"Elemental", de Érick Castanho: Uma Homenagem a Dércio Marques



Quem conhece a obra de Dércio Marques deve estar relativamente familiarizado com o termo “elemental”, largamente presente em seu disco “Segredos Vejetais”, provavelmente seu trabalho mais elaborado. Não sei se é seu melhor disco – difícil escolher dentre tantas obras primorosas e pontuais, que ora focam um Brasil profundo, ora América Latina ou andanças pela Peninsula Ibérica, onde travou um contato fundamental com José Afonso, o grande artista português e um surpreendente Paco Bandeira, diferente do “Paco” conhecido pelos próprios portugueses;  melhor é deixar que cada um faça sua escolha pessoal, pois Dércio era muitos, como mostra sua discografia.
Literalmente um andarilho a serviço da música, que de vez em quando parava e erigia uma torre, sob forma de disco. Embora houvesse uma unidade intrínseca entre eles, eram independentes entre si, mantendo, entretanto, uma invariabilidade rara na procura incansável da brasilidade contida na música. Embora o Brasil seja um país essencialmente musical, tais aspectos identitários facilmente se perdem nos desvãos dos caminhos, a ponto de tornar os próprios “invisíveis”. Durante toda a sua vida Dércio arregimentou um número grande de seguidores e simpatizantes de sua “causa”. O “Projeto Dandô – Círculo de Música Dércio Marques”, do qual faz parte Érick Castanho, é uma justa homenagem ao menestrel, buscando na prática restabelecer a rede de vínculos entre artistas e público de diferentes lugares do Brasil e América Latina, exatamente como ele fazia, embora, no seu caso, fosse algo mais intuitivo do que regiamente projetado..
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 Dentre o “projeto” de vida de Dércio, em sua existência intensa e aparentemente caótica, verdadeira máquina criativa, compondo com parceiros das mais diversas procedências e estilos, “Segredos Vejetais” é simbolicamente seu legado: tudo está ali, os ritmos brasileiros e latinos, as lendas e sobretudo seu imenso amor pela natureza, que talvez tenha sido a face de sua militância mais intensa e clara,  apontando sem meios termos para as denuncias da devastação que à época da produção do disco já se encontrava em processo acelerado. Obra profundamente poética, onde a fantasia não encontra limites e os “espíritos da natureza”, seres geralmente arredios, ganham cor, forma e voz.  Outros trabalhos deram continuidade, mas tudo já estava de algum modo presente em “Segredos Vejetais”. Na musica que poderia ser subtítulo do disco, “Natureza Oculta”, de Milton Edilberto, estão presentes várias citações dos elementais, que permeiam todo o trabalho. 
(”Elementais” são os espíritos da natureza. Silfos, Salamandras, Ondinas e Gnomos, que  comandam respectivamente o Ar, Fogo, Água e Terra.)

“Elemental” é o nome do disco de estréia do mineiro de Ituiutaba, residente em Uberlândia, Érick Castanho, um fruto da grande árvore derciana. (Não por acaso, Dércio é da mesma região. Diz a lenda que Uberaba e Uberlandia disputam a primazia de ser a cidade natal do musico).



Elemental, o disco, é daqueles felizes empreendimentos que melhoram a cada audição que realizamos. Uma celebração da cultura brasileira e latina, de forma alegre, leve e descontraída, como num sarau entre amigos reunidos para homenagear temas sagrados do folclore, das folias, referências à matriz luso brasileira, nos belos temas instrumentais “Ventos do Minho e Histórias Além-Mar”. Vale mencionar o desafio de executar "Riacho de Areia". Deve ser a musica folclórica mais gravada do Brasil: Dercio Marques, Doroty Marques, Tavinho Moura, Almir Sater, Milton Nascimentos, Consuelo de Paula, apenas para citar alguns artistas. Cada versão melhor que a outra, definitiva! E por outro lado, como fazer um Cd que fale do folclore, sem cantar "Riacho de Areia"? A cantiga, de domínio público, é passagem obrigatória na "travessia" pelo universo mágico das Geraes – tão simbólica quanto a própria palavra – Travessia - que encerra o romance icônico, Grande Sertão: Veredas. Para cantar Riacho de Areia, Erick Castanho optou por simplicidade e  sentimento aos versos sumamente sonhecidos, o "sentimento" profundo que evoca as coisas da terra, sem muitos floreados instrumentais. Mas houve espaço para criação: compôs um interessante "retalho" com "Rio", do cantador Luiz Salgado, participação indispensável no disco e tudo isso entremeado com versos declamados pelo poeta coração do Brasil, o impagável e impressionante João Bá! Como diria o próprio Bacurau Cantante: “Ficou bunito que só vendo!”
O transculturalismo, as inúmeras referências evocadas por Érick, a exemplo de Dércio, reuniu mais de 30 músicos, num todo harmônico. Linda homenagem ao andarilho agregador que espalhava sementes e chamava todos à roda. E nessa roda, arreunida especificamente, não podemos deixar de mencionar Kátya Teixeira e João Arruda (os demais músicos nos desculpem).






 O disco de Érick Castanho – nome de batismo Érick Guimarães França – culmina, enfim, uma existência musical fruto da convivência cotidiana não só com as coisas do folclore – folias, congadas, toadas -  mas também do blues e do rock, enriquecendo sua experiência como músico, moldando-lhe um estilo, provando que a boa musica ultrapassa fronteiras e preconceitos, enriquece a vida: a Arte, notadamente a musical, talvez venha a ser o “Alvorecer” inevitável, tal como escreve no texto do encarte seu parceiro musical e pai, Aldo França.O alvorecer, a música e o texto, é um chamado, um aviso: é nossa inevitável oportunidade. O que pode o artista, num mundo passando por profundas, rápidas e aparentemente indolores mudanças, no rastro da globalização, seu brilho reluzente e suas falsas promessas de democracia definitiva? (o grifo em itálico é por minha conta e risco).

Talvez seja característico da própria democracia sua permanente instabilidade e deve ser melhor que a encaremos sempre assim. Num mundo assim, fortemente contrastado por dualidades, é tentador para o artista ceder à falsa consciência e assim deixar-se cair na vala comum, deixando de lado sua verdadeira missão, para a qual recebeu dons além dos reservados aos comuns mortais: a capacidade de dialogar diretamente com a sensibilidade de quem o ouve e vê. Ouçamos os poetas, os músicos, deixemo-nos embriagar pela arte, uma das linguagens de Deus, que todos que habitam abaixo dos céus compreendem!


