, com seu imenso sorriso, nos convida a entrar, como atesta uns versos seus:

Minha casa, te espera
Desde sempre, te espera!...”



INGRESSOS: comprando antecipadamente através do site do www.teatrodarotina.org, R$ 20 reais; na bilheteria, R$ 40,00.
(Sugerimos acompanhar a página de Consuelo de Paula no facebook, onde pode ter novidades sobre o show, ingressos, etc)



Aviso:

O Show de ANTONIO PEREIRA, anunciado aqui  e que aconteceria na Casa dos Clarins, infelizmente foi cancelado



Continuar Lendo ►

YRUPA PURAHÉI – Canções das Margens do Rio

O PURAHÉI é um Trio formado por uma brasileira, um argentino e uma paraguaia: flautas, piano e voz tecem um quadro, pincelado a seis mãos, possibilitando a quem ouve suas canções uma visão sonora de uma região do continente sulamericano repleta de beleza, lendas, mistérios e tragédias. Evocações à mística guarani e a história politica e cultural evoluem, fertilizando a atmosfera, entremeados aos acordes.



Sabemos pouco daquela região dominada em grande parte pela planície do pampa. E o pouco que sabemos nos vem à consciência embotado pelos diversos estereótipos que comumente saltam aos olhos ao imaginar a figura do gaúcho. À primeira vista nos vem à mente a milonga, o chamamé, a chacareira, a baguala, o zamba, etc., mas isso é apenas puxar o fio do novelo oculto: existe muito mais e a cada oportunidade que se apresenta para descobrir e conhecer, vislumbramos a imensa riqueza que subjaz ainda oculta.



Todos que labutamos, por dever de oficio ou simples prazer (meu caso) no inglório universo da cultura popular estamos de acordo num ponto: não é do interesse das grandes mídias ou das grandes oligarquias que dão as cartas por estas bandas fomentar alternativas culturais  que possam vir fazer frente ao monopólio ditado pelos grandes centros “produtores de cultura”, geralmente restolhos de fácil assimilação, cuja função é o “distraimento” das massas, para assim desviar as mentes e corações do conhecimento de seus próprios valores, que por sua vez conduziriam a um aprofundamento e questionamento da realidade que sempre os cercou.

(Contudo, resistência, há! Louve-se a lendária figura do menestrel, também chamados aedo ou rapsodo, figura que desde a antiguidade percorre os caminhos a pé ou em lombo de animais, tendo como arma o instrumento. Câmara Cascudo os decanta no seu clássico “Vaqueiros e Cantadores”, onde aponta as várias origens deste personagem que por muitos séculos era a única forma de transmitir e receber noticias entre os aldeões de vastíssimos territórios. Tais figuras sobreviveram ao século XX, e no nosso tempo o personagem que mais se aproxima deles deve ser a do cantor militante.  Woody Guthrie, Leadbelly, nos EUA; Vitor Jara, Atahualpa Yupanqui, Violeta Parra, Dercio Marques e Noel Guarani, na América do Sul. De certo modo, todos os artistas chamados independentes são herdeiros diretos ou indiretos. Atualmente, os artistas que fazem parte do Projeto Dandô, idealizado pela paulistana Katya Teixeira, justamente inspirada por Dércio Marques, que durante toda a sua vida foi uma espécie de guia para os artistas desvinculados das grandes gravadoras, desejosos de mostrar seu trabalho e que jamais teriam oportunidade, não por falta de conteúdo e talento, mas por razões de mercado, por assim dizer. Poucas vezes um projeto artístico cultural foi tão ousado quanto o Dandô, pois simplesmente ignora as leis do mercado, e no peito e na raça reúne gente de várias partes do país e até de alguns países da América do Sul).

