"TERRA", O NOVO DISCO DE ROBERTO BACH



O trovador Roberto Bach está mais do que nunca decidido a desvendar histórias e mistérios da Bahia. Mas não da Bahia comum.  A que falamos aqui vai além do que nos conta os livros de história e os estereótipos que cercam batucares de tambor num mundo mítico onde reina o eterno carnaval, fantasia que ainda norteia turista menos avisado.

Fora as fantasias grotescamente comerciais, a ditas “pra inglês ver”, a Bahia é um manancial invejável de cultura e história que vai do conhecido mundialmente Jorge Amado ao quase desconhecido e também escritor Jorge Medauar, tão bom e tão importante para a compreensão da cultura baiana quanto o xará mil vezes mais famoso. E o mais espantoso é que há muita coisa ainda por descobrir em relação à Bahia; há uma aura mística que envolve praticamente todos os aspectos da vida de quaisquer das regiões do Estado, do rural ao urbano, do litoral ao interior profundo; são tantos e tão diversificados os aspectos da vida baiana que grande parte deles passam despercebidos aos olhos de todos: misticismo, magia e realidade se imbricam, aguçando a imaginação artística, porém, são poucos que logram tocar-lhe verdadeiramente o cerne.

Roberto Bach decidiu-se por dar atenção ao interior/sertão baiano, que, apesar de razoavelmente conhecido, é pouco explorado – ou pelo menos, não tanto quanto deveria. Seu olhar atento, curioso e de certo modo sentimental, rendeu por ora seus dois últimos CDs:  “Os Sertões”, baseado na obra de Euclides da Cunha, onde conta e canta através de 13 canções, que fazem as vezes de “capítulos”,  o pior massacre de nossa história e agora prepara  “Terra”, com forte referência à obra do cineasta Glauber Rocha, natural de Vitória da Conquista.


Antonio Roberto de Oliveira Bach vive há mais de 30 anos em Vitória da Conquista, fez daquela cidade do sertão baiano seu porto seguro. Isso certamente não foi acaso, pois aquele é um lugar que parece dotado pela Providência de dons poéticos, como se uma substancia desconhecida existente em suas águas ou no próprio ar tornasse a produção artística algo corriqueiro. Se não, vejamos: é por aquelas paragens que nasceu e vive o bardo Elomar Figueira de Melo, um dos “troncos” ou esteios fundamentais da música brasileira, a ponto de ombrear com Vila-Lobos, Noel Rosa, Gonzagão,  Noel Guarani, Chiquinha Gonzaga, Caymmi. Elomar imortalizou a geografia rústica da região ao torná-la cenário de suas peças que evocam a cultura ibérica antiga até o Oriente Médio.

Vitória da Conquista, lugar de beleza áspera e forte, é terra de poetas, cantadores, artistas plásticos. E não deve ser por acaso ser a terra natal do cineasta Glauber, o mais importante do cinema brasileiro, a despeito de gostar ou não de seus filmes. Independente de sua estética cinematográfica ou de sua proposta ideológica, Glauber foi antes de tudo, um  pensador da cultura brasileira: com ele o Brasil se descobriu capaz de produzir seu próprio cinema, sem se submeter aos modelos dos grandes centros, Europa e EUA. Glauber merecia ser melhor conhecido, deveria servir mais de inspiração para todos nós. Um CD com musicas inspiradas em sua figura e em sua atuação é um alento num país que não dá muito valor à sua história; a falta de cuidado para com os patrimônios nacionais é o puro reflexo disso, mas tenho forte esperança de que um dia isso mudará.



UMA PONTE ENTRE CANUDOS E VITÓRIA DA CONQUISTA

A Bahia retratada por Roberto Bach são dois recortes precisos e representativos, Canudos e Vitória da Conquista. A distancia  temporal e espacial entre as duas é facilmente ligada por uma ponte: são duas presenças fortes no imaginário nacional: a tragédia dos sertanejos seguidores de Antonio Mendes Maciel, o “Conselheiro” e o universo Glauberiano.
A construção dessa ponte imaginária de Canudos a Vitória da Conquista desenha um novo ciclo da carreira de Roberto Bach: os dois trabalhos surgem a seguir à sua fase medievalesca. A alcunha “menestrel” lhe cai adequadamente, pois provavelmente seja o nosso mais autentico trovador do Brasil, conhecedor profundo da música e da cultura medieval, de caráter europeu, mas que encontrou no interior do nordeste brasileiro ecos cujas ressonâncias persistem até os dias de hoje, graças ao isolamento (ou abandono) a que a região foi submetida. A musica do Quinteto e da Orquestra Armorial, o próprio Elomar citado aqui, em todos eles a influência medieval se destaca. Roberto  Bach muito pesquisou compositores e escritores dessa época fascinante e pouco conhecida do mundo: a atmosfera mítica e mágica do período pode ser pressentida em sua trilogia Oliveira, Pequeno Concerto Campestre e A Colina dos Cavalos Fortes, que alguns chamam não sem razão de Renascentista – eu prefiro  medieval.
(Por ocasião do lançamento d’A Colina dos Cavalos Fortes declarou que sua obra do período estava esgotada, sob o risco de repetir-se a si mesmo).

