YRUPA PURAHÉI – Canções das Margens do Rio

O PURAHÉI é um Trio formado por uma brasileira, um argentino e uma paraguaia: flautas, piano e voz tecem um quadro, pincelado a seis mãos, possibilitando a quem ouve suas canções uma visão sonora de uma região do continente sulamericano repleta de beleza, lendas, mistérios e tragédias. Evocações à mística guarani e a história politica e cultural evoluem, fertilizando a atmosfera, entremeados aos acordes.



Sabemos pouco daquela região dominada em grande parte pela planície do pampa. E o pouco que sabemos nos vem à consciência embotado pelos diversos estereótipos que comumente saltam aos olhos ao imaginar a figura do gaúcho. À primeira vista nos vem à mente a milonga, o chamamé, a chacareira, a baguala, o zamba, etc., mas isso é apenas puxar o fio do novelo oculto: existe muito mais e a cada oportunidade que se apresenta para descobrir e conhecer, vislumbramos a imensa riqueza que subjaz ainda oculta.



Todos que labutamos, por dever de oficio ou simples prazer (meu caso) no inglório universo da cultura popular estamos de acordo num ponto: não é do interesse das grandes mídias ou das grandes oligarquias que dão as cartas por estas bandas fomentar alternativas culturais  que possam vir fazer frente ao monopólio ditado pelos grandes centros “produtores de cultura”, geralmente restolhos de fácil assimilação, cuja função é o “distraimento” das massas, para assim desviar as mentes e corações do conhecimento de seus próprios valores, que por sua vez conduziriam a um aprofundamento e questionamento da realidade que sempre os cercou.

(Contudo, resistência, há! Louve-se a lendária figura do menestrel, também chamados aedo ou rapsodo, figura que desde a antiguidade percorre os caminhos a pé ou em lombo de animais, tendo como arma o instrumento. Câmara Cascudo os decanta no seu clássico “Vaqueiros e Cantadores”, onde aponta as várias origens deste personagem que por muitos séculos era a única forma de transmitir e receber noticias entre os aldeões de vastíssimos territórios. Tais figuras sobreviveram ao século XX, e no nosso tempo o personagem que mais se aproxima deles deve ser a do cantor militante.  Woody Guthrie, Leadbelly, nos EUA; Vitor Jara, Atahualpa Yupanqui, Violeta Parra, Dercio Marques e Noel Guarani, na América do Sul. De certo modo, todos os artistas chamados independentes são herdeiros diretos ou indiretos. Atualmente, os artistas que fazem parte do Projeto Dandô, idealizado pela paulistana Katya Teixeira, justamente inspirada por Dércio Marques, que durante toda a sua vida foi uma espécie de guia para os artistas desvinculados das grandes gravadoras, desejosos de mostrar seu trabalho e que jamais teriam oportunidade, não por falta de conteúdo e talento, mas por razões de mercado, por assim dizer. Poucas vezes um projeto artístico cultural foi tão ousado quanto o Dandô, pois simplesmente ignora as leis do mercado, e no peito e na raça reúne gente de várias partes do país e até de alguns países da América do Sul).

O jovem Trio segue, assim, uma trilha antiga, cujas pistas, invisíveis ao olhar vulgo, são por eles conhecidas, tal como o mítico caminho do Peabirú; eles tem em comum com os artistas acima citados o fato de produzirem uma arte completamente diferenciada; não falo de questões estéticas/técnicas, das quais nada entendo ou ideológicas – embora tais elementos estejam presentes. O cerne de seu trabalho é uma organicidade que a torna única, reconhecível somente na arte autêntica. O Cd, segundo do Trio, o Yrupa Purahéi – Canções da Margem do Rio, mistura regravações de clássicos conhecidos, com outras de carater regional/folclórico e duas composições instrumentais de Chungo Roy, o arranjador do grupo. O que essa arte orgânica e autentica tem de diferente é a capacidade de despertar em quem ouve o mesmo profundo  sentimento de liberdade e de autonomia que moveu o compositor original. (O rasqueado ou polca ou guarânia “Pé de Cedro”, por exemplo, permite interpretações das mais diversas, sempre permeando entre si elementos nostálgicos dramáticos, alguns explícitos, outros subentendidos, permitindo versões e estilos variados, desde Miltinho Rodrigues, Renato Teixeira e agora do Purahéi Trio, sem contar as duplas caipiras ou sertanejas. Muitos são os mundos gerados continuamente em torno do singelo Pé de Cedro que o narrador um dia encontrou a muda na mata e trouxe para cultivar no quintal de casa, até mesmo um improvável conteúdo ecológico de preservação, que com certeza o autor não imaginou...)



Há quem diga que arte ruim voltada para as classes populares, faça parte de um diabólico plano de emburrecer as massas e consequentemente mantê-las mais facilmente afáveis, domináveis... Não sei se as tais classes dominantes chegam a esse nível de sofisticação maquiavélica, pois, o que, afinal, lhes interessa é o servilismo: querem arte e artistas, pouco importa a índole, contanto que sirvam a seus interesses. Para eles, o conteúdo é irrelevante! Seria por isso que o “mercado” é tão inacessível a quem não faça parte de um grupo? Será também por isso que muitos artistas e literatos  emprestam seus nomes à causas duvidosas? Será também por isso que as verbas e financiamentos são geralmente acessíveis a seletos grupos, onde quem está dentro não sai e quem está fora não entra? Esse sistema, aparentemente indolor, torna a classe artística repleta de castas,inamovíveis. Entretanto, a atuação dos independentes são sementes ciosamente germinadas que podem em breve se tornar um contrapeso e o fato de chegar até nós, com todas as dificuldades, é uma luz que se acende.

As duas moças e o rapaz que compõem o Purahéi Trio não são guerrilheiros da musica ou agentes culturais engajados na luta dos povos oprimidos. Eles apenas e tão somente cantam e tocam e nos cantos e acordes emitidos, não se percebe sinais de militância, nenhum laivo provocativo, nenhuma mensagem sub-reptícia, nenhum código que possa conter mensagens que contenham senhas para um levante, um chamado às armas! Apenas tocam e cantam, mas com uma leveza tãoarrebatadora dos sentidos que nos faz deter o passo e parar cuidadosamente a ouví-los. E se os ouvimos com atenção e cuidado, não há como não refletir sobre as histórias das canções e consequentemente, a história da região e seu povo. Esse modo de ver e sentir musicalmente o mundo é uma característica nossa, brasileira, herança compartilhada com nossos Hermanos, nossos vizinhos. Quis uma feliz conspiração dos astros que estivesse tão presente os guarani, povo essencialmente musical, conforme atesta seu descendente direto, Dércio Marques.

Fora os atributos artísticos, um traço marcante que identifica e qualifica o Trio é a liberdade. A flauta da brasileira Maiara Moraes, o piano do argentino Chungo Roy (que também assina os arranjos) e a voz da paraguaia Romy Martinez navegam delicadamente como folhas movidas por suaves brisas, impulsionadas pelas pulsações dos corações, onde delicadamente pousam.
Três jovens, simbolizando três nações (que poderiam ser tantas outras, do continente ou algures) que em tempos confusos com os que vivemos atualmente promovem a integração que o mundo politico e diplomático faz anos tenta, inutilmente: o Mercosul, cada vez mais sonolento e enfraquecido, dormita em seu berço carcomido, assim como os velhos ícones ideológicos, cujo fervor tornou-se paquidérmico, sendo ultrapassado pela história.
Ainda bem que temos a Arte! A Arte salvará o mundo! Nossa Redenção!