“O alvorecer é a luz que vem sobre a escuridão...
Não há como impedir o amanhecer de um novo dia.
Quando chega a ‘hora’, os pássaros começão a cantar
e os primeiros raios de luz dão as cores no horizonte
antecipando o sol que vai nascer.
E do despertar para a luz de um novo tempo
é inexorável!
O nosso mundo, nunca mais será  o mesmo.
A continuidade da vida humana na terra exige
uma mudança radical dos costumes e na sua postuta
no seu habitat planetário para o prosseguimento da vida.
Cada ser é responsável pelo seu próprio Amanhecer...
É inevitável!...
Vejam  os sinais...
A luz do conhecimento já ilumina todo o caminho.
Não há como retroceder!”

            (Aldo França)





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CONSUELO DE PAULA NO TEATRO NA ROTINA

A terceira semana de novembro, em São Paulo, promete. O puro talento da música brasileira vicejará no pequeno mas nobre palco do Teatro da Rotina, na Rua Augusta, sentido Centro: Consuelo de Paula desvenda seu processo criativo em mais um desdobramento do projeto "Chamamento". 

CONSUELO DE PAULA:


A mineira Consuelo de Paula encontra-se em estado de graça. A conclusão de um ciclo, uma importante etapa de sua carreia, a histórica parceria com Rubens Nogueira, culminando na gravação de um dos mais importantes discos brasileiros dos últimos anos, o antológico “O Tempo e o Branco”, inicia novos “movimentos” em sua trajetória.
Os movimentos de amor e luta, segundo a própria, resultam da mistura dessas duas palavras, sempre tão necessárias em qualquer tempo - agora mais do que nunca: Amor e Luta. São “movimentos” empreendidos pela artista que podemos chamar catalizadores na busca e estabelecimento de uma postura frente aos desafios que os tempos atuais impõem.

Começou no mesmo Teatro da Rotina, com o show solo no primeiro semestre deste ano, prosseguindo na casa Mora Mundo, no bairro Campos Elyseos, no dia do seu aniversário. Retorna agora, em 16 de novembro ao Teatro da Rotina – tudo isso, lembremo-nos, depois do lançamento, em noite de emoção e gala, de “O Tempo e o Branco”, no Auditório do Ibirapuera.
Para cada uma destas apresentações solo, Consuelo compôs canções especiais. Os palcos pequenos, o clima intimista, tem lhe permitido novas experiências com seu violão e seu público. Quem conhece seu trabalho sabe que Consuelo jamais se repete, por mais tentadora que possa ser a possibilidade daquilo que a maioria dos artistas mais almeja, o chamado “sucesso”. O “sucesso” para ela é a empatia, a emoção, a consciência do que sua Arte provoca no público, à flor da pele, no pulsar do sangue, no ritmo do coração.



Depois de O Tempo e o Branco, com acordeon, viola caipira e voz, em arranjos sofisticados sobre poemas compostos inspirados em Cecilia Meireles, esperava-se um mergulho em sua pura alma lírica, desvendando complexidades -  quem sabe o implemento de um eruditismo sempre latente? Mas eis que Consuelo retoma fios de meada que remetem à sua origem de batuques, congadas e contradanças e os shows solo, onde se permite para nosso deleite, inteira liberdade,  trazem à luz um intenso diálogo amoroso entre ela e seu violão, do qual nascem canções praticamente prontas, ao mesmo tempo, letra e melodia.

Consuelo, a palavra, público, violão: elos de um organismo que se complementa simbioticamente. Estaria a artista lançando as bases fundacionais de um próximo CD, já em gestação, cuja argamassa é o amor de um coração brasileiro amalgamado pela capacidade de luta de um povo, cuja essência, ela conhece como ninguém? Consuelo conhece seu país, é dessasa artistas que torna seu público cúmplice de seu trabalho, daí o chamamento, tornado aqui palavra-chave, enigmática.

Os movimentos do amor e luta são trabalhados na quentura de seu sangue, de sua respiração, temperado por sua ginga. Ela mesma afirma: “Cada um de nós tem seu ritmo próprio e o mesmo só possível expressar plenamente num trabalho. É isso que quero mostrar: minha respiração, minha ginga, meu pulso!”
E da parte que nos toca, nós que conhecemos, compreendemos e admiramos seu trabalho, podemos dizer que sua arte encontra eco e ressoa fortemente em nossas almas. Na alma do povo!

Ao chamamento junta-se, simultaneamente, o seu jeito mineiro, onde se mistura toada, baião, samba, valseados, modinhas, batuques diversos. No Teatro da Rotina, local privilegiado dada a proximidade, veremos a artista em plena efervecência criativa: apaixonada, sensível, sincera, inquieta. Para esse show especial deverá cantar outros compositores e muito provavelmente teremos inéditas. Sorte de quem lá comparecer e curtir suas criações recém nascidas, em estado puro!
A obra de Consuelo está pronta há muito tempo. Nasceu com ela, com seu ser, nasceu com o mundo e igualmente acaba de nascer, pois sua essência é fundamentalmente poética. E a poesia, parafraseando Octávio Paz, antecede à linguagem e ultrapassa a linguagem. Sua obra é um imenso bloco, do tamanho do país – que ela chama sua Casa. Cada disco, uma nova ala da Casa que ela esculpe com denodo e carinho. E depois de pronta, com seu imenso sorriso, nos convida a entrar, como atesta uns versos seus:

Minha casa, te espera
Desde sempre, te espera!...”



INGRESSOS: comprando antecipadamente através do site do www.teatrodarotina.org, R$ 20 reais; na bilheteria, R$ 40,00.
(Sugerimos acompanhar a página de Consuelo de Paula no facebook, onde pode ter novidades sobre o show, ingressos, etc)



Aviso:

O Show de ANTONIO PEREIRA, anunciado aqui  e que aconteceria na Casa dos Clarins, infelizmente foi cancelado



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YRUPA PURAHÉI – Canções das Margens do Rio

O PURAHÉI é um Trio formado por uma brasileira, um argentino e uma paraguaia: flautas, piano e voz tecem um quadro, pincelado a seis mãos, possibilitando a quem ouve suas canções uma visão sonora de uma região do continente sulamericano repleta de beleza, lendas, mistérios e tragédias. Evocações à mística guarani e a história politica e cultural evoluem, fertilizando a atmosfera, entremeados aos acordes.