O disco Os Sertões, trabalho baseado em Euclides da Cunha, é uma espécie de repetição do mundo medieval, mas nele não está mais a dolência das cantigas de amor ou de amigo, nem a ironia das cantigas de escárnio; n’Os Sertões o mundo “medieval” é pressentido sob seu ponto de vista mais cruel, ao retratar a tragédia sertaneja ocorrida no final do século XIX na cidadela de Canudos. O título desse disco foi posteriormente mudado para “Bahia Banhada em Sangue” e novos arranjos acrescentados, com a introdução de guitarras elétricas a la Pink Floyd – que  valeram o subtítulo de “Musica Progressiva Brasileira”. Essas variantes e acréscimos apenas dão conta da mente febril e quase delirante desse Goliardo em época errada, nascido por acaso no século XX.
(Os Goliardos – numa definição superficialíssima - eram monges/clérigos pobres  expulsos dos mosteiros e para sobreviver tocavam e cantavam nas festas profanas. Escreviam poemas satíricos, cínicos, anticlericais, eivados de desprezo e rancor. Atacavam diretamente a Igreja, a quem acusavam de hipocrisia moral, mas atacavam diretamente qualquer forma de hierarquia organizada e por isso foram duramente perseguidos. Músicos talentosos e malditos, são hoje chamados os hippies da Idade Média. Uma de suas peças que sobreviveu ao tempo é a Ópera Carmina Burana, versos Goliardos musicados por Carl Orff).

E  depois d’Os Sertões ou Bahia Banhada em Sangue, ele acaba por estabelecer (ou restabelecer) a ponte, pois muitos dos personagens reais da tragédia canudense poderiam ser personagens de quaisquer dos filmes de Glauber: os retoques finais dessa ponte estão sendo finalizados e o CD “Terra” deve estar pronto em  meados de novembro.

Quem conhece os filmes de Glauber vai entender: a referência a “Terra” remete diretamente ao cineasta e é um convite a realizar uma viagem sonora  e sentimental pelas terras que povoaram e inspiraram a mente inquieta  do criador revolucionário de  “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, “Terra em Transe” e “A Idade da Terra”.




Ouvindo suas 10 faixas, mais um bônus, as canções são andanças pelo universo glauberiano: ora são referências sentimentais da infância, ora se referem à atuação do artista que via na arte um instrumento de transformação sócio-cultural, ora o poeta louco, delirante, que misturava neorealismo com nouvelle vague, numa estética hiperrealista. Seus personagens vagueiam por um sertão atemporal, sem rumo, como sobreviventes de um cataclisma apocalíptico: seres renegados, sem terra, sem educação, verdadeiros parias em sua própria pátria.
Existe, assim, uma ponte nem tão imaginária entre massacre de Canudos e o universo glauberiano, como se esse último fosse o limbo onde as sofridas almas dos protegidos do Conselheiros que vagueavam dispersas pelos muitos sertões, finalmente encontrassem incerto e precário pouso.
Roberto Bach ouviu suas vozes e traduziu seus dramas, transformando em música que ora nos encanta com uma dolência quase inocente ora nos fere com a aspereza de estocadas impiedosas de punhais, violentas explosões onde se sente o cheiro de pólvora e pela Terra respinga sangue. Uma característica dessa nova fase do compositor é a incursão por novos estilos, como “cirandas” e “reisados”, elementos fundamentais do universo sertanejo.

Como num exercício de prestidigitação, somos transportados no tempo: os cinco séculos, desde o Descobrimento (que o paraguaio Roa Bastos chama de “Encobrimento”, em seu livro A Vigilia do Almirante), que contemplam o interminável drama sertanejo. Entra governo sai governo muda regime político e o sertão ainda é o mesmo.

As musicas do “Terra”:

1 – Terra
2 – Casa de farinha
3 – Ciranda de praia
4 – Dentro de mim
5 – Lembranças apenas
6 – As folhas e a vida
7 – Os três segredos da vida
8 – Reisado
9 – Roupa de feira
10 – O poeta louco

Faixa bônus: Chuva em açoite


 CONCLUSÃO?

Nalgum ponto acima eu disse que Roberto Bach é um goliardo nascido na época errada. Ou talvez não.Talvez tenha nascido exatamente na época em que seu espírito rebelde e provocador, que nega veementemente fazer média com as hipocrisias reinantes nessa época confusa, e que –exatamente em tempos como esses, seja o profeta a brandir versos e acordes denunciadoras. E por isso é amaldiçoado.
Seu disco está pronto, é uma obra prima, assim como seus trabalhos anteriores, porém é escandalosamente ignorado por todas as mídias. Obras clássicas que são, de inegável valor artístico e cultural, um dia será reconhecida, aplaudida, quiçá estudada, esmiuçada. Por ora Roberto Bach procura parcerias para lançar seu trabalho.



SERVIÇO: em São Paulo, o CD estará à venda na loja BARATOS AFINS, uma referência há décadas da produção independente da Musica Popular Brasileira.Atualmente lá pode ser encontrado "A Colina dos Cavalos Fortes", obra que encerra a trilogia medieval (ou renascentista).




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AMAURI FALABELLA: A VIOLA INVADE A CIDADE


O jeito de tocar e cantar, tão familiar e tão autêntico, coloca quem ouve Amauri Falabella frente a um enigma: simplesmente não é possível acreditar que ele não tenha nascido e vivido no interior mais profundo do país.

No entanto, conforme sugere o titulo de seu segundo CD,  “Violeiro Urbano”, Amauri é inteiramente urbano. Nasceu e vive em Guarulhos, onde trabalha e exerce intensa atividade educacional e cultural. Cantor, compositor, trovador, violeiro, ele tem dentro de si uma verdadeira Legião, onde se misturam, condensam, amalgamam, os inúmeros estilos que o influenciaram desde sempre: de Vital Farias à Elomar; de Vidal França à Dércio Marques, passando pelos mestres da arte popular e o requinte de letras e arranjos sofisticados. Amauri é um servo fiel da arte musical.