Yrupa Purahéi – Canções das Margens do Rio - reúne alguns clássicos do vasto cancioneiro que por décadas animaram as zonas rurais das fronteiras dos países, preferencialmente entre Paraguai e Brasil, onde as guaranias, polcas e rasqueados, ritmos que se espalham pelo Mato Grosso do Sul e leste do estado de São Paulo. Algumas faixas do cancioneiro nacional convivem harmoniosamente com outras  de caráter regional, que falam mais diretamente à alma campeira do “gaúcho”, o habitante das aparentemente tranquilas planícies do “pampa” – aparentemente, pois a monotonia é apenas aparente, os instrumentais, de viés jazzistico, estabelecem  um curioso contraponto entre o tradicional e a atmosfera de uma região dinâmica, mas que não perde o fio da história.

 Mas não são saudosistas, as moças e o rapaz seguem em frente. O Purahéi Trio bebe livremente de várias fontes – do folclore, do clássico, do popular - e na sua caminhada, busca e encontra a comunhão possivel, jamais o confronto. Talvez por isso, faça sentido juntar num mesmo projeto compositores tão dispares quanto o caipira Angelino Oliveira e Vitor Ramil. O riquíssimo colorido ganha brilho especial ao mostrar ao resto do Brasil a mistura de idiomas comuns à região, ignorando as fronteiras politicas: guarani, português e  castelhano.

Romy Martinez, Chungo Roy e Maiara Moraes

Quem ouve o disco sente o sopro, não do implacável minuano, o vento gelado e ardente vindo das geleiras do Polo Sul, mas a delicada brisa das melodias puras trazidas pela voz doce da Romy Martinez, a magia da flautista Maiara Moraes, a condução segura de Chungo Roy: as melodias emergem das águas puras do aquífero guarani como encantatórios cantos de sereias.
A formação incomum do grupo não tem os tradicionais violão e gaita ponto. Contudo, se repararmos bem, haveremos de vislumbrar as presenças ocultas desses instrumentos tradicionais, pois são presenças imanentes: podemos sentir os trinados e dedilhados. Por isso podemos auferir ao Purahéi Trio a aura de prestidigitadores: transformam a força hercúlea e heroica dos herdeiros culturais do Indio Sepé em pura delicadeza.

Em  seu segundo trabalho, YRUPA PUHARÉI – canções das Margens do Rio, os jovens revolucionam. Mas com muita ternura.



Repertório:

1 Estrangeiro (Alegre Corrêa / Romy Martinez)
2 Batendo água (Luiz Marenco / Gujo Teixeira)
3 Tristeza do Jeca (Angelino de Oliveira)
4) Tapera (Vitor Ramil/ João da Cunha Vargas)
5 Pé de cedro (Zacarías Mourão / Goiá)
6 Irupe (Chungo Roy)
7 La Cautiva (Emiliano R. Fernández / Agustín Larramendia)
8 Tocando em frente (Almir Sater/ Renato Teixeira)
9 Milonga das três nações (Fernanda Rosa)
10 Sonhos guaranis – Avá kéra poty (Almir Sater / Paulo Simões / Romy Martínez)
11 Tres Hermanos (Chungo Roy)
12 faixa bônus Estrangeiro


No disco, participações especiais de:
- Bebê Kramer, acordeon, na faixa bônus Estrangeiro;
- Carlinhos Antunes, viola caipira na faixa Tristeza do  Jeca;
- Léa Freire, faixa baixo e flauta contrabaixo em Irupé;
- A Corda em Si (Fernanda, voz e Mateus, baixo), na faixa Milonga das Tres Nações.                                                  

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O MERECIDO SUCESSO DE "O FILME DA MINHA VIDA"





Contrariando uma das premissas do blog ser-tão paulistano – de destacar obras que não façam do sistema de mercado cultural – hoje vamos falar de uma obra que certamente arrebatará muitos milhares, quiçá milhões de admiradores, com direito a resenha nos principais jornais e revistas do país. Falamos de “O Filme da Minha Vida”, uma apologia à simplicidade e a beleza. Um genuíno exemplar da arte brasileira de alta qualidade, uma ode à fantasia e a esperança, que a magia do cinema pode nos proporcionar. A Arte sempre será um porto seguro.

Não é de hoje que o cinema nacional dá sólidas mostras de recuperação de um lugar no coração de nosso povo que em épocas passadas foi mais presente. Os filmes de Mazzaropi, as chanchadas com Oscarito de Grande Otelo, os musicais, os dramalhões em grande estilo. Podemos citar dezenas de filmes ditos autorais ou de apelo comercial, como Estrada da Vida, de Nelson Pereira dos Santos; O Ébrio, com Vicente Celestino ou ainda o chapliniano Bonga, o Vagabundo, todos eles capazes de disputar público e mercado com filmes estrangeiros. Sim, o cinema brasileiro é uma realidade. (Na esteira da busca de consolidação, não se poderia  esperar coisa diferente: logramos cair em muitas mazelas, as famigeradas patotas ditas “culturais”, círculos viciosos, onde, quem está dentro não sai e quem está fora não entra. Muita grana escorreu pelos ralos dos órgãos “oficiais” destinados a tratar da produção cinematografica nacional, sob muitos codinomes: Embrafilme, Ancine, leis de incentivos, etc.)
Com ou sem Embrafilme ou Ancine ou através de produção independente, o cinema brasileiro, é possível, já demos provas disso ao longo do tempo. Filmes campeões de bilheteria e de alta qualidade não são exceções  ou acasos, são conseqüência de empenho, trabalho, profissionalização, vocação, o que faz toda a diferença:  é a respeito disso que trataremos a seguir:

Se alguém for ver “O Filme da Minha Vida”, direção de Selton Melo, não pense que se enganou de sala: voce não está vendo um filme estrangeiro dublado! É mesmo um filme brasileiro, nacional, falado em bom portugues - com sotaque gaúcho, sem as afetações forçadas de caipirês ou nordestinês a que tanto nos acostumamos, a ponto da saturação: Ariano Suassuna disse certa vez (cito de memória) que “...sotaque não é miado...” O que Ariano chama de “miado” é a vulgarização do rico linguajar popular, estereotipado, forçado,  para “inglês ver”, que tanto contribuem para o preconceito, para não falar da desinformação.
O Filme da Minha Vida consegue reunir elementos que agradam o público comum que deseja apenas divertir/curtir ou àquele que se propuser a refletir sobre a arte em si ou o próprio discurso  da linguagem cinematográfica.
O diretor usa e abusa de chichês e os mesmos não cansam, pois o faz em justa medida, dentro da essência dessa arte. Cinema é magia, truques de luz e sombra e quão maior seja a habilidade do “mágico” em manipular esses elementos – luz, sombra, efeitos sonoros, linguagem falada  – levando ou trazendo o espectador para o seu Universo Mágico, mais próximo estará do objetivo principal da arte ilusionista.
Em tempos extremos como os que vivemos atualmente, caracterizados por um intenso dualismo, podemos “quase” dizer que O Filme de Vida contém elementos revolucionários. Mas nada de tomadas/ângulos que ampliam a realidade, nada de montanhas russas capazes de provocar sensações que ativam determinados neurônios que nos farão mais inteligentes! O filme surpreende por utilizar elementos banais – se é que podemos assim chamar a Beleza e Simplicidade. É um filme para se ver e curtir, sem mirabolâncias, mas, curiosamente aí reside seu aspecto revolucionário ao cativar o espectador, levando-o ao uso da imaginação, coisa rara nos dias de hoje, onde a ação ininterrupta nos deixa sem fôlego. As imagens belíssimas atingem o âmago da emoção do expectador não por fazê-lo “participante” da cena, como numa exibição 3D. As filmagens externas ou internas são situações em que o público assistente poderia tranqüilamente estar participando, tal a familiaridade: os dilemas, angústias, dignidades,fraquezas, baixarias, dúvidas, alegrias, descobertas são facilmente discerníveis seja em nós mesmos ou em alguém que conhecemos. Não existem no filme heróis ou vilões. Todos os personagens e situações são plausíveis, por assim dizer.