O jovem Trio segue, assim, uma trilha antiga, cujas pistas, invisíveis ao olhar vulgo, são por eles conhecidas, tal como o mítico caminho do Peabirú; eles tem em comum com os artistas acima citados o fato de produzirem uma arte completamente diferenciada; não falo de questões estéticas/técnicas, das quais nada entendo ou ideológicas – embora tais elementos estejam presentes. O cerne de seu trabalho é uma organicidade que a torna única, reconhecível somente na arte autêntica. O Cd, segundo do Trio, o Yrupa Purahéi – Canções da Margem do Rio, mistura regravações de clássicos conhecidos, com outras de carater regional/folclórico e duas composições instrumentais de Chungo Roy, o arranjador do grupo. O que essa arte orgânica e autentica tem de diferente é a capacidade de despertar em quem ouve o mesmo profundo  sentimento de liberdade e de autonomia que moveu o compositor original. (O rasqueado ou polca ou guarânia “Pé de Cedro”, por exemplo, permite interpretações das mais diversas, sempre permeando entre si elementos nostálgicos dramáticos, alguns explícitos, outros subentendidos, permitindo versões e estilos variados, desde Miltinho Rodrigues, Renato Teixeira e agora do Purahéi Trio, sem contar as duplas caipiras ou sertanejas. Muitos são os mundos gerados continuamente em torno do singelo Pé de Cedro que o narrador um dia encontrou a muda na mata e trouxe para cultivar no quintal de casa, até mesmo um improvável conteúdo ecológico de preservação, que com certeza o autor não imaginou...)



Há quem diga que arte ruim voltada para as classes populares, faça parte de um diabólico plano de emburrecer as massas e consequentemente mantê-las mais facilmente afáveis, domináveis... Não sei se as tais classes dominantes chegam a esse nível de sofisticação maquiavélica, pois, o que, afinal, lhes interessa é o servilismo: querem arte e artistas, pouco importa a índole, contanto que sirvam a seus interesses. Para eles, o conteúdo é irrelevante! Seria por isso que o “mercado” é tão inacessível a quem não faça parte de um grupo? Será também por isso que muitos artistas e literatos  emprestam seus nomes à causas duvidosas? Será também por isso que as verbas e financiamentos são geralmente acessíveis a seletos grupos, onde quem está dentro não sai e quem está fora não entra? Esse sistema, aparentemente indolor, torna a classe artística repleta de castas,inamovíveis. Entretanto, a atuação dos independentes são sementes ciosamente germinadas que podem em breve se tornar um contrapeso e o fato de chegar até nós, com todas as dificuldades, é uma luz que se acende.

As duas moças e o rapaz que compõem o Purahéi Trio não são guerrilheiros da musica ou agentes culturais engajados na luta dos povos oprimidos. Eles apenas e tão somente cantam e tocam e nos cantos e acordes emitidos, não se percebe sinais de militância, nenhum laivo provocativo, nenhuma mensagem sub-reptícia, nenhum código que possa conter mensagens que contenham senhas para um levante, um chamado às armas! Apenas tocam e cantam, mas com uma leveza tãoarrebatadora dos sentidos que nos faz deter o passo e parar cuidadosamente a ouví-los. E se os ouvimos com atenção e cuidado, não há como não refletir sobre as histórias das canções e consequentemente, a história da região e seu povo. Esse modo de ver e sentir musicalmente o mundo é uma característica nossa, brasileira, herança compartilhada com nossos Hermanos, nossos vizinhos. Quis uma feliz conspiração dos astros que estivesse tão presente os guarani, povo essencialmente musical, conforme atesta seu descendente direto, Dércio Marques.

Fora os atributos artísticos, um traço marcante que identifica e qualifica o Trio é a liberdade. A flauta da brasileira Maiara Moraes, o piano do argentino Chungo Roy (que também assina os arranjos) e a voz da paraguaia Romy Martinez navegam delicadamente como folhas movidas por suaves brisas, impulsionadas pelas pulsações dos corações, onde delicadamente pousam.
Três jovens, simbolizando três nações (que poderiam ser tantas outras, do continente ou algures) que em tempos confusos com os que vivemos atualmente promovem a integração que o mundo politico e diplomático faz anos tenta, inutilmente: o Mercosul, cada vez mais sonolento e enfraquecido, dormita em seu berço carcomido, assim como os velhos ícones ideológicos, cujo fervor tornou-se paquidérmico, sendo ultrapassado pela história.
Ainda bem que temos a Arte! A Arte salvará o mundo! Nossa Redenção!

Yrupa Purahéi – Canções das Margens do Rio - reúne alguns clássicos do vasto cancioneiro que por décadas animaram as zonas rurais das fronteiras dos países, preferencialmente entre Paraguai e Brasil, onde as guaranias, polcas e rasqueados, ritmos que se espalham pelo Mato Grosso do Sul e leste do estado de São Paulo. Algumas faixas do cancioneiro nacional convivem harmoniosamente com outras  de caráter regional, que falam mais diretamente à alma campeira do “gaúcho”, o habitante das aparentemente tranquilas planícies do “pampa” – aparentemente, pois a monotonia é apenas aparente, os instrumentais, de viés jazzistico, estabelecem  um curioso contraponto entre o tradicional e a atmosfera de uma região dinâmica, mas que não perde o fio da história.