Sua especial ligação com a viola caipira, um instrumento de origem européia, mas que encontrou no Brasil o seu jeito definitivo de ser, é dessas coisas misteriosas, inexplicáveis,

“Sou um violeiro diferente
Não nasci no interior
Eu jamais toquei boiada
Não conheço quase  nada
Das coisas do sertão
Mas quando pego a viola
Sinto uma coisa esquisita
Minha alma se agita ai ai ai
Não consigo largar dela ai ai ai”
(...)

Os versos acima abrem a musica título de “Violeiro Urbano” e são nítida, reconhecidamente autobiográficos. O que seria isso, se não a memória ancestral, viajante dos tempos que ao encontrar guarida, ali se instala? E que instrumento mais adequado e receptivo poderia encontrar a Musa Música que o coração, os dedos e a mente prodigiosa do criador de “Ciranda Lunar”, um viajante das estrelas? (Ele não é apenas violeiro, é músico completo, compõe versos e arranjos, e sobre qualquer um desses aspectos de sua arte, poderíamos aqui discorrer. Fiquemos, por ora, com o violeiro, dado o espaço reduzido do blogue).

Amauri Falabella dedilha a viola com técnica e sentimento, autenticidade, pois para ele, é meio de expressão. Um intérprete do sentimento da condição do homem moderno que vive o drama da separação da natureza. Quando empunha a viola ou o violão, o faz como o escritor empunha a caneta, o lavrador empunha a enxada ou o motorista profissional que segura o volante do carro ou caminhão. Um menos avisado poderia alegar tratar-se de técnica apurada, tal como se dá em muitos casos de  músicos brilhantes, virtuoses. Mas com ele, é algo além da técnica.Amauri é Alma: alma sertaneja e alma caipira.


CAIPIRA E SERTANEJO

Alma sertaneja e alma caipira. Existem sutis diferenças, sendo a mais evidente e mais importante a referência imaginária de lugar. O caipira comum característico é do interior paulista, e no seu toque facilmente reconhecemos a melancolia fruto de sua vida dura e da labuta na roça, ao contrário, por exemplo, do violeiro do litoral, mais gregário e festeiro. Variantes caipira se estendem entre São Paulo, Minas, partes de Goiás, o território aqui considerado não coincide com o mapa geográfico.
Já de Minas pra riba vamos encontrar a viola sertaneja, e seu timbre característico nos lembra as sagas medievalescas, os romances – talvez o termo mais adequado, nesse caso, seja rimance, do português arcáico. Para a execução dessas peças, a viola sertaneja de Adelmo Arcoverde é o exemplo mais evidente (naturalmente que quando falo da alma sertaneja de Amauri Falabella, não me refiro ao estilo de tocar, mas sim a evocação nostálgica imagética a que sua arte nos induz).
Caipira, Sertanejo: as figuras simbólicas mais conhecidas no imaginário são o Jeca Tatu e o Vaqueiro Encourado, mesmo com todos os riscos que traz ao entendimento a recorrência a tais estereótipos.
Praticamente todas as regiões rurais do país tem o jeito peculiar de tocar viola, seu timbre peculiar: ao se ouvir o violeiro, pode-se com relativa facilidade reconhecer  o estado ou região de origem de acordo com o estilo. Isso não se dá com Amauri, é ponto fora da curva,  pois, como sugere o título de seu segundo CD, é um Violeiro Urbano: não se lhe reconhece a origem: é Todos e Um, é coisa de alma, e as duas –  caipira e a sertaneja -, convivem harmoniosamente no mesmo ser.

Ao dedilhar e trinar sua viola, Amauri se transmuda e se alterna, é caipira, é sertanejo, sem deixar de ser o poeta trovador, sendo igualmente o Aedo: ouvir Amauri é ter a impressão de estar ouvindo um andarilho, desses que andam por toda parte e dotado de invejável memória, nos conta histórias de lugares distantes, figura muito comum na Idade Média quando andavam pelas vilas e burgos literalmente cantando novidades que de outro modo demoravam meses para chegar.Tais personagens eram comuns no Brasil dos séculos XVII e XVIII, causando indignação ao viajante Auguste Saint-Hilaire que num determinado trecho do seu livro “Viagem Às Nascentes do São Francisco”, diz que “...nesta terra basta ter uma viola às costas para divertir às pessoas e assim garantir pouso e comida!” 
Amauri, assim como Dércio, Perequê, Adelmo, Wilson Dias, Levi Ramiro, Paulo Freire, Zé Côco do Riachão, "seu" Manoel de Oliveira e muitos outros são herdeiros diretos dessa estirpe de poetas e músicos solitários que percorriam léguas e léguas a pé, depois em lombo de mula, mais tarde de trem, hoje de jeep, ônibus, carro ou avião. Não importa o meio de transporte, importa a função!


Amauri é poeta do ar - voa com os pássaros;
é poeta das flores – faz de pétalas floridas pouso e morada;
é poeta das águas, é poeta dos amore;
é poeta das amizades.
E assim viaja pelos mundos, reais ou imaginários, como uma ave benfazeja e encantatória:

Vai pela vida,  Poeta,
avoa,  avoa nas varandas
entoando modas e cirandas,
 com tambores, violas, violões.
Enternecendo poentes
bordando versos e canções
herança de um país
convidando à contradança!


Sua música evoca Minas e o interior de São Paulo. É música florida, se ouve junto o marulhar de águas, cantos de pássaros, sente-se no ar um clima de arreuniões festeiras.

DISCOGRAFIA

São quatro discos lançados até agora, além de muitas participações em discos de amigos e parceiros.
Cada um dos discos é uma história distinta, diferente, mas existe unidade entre os trabalhos e por isso poderíamos perguntar se seria cada um dos quatro discos, o desdobrar de uma história única, contínua? Uma sinfonia, é a vida de Amauri?
Todos e Um.