Sabemos pouco daquela região dominada em grande parte pela planície do pampa. E o pouco que sabemos nos vem à consciência embotado pelos diversos estereótipos que comumente saltam aos olhos ao imaginar a figura do gaúcho. À primeira vista nos vem à mente a milonga, o chamamé, a chacareira, a baguala, o zamba, etc., mas isso é apenas puxar o fio do novelo oculto: existe muito mais e a cada oportunidade que se apresenta para descobrir e conhecer, vislumbramos a imensa riqueza que subjaz ainda oculta.



Todos que labutamos, por dever de oficio ou simples prazer (meu caso) no inglório universo da cultura popular estamos de acordo num ponto: não é do interesse das grandes mídias ou das grandes oligarquias que dão as cartas por estas bandas fomentar alternativas culturais  que possam vir fazer frente ao monopólio ditado pelos grandes centros “produtores de cultura”, geralmente restolhos de fácil assimilação, cuja função é o “distraimento” das massas, para assim desviar as mentes e corações do conhecimento de seus próprios valores, que por sua vez conduziriam a um aprofundamento e questionamento da realidade que sempre os cercou.

(Contudo, resistência, há! Louve-se a lendária figura do menestrel, também chamados aedo ou rapsodo, figura que desde a antiguidade percorre os caminhos a pé ou em lombo de animais, tendo como arma o instrumento. Câmara Cascudo os decanta no seu clássico “Vaqueiros e Cantadores”, onde aponta as várias origens deste personagem que por muitos séculos era a única forma de transmitir e receber noticias entre os aldeões de vastíssimos territórios. Tais figuras sobreviveram ao século XX, e no nosso tempo o personagem que mais se aproxima deles deve ser a do cantor militante.  Woody Guthrie, Leadbelly, nos EUA; Vitor Jara, Atahualpa Yupanqui, Violeta Parra, Dercio Marques e Noel Guarani, na América do Sul. De certo modo, todos os artistas chamados independentes são herdeiros diretos ou indiretos. Atualmente, os artistas que fazem parte do Projeto Dandô, idealizado pela paulistana Katya Teixeira, justamente inspirada por Dércio Marques, que durante toda a sua vida foi uma espécie de guia para os artistas desvinculados das grandes gravadoras, desejosos de mostrar seu trabalho e que jamais teriam oportunidade, não por falta de conteúdo e talento, mas por razões de mercado, por assim dizer. Poucas vezes um projeto artístico cultural foi tão ousado quanto o Dandô, pois simplesmente ignora as leis do mercado, e no peito e na raça reúne gente de várias partes do país e até de alguns países da América do Sul).

O jovem Trio segue, assim, uma trilha antiga, cujas pistas, invisíveis ao olhar vulgo, são por eles conhecidas, tal como o mítico caminho do Peabirú; eles tem em comum com os artistas acima citados o fato de produzirem uma arte completamente diferenciada; não falo de questões estéticas/técnicas, das quais nada entendo ou ideológicas – embora tais elementos estejam presentes. O cerne de seu trabalho é uma organicidade que a torna única, reconhecível somente na arte autêntica. O Cd, segundo do Trio, o Yrupa Purahéi – Canções da Margem do Rio, mistura regravações de clássicos conhecidos, com outras de carater regional/folclórico e duas composições instrumentais de Chungo Roy, o arranjador do grupo. O que essa arte orgânica e autentica tem de diferente é a capacidade de despertar em quem ouve o mesmo profundo  sentimento de liberdade e de autonomia que moveu o compositor original. (O rasqueado ou polca ou guarânia “Pé de Cedro”, por exemplo, permite interpretações das mais diversas, sempre permeando entre si elementos nostálgicos dramáticos, alguns explícitos, outros subentendidos, permitindo versões e estilos variados, desde Miltinho Rodrigues, Renato Teixeira e agora do Purahéi Trio, sem contar as duplas caipiras ou sertanejas. Muitos são os mundos gerados continuamente em torno do singelo Pé de Cedro que o narrador um dia encontrou a muda na mata e trouxe para cultivar no quintal de casa, até mesmo um improvável conteúdo ecológico de preservação, que com certeza o autor não imaginou...)



Há quem diga que arte ruim voltada para as classes populares, faça parte de um diabólico plano de emburrecer as massas e consequentemente mantê-las mais facilmente afáveis, domináveis... Não sei se as tais classes dominantes chegam a esse nível de sofisticação maquiavélica, pois, o que, afinal, lhes interessa é o servilismo: querem arte e artistas, pouco importa a índole, contanto que sirvam a seus interesses. Para eles, o conteúdo é irrelevante! Seria por isso que o “mercado” é tão inacessível a quem não faça parte de um grupo? Será também por isso que muitos artistas e literatos  emprestam seus nomes à causas duvidosas? Será também por isso que as verbas e financiamentos são geralmente acessíveis a seletos grupos, onde quem está dentro não sai e quem está fora não entra? Esse sistema, aparentemente indolor, torna a classe artística repleta de castas,inamovíveis. Entretanto, a atuação dos independentes são sementes ciosamente germinadas que podem em breve se tornar um contrapeso e o fato de chegar até nós, com todas as dificuldades, é uma luz que se acende.

As duas moças e o rapaz que compõem o Purahéi Trio não são guerrilheiros da musica ou agentes culturais engajados na luta dos povos oprimidos. Eles apenas e tão somente cantam e tocam e nos cantos e acordes emitidos, não se percebe sinais de militância, nenhum laivo provocativo, nenhuma mensagem sub-reptícia, nenhum código que possa conter mensagens que contenham senhas para um levante, um chamado às armas! Apenas tocam e cantam, mas com uma leveza tãoarrebatadora dos sentidos que nos faz deter o passo e parar cuidadosamente a ouví-los. E se os ouvimos com atenção e cuidado, não há como não refletir sobre as histórias das canções e consequentemente, a história da região e seu povo. Esse modo de ver e sentir musicalmente o mundo é uma característica nossa, brasileira, herança compartilhada com nossos Hermanos, nossos vizinhos. Quis uma feliz conspiração dos astros que estivesse tão presente os guarani, povo essencialmente musical, conforme atesta seu descendente direto, Dércio Marques.