Pode não ser “o filme de nossas vidas”, aquele filme com o qual todo diretor sonha, que marcará gerações por décadas! Mas faz justas e inteligentes referências a filmes que fizeram histórias. Algumas explicitas, como a farta citação do faroeste Rio Vermelho, de Howard Hawks, um dos filmes mais emblemáticos e encantadores de toda história do cinema, marcando a tensa oposição entre os personagens de John Wayne e Montgomery Cliff (que também marca diferenças cruciais de estilos de interpretação e modos de ver a vida entre o “xucro” vaqueiro Wayne e o sensível Cliff), outras citações mais sutis, como a cena que abre e fecha a história (a encruzilhada, onde de um lado segue a linha férrea, do outro a estradinha de terra), que faz lembrar Rastros de Ódio, com a porta do saloon que abre para a história e ao final, fecha.
E como toda boa história de ficção, não se prende, corre solta. A exibição na cidadezinha do filme Rio Vermelho parece situar a história  entre o final da década de 1940 e inicio de 1950 (o filme é de 1948) e as próprias situações, como a dificuldade de comunicações no Brasil de então, sugere situar o enredo nesse período. Porém, um dos carros chefes da trilha sonora remete aos anos 1970, com a re-descoberta de “Coração de Papel”, que revela a origem musical iê-iê-iê do hoje sertanejo Sérgio Reis. Alguns clássicos do mais tradicional jazz urbano poderiam situar a história num ambiente cosmopolita e não uma cidadezinha perdida nos confins da serra gaúcha (aliás, na história não existe qualquer referência explicita de “lugar”. Só se sabe que fica numa região fronteiriça, aparentemente com o Uruguai.).


                                           John Wayne e Montgomery Cliff: duelo de estilos
Merece destaque as participações especiais: Antonio Skarmeta, autor do livro que inspirou o filme, outra referência que lembra O Céu Que Nos Protege, de Bertolucci, com a voz de Paul Bowlles no final, que Cacá Diegues tentou imitar em Tieta do Agreste, com Jorge Amado - e não deu certo, ficou muito na cara e perdeu todo possivel impacto. E Rolando Boldrin, no papel de Giussepe, o condutor do trem, um personagem atemporal, sem idade, cujo olhar penetrante parece saber tudo a respeito dos passageiros que conduz: por isso diz: "...o trem tem de partir sempre na hora, nem antes nem depois!" Eis outra referência do cinemão: o mago Gandalf diz algo parecido no inicio d’O Senhor dos Anéis: "...um mago nunca se atrasa, Frodo Bolseiro! Não chega nem antes nem depois, mas sempre na hora!"  Enfim, podemos chamar esses recursos de clichês, mas não no sentido pejorativo, da busca das emoções fáceis e baratas, de gosto duvidoso e comercial: é a busca da emoção básica, latente em todos nós: não é fácil ser simples e é nesse sentido, que podemos ver o filme como algo revolucionário, pois revisita velhas estações, para sempre marcadas em nossas vidas, mas sem  pieguismo. A nostalgia não é somente reviver o impossível passado glorioso, mas pode também produzir novas emoções.
Destaque para a direção dos atores e a contenção dos personagens nas situações emocionais notadamente tensas, como a condição da mulher agreste, linda, madura, no auge da sensualidade,  desejada pelo macho de plantão, vivida magistralmente pela atriz Ondina Clais, a mãe de Tony.
                                             O diretor Selton e o escritor Skarmeta

O filme de Minha Vida, enfim, é cinemão ao melhor estilo, cuja função principal é entreter. Mas provoca reflexões, se o expectador estiver disposto a tal. Respeita a imaginação ao deixar que muitas das situações prováveis não sejam mostradas explicitamente – como será, por exemplo, o encontro entre Nicolas e Ondina? Vendo o filme, impossível não traçar paralelo com situações vividas em nossas próprias vidas ou a outros filmes, que poderiam ser igualmente chamados “filmes de nossas vidas”.
A singela viagem do trem, seu fascínio, seus mistérios nunca terminam, apesar dos anacronismos dos governos e suas opções político/econômicas equivocadas, a serviço de interesses imediatos. A ganância do empresariado do transporte rodoviário que não hesitou em destruir as ferrovias, macomunado com governos travestidos de modernismos.

Não importa, sempre seguiremos pelos trens de nossas vidas, sempre estaremos indo a algum lugar ao encontro ou em busca de algo, guiados pela mão segura do condutor Giussepe/Boldrin, que ao responder por que gosta do seu ofício, responde bem ao estilo do, Sr.Brasil: “Eu levo as pessoas para resolver suas coisas!”. Detalhe: esse personagem tão importante na trama (o condutor) não existe no livro de Skàrmeta!
O filme poderia ter terminado quando o trem mergulha na escuridão do túnel, pois os acontecimentos futuros já estão delineados. Mas seríamos privados da emoção de ver Sofia e Tony/Luana trocando ternos olhares pelos caminhos que seguem paralelos: vidas e destinos que foram salvos pelo amor e pela tolerância...
 O Filme da Minha Vida é filmão. E não é americano, não é francês, não é italiano. É um filme brasileiro que se ombreia ao melhor do cinema mundial! Deve fazer justo sucesso de público e critica!
E, conforme disse Selton em entrevistas, "a arte salvará o mundo", parafraseando Tolstói!






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O SHOW JOGO DE CORDAS, NO MORA MUNDO


Sabemos, de há muito que São Paulo, nossa querida e inefável Sampa, tem muitos lugares legais, a maioria pouco divulgados. Um desses recantos aprazíveis foi descoberto há pouco pela equipe do Sertão Paulistano, o Mora Mundo.

O Mora Mundo tem uma história bonita, mas reservamos para contá-la em justa e devida entrevista com a Coordenadora do espaço, a Fernanda Laender. Por ora queremos apenas anunciar o próximo evento.

Pense num lugar acolhedor.
Pense num lugar super simpático, onde voce tem a exata sensação de estar em sua própria casa.
Pense num lugar onde voce tem toda a liberdade de manifestar-se, de “ser” voce mesmo(a) sem o risco de ferir melindres.
Pense num casa com quintal e banco de madeira, onde se pode prosear tranquilamente, sem pressa.
Pense num discreto bar, sortido com guloseimas feitas com muito carinho, diversas bebidas – incluindo cachaças artesanais – e uma coisa um tanto incomum nesses tempos de vale tudo: não custa os olhos da cara.