Cada um de seus discos merece ser agraciado como deve ser um dos artistas mais importantes de sua geração. Que se ouça, e que cada um diga por si:

Ciranda Lunar – 2001, trabalho antológico.A canção-título é um clássico

Violeiro Urbano – 2005, verdadeiro manifesto de sua crença artística


Amauri Falabella – 2009, destaque para as parcerias, que continuariam no CD seguinte


Parcerias – 2015, uma verdadeira arreunião de parceiros, de diversas partes do Brasil



UMA DEFINIÇÃO?

É simples e difícil falar e escrever sobre Amauri Falabella. Palavras não bastam, pois são pobres e insuficientes para definir um artista de sua grandeza. Ele tem o Brasil, suas cores, seus ritmos, suas melodias, tem tudo dentro de si. E tudo isso, todo esse gigantismo artístico contrasta com a doçura e humildade de sua pessoa, que dedica a cada verso, a cada estrofe, a cada acorde a dedicação de um ourives.
Sua auto-definição,

“...sou passarinho sonhador,
 fiz meu ninho numa estrela,
levo no bico pra longe toda a dor...”

 é um retrato bastante fiel e também involuntário  de si mesmo. Explica por si a delicadeza e lirismo com que pinta delicadamente cada etapa de sua trajetória,  e então nos damos conta de que Amauri compõe mesmo é uma Sinfonia. Uma Sinfonia que poderia se chamar Brasil. Cada disco lançado, um andamento revelado.

Para explicar um poeta, só mesmo outro poeta – no caso, uma poeta: a melhor definição que encontrei para Amauri Falabella estão gravadas no encarte de seu último (até aqui) trabalho, adequadamente chamado “Parcerias”.
Com a palavra, Consuelo de Paula:

Amauri Falabella caminha sobre as manhãs.
Segue pela outra margem do grande rio.
Ele conhece a alma da viola, seu fado é
inventar canções por ‘veredas que não tem fim’.
Ele canta num vislumbre do tempo com sua energia fluente:
‘o estalar da madeira
tinindo no violão
arrochando o peito da gente
numa forma de oração’.
Arranha as cordas de sua voz e de seus violões, entoando:
‘o sândalo perfuma o machado que o fere’!
E o andarilho continua até que o beijo seja flor,
sem nunca quebrar a corrente d’água,
Deixando a vida correr como um rio,
até que um dia possa cantar a última moda.
Por isso Amauri reúne parceiros,
cantadores, instrumentistas e amigos neste CD
que representa seu clã de rainhas e reis coroados
pelo extremo amor e dedicação à música brasileira.
Nosso violeiro andante conhece bem os vãos
entre as cordas da viola por onde passam encantos
e surpresas, por onde passa a
Arte que habita o profundo e a pele
destas parcerias. Já podemos ouvir
‘no vento uma cantiga nova
Soando na imensidão da pétala da rosa’”

(Consuelo de Paula)



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O SUL EM CIMA



O Cd “O Sul em Cima”, coletânea realizada a partir do programa radiofônico de mesmo nome, produzido por  Kleiton Ramil, chega aos nossos ouvidos como uma agradável provocação.
            A provocação começa pelo programa de rádio, um veiculo que atinge milhões de pessoas e é parcialmente ignorado. O rádio sempre foi a tecnologia de comunicação mais acessível e popular,  desde os primórdios, nas primeiras décadas do século. Para o rádio, não tem tempo ruim: entra década, sai década, tecnologias das mais variadas surgem e desaparecem, e o rádio continua, firme, pois a verdade é que não tem adversários e muito ao contrário: mídias que poderiam ser rivais, terminam por se associar a ele, rádio. É o caso, por exemplo, do telefone celular. 
O rádio teve sua Era de Ouro, quando reinou soberbo e quando se pensou que estaria com seus dias contados com o advento da televisão, eis que o rádio nem dá bola: a TV fica na dela e o rádio e no seu canto,  cumprindo seu papel, inconteste.


            A longevidade desse velho e fiel companheiro deve ser comemorada! Versátil, ágil, adapta-se praticamente em todo apetrecho tecnológico, seja simples e/ou complexo: computadores, celulares, tablets ou minúsculos aparelhos do tamanho de uma caixinha de fósforo que se acopla diretamente ao ouvido, sem falar no tradicional rádio de pilha, de tamanhos variados. (Faz parte de minha memória afetiva um grande Semp, com 4 faixas de onda, de onde, no interior paulista, ouvíamos a antiga Rádio Nacional.) O rádio é como o livro, portátil, simples e denso de conteúdo e que acompanha você por toda a parte.
            Ouvindo o intrigante CD “O Sul Em Cima”, oriundo de um programa de rádio, não posso deixar de tecer essas considerações: duplo motivo pra comemorar, a longevidade do rádio e um programa de uma hora de duração com entrevistas, musica, informação. O Programa é produzido e apresentado por Kleiton Ramil, figura de destaque na moderna cultura riograndense – escritor, compositor, cantor - e se apresenta com a proposta de “...divulgar novos artistas do Sul do Brasil. Entenda-se o Sul como Rio Grande do Sul – Poro Alegre, o epicentro – Paraná, Santa Catarina no Brasil e os vizinhos Uruguai e Argentina.” (informação extraída do encarte do Cd).”