Fora os atributos artísticos, um traço marcante que identifica e qualifica o Trio é a liberdade. A flauta da brasileira Maiara Moraes, o piano do argentino Chungo Roy (que também assina os arranjos) e a voz da paraguaia Romy Martinez navegam delicadamente como folhas movidas por suaves brisas, impulsionadas pelas pulsações dos corações, onde delicadamente pousam.
Três jovens, simbolizando três nações (que poderiam ser tantas outras, do continente ou algures) que em tempos confusos com os que vivemos atualmente promovem a integração que o mundo politico e diplomático faz anos tenta, inutilmente: o Mercosul, cada vez mais sonolento e enfraquecido, dormita em seu berço carcomido, assim como os velhos ícones ideológicos, cujo fervor tornou-se paquidérmico, sendo ultrapassado pela história.
Ainda bem que temos a Arte! A Arte salvará o mundo! Nossa Redenção!

Yrupa Purahéi – Canções das Margens do Rio - reúne alguns clássicos do vasto cancioneiro que por décadas animaram as zonas rurais das fronteiras dos países, preferencialmente entre Paraguai e Brasil, onde as guaranias, polcas e rasqueados, ritmos que se espalham pelo Mato Grosso do Sul e leste do estado de São Paulo. Algumas faixas do cancioneiro nacional convivem harmoniosamente com outras  de caráter regional, que falam mais diretamente à alma campeira do “gaúcho”, o habitante das aparentemente tranquilas planícies do “pampa” – aparentemente, pois a monotonia é apenas aparente, os instrumentais, de viés jazzistico, estabelecem  um curioso contraponto entre o tradicional e a atmosfera de uma região dinâmica, mas que não perde o fio da história.

 Mas não são saudosistas, as moças e o rapaz seguem em frente. O Purahéi Trio bebe livremente de várias fontes – do folclore, do clássico, do popular - e na sua caminhada, busca e encontra a comunhão possivel, jamais o confronto. Talvez por isso, faça sentido juntar num mesmo projeto compositores tão dispares quanto o caipira Angelino Oliveira e Vitor Ramil. O riquíssimo colorido ganha brilho especial ao mostrar ao resto do Brasil a mistura de idiomas comuns à região, ignorando as fronteiras politicas: guarani, português e  castelhano.

Romy Martinez, Chungo Roy e Maiara Moraes

Quem ouve o disco sente o sopro, não do implacável minuano, o vento gelado e ardente vindo das geleiras do Polo Sul, mas a delicada brisa das melodias puras trazidas pela voz doce da Romy Martinez, a magia da flautista Maiara Moraes, a condução segura de Chungo Roy: as melodias emergem das águas puras do aquífero guarani como encantatórios cantos de sereias.
A formação incomum do grupo não tem os tradicionais violão e gaita ponto. Contudo, se repararmos bem, haveremos de vislumbrar as presenças ocultas desses instrumentos tradicionais, pois são presenças imanentes: podemos sentir os trinados e dedilhados. Por isso podemos auferir ao Purahéi Trio a aura de prestidigitadores: transformam a força hercúlea e heroica dos herdeiros culturais do Indio Sepé em pura delicadeza.

Em  seu segundo trabalho, YRUPA PUHARÉI – canções das Margens do Rio, os jovens revolucionam. Mas com muita ternura.



Repertório:

1 Estrangeiro (Alegre Corrêa / Romy Martinez)
2 Batendo água (Luiz Marenco / Gujo Teixeira)
3 Tristeza do Jeca (Angelino de Oliveira)
4) Tapera (Vitor Ramil/ João da Cunha Vargas)
5 Pé de cedro (Zacarías Mourão / Goiá)
6 Irupe (Chungo Roy)
7 La Cautiva (Emiliano R. Fernández / Agustín Larramendia)
8 Tocando em frente (Almir Sater/ Renato Teixeira)
9 Milonga das três nações (Fernanda Rosa)
10 Sonhos guaranis – Avá kéra poty (Almir Sater / Paulo Simões / Romy Martínez)
11 Tres Hermanos (Chungo Roy)
12 faixa bônus Estrangeiro


No disco, participações especiais de:
- Bebê Kramer, acordeon, na faixa bônus Estrangeiro;
- Carlinhos Antunes, viola caipira na faixa Tristeza do  Jeca;
- Léa Freire, faixa baixo e flauta contrabaixo em Irupé;
- A Corda em Si (Fernanda, voz e Mateus, baixo), na faixa Milonga das Tres Nações.                                                  

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O MERECIDO SUCESSO DE "O FILME DA MINHA VIDA"





Contrariando uma das premissas do blog ser-tão paulistano – de destacar obras que não façam do sistema de mercado cultural – hoje vamos falar de uma obra que certamente arrebatará muitos milhares, quiçá milhões de admiradores, com direito a resenha nos principais jornais e revistas do país. Falamos de “O Filme da Minha Vida”, uma apologia à simplicidade e a beleza. Um genuíno exemplar da arte brasileira de alta qualidade, uma ode à fantasia e a esperança, que a magia do cinema pode nos proporcionar. A Arte sempre será um porto seguro.