Pensou em tudo isso? E pensou que pode ter mais?

Pensou certo, pois o lugar existe e tem mais: Muita e boa musica. E não só!

Nesse lugar que muitos podem pensar a primeira vista ser um recanto imaginário, a música assume uma função que em outros tempos era algo perfeitamente natural, a música era ponto de convergência, razão de convívio social, de aproximação entre as pessoas.

Pensou nesse lugar ideal?

Pois pensou no Mora Mundo, a casa onde a música fez morada. Fica logo ali, na Barra Funda, a duas quadras do metrô Marechal Deodoro.

O Mora Mundo é diferente porque sua proposta é diferente. Não apenas uma proposta de melhoria da sociedade, mas acena para uma nova visão de mundo. Ou melhor, para a reconquista da esperança!
Quem habita esse frágil planetinha sabe das dificuldades que vivemos nos últimos anos. Um historiador do futuro talvez tenha melhores condições de analisar com sobriedade o que nos acontece hoje em dia, no acirramento de tensões, na explosão da intolerância sob várias formas, na confusão que gira em torno de conceitos que sempre foram tão caros para o mundo, como por exemplo, a ideia de democracia, tão deturpada ultimamente. O Mora Mundo, segundo definição de seus membros, é o “espaço das possibilidades”.
Enfim, a  centelha viva de esperança que cada um de nós guarda dentro de si, encontra no Mora Mundo o sopro vital, que anima a fraternidade ainda possível!



SHOWS DAS MARIS:

Na próxima sexta, 25/08, o Mora Mundo será palco de uma linda cantoria. Quem conhece a “casa” há de lembrar a beleza que é um show totalmente acústico, literalmente na sala de casa – quem assistiu, por exemplo, o show de Consuelo de Paula, sabe do que falo.
Por lá estarão Mari Ananias (voz e violão) e Mari Brandão (violoncelo). Desfilarão um repertório da canção brasileira, alvissareiro passeio por nossos campos, florestas, cerrados, veredas, ruas, descrevendo cenas compostas por artistas como Sivuca, Elomar, João Bá, Dércio Marques, Diana Pequeno, Vital Farias e outros.  
A doce e melodiosa voz de Mari Ananias, emoldurada pelo violoncello de Mari Brandão, será nosso guia no desvendamento do Jogo de Cordas que será essa miraculosa viagem pela música brasileira.
Ah,  Música! Deusa Música! Nossa gente te louva e honra e mostra seu valor!

                                           Consuelo de Paula e Fernanda (Mora Mundo)

 Visitemos a morada da musica, conhecemos o Mora Mundo. E nos deixemos levar nesse passeio encantatório pela musica brasileira. Quem for, verá. E valerá!

Vamos nos “arreunir”, conforme ensinou o grande Chico Maranhão, imortalizado na voz de Doroty Marques.
As Maris, a Brandão & Ananias, discípulas da mestra Doroty, vão nos mostrar a beleza do caminho das pedras!


Com a palavra, o Mora Mundo:

Um lugar compartilhado que busca criar relações horizontais, livre das opressões do Estado e do mercado. Neste espaço de difusão de ações socioculturais e educativa, cabem encontros, exposições, debates, cursos livres, grupos de estudos, oficinas, ensaios, mostras, teatro, música, diversão, troca e toda sorte de aprendizado que as possibilidades nos trouxerem!! 

Aqui não cabe, expressões racistas, machistas, sexistas, homofóbicas e nem transfóbicas. 
A casa de tudo está aberta! Bem vindos!!

Onde fica?

Rua Barra Funda, 391 – próximo a metrô Marechal Deodoro

Contribuição solidária: a partir de 10 reais.

                                                               onde mora a música!

                                                                     Outras atrações



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'DANDÔ' EM SAMPA: A MINEIRA SOL BUENO NO I.J.C.



No próximo 13 de agosto, domingo, as 17 horas, dentro da programação do Projeto Dandô – Círculo de Musica Dércio Marques, estará de apresentando a cantora, instrumentista, compositora mineira,  Sol Bueno.
O Dandô, idealizado por Kátya Teixeira, seguindo a trilha de Dércio Marques, conhecido fomentador da cultura brasileira regional, está sendo realizado durante este ano no Instituto Juca de Cultura (endereço no final do post). Recepcionando Sol Bueno, a cantora e paulistana Mari Ananias.


                                       Convidada; Sol Bueno


                                      Anfitriã: Mari Ananias

Sol Bueno, que está lançando seu primeiro CD, “Poeira Dançante”, é uma suave brisa trazendo nuvens de pétalas coloridas nos caminhos e veredas do Brasil. Musica para ouvir e ver, graças ao extraordinário tratamento gráfico dado ao encarte.
Num recente post neste mesmo blog sertão paulistano escrevemos que “...Poeira Dançante” dos pés descalços ou de alpercatas de couro, dos pés caminhantes dos andarilhos, dos trabalhadores, dos meninos que caminham longas distancias para chegar à única escola num raio de muitos quilômetros; é a poeira levantada pelos pés dançarinos nos terreiros da aldeia krahö, nos pontos de jongo. Tão tênue quanto os grãos de pó que se ergue é esse Brasil esquecido, mas viçoso e real, vibrante, embebido de suor, repleto de vida e história.
Não sei se somos justos com a definição, pois a artista são mais do que isso, mas só posso aqui reafirmar aquilo que foi escrito então.

Vale conferir. Vale comparecer, ouvir Sol Bueno e Mari Ananias, meninas que valem ouro; vale conhecer o espaço cultural Instituto Juca de Cultura e curtir a presença de gente bonita e agradável.

Uma breve palavrinha sobre o I.J.C.: criado pelo poeta e editor Paulo Nunes, é uma justa homenagem ao poeta mineiro José Joaquim de Souza, conhecido como Juca da Angélica, primeiro como carreiro por toda a região de Patos de Minas e depois como poeta popular. Sua poesia, quase toda ela retida na memória, correria o risco de ter morrido com ele em setembro do ano passado, não fosse o esforço pessoal do Paul Nunes, de seu flho Paulo Jose e de Luis André Nepomuceno, que conseguiram depois de muito esforço, transformar em livro físico, “Meu canto é Saudade”. As poesias ali contidas são, na verdade, um pálido reflexo da força da poesia oral. Uma centelha, que entretanto, possui força inaudita, pois já se tornou música através do CD “Puisia”, do Saulo Alves e Trio José (ver o texto “Juca da Angélica, Trio José e a Afirmação da Poesia”, neste blog) e filme, o  curta-metragem “Meu canto é saudade- A Poesia de Juca da Angélica”, de Diogénes S. Miranda.
Enfim, tudo a ver: no espaço consagrado à lírica de Seu Juca, a presença luminosa de Sol Bueno.