            O CD tem 18 faixas com 16 artistas diferentes, e surpreende. Surpreende a quem porventura tenha idéias pré-concebidas das coisas do Sul –como era o meu caso, por sinal.
            Apesar da rapidez e disponibilidade de informações que temos a disposição por conta da internet, tudo é muito parcial e incompleto: existe uma abundância de informação, milhões delas, mas ninguém é capaz de assegurar que tenhamos à disposição o que realmente interessa, o que é útil de fato. Informações/dados redundantes, repetidos, de pouca importância e eis que descobrimos horrorizados que a previsão do filósofo Edgar Morin no seu livro “Para Sair do Século XX” se cumpre, quando nos diz que “...a superinformação pode acabar por se tornar subinformação.“ 
E assim, descobrimos que nós, aqui do eixo Rio São Paulo, temos uma ideia inteiramente equivocada da verdadeira cultura do chamado Sul do país: para mim, a cultura musical  se dividia entre os ritmos estereotipados ao longo do tempo – xote, vanera, vanerão, etc. – e o tradicional de raiz – milongas, chacareras, cantigas de galpão, etc. Nunca havia pensado na existência de uma cultura musical urbana do Sul. Achei relevante mencionar isso, com ares de despojado meã culpa, porque creio ser esse um pensamento lugar-comum do nosso público consumidor, mesmo entre alguns supostamente mais atentos. E esse desconhecimento resulta numa perda enorme, pois o que se produz por aquelas bandas é extremamente rico e tem muito a nos mostrar/ensinar/trocar. Por incrível que pareça, o Sul, tão mais próximo a nós paulistas e cariocas, é incrivelmente desconhecido entre nós. Explicações para isso é pano pra manga que não cabe discutir aqui por falta de espaço, mas creio que passa por interesses mercadológicos, digamos assim... Que rótulo caberia ao pessoal do Sul? (Se não me engano, parte desse dilema é exposto no filme "A Linha Fria do Horizonte". Grande parte dos gaúchos não faz caso do isolamento a que é submetido econômica e culturalmente. Mas outra grande parte anseia por uma maior integração. Entretanto, em se tratando de país continente como é o nosso caso, a produção de uma cultura para consumo local não é incomum. Nos EUA, nosso exemplo mais próximo, existem escritores e artistas de qualidade ímpar e original que jamais serão conhecidos nos grandes centros).



            Ouvir da primeira a ultima faixa do CD “O Sul Em Cima”, com seu desfilar alucinante de ritmos, de estilos, é como ser sacudido e desafiado a uma luta direta no tatame: a música fala diretamente aos sentidos, sem pudor, sem subterfúgios, sem embromações. A música desses meninos e meninas não é para relaxar ou simplesmente curtir distraidamente: é musica que te sobressalta. Mesmo que não se identifique plenamente com o tema, te obriga a ficar atento ao que vem a seguir, pois não sabes o que te espera no próximo acorde ou no próximo verso. É uma montanha russa.

            O resultado é um Sul diferente do lugar-comum. A conexão instantânea e sem graça, imposto pela linguagem padrão das redes sociais – que nos dá a falsa impressão de estar conectado com o mundo – não dá conta da realidade pujante expressa no mundo real; o conhecimento  da realidade é um processo um pouco mais amplo. É a isso que sou levado a pensar depois de ouvir a jovem música do Sul. E o dinamismo ancorado na excelente qualidade dos artistas, revelam uma sólida formação musical que não os faz perder o chão: eles partem da tradição e a remodelam!

            Se a intenção deles era nos deixar com água na boca, conseguiram ir além. O CD é algo mais que um “painel” da jovem musica sulina e um desfile multicolorido, alegre e descontraído. O ecletismo reflete os  vários estilos e tendências. De comum, tem a leveza, a atitude descontraída  perceptível naqueles que estão  seguros do que querem e do que representam, e essa leveza deve provir do intenso diálogo musical que travam entre si. A cultura  do Sul, caldeirão multifacetado que abrigou  açorianos, portugueses, gringos diversos, índios e mestiços se junta no CD e poderiam juntar-se num mesmo palco, fazendo lembrar o projeto “Orquestra Mediterrânea”, realizado por Carlinhos Antunes, para o SESC, em São Paulo, com artistas de várias partes do mundo, juntando árabes, judeus, ciganos, etc.
            Por isso, não é de se estranhar  encontrar o canto lírico, a balada dolente, paisagens pampeanas de rios, praias, montanhas. E numa das curvas da “montanha-russa”, a alucinante atmosfera de “baladas”,  sintetizadores, percussão eletrônica, teclados, golpes de guitarra elétrica, que nos abduz e em transe nos leva para uma nave que segue mundo afora, como num moto perpétuo. O disco, bem como o programa radiofônico, resulta numa ideia que pode ser exemplar e se espalhar: uma harmonia possível, com todos os sotaques possíveis! A musica e sua linguagem universal, foi em outros tempos ponto de intersecção entre os homens, quando caravanas de mercadores se encontravam no deserto e ao longo do Mediterrâneo, fomentando um desenvolvimento cultural crucial para a Humanidade.

            O universo do gaúcho ignora a geografia política, tem suas próprias regras, sua própria lógica: permeando seu mundo, a milonga é um elemento comum. A partir da “Milonga da Moça Gorda” e “Milonga Para Los Perros”,  ninguém mais vai ouvir o ritmo consagrado por Atahualpa Yupanqui e  Noel Guarani do mesmo jeito: mais do que a performance em si, vale pensar e saber que a milonga é algo muito mais profusamente inserido no espírito gaúcho: é, antes de tudo, um modo de ser ou de estar no mundo. A desconstrução provocada pela “Moça Gorda” e a estilização ousada e moderna de “Los Perros” demonstra isso.
Ao fim da audição, continuamos viajando na nave doida em que eles nos fizeram embarcar. E aqueles sons loucos continuam ressoando/ecoando em nossos ouvidos. Qual tema prevalecerá?
Que fazer?
Querer  que El Tiempo Para?  Andar  a esmo Por Aí? Ou preferimos Um Canto a Terra? Ou ainda passar por Berlin? Quem sabe nos reunir Por Uma Noite apenas ou decifrar um Hai Kai, contemplar Paisagens, concentrar na Viva Voz, fazer Combinações entre Awakening e as escalas de Quel Sguardo Sdegnosetto, atentar aos Ruídos do vento no monte SaintMichel? Ou nos render aos apelos de Besame?