Não é de hoje que o cinema nacional dá sólidas mostras de recuperação de um lugar no coração de nosso povo que em épocas passadas foi mais presente. Os filmes de Mazzaropi, as chanchadas com Oscarito de Grande Otelo, os musicais, os dramalhões em grande estilo. Podemos citar dezenas de filmes ditos autorais ou de apelo comercial, como Estrada da Vida, de Nelson Pereira dos Santos; O Ébrio, com Vicente Celestino ou ainda o chapliniano Bonga, o Vagabundo, todos eles capazes de disputar público e mercado com filmes estrangeiros. Sim, o cinema brasileiro é uma realidade. (Na esteira da busca de consolidação, não se poderia  esperar coisa diferente: logramos cair em muitas mazelas, as famigeradas patotas ditas “culturais”, círculos viciosos, onde, quem está dentro não sai e quem está fora não entra. Muita grana escorreu pelos ralos dos órgãos “oficiais” destinados a tratar da produção cinematografica nacional, sob muitos codinomes: Embrafilme, Ancine, leis de incentivos, etc.)
Com ou sem Embrafilme ou Ancine ou através de produção independente, o cinema brasileiro, é possível, já demos provas disso ao longo do tempo. Filmes campeões de bilheteria e de alta qualidade não são exceções  ou acasos, são conseqüência de empenho, trabalho, profissionalização, vocação, o que faz toda a diferença:  é a respeito disso que trataremos a seguir:

Se alguém for ver “O Filme da Minha Vida”, direção de Selton Melo, não pense que se enganou de sala: voce não está vendo um filme estrangeiro dublado! É mesmo um filme brasileiro, nacional, falado em bom portugues - com sotaque gaúcho, sem as afetações forçadas de caipirês ou nordestinês a que tanto nos acostumamos, a ponto da saturação: Ariano Suassuna disse certa vez (cito de memória) que “...sotaque não é miado...” O que Ariano chama de “miado” é a vulgarização do rico linguajar popular, estereotipado, forçado,  para “inglês ver”, que tanto contribuem para o preconceito, para não falar da desinformação.
O Filme da Minha Vida consegue reunir elementos que agradam o público comum que deseja apenas divertir/curtir ou àquele que se propuser a refletir sobre a arte em si ou o próprio discurso  da linguagem cinematográfica.
O diretor usa e abusa de chichês e os mesmos não cansam, pois o faz em justa medida, dentro da essência dessa arte. Cinema é magia, truques de luz e sombra e quão maior seja a habilidade do “mágico” em manipular esses elementos – luz, sombra, efeitos sonoros, linguagem falada  – levando ou trazendo o espectador para o seu Universo Mágico, mais próximo estará do objetivo principal da arte ilusionista.
Em tempos extremos como os que vivemos atualmente, caracterizados por um intenso dualismo, podemos “quase” dizer que O Filme de Vida contém elementos revolucionários. Mas nada de tomadas/ângulos que ampliam a realidade, nada de montanhas russas capazes de provocar sensações que ativam determinados neurônios que nos farão mais inteligentes! O filme surpreende por utilizar elementos banais – se é que podemos assim chamar a Beleza e Simplicidade. É um filme para se ver e curtir, sem mirabolâncias, mas, curiosamente aí reside seu aspecto revolucionário ao cativar o espectador, levando-o ao uso da imaginação, coisa rara nos dias de hoje, onde a ação ininterrupta nos deixa sem fôlego. As imagens belíssimas atingem o âmago da emoção do expectador não por fazê-lo “participante” da cena, como numa exibição 3D. As filmagens externas ou internas são situações em que o público assistente poderia tranqüilamente estar participando, tal a familiaridade: os dilemas, angústias, dignidades,fraquezas, baixarias, dúvidas, alegrias, descobertas são facilmente discerníveis seja em nós mesmos ou em alguém que conhecemos. Não existem no filme heróis ou vilões. Todos os personagens e situações são plausíveis, por assim dizer.

Pode não ser “o filme de nossas vidas”, aquele filme com o qual todo diretor sonha, que marcará gerações por décadas! Mas faz justas e inteligentes referências a filmes que fizeram histórias. Algumas explicitas, como a farta citação do faroeste Rio Vermelho, de Howard Hawks, um dos filmes mais emblemáticos e encantadores de toda história do cinema, marcando a tensa oposição entre os personagens de John Wayne e Montgomery Cliff (que também marca diferenças cruciais de estilos de interpretação e modos de ver a vida entre o “xucro” vaqueiro Wayne e o sensível Cliff), outras citações mais sutis, como a cena que abre e fecha a história (a encruzilhada, onde de um lado segue a linha férrea, do outro a estradinha de terra), que faz lembrar Rastros de Ódio, com a porta do saloon que abre para a história e ao final, fecha.
E como toda boa história de ficção, não se prende, corre solta. A exibição na cidadezinha do filme Rio Vermelho parece situar a história  entre o final da década de 1940 e inicio de 1950 (o filme é de 1948) e as próprias situações, como a dificuldade de comunicações no Brasil de então, sugere situar o enredo nesse período. Porém, um dos carros chefes da trilha sonora remete aos anos 1970, com a re-descoberta de “Coração de Papel”, que revela a origem musical iê-iê-iê do hoje sertanejo Sérgio Reis. Alguns clássicos do mais tradicional jazz urbano poderiam situar a história num ambiente cosmopolita e não uma cidadezinha perdida nos confins da serra gaúcha (aliás, na história não existe qualquer referência explicita de “lugar”. Só se sabe que fica numa região fronteiriça, aparentemente com o Uruguai.).


                                           John Wayne e Montgomery Cliff: duelo de estilos
Merece destaque as participações especiais: Antonio Skarmeta, autor do livro que inspirou o filme, outra referência que lembra O Céu Que Nos Protege, de Bertolucci, com a voz de Paul Bowlles no final, que Cacá Diegues tentou imitar em Tieta do Agreste, com Jorge Amado - e não deu certo, ficou muito na cara e perdeu todo possivel impacto. E Rolando Boldrin, no papel de Giussepe, o condutor do trem, um personagem atemporal, sem idade, cujo olhar penetrante parece saber tudo a respeito dos passageiros que conduz: por isso diz: "...o trem tem de partir sempre na hora, nem antes nem depois!" Eis outra referência do cinemão: o mago Gandalf diz algo parecido no inicio d’O Senhor dos Anéis: "...um mago nunca se atrasa, Frodo Bolseiro! Não chega nem antes nem depois, mas sempre na hora!"  Enfim, podemos chamar esses recursos de clichês, mas não no sentido pejorativo, da busca das emoções fáceis e baratas, de gosto duvidoso e comercial: é a busca da emoção básica, latente em todos nós: não é fácil ser simples e é nesse sentido, que podemos ver o filme como algo revolucionário, pois revisita velhas estações, para sempre marcadas em nossas vidas, mas sem  pieguismo. A nostalgia não é somente reviver o impossível passado glorioso, mas pode também produzir novas emoções.
Destaque para a direção dos atores e a contenção dos personagens nas situações emocionais notadamente tensas, como a condição da mulher agreste, linda, madura, no auge da sensualidade,  desejada pelo macho de plantão, vivida magistralmente pela atriz Ondina Clais, a mãe de Tony.
                                             O diretor Selton e o escritor Skarmeta