ONDE FICA:  próximo a Estação Sumaré do metrô,

Rua Cristiano Viana, 1142 - Sumarezinho - Estação Sumaré de Metrô
Quando: domingo, dia 13 de agosto, às 17:00 horas
Quanto: contribuição a partir de R$15,00

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AS FLORES DO MEU TERREIRO”, O NOVO DISCO DE KATYA TEIXEIRA



Em 23 anos de carreira, sempre que Kátya Teixeira prepara um novo trabalho, todos nós que acompanhamos sua trajetória nos seguramos nas cadeiras e prendemos a respiração, ansiosos pela surpresa que se nos apresentará desta feita.
São 23 anos de palco oficialmente, desde a noite em que subiu ao palco do Café Fubá, de Oswaldinho e Marisa Vianna; na verdade, é muito mais, é toda uma vida dedicada a música. Antes mesmo de nascer já pulsava música ritmada, ainda no ventre materno, ela que vem de uma família de artistas; musica era tão presente na casa dos pais como o alimento, o próprio ar  impregnado da poesia de João Bá, dos acordes do tio Vidal França, da tia Mazé Pinheiro, do pai Chico Teixeira.

Kátya já nasceu grande, trocadilho irresistível com suas performances que tornam o palco sempre pequeno, como se a paulistana filha de alagoano e mineira precisasse do mundo inteiro para se expressar devidamente.



“As Flores do Meu Terreiro” é seu sexto disco solo. Embora não deva constar da Discografia Oficial Solo, merece destaque a coletânea do “Dandô”, trabalho que resume sua atuação político-cultural, trabalho-ideia que pode ser chamado resistência cultural e de intervenção, pois estabelece um vinculo direto entre artista e público, sem mediações. O "Dandô" é, digamos, a materialização do sonho possivel de uma arte verdadeiramente popular envolvendo múltiplos artistas e generos variados. 
O saudoso Zé Gomes, juntamente com o violeiro Noel de Andrade chegou a sonhar com algo parecido, mas que envolveria  certa infraestrutura mínima: uma cidade, por exemplo, seria durante alguns dias um pólo irradiador da cultura local. A idéia, infelizmente, não progrediu. 
O "Dandô" foi tornado possível, porque apenas um artista se desloca de cada vez e assim é um trabalho de infiltração, marcado sempre pela extraordinária qualidade dos músicos e a proximidade do público. Apresentado em locais pequenos, geralmente é uma experiência inesquecível para quem participa. Maneira criativa e eficiente de valorizar a produção da arte autentica e popular, arte nascida e vivenciada no seio das comunidades, sem os carimbos comerciais que tem o intuito de apenas vender. Fazendo uma comparação um tanto grosseira, diria que os artistas que participam do "Dando" estão na nossa vida cultural da mesma forma que a simples comida caseira está para os chamados fast foods. Felizmente é uma experiência que se propaga e inclusive já existem movimentos semelhantes com ouras formas de arte ou de genero especifico: o Arreuni, encabeçado pelo violeiro João Arruda é um desses e sabemos de grupos de violeiros ("Violada", por exemplo) que se reúnem de forma parecida.
Ao longo da história são movimentos autonomos como esses que tornam possível a preservação da arte genuína ou a propagação da cultura em lugares que jamais chegaria do modo, digamos, tradicional. Vem a mente enquanto batuco meu teclado a atuação do poeta espanhol Garcia Lorca que nas primeiras décadas do século XX realizava incursões pelo interior da Espanha com sua trupe teatral itinerante, denominada La Barraca, levando arte aos mais distantes rincões da Peninsula Ibérica.



Neste sexto disco, Kátya Teixeira não se repete, a exemplo dos discos anteriores, por mais importância e significado que possa ter tido a temática escolhida. É a constatação viva de que a arte popular é tão variada, o manancial é tão rico que não é possivel repetir-se, se assim o quiser! Para se ter uma idéia, vale a pena ouvir em sequencia os discos e formalizar, cada um, uma ideia de seu jeito inquieto de ser e de estar no mundo. Oiçam, pela ordem:

- Katcherê; - Lira do Povo; - Feito Corda e Cantiga; - Dois Mares; - Cantariar; - As Flores do Meu Terreiro.  (Além, é claro, de ouvir a Coletânea do Dandô, o ponto de intersecção entre povos, artistas e culturas do Brasil).

Se cada um dos trabalhos anteriores era o coroamento de uma idéia (por exemplo, Katcherê, o disco de estréia, é um convite a percorrer um caminho; Lira do Povo, dá voz ao próprio povo esquecido; Feito Corda e Cantiga, uma celebração às parcerias; Dois Mares, em parceria com Luiz Salgado, uma viagem simbólica pelos portos e mares português e brasileiro; Cantariar, uma longa história de parceiros, parcerias e influências mútuas, um resumo biográfico de sua trajetória), este As Flores do Meu Terreiro pode ser chamado o “disco dos afetos”, um retrato multifacetado de seu universo e do que a motiva. Disco dos afetos, pois as relações afetivas estão presente o tempo todo; não os temas amorosos tradicionais, mas o amor das amizades e parcerias sinceras, amor pela Arte e sobretudo, amor pelo povo que inspira a cantora, compositora e pesquisadora.



POESIA QUE LIBERTA

As Flores do Meu Terreiro foi lançado oficialmente no Sesc Belenzinho num significativo 13 de Maio e esse acaso  acabou por ter um significado mui especial. Este dia, 13 de maio, também pode ser, simbolicamente, chamado o Dia da Libertação do povo como um todo. Ou o dia da superação, pois no fundo é uma conquista de todos nós e assim deve ser sempre lembrado, refletido.
E no dia da libertação, foi lançado o Disco da Libertação, embora esteja longe de mim a ideia de dar ao evento qualquer dimensão politica; qualquer tentativa desse genero  o transformaria em simples panfleto; por isso, tal leitura é por conta e risco de cada um.

É um trabalho essencialmente poético e os poetas não necessitam da razão para expor suas verdades, ainda bem. A dimensão politica fica ao rés-do-chão e o artista move-se noutras dimensões, quiça espirituais e por isso sua visão aguçada e sensível pode aos nossos olhos parecer distorcida.
Walter Benjamin, no livro Um Lirico no Auge do Capitalismo, identifica o mal estar presente na poesia de Poe e Baudelaire como a revolta latente pressentida num sistema que então auferia riquezas à custa de terríveis sofrimentos, sujeira, exploração. Esse mundo brutal que o poeta impotente percebia, não conseguia traduzir em palavras racionais  pois tudo era horror (o capitalismo em seus primórdios pareceria aos nossos olhos acostumados a globalização do século XXI como um portal do inferno, com jornadas diárias de 20 horas sob o jugo de chicotes. Algo que o trabalho escravo que por vezes se descobre nos nossos dias é uma comparação bastante sutil), como é horror a exploração do homem pelo homem em qualquer aspectos que possamos imaginar - cultural, politico, econômico.
Que poderiam fazer pessoas como Poe ou Baudelaire ou outros como eles perante o horror, além de expressar-se do único modo que sabiam?

O poeta é um ser em carne viva. Para o bem ou para o mal. Existe muita verdade nas palavras do mexicano Octavio Paz quando este diz referindo-se à poesia: “...pão dos escolhidos, alimento maldito; isola, une.”
A voz do poeta é a voz do inconsciente. A outra Voz.