O que escolher? O berço dolente ou a inquietude corrosiva? Retornemos e ouvimos novamente: talvez desta vez  nos deixemos levar mares afora pelas sereias encantatórias, as incríveis Marias Nuas, sob o brilho da Estrela Guria!


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A MUSICA DE MARIO GIL E O NOVO LEGADO DA M.P.B.

O cantor, compositor, violonista e produtor Mario Gil é uma referência para boa parte da atual musica brasileira, mas pode andar tranquilamente pelas  ruas de qualquer cidade brasileira sem muitas  possibilidades de ser abordado. É para esse público que o desconhece que reservo algumas palavras introdutórias a seguir: ele faz parte de um grupo de artistas surgidos no lastro do “Clube da Esquina” – que deve ter sido o último grande movimento da MPB pós Bossa Nova  e Tropicália .
Esses jovens artistas  talentosos, urbanos na maioria surgiram num ambiente que podemos chamar   “circuito universitário”, embora não considere a expressão correta. Embora muitos tenham realmente surgidos nesse meio, deve ser mais uma tentativa de rotular o movimento para de algum modo viabilizá-lo comercialmente. Mas o fato é que eles não se enquadram em nenhum  rótulo, exceto, talvez, independentes.  (A música independente, como sabemos, é uma modalidade comercial, onde os artistas produzem seus trabalhos à margem dos grandes estúdios, por conta própria ou com ajuda de amigos. Consolidou-se aos poucos, com mercado e público específicos).


Esse grupo, bastante abrangente, sem orientação (não houve nenhum marco inicial, nenhum manifesto, etc) e lugar definidos,  surge num momento de certo descrédito da  MPB, quando muitos consideravam a nossa música esgotada, saturada, envelhecida e era comum ouvir dizer que nada surgiria de importante depois de Caetano, Chico,  Gal, Bethânia, Milton Nascimento e outros. As pessoas suspiravam tristemente e diziam que  tinham sido os últimos, que a musica brasileira tinha acabado e qualquer novidade não passava de cópia, imitação barata...

Não era bem assim, como se provou depois. Um tanto timidamente eles surgem,  sem alarde, discretos, sem se importar em parecer aprendizes. Nos pequenos espaços onde se apresentavam, geralmente bares, misturavam-se com a platéia quando terminavam seus números e ali mesmo colhiam a impressão de seu trabalho. E para o público também era algo novo, poder conviver com o artista de carne e osso, sem o tumulto que cerca as grandes estrelas. Enfim, algo novo se desenhava no cenário, público e artista construíam juntos  novas possibilidades artísticas – de algum modo, isso continua, um certo clima de cumplicidade envolve esse ambiente de proximidade público artista, como podemos observar no Projeto Dandô, idealizado por Katya Teixeira, mas aí éoutra história, que foge ao nosso tema de agora...
Voltando à história dos jovens que remodelaram a nova música brasileira, a partir dos chamados espaços alternativos: uma grande leva de artistas surgia assim, e devido a qualidade de seus trabalhos, aos poucos saem de seus ‘guetos’ e se espalham pelos teatros, palcos maiores. Portadores de uma sólida tecnica duramente elaborada, não demoram para angariar um público fiel. Em outras palavras: sim, havia, ainda, uma fatia de mercado sensível e sedenta de música  e artistas de qualidade para criar, desenvolver e continuar nossa arte musical.
Fazem parte dessa leva que lentamente se consolidou por conta da alta qualidade  artistas como Monica Salmaso, Renato Braz, Consuelo de Paula, Mário Gil, só para citar alguns, um sem número de instrumentistas geniais. E nos últimos 15 ou 20 anos cada um deles seguiu sua trilha, em projetos individuais, eventualmente se encontrando, dividindo palco, colaborando entre si.


A influência de Dori Caymmi entre eles é perceptível, em alguns casos diretamente, como a participação em alguns trabalhos de Renato Braz, noutros nem tanto: mas se percebe a presença do mestre na busca de um padrão estético diferenciado, arranjos sofisticados , grande avidez na busca de uma técnica rigorosa que coloca em destaque  a criatividade que nunca faltou ao músico brasileiro. Aqui, um breve intermezzo e apenas para citar o óbvio: música é algo que o brasileiro sabe fazer, porque gosta. Desde criança se acostuma e assim como o futebol, é uma forma de lazer  acessível. Eis algo que as autoridades educacionais devem levar em conta, o ensino de música nas escolas, que deveria necessariamente fazer parte dos currículos, não exatamente para formar artistas, mas para formar cidadãos, indivíduos capazes de reconhecer e distinguir a musica boa da ruim.

A  ousadia desses jovens “filhos e filhas” da turma do “Clube da Esquina” (filhos e filhas num sentido cronológico e não exatamente genealógico) tem lógica e história: está no DNA do músico brasileiro e remonta a Zequinha de Abreu, Chiquinha Gonzaga, Villa-Lobos, João Pernambuco, e outros: virtuoses  mestres e mestras, cada qual  em seu tempo e lugar e que tiveram como mérito principal o aprofundamento da brasilidade, a identidade de um país que carecia de uma legitimação para deixar de importar o que se produzia mundo afora, principalmente a música americana fartamente distribuída por aqui com as primeiras vitrolas. Artistas como os citados acima criaram uma música brasileira que ia além do exotismo da riqueza de ritmos afros e indígenas, preconceito que ainda nos dias de hoje sobrevive sob forma de resquícios, não apenas na música, mas em muitos outros aspectos das artes (cinema, por exemplo) e da vida em geral: o importado é melhor!
A música brasileira desde há muito está preparada para ser ponto de partida para vôos maiores e novas invenções.  Não foi nenhum bravata Villa-Lobos ter declarado ao chegar em Paris que “...não vim aprender e sim ensinar e mostrar a música brasileira!