 Mas não são saudosistas, as moças e o rapaz seguem em frente. O Purahéi Trio bebe livremente de várias fontes – do folclore, do clássico, do popular - e na sua caminhada, busca e encontra a comunhão possivel, jamais o confronto. Talvez por isso, faça sentido juntar num mesmo projeto compositores tão dispares quanto o caipira Angelino Oliveira e Vitor Ramil. O riquíssimo colorido ganha brilho especial ao mostrar ao resto do Brasil a mistura de idiomas comuns à região, ignorando as fronteiras politicas: guarani, português e  castelhano.

Romy Martinez, Chungo Roy e Maiara Moraes

Quem ouve o disco sente o sopro, não do implacável minuano, o vento gelado e ardente vindo das geleiras do Polo Sul, mas a delicada brisa das melodias puras trazidas pela voz doce da Romy Martinez, a magia da flautista Maiara Moraes, a condução segura de Chungo Roy: as melodias emergem das águas puras do aquífero guarani como encantatórios cantos de sereias.
A formação incomum do grupo não tem os tradicionais violão e gaita ponto. Contudo, se repararmos bem, haveremos de vislumbrar as presenças ocultas desses instrumentos tradicionais, pois são presenças imanentes: podemos sentir os trinados e dedilhados. Por isso podemos auferir ao Purahéi Trio a aura de prestidigitadores: transformam a força hercúlea e heroica dos herdeiros culturais do Indio Sepé em pura delicadeza.

Em  seu segundo trabalho, YRUPA PUHARÉI – canções das Margens do Rio, os jovens revolucionam. Mas com muita ternura.



Repertório:

1 Estrangeiro (Alegre Corrêa / Romy Martinez)
2 Batendo água (Luiz Marenco / Gujo Teixeira)
3 Tristeza do Jeca (Angelino de Oliveira)
4) Tapera (Vitor Ramil/ João da Cunha Vargas)
5 Pé de cedro (Zacarías Mourão / Goiá)
6 Irupe (Chungo Roy)
7 La Cautiva (Emiliano R. Fernández / Agustín Larramendia)
8 Tocando em frente (Almir Sater/ Renato Teixeira)
9 Milonga das três nações (Fernanda Rosa)
10 Sonhos guaranis – Avá kéra poty (Almir Sater / Paulo Simões / Romy Martínez)
11 Tres Hermanos (Chungo Roy)
12 faixa bônus Estrangeiro


No disco, participações especiais de:
- Bebê Kramer, acordeon, na faixa bônus Estrangeiro;
- Carlinhos Antunes, viola caipira na faixa Tristeza do  Jeca;
- Léa Freire, faixa baixo e flauta contrabaixo em Irupé;
- A Corda em Si (Fernanda, voz e Mateus, baixo), na faixa Milonga das Tres Nações.                                                  

Continuar Lendo ►

O MERECIDO SUCESSO DE "O FILME DA MINHA VIDA"





Contrariando uma das premissas do blog ser-tão paulistano – de destacar obras que não façam do sistema de mercado cultural – hoje vamos falar de uma obra que certamente arrebatará muitos milhares, quiçá milhões de admiradores, com direito a resenha nos principais jornais e revistas do país. Falamos de “O Filme da Minha Vida”, uma apologia à simplicidade e a beleza. Um genuíno exemplar da arte brasileira de alta qualidade, uma ode à fantasia e a esperança, que a magia do cinema pode nos proporcionar. A Arte sempre será um porto seguro.