As Flores do Meu Terreiro pode, sim, ser o disco dos afetos e da libertação. Todo ele
é uma prece, ora solene, ora pungente, mas especialmente de uma alegria contagiante, descontraída, sincera, pois se sente que cada um dos que contribuíram para a feitura do trabalho o fizeram de coração: Paulo Nunes,  Consuelo de Paula, Paulo Matricó, Erick Castanho, dentre outros, passando pelo belíssimo trabalho gráfico produzido pelo Projeto Tear, de Guarulhos, feito com papel reciclável acompanhado de sementes flores da singela onze horas, perolado pelos desenhos de Naila Pommé.
A liturgia desse trabalho marcante, pontuado de oração, folia e dança é, afinal, uma festa, com momentos para reflexão. Talvez por isso seja uma obra feita para nos ajudar nos tempos que vivemos atualmente.



O disco,  como é costumeiros no trabalho de Katya e seus companheiros, é um chamamento para uma tomada de consciência para o valor de nossa gente.

A gente brasileira merece – e terá! – um destino melhor do que nossa política demonstra.
O valor de nossa gente é algo revolucionário e tem um frescor alegre. É muito antigo – se perde no tempo! – e igualmente acaba de nascer – pois a arte popular é isso: se renova constantemente e esse sopro renovador é o ar que nos liberta e afinal, nos salva!

O povo que produz artistas como Kátya Teixeira só pode ser um povo vencedor!



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COM TODAS AS LETRAS: PRESENÇA DOS IRMÃOS RAMIL



O que há de comum entre música e literatura? Ou melhor, o que há de comum entre uma dupla de cantores de MPB e dez escritores, com personalidades e estilos diferentes entre si?

Os irmãos Kleiton & Kledir tem uma trajetória de ciclos amplos e surpreendentes, especialistas que são em versatilidades, sendo uma delas, a capacidade de construir pontes imaginárias entre os diferentes aspectos da cultura gaúcha. (Se considerarmos cultura latino americana, devemos acrescentar o caçula dos Ramil, o Vitor, autor de uma canção definitiva,  daquelas  que capta o imaginário de sofrimento e luta do povo sulamericano: Semeadura é digna dos grandes ícones Mercedes Sosa, Atahualpa Yupanqui, Victor Jara, Violeta Parra, Nicolás Guillén, Geraldo Vandré, Garcia Lorca, Jose Marti, etc.).

 Kleiton & Kledir  teceram a doze mãos um belíssimo tapete cujo resultado final é uma amostragem simbólica da literatura e música daquelas paragens. Por lá campeiam vanguardas que ombreiam aos grandes  centros, e não só do Brasil, mas do mundo: o irrepreensível e colorido mosaico criado e tecido pelos dez escritores e os dois músicos/compositores são dez pequenas aulas das interações possíveis entre duas formas de arte.

O álbum “Com Todas As Letras” – Biscoito Fino -, dos irmãos Kleiton & Kledir chama atenção por dois motivospouco comuns: primeiro, um disco com 10 faixas composto em parceria com 10 escritores gaúchos contemporâneos; segundo, as parcerias são inéditas. O fato de serem inéditas torna o resultado imprevisível, conquanto interessante o diálogo entre esses dois universos que lidam com a sensibilidade humana: encontros, conversas, experiências, fatos banais (ou não) que compõem a memória dos lugares e dos homens: por exemplo, uma das faixas, Mistérios do Bule Monstro (letra de Lourenço Cazarré), trata da existência de um enorme bule preso na fachada de uma loja em Pelotas. O porquê de aquele estranho objeto, tão dissonante quanto fosse um disco voador, sempre intrigou os transeuntes; era daquelas coisas inexplicáveis que ninguém nunca se ocupou em saber o porquê. Naturalmente na canção que evoca o Mistério, o mesmo não é decifrado – ainda bem, pois assim continuará desafiando a imaginação seja dos pelotenses  ou mesmo de quem não é de lá! Eu já criei minha teoria: o Bule Mostro deve acompanhar uma gigantesca cuia de chimarrão. A cuia? Onde estaria a Cuia e seu usuário? Talvez seja o lendários gaúchos  ancestral. Cito essa faixa porque especialmente chamou-me atenção o fato que deve persistir na memória de muita gente.



As demais faixas do disco tratam, cada qual uma experiência, com base nas vivências de cada um: homenagens, amores, visões de mundo, padrões estéticos, etc. brotadas dos encontros com Caio Fernando de Abreu, Cláudia Tajes , Luiz Fernando Veríssimo, Leticia Weirzchowski, Daniel Galera, Martha Medeiros, Alcy Cheuiche, Fabricio Carpinejar, Lourenço Cazarré, Paulo Scott. A cantora Adriana Calcanhoto tem participação especial na canção que abre o disco, “Lixo e Purpurina”. Acompanha o Cd um Dvd que conta os bastidores da produção, material essencial para se compreender a natureza do projeto como um todo. Ouvindo-se apenas o CD nas vozes dos cantores  e instrumentos não se dá conta dos pormenores e não apreende toda a riqueza gerada nos encontros. O projeto ganha aqui um aspecto didático ao lançar certa luz nos misteriosos processos de criação, que  o público em geral desconhece.



Letra & música é um casamento nem sempre perfeito; se não encaixados devidamente os pontos de intersecção que fazem surgir a “terceira coisa”, corre-se o risco de ver nascer uma cria, digamos,  destoante; tudo na escritura e na voz tem ritmo; mas ritmos de um e de outra nem sempre vão convergir  com a eficiência desejada. Letra & musica às vezes se encaixam maravilhosamente, tal como mostra lendárias parcerias mundo afora, outras vezes nem tanto. Esse trabalho especifico reflete a personalidade dos irmãos, aparentemente  opostos que se completam artisticamente: o instintivo Kledir e o contido Kleiton – ao menos é o que se deduz  assistindo o DVD com os extras. A longa e profícua carreira musical, sempre buscando incessantemente inovar mostra que eles se entendem e se fazem entender. Nos encontros com cada um dos escritores/poetas  são como  múltiplas personalidades que se refletem nos aparentemente  improváveis parceiros.