O Brasil vivenciava o fim de uma ditadura, através de um processo enviesado de abertura política com uma Anistia Geral e Irrestrita, enfim, uma solução política costurada pelas elites que nunca foi devidamente compreendida pelo povo em geral, historicamente excluído das decisões.  Era o ocaso de qualquer  Revolução e mesmo do protesto,  embora o vínculo com formas mais arejadas de pensar não fossem elementos à margem.
Esses jovens aparecem produzindo antes de tudo, música. Música despida de preconceitos. Mas a ousadia desse pessoal que apareceu num momento crucial da história brasileira  não era um acaso: desde Rogério Duprat e mesmo antes com Garoto, Laurindo Almeida, Moacyr Santos, etc., que o Brasil se acostumou à sofisticação de arranjos como se conhece nas peças ditas eruditas, confirmando a nossa vocação musical, que vem desde os tempos coloniais: o amalgamento branco, índio, negro, condimentado mais tarde com imigrantes de diversas partes do mundo. Algo que vai além dos aspectos sócio-culturais: o próprio entranhamento na  alma nacional.

Assim, podemos dizer sem pejo: a nossa é uma Terra fértil, autêntico Jardins de Delícias, onde o imaginário miraculoso ultrapassa os mitos. Como disse uma vez o rabequeiro Zé Gomes, uma das figuras que mais compreendiam o papel do artista na vida de uma nação: “O Brasil é um formigueiro de artistas, basta cutucar que eles vão aparecendo, aos enxames!”
A roça brasilis – faço aqui uma merecida referência ao livro de Josely Vianna, Roça Barroca, sobre a arte poética do povo guarani -   faz jus à primeira impressão destas terras aos olhos do estrangeiro, quando,  Pero Vaz Caminha, deslumbrado, escreveu a El Rey mencionando entre outras maravilhas  que “...nesta terra em se plantando tudo dá!

Ipsis facti, como diria Elomar Figueira: de sambas, serestas, baiões, toadas, múltiplas outras experimentações:
tambores nos cais,
violas e rabecas em clamores.
Ponteados de violões
tecendo e bordando canções;
vozes líricas,
ternas vozes
em cantos de amor e guerra
em contradança;

são imagens como essas que avoam pelos céus do Brasil, que essa turma de novos talentos surgidos num momento de profunda apatia evoca, quando, apagadas as luzes das Utopias,  fizeram desaparecer do horizonte os ideais libertários dos anos 1960. A crítica musical brasileira está a dever ao publico um painel que abranja o cenário que esses jovens – que hoje se aproximam da maturidade – estão construindo, um legado que o futuro há de prestar tributo, pois são eles que estão mantendo viva a tradição brasileira da boa música nos confusos e incertos dias de hoje.

Mario Gil Fonseca é mineiro radicado em São Paulo há muitos anos e sua mineiridade salta à vista. Discreto e perseverante, sua atuação musical é trabalhada com a paciência de um ourives. Como todo artista quer ver seu trabalho reconhecido,  mas tem a compreensão do quão é difícil a afirmação do artista que antes de tudo tem a pretensão de ser fiel às origens, compromisso tácito, mas sem imposições, de retratar seu tempo e seu povo, não abrindo mão e não se divorciando das motivações e sentimentos, e tampouco da possibilidade criativa - no caso dele, a inovação, a busca de novos timbres,  ponto de partida, tronco fundamental da obra. Tudo isso sem barulhos, sem contundência revolucionária – mas o que poucos se dão conta é de que no fundo acaba por lentamente construir uma revolução musical silenciosa, juntamente com seus parceiros.

Sua  robustez criativa revela-se em seu primeiro disco, o seu primeiro recado: Luz do Cais, CD que não muitos ouviram, é um instigante  cartão de visitas. Tudo está ali: uma proposta musical, avessa a preconceitos, revelando algo das muitas fontes de onde bebeu: composições autorais, parcerias, reeleituras de clássicos - Eleanor Rigby, dos Beatles. Chama  atenção as faixas de abertura e encerramento do CD –“Lá” e “Kindergarten” que parecem conduzir o leitor a universos atemporais, passado, presente e futuro tendo berimbau, violão o sax como fios condutores...


Sua formação musical, como ele mesmo afirma, vem da influencia do pai, musico amador, e da intensa atuação na noite paulistana, atividade que exerceu  durante muitos anos com capricho e denodo. Rigoroso, além de memorizar o vasto repertório exigido dos cantores noturnos, aprimorava um estilo que o tornaria permeável às influências dos muitos parceiros e por conseguinte, dos muitos brasis que encontramos nas metrópoles. E foram muitos os brasis que descobriu e continua a descobrir. Mário é desses artistas que agrega, característica que lhe asseverou ao longo do tempo a imensa versatilidade que seria uma constante em sua trajetória: um trabalho autoral, personalíssimo, mas que dialoga intensamente com outras vertentes e linguagens (seu ultimo trabalho, “Comunhão”, é simbólico nesse aspecto. Voltaremos a ele pouco adiante).
Antes disso, vale a pena relembrar e mencionar sua participação no segundo disco de Consuelo de Paula, “Tambor & Flor”,  à força mágica que empreenderam na faixa “Deusa da Lua”, de Mestra Virgínia, uma cantiga  selvagem, ctônica, ígnea, pois parece ter sido talhada a ferro e fogo, que os arranjos de Mário e a voz de Consuelo transformaram como que num outro instrumento de combate, uma espécie de epopéia do espírito nacional:

 “...a serpente mãe das trevas
Morava naquela montanha
Naquela mata medonha
Lá naquele lugar traidor...”