O filme de Minha Vida, enfim, é cinemão ao melhor estilo, cuja função principal é entreter. Mas provoca reflexões, se o expectador estiver disposto a tal. Respeita a imaginação ao deixar que muitas das situações prováveis não sejam mostradas explicitamente – como será, por exemplo, o encontro entre Nicolas e Ondina? Vendo o filme, impossível não traçar paralelo com situações vividas em nossas próprias vidas ou a outros filmes, que poderiam ser igualmente chamados “filmes de nossas vidas”.
A singela viagem do trem, seu fascínio, seus mistérios nunca terminam, apesar dos anacronismos dos governos e suas opções político/econômicas equivocadas, a serviço de interesses imediatos. A ganância do empresariado do transporte rodoviário que não hesitou em destruir as ferrovias, macomunado com governos travestidos de modernismos.

Não importa, sempre seguiremos pelos trens de nossas vidas, sempre estaremos indo a algum lugar ao encontro ou em busca de algo, guiados pela mão segura do condutor Giussepe/Boldrin, que ao responder por que gosta do seu ofício, responde bem ao estilo do, Sr.Brasil: “Eu levo as pessoas para resolver suas coisas!”. Detalhe: esse personagem tão importante na trama (o condutor) não existe no livro de Skàrmeta!
O filme poderia ter terminado quando o trem mergulha na escuridão do túnel, pois os acontecimentos futuros já estão delineados. Mas seríamos privados da emoção de ver Sofia e Tony/Luana trocando ternos olhares pelos caminhos que seguem paralelos: vidas e destinos que foram salvos pelo amor e pela tolerância...
 O Filme da Minha Vida é filmão. E não é americano, não é francês, não é italiano. É um filme brasileiro que se ombreia ao melhor do cinema mundial! Deve fazer justo sucesso de público e critica!
E, conforme disse Selton em entrevistas, "a arte salvará o mundo", parafraseando Tolstói!






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O SHOW JOGO DE CORDAS, NO MORA MUNDO


Sabemos, de há muito que São Paulo, nossa querida e inefável Sampa, tem muitos lugares legais, a maioria pouco divulgados. Um desses recantos aprazíveis foi descoberto há pouco pela equipe do Sertão Paulistano, o Mora Mundo.

O Mora Mundo tem uma história bonita, mas reservamos para contá-la em justa e devida entrevista com a Coordenadora do espaço, a Fernanda Laender. Por ora queremos apenas anunciar o próximo evento.

Pense num lugar acolhedor.
Pense num lugar super simpático, onde voce tem a exata sensação de estar em sua própria casa.
Pense num lugar onde voce tem toda a liberdade de manifestar-se, de “ser” voce mesmo(a) sem o risco de ferir melindres.
Pense num casa com quintal e banco de madeira, onde se pode prosear tranquilamente, sem pressa.
Pense num discreto bar, sortido com guloseimas feitas com muito carinho, diversas bebidas – incluindo cachaças artesanais – e uma coisa um tanto incomum nesses tempos de vale tudo: não custa os olhos da cara.

Pensou em tudo isso? E pensou que pode ter mais?

Pensou certo, pois o lugar existe e tem mais: Muita e boa musica. E não só!

Nesse lugar que muitos podem pensar a primeira vista ser um recanto imaginário, a música assume uma função que em outros tempos era algo perfeitamente natural, a música era ponto de convergência, razão de convívio social, de aproximação entre as pessoas.

Pensou nesse lugar ideal?

Pois pensou no Mora Mundo, a casa onde a música fez morada. Fica logo ali, na Barra Funda, a duas quadras do metrô Marechal Deodoro.

O Mora Mundo é diferente porque sua proposta é diferente. Não apenas uma proposta de melhoria da sociedade, mas acena para uma nova visão de mundo. Ou melhor, para a reconquista da esperança!
Quem habita esse frágil planetinha sabe das dificuldades que vivemos nos últimos anos. Um historiador do futuro talvez tenha melhores condições de analisar com sobriedade o que nos acontece hoje em dia, no acirramento de tensões, na explosão da intolerância sob várias formas, na confusão que gira em torno de conceitos que sempre foram tão caros para o mundo, como por exemplo, a ideia de democracia, tão deturpada ultimamente. O Mora Mundo, segundo definição de seus membros, é o “espaço das possibilidades”.
Enfim, a  centelha viva de esperança que cada um de nós guarda dentro de si, encontra no Mora Mundo o sopro vital, que anima a fraternidade ainda possível!



SHOWS DAS MARIS:

Na próxima sexta, 25/08, o Mora Mundo será palco de uma linda cantoria. Quem conhece a “casa” há de lembrar a beleza que é um show totalmente acústico, literalmente na sala de casa – quem assistiu, por exemplo, o show de Consuelo de Paula, sabe do que falo.
Por lá estarão Mari Ananias (voz e violão) e Mari Brandão (violoncelo). Desfilarão um repertório da canção brasileira, alvissareiro passeio por nossos campos, florestas, cerrados, veredas, ruas, descrevendo cenas compostas por artistas como Sivuca, Elomar, João Bá, Dércio Marques, Diana Pequeno, Vital Farias e outros.  
A doce e melodiosa voz de Mari Ananias, emoldurada pelo violoncello de Mari Brandão, será nosso guia no desvendamento do Jogo de Cordas que será essa miraculosa viagem pela música brasileira.
Ah,  Música! Deusa Música! Nossa gente te louva e honra e mostra seu valor!

                                           Consuelo de Paula e Fernanda (Mora Mundo)

 Visitemos a morada da musica, conhecemos o Mora Mundo. E nos deixemos levar nesse passeio encantatório pela musica brasileira. Quem for, verá. E valerá!

Vamos nos “arreunir”, conforme ensinou o grande Chico Maranhão, imortalizado na voz de Doroty Marques.
As Maris, a Brandão & Ananias, discípulas da mestra Doroty, vão nos mostrar a beleza do caminho das pedras!