Não é de hoje que o cinema nacional dá sólidas mostras de recuperação de um lugar no coração de nosso povo que em épocas passadas foi mais presente. Os filmes de Mazzaropi, as chanchadas com Oscarito de Grande Otelo, os musicais, os dramalhões em grande estilo. Podemos citar dezenas de filmes ditos autorais ou de apelo comercial, como Estrada da Vida, de Nelson Pereira dos Santos; O Ébrio, com Vicente Celestino ou ainda o chapliniano Bonga, o Vagabundo, todos eles capazes de disputar público e mercado com filmes estrangeiros. Sim, o cinema brasileiro é uma realidade. (Na esteira da busca de consolidação, não se poderia  esperar coisa diferente: logramos cair em muitas mazelas, as famigeradas patotas ditas “culturais”, círculos viciosos, onde, quem está dentro não sai e quem está fora não entra. Muita grana escorreu pelos ralos dos órgãos “oficiais” destinados a tratar da produção cinematografica nacional, sob muitos codinomes: Embrafilme, Ancine, leis de incentivos, etc.)
Com ou sem Embrafilme ou Ancine ou através de produção independente, o cinema brasileiro, é possível, já demos provas disso ao longo do tempo. Filmes campeões de bilheteria e de alta qualidade não são exceções  ou acasos, são conseqüência de empenho, trabalho, profissionalização, vocação, o que faz toda a diferença:  é a respeito disso que trataremos a seguir:

Se alguém for ver “O Filme da Minha Vida”, direção de Selton Melo, não pense que se enganou de sala: voce não está vendo um filme estrangeiro dublado! É mesmo um filme brasileiro, nacional, falado em bom portugues - com sotaque gaúcho, sem as afetações forçadas de caipirês ou nordestinês a que tanto nos acostumamos, a ponto da saturação: Ariano Suassuna disse certa vez (cito de memória) que “...sotaque não é miado...” O que Ariano chama de “miado” é a vulgarização do rico linguajar popular, estereotipado, forçado,  para “inglês ver”, que tanto contribuem para o preconceito, para não falar da desinformação.
O Filme da Minha Vida consegue reunir elementos que agradam o público comum que deseja apenas divertir/curtir ou àquele que se propuser a refletir sobre a arte em si ou o próprio discurso  da linguagem cinematográfica.
O diretor usa e abusa de chichês e os mesmos não cansam, pois o faz em justa medida, dentro da essência dessa arte. Cinema é magia, truques de luz e sombra e quão maior seja a habilidade do “mágico” em manipular esses elementos – luz, sombra, efeitos sonoros, linguagem falada  – levando ou trazendo o espectador para o seu Universo Mágico, mais próximo estará do objetivo principal da arte ilusionista.
Em tempos extremos como os que vivemos atualmente, caracterizados por um intenso dualismo, podemos “quase” dizer que O Filme de Vida contém elementos revolucionários. Mas nada de tomadas/ângulos que ampliam a realidade, nada de montanhas russas capazes de provocar sensações que ativam determinados neurônios que nos farão mais inteligentes! O filme surpreende por utilizar elementos banais – se é que podemos assim chamar a Beleza e Simplicidade. É um filme para se ver e curtir, sem mirabolâncias, mas, curiosamente aí reside seu aspecto revolucionário ao cativar o espectador, levando-o ao uso da imaginação, coisa rara nos dias de hoje, onde a ação ininterrupta nos deixa sem fôlego. As imagens belíssimas atingem o âmago da emoção do expectador não por fazê-lo “participante” da cena, como numa exibição 3D. As filmagens externas ou internas são situações em que o público assistente poderia tranqüilamente estar participando, tal a familiaridade: os dilemas, angústias, dignidades,fraquezas, baixarias, dúvidas, alegrias, descobertas são facilmente discerníveis seja em nós mesmos ou em alguém que conhecemos. Não existem no filme heróis ou vilões. Todos os personagens e situações são plausíveis, por assim dizer.

Pode não ser “o filme de nossas vidas”, aquele filme com o qual todo diretor sonha, que marcará gerações por décadas! Mas faz justas e inteligentes referências a filmes que fizeram histórias. Algumas explicitas, como a farta citação do faroeste Rio Vermelho, de Howard Hawks, um dos filmes mais emblemáticos e encantadores de toda história do cinema, marcando a tensa oposição entre os personagens de John Wayne e Montgomery Cliff (que também marca diferenças cruciais de estilos de interpretação e modos de ver a vida entre o “xucro” vaqueiro Wayne e o sensível Cliff), outras citações mais sutis, como a cena que abre e fecha a história (a encruzilhada, onde de um lado segue a linha férrea, do outro a estradinha de terra), que faz lembrar Rastros de Ódio, com a porta do saloon que abre para a história e ao final, fecha.
E como toda boa história de ficção, não se prende, corre solta. A exibição na cidadezinha do filme Rio Vermelho parece situar a história  entre o final da década de 1940 e inicio de 1950 (o filme é de 1948) e as próprias situações, como a dificuldade de comunicações no Brasil de então, sugere situar o enredo nesse período. Porém, um dos carros chefes da trilha sonora remete aos anos 1970, com a re-descoberta de “Coração de Papel”, que revela a origem musical iê-iê-iê do hoje sertanejo Sérgio Reis. Alguns clássicos do mais tradicional jazz urbano poderiam situar a história num ambiente cosmopolita e não uma cidadezinha perdida nos confins da serra gaúcha (aliás, na história não existe qualquer referência explicita de “lugar”. Só se sabe que fica numa região fronteiriça, aparentemente com o Uruguai.).