Seria apenas mais um disco não fosse o deliberado abandono da zona de conforto; seria mais fácil e seguro seguirem a receita óbvia de musicar poemas já compostos e conhecidos, pois de antemão já se teria um público para os re-conhecer. Mas isso de modo algum satisfaria os inquietos irmãos – característica que distingue os Ramil desde os primeiros tempos de sua trajetória, desde o inicio dos anos 1970, quando fizeram parte do grupo O Almôndegas.
Embora sejam escritores, o que deve ter facilitado a aproximação, não deve ter sido o elemento decisivo durante a feitura do trabalho cujo mote era produzir uma arte nascida do encontro direto entre músicos e escritores; interessava a eles trazer à luz os secretos caminhos percorridos pelos artistas, e de como aspectos comuns os conduzem através de trilhas aparentemente díspares. São um rol de sentimentos,  expectativas, dúvidas comuns e inerentes, grande parte indistinguíveis ao olhar desatento: mas são esses os percalços comuns a cantores/compositores e escritores/poetas. Essas dificuldades são conditio sine qua non dos respectivos ofícios, mas basta “provocar” um e outro para que uma ponte seja construída entre os universos e uma imediata comunicação é então res-estabelecida e trazida à luz do entendimento. O estilo narrativo em prosa é algo recente na história da humanidade. As narrativas antigas eram em formas de versos, desaparecendo apenas quando a ‘razão’ prevaleceu a partir do chamado Século das Luzes’, fazendo submergir a espontaneidade poética: letra & música, portanto, tem uma história antiga comum, onde talvez o cantochão ou o canto gregoriano, além das epopéias em verso, venham a ser elos perdidos de um tempo em que todos os seres humanos – ou mesmo todos os seres – se manifestavam musicalmente!
Tendo essa teoria alguma plausibilidade (com a palavra os especialistas em lingüista e musica), na verdade, o que fizeram foi o restabelecimento de uma ponte que no passado os uniu muito mais do que nos dias que correm.
O encontro de cada um dos 10 escritores com a dupla de irmãos fluiu com uma facilidade surpreendente, muito mais que a amizade e/ou admiração mútua possam fazer crer. Quero dizer que não foi a amizade ou admiração mútua a razão do sucesso do empreendimento: foi como se todos sempre estivessem, desde sempre, prontos, à espera do contato.  A compreensão da natureza da proposta foi imediata e nela mergulharam de cabeça, não apenas escrevendo versos inéditos, mas alguns deles participando mais diretamente, emprestando a voz em declamações ou tocando instrumentos que até então o faziam por mero hobby, como o violão de Daniel Galera e o sax de Luiz Fernando Veríssimo. O passeio litero-musical foi percorrido ora com avanços vertiginosos, ora curvas surpreendentes, ora sutilezas, ora o cuidadoso abordamento: só assim para captar na íntegra o criador em pleno refulgir!

Fosse  basear-se no trabalho de um único escritor  - por sinal, existem trabalhos desse gênero, é mais comum do que imaginamos. Um exemplo conhecido é Euclides da Cunha, cujo Os Sertões já inspiraram pelo menos três obras de vulto: Os Sertões (Fabio Paes), Canudos (Gereba) e Bahia Lavada Em Sangue (Roberto Bach), esse ultimo tema de pelo menos dois posts neste Ser-tão paulistano. Sabemos também de trabalhos baseados em cenas do próprio Érico Veríssimo, de Jorge Amado e Guimarães Rosa. A linha condutora num trabalho conhecido seria mais segura, conquanto previsível. Mas “Com Todas as Letras” foi tudo novo. Calcule-se o desafio de penetrar no universo particular de cada escritor e dali colher a experiência: só mesmo a visão múltipla e a experiência cosmopolita dos Ramil, alicerçados por seus longos anos de estrada, que os tornaram imunes ao risco do erro, tornando assim plausível e agradável a experiência; experiência que somada e aguçada pela juvenil curiosidade que os move – quem os vê trabalhando pensa que estão fazendo pela primeira vez, sem mostrar nenhum traço de arrogância - é que seria capaz de os impulsionar e por cima convencerem outros a embarcar numa canoa a remo e se deixar conduzir rio abaixo ao sabor tremulante de correntezas e remansos, sujeitos a todos os perigos do incerto percurso.

Riscos no caminho não devem ter faltado. Todos são escritores dos dias de hoje, o único escritor do passado é justamente o autor que décadas atrás havia inspirado a dupla a comporem juntos musica: Caio Fernando Abreu, falecido precocemente em 1996, a quem o disco é dedicado; também ele, Caio, representante da nova, urbana e cosmopolita literatura gaúcha, praticamente da mesma geração que eles. Não estaria longe da verdade se dissesse que os irmãos Ramil podem ser considerados os correspondentes musicais do escritor Caio. A idéia ganhou força em 2015 e decidiram levar a cabo a idéia, sob a coordenação do escritor e professor Luiz Augusto Fischer.
Parecem ter adivinhado o sonho secreto de todo escritor que gosta de música: ver e ouvir suas palavras vestidas de som e musica! O resultado surpreende positivamente, seja aos amantes da literatura ou da música: e uma nova forma de ampliar olhares, horizontes. Juntos compartilham, e para o publico em geral, altamente gratificante.
A  receita está dada e fica a ideia que poderia ser seguida por outros músicos/escritores/poetas Brasil afora.


MUSICA GAÚCHA: UMA PASSADA D’OLHOS PELA HISTÓRIA

Vale umas poucas palavras que seja sobre a história da região e seu povo, simples tentativa evitar as escorregadelas nos estereótipos e/ou lugares comuns ao vir à mente a ideia do ser gaúcho, especialmente visto pelos olhos de um não gaúcho.
Embora possa vir a ser parte da própria identidade, presumir o “gaúcho típico” é mergulhar na lenda, do mesmo modo que se pensa no “sertanejo nordestino”, no “caipira paulista” ou o “caiçara do litoral”. Certa vez assistindo a uma apresentação de um jovem cantor gaúcho, um militante das causas populares e que faz uso orgulhosamente da indumentária típica, ao ser questionado por um espectador se se considerava um “gaúcho típico”, ele respondeu: “Sou gaúcho, mas dizer ‘gaucho tipico’, teria de ser xucro e homofóbico.” Um produtor musical, gaúcho de Pelotas, costuma extravasar em tom de descontraído desabafo: “Mira lá, tchê! Sou de Pelotas e sou vejetariano! Como tu achas que me chamam?

Enfim, os gaúchos, tão orgulhosos de sua história e tradição, possuem no imaginário, especialmente dos não gaúchos, a figura do ser talhado a formão, submetido às agruras do minuano nas solidões pampeanas: qualquer representação artística referente ao “gaúcho” ha de fazer vir à mente o solitário destemido, com solidez de rocha.
Como comumente acontece nos grupos sociais estigmatizados, acabam por aceitar com orgulho a imagem que lhes foi impingida, pouco importa o tenha sido em tom pejorativo: basta ver os cartazes nas churrascarias metropolitanas ou nos populares CTGs espalhados pelo Brasil para disso se perceber. Dessa imagem jamais se livrarão, para o bem ou nem tanto, por mais que camadas de modernidades se acumulem ao longo da história. Por mais que transformações se sucedam, a figura gravada no imaginário prevalece, ao menos num primeiro momento.

Quando surgiu lá pelos anos 1970, O Almôndegas, a primeira e imperbe presença dos irmãos Ramil no cenário da MPB, causaram um primeiro impacto: mostrava ao resto do país a vida urbana do pampa, que por sua vez contrastava a idéia tradicional que se fazia não apenas do gaúcho em si, mas da musica gaúcha além dos ritmos tradicionais conhecidos – a musica lacrimejante de Teixeirinha, as marchinhas de quadrilha, chotes, vanera, vanerão, por mais que na maior parte das vezes fosse apenas um arremedo da verdadeira tradição, que por sua vez travava infindáveis batalhas para não desaparecer e virar definitivamente lenda. O trabalho de resgate começou com Os Gaudérios, nos anos 1950 e se cristalizou com os chamados Troncos Missioneiros, sendo os mais conhecidos representantes Noel Guarani, Jayme Caetano Braun e Cenair Maicá, entre outros.
O Almôndegas – e mais tarde Kleiton & Kledir estavam para os tradicionais gaúchos mais ou menos o mesmo que a jovem guarda ou iê-iê-iê para a musica caipira/sertaneja no eixo Rio-São Paulo. O Almôndegas duraram alguns discos e os irmãos seguiram carreira, como Kleiton & Kledir. O caçula dos irmãos, Vitor, segue carreira paralela.  Os três também se notabilizam também por exercerem uma profícua carreira literária.