Com a palavra, o Mora Mundo:

Um lugar compartilhado que busca criar relações horizontais, livre das opressões do Estado e do mercado. Neste espaço de difusão de ações socioculturais e educativa, cabem encontros, exposições, debates, cursos livres, grupos de estudos, oficinas, ensaios, mostras, teatro, música, diversão, troca e toda sorte de aprendizado que as possibilidades nos trouxerem!! 

Aqui não cabe, expressões racistas, machistas, sexistas, homofóbicas e nem transfóbicas. 
A casa de tudo está aberta! Bem vindos!!

Onde fica?

Rua Barra Funda, 391 – próximo a metrô Marechal Deodoro

Contribuição solidária: a partir de 10 reais.

                                                               onde mora a música!

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'DANDÔ' EM SAMPA: A MINEIRA SOL BUENO NO I.J.C.



No próximo 13 de agosto, domingo, as 17 horas, dentro da programação do Projeto Dandô – Círculo de Musica Dércio Marques, estará de apresentando a cantora, instrumentista, compositora mineira,  Sol Bueno.
O Dandô, idealizado por Kátya Teixeira, seguindo a trilha de Dércio Marques, conhecido fomentador da cultura brasileira regional, está sendo realizado durante este ano no Instituto Juca de Cultura (endereço no final do post). Recepcionando Sol Bueno, a cantora e paulistana Mari Ananias.


                                       Convidada; Sol Bueno


                                      Anfitriã: Mari Ananias

Sol Bueno, que está lançando seu primeiro CD, “Poeira Dançante”, é uma suave brisa trazendo nuvens de pétalas coloridas nos caminhos e veredas do Brasil. Musica para ouvir e ver, graças ao extraordinário tratamento gráfico dado ao encarte.
Num recente post neste mesmo blog sertão paulistano escrevemos que “...Poeira Dançante” dos pés descalços ou de alpercatas de couro, dos pés caminhantes dos andarilhos, dos trabalhadores, dos meninos que caminham longas distancias para chegar à única escola num raio de muitos quilômetros; é a poeira levantada pelos pés dançarinos nos terreiros da aldeia krahö, nos pontos de jongo. Tão tênue quanto os grãos de pó que se ergue é esse Brasil esquecido, mas viçoso e real, vibrante, embebido de suor, repleto de vida e história.
Não sei se somos justos com a definição, pois a artista são mais do que isso, mas só posso aqui reafirmar aquilo que foi escrito então.

Vale conferir. Vale comparecer, ouvir Sol Bueno e Mari Ananias, meninas que valem ouro; vale conhecer o espaço cultural Instituto Juca de Cultura e curtir a presença de gente bonita e agradável.

Uma breve palavrinha sobre o I.J.C.: criado pelo poeta e editor Paulo Nunes, é uma justa homenagem ao poeta mineiro José Joaquim de Souza, conhecido como Juca da Angélica, primeiro como carreiro por toda a região de Patos de Minas e depois como poeta popular. Sua poesia, quase toda ela retida na memória, correria o risco de ter morrido com ele em setembro do ano passado, não fosse o esforço pessoal do Paul Nunes, de seu flho Paulo Jose e de Luis André Nepomuceno, que conseguiram depois de muito esforço, transformar em livro físico, “Meu canto é Saudade”. As poesias ali contidas são, na verdade, um pálido reflexo da força da poesia oral. Uma centelha, que entretanto, possui força inaudita, pois já se tornou música através do CD “Puisia”, do Saulo Alves e Trio José (ver o texto “Juca da Angélica, Trio José e a Afirmação da Poesia”, neste blog) e filme, o  curta-metragem “Meu canto é saudade- A Poesia de Juca da Angélica”, de Diogénes S. Miranda.
Enfim, tudo a ver: no espaço consagrado à lírica de Seu Juca, a presença luminosa de Sol Bueno.







ONDE FICA:  próximo a Estação Sumaré do metrô,

Rua Cristiano Viana, 1142 - Sumarezinho - Estação Sumaré de Metrô
Quando: domingo, dia 13 de agosto, às 17:00 horas
Quanto: contribuição a partir de R$15,00

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AS FLORES DO MEU TERREIRO”, O NOVO DISCO DE KATYA TEIXEIRA



Em 23 anos de carreira, sempre que Kátya Teixeira prepara um novo trabalho, todos nós que acompanhamos sua trajetória nos seguramos nas cadeiras e prendemos a respiração, ansiosos pela surpresa que se nos apresentará desta feita.
São 23 anos de palco oficialmente, desde a noite em que subiu ao palco do Café Fubá, de Oswaldinho e Marisa Vianna; na verdade, é muito mais, é toda uma vida dedicada a música. Antes mesmo de nascer já pulsava música ritmada, ainda no ventre materno, ela que vem de uma família de artistas; musica era tão presente na casa dos pais como o alimento, o próprio ar  impregnado da poesia de João Bá, dos acordes do tio Vidal França, da tia Mazé Pinheiro, do pai Chico Teixeira.

Kátya já nasceu grande, trocadilho irresistível com suas performances que tornam o palco sempre pequeno, como se a paulistana filha de alagoano e mineira precisasse do mundo inteiro para se expressar devidamente.



“As Flores do Meu Terreiro” é seu sexto disco solo. Embora não deva constar da Discografia Oficial Solo, merece destaque a coletânea do “Dandô”, trabalho que resume sua atuação político-cultural, trabalho-ideia que pode ser chamado resistência cultural e de intervenção, pois estabelece um vinculo direto entre artista e público, sem mediações. O "Dandô" é, digamos, a materialização do sonho possivel de uma arte verdadeiramente popular envolvendo múltiplos artistas e generos variados. 
O saudoso Zé Gomes, juntamente com o violeiro Noel de Andrade chegou a sonhar com algo parecido, mas que envolveria  certa infraestrutura mínima: uma cidade, por exemplo, seria durante alguns dias um pólo irradiador da cultura local. A idéia, infelizmente, não progrediu. 
O "Dandô" foi tornado possível, porque apenas um artista se desloca de cada vez e assim é um trabalho de infiltração, marcado sempre pela extraordinária qualidade dos músicos e a proximidade do público. Apresentado em locais pequenos, geralmente é uma experiência inesquecível para quem participa. Maneira criativa e eficiente de valorizar a produção da arte autentica e popular, arte nascida e vivenciada no seio das comunidades, sem os carimbos comerciais que tem o intuito de apenas vender. Fazendo uma comparação um tanto grosseira, diria que os artistas que participam do "Dando" estão na nossa vida cultural da mesma forma que a simples comida caseira está para os chamados fast foods. Felizmente é uma experiência que se propaga e inclusive já existem movimentos semelhantes com ouras formas de arte ou de genero especifico: o Arreuni, encabeçado pelo violeiro João Arruda é um desses e sabemos de grupos de violeiros ("Violada", por exemplo) que se reúnem de forma parecida.
Ao longo da história são movimentos autonomos como esses que tornam possível a preservação da arte genuína ou a propagação da cultura em lugares que jamais chegaria do modo, digamos, tradicional. Vem a mente enquanto batuco meu teclado a atuação do poeta espanhol Garcia Lorca que nas primeiras décadas do século XX realizava incursões pelo interior da Espanha com sua trupe teatral itinerante, denominada La Barraca, levando arte aos mais distantes rincões da Peninsula Ibérica.