                                           John Wayne e Montgomery Cliff: duelo de estilos
Merece destaque as participações especiais: Antonio Skarmeta, autor do livro que inspirou o filme, outra referência que lembra O Céu Que Nos Protege, de Bertolucci, com a voz de Paul Bowlles no final, que Cacá Diegues tentou imitar em Tieta do Agreste, com Jorge Amado - e não deu certo, ficou muito na cara e perdeu todo possivel impacto. E Rolando Boldrin, no papel de Giussepe, o condutor do trem, um personagem atemporal, sem idade, cujo olhar penetrante parece saber tudo a respeito dos passageiros que conduz: por isso diz: "...o trem tem de partir sempre na hora, nem antes nem depois!" Eis outra referência do cinemão: o mago Gandalf diz algo parecido no inicio d’O Senhor dos Anéis: "...um mago nunca se atrasa, Frodo Bolseiro! Não chega nem antes nem depois, mas sempre na hora!"  Enfim, podemos chamar esses recursos de clichês, mas não no sentido pejorativo, da busca das emoções fáceis e baratas, de gosto duvidoso e comercial: é a busca da emoção básica, latente em todos nós: não é fácil ser simples e é nesse sentido, que podemos ver o filme como algo revolucionário, pois revisita velhas estações, para sempre marcadas em nossas vidas, mas sem  pieguismo. A nostalgia não é somente reviver o impossível passado glorioso, mas pode também produzir novas emoções.
Destaque para a direção dos atores e a contenção dos personagens nas situações emocionais notadamente tensas, como a condição da mulher agreste, linda, madura, no auge da sensualidade,  desejada pelo macho de plantão, vivida magistralmente pela atriz Ondina Clais, a mãe de Tony.
                                             O diretor Selton e o escritor Skarmeta

O filme de Minha Vida, enfim, é cinemão ao melhor estilo, cuja função principal é entreter. Mas provoca reflexões, se o expectador estiver disposto a tal. Respeita a imaginação ao deixar que muitas das situações prováveis não sejam mostradas explicitamente – como será, por exemplo, o encontro entre Nicolas e Ondina? Vendo o filme, impossível não traçar paralelo com situações vividas em nossas próprias vidas ou a outros filmes, que poderiam ser igualmente chamados “filmes de nossas vidas”.
A singela viagem do trem, seu fascínio, seus mistérios nunca terminam, apesar dos anacronismos dos governos e suas opções político/econômicas equivocadas, a serviço de interesses imediatos. A ganância do empresariado do transporte rodoviário que não hesitou em destruir as ferrovias, macomunado com governos travestidos de modernismos.

Não importa, sempre seguiremos pelos trens de nossas vidas, sempre estaremos indo a algum lugar ao encontro ou em busca de algo, guiados pela mão segura do condutor Giussepe/Boldrin, que ao responder por que gosta do seu ofício, responde bem ao estilo do, Sr.Brasil: “Eu levo as pessoas para resolver suas coisas!”. Detalhe: esse personagem tão importante na trama (o condutor) não existe no livro de Skàrmeta!
O filme poderia ter terminado quando o trem mergulha na escuridão do túnel, pois os acontecimentos futuros já estão delineados. Mas seríamos privados da emoção de ver Sofia e Tony/Luana trocando ternos olhares pelos caminhos que seguem paralelos: vidas e destinos que foram salvos pelo amor e pela tolerância...
 O Filme da Minha Vida é filmão. E não é americano, não é francês, não é italiano. É um filme brasileiro que se ombreia ao melhor do cinema mundial! Deve fazer justo sucesso de público e critica!
E, conforme disse Selton em entrevistas, "a arte salvará o mundo", parafraseando Tolstói!






Continuar Lendo ►

 
Ser-Tão Paulistano Copyright © 2010 - 2011 Template Oficial Versão 2 | Desenvolvido por Iago Melanias.