Quem, fora do Rio Grande do Sul, tem entre 40 e 50 anos há de lembrar da dupla de cabeludos com sotaque estranho, tratando as pessoas por “ti” ou “tu”. Assim ficaram gravados no imaginário da MPB: musica popular urbana com sotaque gaúcho. Até então quando se falava “musica gaúcha” se pensava, quando muito o folclore pasteurizado, com a mesma autenticidade de uma fantasia carnavalhesca: a verdadeira tradição, como citado acima, resistia bravamente nos nichos.
Com os Ramil,  a musica gaúcha popular urbana deixou de ser para consumo local para ganhar palcos no eixo Rio-São Paulo. Kleiton & Kledir  - pode-se com justiça dizer - romperam paradigmas ao levar o sotaque sulista para apreciação das grandes massas fora de Porto Alegre e adjacências. Fizeram emergir por entre a dura couraça do “gaúcho típico”, de bombachas e chimarrão, outro gaúcho, urbano e cosmopolita – seria o cumprimento da profecia  de Barbosa Lessa na “Milonga do Moço Novo”, tornada clássica na voz de Noel Guarani, cantando as venturas do moço que sonha usufruir as modernidades dos novos e grandiosos centros urbanos que deixam para trás as velhas estâncias, “...pra deixar de ser bagual.” ?



Os Ramil nunca foram baguais – “eu tinha orgulho em ser grosso debochava da finura/ não dava bola pra gente de educação e cultura”(Milonga do Moço Novo, Barbosa Lessa) - , sempre foram filhos da cidade, mas são herdeiros diretos da cultura, essa mesma cultura que os fizeram sentir-se exilados em terras cariocas quando para lá se dirigiram para se firmarem como artistas de massa – afinal, o Rio era então, ainda, a capital, a Meca, para onde os artistas deveriam se voltar.
A cultura gaúcha está neles impregnada a partir dos costumes cotidianos, e não exatamente como expressão artística – no caso deles, sua música, em si, era universal: falavam da paixão, das dúvidas e ansiedades do ser resultante da Modernidade, que muitos equivocadamente denominam pós-modernidade, na falta de outra denominação (só haverá uma pós modernidade quando esta for inteiramente superada, deixada para trás. Por ora o que temos são camadas pós, pós, de variações do mesmo ad infinitum, à que damos tal denominação na falta de outra, pois nos tempos 'modernos', qualquer coisa há de ter rótulo). O que a Modernidade ou Pós Modernidade faz  é aproximar mundos e no pior dos casos, destruir. A pedra de toque é o universalismo, colocar-se no mundo, absorver o que pode e dar o seu recado, mostrar o que se passa em sua aldeia. O caçula da família,  Vitor, é um exemplo candente dessa universalidade: como um visionário, antes dos 20 anos, criou um universo imaginário, a Terra de Satolep, nada mais nem menos que a cidade natal, Pelotas, escrita ao contrário. Cumprindo um ritual daqueles tempos recém saídos da ditadura, Satolep era a pátria de Joquim (...nau da loucura no mar das idéias...), revolucionário cuja história brotou de uma versão de Joey, de Bob Dylan (mas Joquim não é Joey, transplantado, acreditem). Faço essa breve citação do trabalho de Vitor apenas para ilustrar a vocação cosmopolita e universalista que caracterizam os Ramil.
Pois bem: disse atrás que a cultura gaúcha, os valores, etc., neles habita de tal modo que em plenas praias cariocas os devem ter feito sentir saudades do chimarrão... O gauchismo não é somente um território físico e político, mas  sentimental.
Duas canções brotadas desse conjunto de valores -Pátria Gaúcha ou Missioneira- fincados profundamente naquelas terras ermas, tratam desse universo: ambas canções explicitam esse sentimento gauchesco: “Milonga das 3 Nações” , autoria Fernanda Rosa, presente no CD Yrupa Punherei – Canções das Margens do Rio, do grupo Purahéi Trio e “Milonga das Três Bandeiras, de Jayme Braun, no LP “Pampa y Guitarra”, disco de estréia de Noel Guarani, lançado originalmente na Argentina. Dois temas, compostos em momentos distintos por compositores distintos, distantes gerações e curiosamente constroem uma ponte entre o ontem e o hoje.  O Gaúcho ignora fronteiras políticas: naquele vasto território o idioma “oficial” é três: guarani, português, castelhano...

(O programa O Sul Em Cima, acessível através da Internet, a respeito do qual já escrevemos neste blog, produzido por Mariusa Kineuchi e apresentado por Kleiton, tem mais a dizer sobre a atuação deles, da ponte que constroem entre os diferentes ritmos que, ao contrário de “invadir” e tomar posse do território, o tornam maior e mais rico: Brasil, Uruguai, Argentina e Paraguai se amalgamam).

Ressalte-se, assim, que a presença dos Ramil na vida e cultura riograndense vai além da musica, ou melhor, de estilos musicais: inquietos, inconformados, eles buscam diferentes formas de expressão, sem deixarem de ser quem são. E, parodiando Ferreira Gullar, fazem arte “porque a vida não basta”. Ou melhor, uma arte só não basta, as linguagens, especialmente musicais, dotadas de símbolos mutantes, necessitam dialogar entre si para continuar vivas; não basta louvar-se a si mesma ou ser “fiel” a si mesma; é preciso ampliar horizontes.
E que do mesmo modo que o sangue percorre as diferentes partes do corpo, que a arte – a substancia vital da Grande Nação Sulamérica – verdadeira, autentica e multifacetada percorra caudalosamente os canais rios correntes por onde navegam índios, gringos e mestiços. E que venha a Arte aquecer “A Fria Luz do Horizonte”, interessante filme que muito aborda esse sentimento gaúcho, seu jeito de ser mundo e do modo como se sentem exilados em própria terra: a Arte aproxima e faz ver o outro em nós. Temos a possibilidade de sermos únicos num mundo cada vez mais próximo do esfacelamento, a prevalecer interesses nacionalistas.

O Cd/Dvd “Com Todas as Letras” mais uma vez lançam os Ramil no mundo, orgulhosamente mostrando sua aldeia e seus companheiros. Não apenas através da musica, mas de muitas outras atividades: são testemunho que a arte não é coisa distante e apartada da vida: arte e artistas e público, não devem ser distantes entre si; não devem ser a fria e distante luz num horizonte inalcançável.
Com Todas as Letras deve ser ouvido, visto, lido especialmente nas entrelinhas; pessoas e arte são elos, interligados: são vida!



 Caio Fernando de Abreu: Lixo e Purpurina
 Participação de Adriana Calcanhoto
 Kleiton, Kledir  e Claudia Tajes_ Felizes Para Sempre
 Luiz Fernando Veríssimo: Olho Mágico
Leticia Weirzchowski: Piscina 
 Daniel Galera: Vinte e Oito Escovas de Dentes
 Martha Medeiros: Pingo nos Is
 Alcy Cheuiche: Lado a Lado
 Fabricio Carpinejar: Cansado de Ser Feliz
 Lourenço Cazarré: Mistérios do Bule Monstro
Brincando na Praça dos Enforcados

 Paulo Scott: Rochas




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