Neste sexto disco, Kátya Teixeira não se repete, a exemplo dos discos anteriores, por mais importância e significado que possa ter tido a temática escolhida. É a constatação viva de que a arte popular é tão variada, o manancial é tão rico que não é possivel repetir-se, se assim o quiser! Para se ter uma idéia, vale a pena ouvir em sequencia os discos e formalizar, cada um, uma ideia de seu jeito inquieto de ser e de estar no mundo. Oiçam, pela ordem:

- Katcherê; - Lira do Povo; - Feito Corda e Cantiga; - Dois Mares; - Cantariar; - As Flores do Meu Terreiro.  (Além, é claro, de ouvir a Coletânea do Dandô, o ponto de intersecção entre povos, artistas e culturas do Brasil).

Se cada um dos trabalhos anteriores era o coroamento de uma idéia (por exemplo, Katcherê, o disco de estréia, é um convite a percorrer um caminho; Lira do Povo, dá voz ao próprio povo esquecido; Feito Corda e Cantiga, uma celebração às parcerias; Dois Mares, em parceria com Luiz Salgado, uma viagem simbólica pelos portos e mares português e brasileiro; Cantariar, uma longa história de parceiros, parcerias e influências mútuas, um resumo biográfico de sua trajetória), este As Flores do Meu Terreiro pode ser chamado o “disco dos afetos”, um retrato multifacetado de seu universo e do que a motiva. Disco dos afetos, pois as relações afetivas estão presente o tempo todo; não os temas amorosos tradicionais, mas o amor das amizades e parcerias sinceras, amor pela Arte e sobretudo, amor pelo povo que inspira a cantora, compositora e pesquisadora.



POESIA QUE LIBERTA

As Flores do Meu Terreiro foi lançado oficialmente no Sesc Belenzinho num significativo 13 de Maio e esse acaso  acabou por ter um significado mui especial. Este dia, 13 de maio, também pode ser, simbolicamente, chamado o Dia da Libertação do povo como um todo. Ou o dia da superação, pois no fundo é uma conquista de todos nós e assim deve ser sempre lembrado, refletido.
E no dia da libertação, foi lançado o Disco da Libertação, embora esteja longe de mim a ideia de dar ao evento qualquer dimensão politica; qualquer tentativa desse genero  o transformaria em simples panfleto; por isso, tal leitura é por conta e risco de cada um.

É um trabalho essencialmente poético e os poetas não necessitam da razão para expor suas verdades, ainda bem. A dimensão politica fica ao rés-do-chão e o artista move-se noutras dimensões, quiça espirituais e por isso sua visão aguçada e sensível pode aos nossos olhos parecer distorcida.
Walter Benjamin, no livro Um Lirico no Auge do Capitalismo, identifica o mal estar presente na poesia de Poe e Baudelaire como a revolta latente pressentida num sistema que então auferia riquezas à custa de terríveis sofrimentos, sujeira, exploração. Esse mundo brutal que o poeta impotente percebia, não conseguia traduzir em palavras racionais  pois tudo era horror (o capitalismo em seus primórdios pareceria aos nossos olhos acostumados a globalização do século XXI como um portal do inferno, com jornadas diárias de 20 horas sob o jugo de chicotes. Algo que o trabalho escravo que por vezes se descobre nos nossos dias é uma comparação bastante sutil), como é horror a exploração do homem pelo homem em qualquer aspectos que possamos imaginar - cultural, politico, econômico.
Que poderiam fazer pessoas como Poe ou Baudelaire ou outros como eles perante o horror, além de expressar-se do único modo que sabiam?

O poeta é um ser em carne viva. Para o bem ou para o mal. Existe muita verdade nas palavras do mexicano Octavio Paz quando este diz referindo-se à poesia: “...pão dos escolhidos, alimento maldito; isola, une.”
A voz do poeta é a voz do inconsciente. A outra Voz.

As Flores do Meu Terreiro pode, sim, ser o disco dos afetos e da libertação. Todo ele
é uma prece, ora solene, ora pungente, mas especialmente de uma alegria contagiante, descontraída, sincera, pois se sente que cada um dos que contribuíram para a feitura do trabalho o fizeram de coração: Paulo Nunes,  Consuelo de Paula, Paulo Matricó, Erick Castanho, dentre outros, passando pelo belíssimo trabalho gráfico produzido pelo Projeto Tear, de Guarulhos, feito com papel reciclável acompanhado de sementes flores da singela onze horas, perolado pelos desenhos de Naila Pommé.
A liturgia desse trabalho marcante, pontuado de oração, folia e dança é, afinal, uma festa, com momentos para reflexão. Talvez por isso seja uma obra feita para nos ajudar nos tempos que vivemos atualmente.



O disco,  como é costumeiros no trabalho de Katya e seus companheiros, é um chamamento para uma tomada de consciência para o valor de nossa gente.

A gente brasileira merece – e terá! – um destino melhor do que nossa política demonstra.
O valor de nossa gente é algo revolucionário e tem um frescor alegre. É muito antigo – se perde no tempo! – e igualmente acaba de nascer – pois a arte popular é isso: se renova constantemente e esse sopro renovador é o ar que nos liberta e afinal, nos salva!

O povo que produz artistas como Kátya Teixeira só pode ser um povo vencedor!



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