...e tome-lhe trinados de violões,  percussões como arcabuzes, golpes de espada, aríetes; a memória da terra, do povo, memória coletiva! A junção força e delicadeza produziram uma obra prima do cancioneiro nacional  – infelizmente pouco conhecida do grande público. Aqui,  violões e voz remetem a profundidades do mais recôndito interior brasileiro e montanhas galesas, mas também podem ser os sopés andinos, montanhas argentinas,trabalhadores do mar, do campo, das fábricas, sobressaindo, sempre, a face altaneira do povo. Ainda lembrando a parceria Consuelo X Mario Gil: a mera e simples participação nos vocais de “Canto de Guerra”, no CD “Dança das Rosas”. Pra se ouvir quem puder, sem palavras.

Depois da apresentação de Luz do Cais, que mesmo não tendo uma grande repercussão entre o publico, lançou Mario Gil na roda dos artistas criativos. E seu rol de parceiros certamente alcançou um ponto culminante ao conhecer Paulo Sergio Pinheiro e com ele compor e lançar um dos melhores discos autorais de toda a história da MPB, o antológico “Cantos do Mar”, disco que com certeza coroou um trabalho ou uma etapa, pois Mário ficou muito tempo sem gravar, mas trabalhando intensamente como produtor através de seu estúdio, o “Dançapé”.



“Comunhão” é seu ultimo disco solo e mesmo faz jus à sua trajetória, com a coerência costumeira. Mario Gil derrama-se em candura, pura poética repleta de imagens de um Brasil real, mas também imaginário, onírico. A emoção e lirismo que transmite é com sobriedade, em momento algum se apega a nostalgias ou a qualquer espécie de pieguismo. Contido e preciso, é o artista que representa muitos sendo um artista para poucos – poucos, diga-se, em comparação aos milhões de discos que a industria discográfica despeja no mercado:


“Caruana”, parceria com Paulo Sergio Pinheiro, é ponto alto, sem desmerecer nenhuma outra. A meu ver, aqui, em Caruana, a emblemática parceria com Paulo César Pinheiro atinge o ápice: sons que soam misteriosos, subterrâneos, que junto as palavras parecem eclodir: simples e fortes, ombreando com a magia que só o povo mestiço é capaz de produzir.
Tem a densidade dramática de “Anabela”, “Cargueiro” ou “Lenda Praieira” (do CD “Cantos do Mar”), mas é nessa cantiga com ressonâncias indígenas e africanas que grande parte das nossas profundas raízes são expostas reveladas em toda a sua beleza e verdade: artista e história sócio antropológica  dão-se mãos:

Êh! Rio-mar, Êh! Rio-mar
Povo de Caruana é que mora lá
De Aruaque, de Jê, de Juparaná
De Aruã, de Araúna, de Aruaná

É o guardião do rio-mar
Caruana anda naquele mundaréu...

 (Caruana: espírito que habita o fundo dos rios. Espírito bom, que livra feitiços e cura doenças. “Caruana” bem que poderia ser o espírito da musica e em vez de morar no fundo dos rios, habitaria o fundo do corações dos homens e uma vez invocado, o livraria dos maus feitiços e encantamentos.)

Enfim, “Comunhão” bem poderia ser: um breve painel, breve sobrevôo sobre os Brasis de Capiba a Paulo Cesar Pinheiro; por sambas de roda, por frevos, por “acalantos”, outras canções. Por todo o disco e em tudo, permeia cores e sabores, mil saberes através dos quais vislumbramos convites a conhecer a terra e o lugar: um grande, um imenso Brasil, real e mágico, em seu despertar!

Falamos no reduzido espaço do blog de Mário Gil, que presta tributo ao Brasil e sua gente e principalmente aos de sua geração, companheiros de palco e, porque não?, de platéia, pois existe uma imediata identificação que o distanciamento no tempo talvez um dia nos permita colher um retrato desses artistas tomam a frente da MPB num momento tão delicado de nossa História – é transição?
Outro  Cd  está sendo lançado simultaneamente ao “Comunhão”,  “Mar Aberto”, em parceria com Renato Braz, Breno Ruiz e Roberto Leão: é simbólico, soa como um desdobramento do grande mar (rioterramar) que se abre e acolhe, em comunhão...

Termino essas mal traçadas linhas com fragmentos de versos de sua canção “Elogio”, que faz parte do “Luz do Cais”. Esses singelos versos bem dizem algo de sua missão enquanto artista:

(...)
Mágicos dedos de um brasileiro
Tem um gringo cego
Um vereador que é violeiro
E um baiano que não é negão

Trago um lobo no peito
Um Caymmi de antemão
Um computador com defeito
Que não dá idéia na canção

Dorme menina, tem medo não
Esses fantasmas só procuram mais uma canção
(...)



Uma Arte atemporal, sem tempo definido, sem lugar e sem rótulo ou outras armadilhas que possam prender o ouvinte num primeiro momento para depois abandoná-lo ou forçá-lo a buscar renovados ares num mundo poluído. 
Uma Arte povoando os espaços imagético, sensorial; arte com história. Para a história!



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O BAR DO FRANGO APRESENTA: CORDEL, REPENTE, CANTORIA

Um evento típico da generosidade do povo do ser-tão paulistano!



Vai ser no Bar do Frango, sob a batuta do Tatau, no proximo domingo a partir das 18 horas.
O Bar do Frango do Tatau, é aquele que é para poucos, localizado na Zona Leste, local simples e acolhedor, onde os felizardos que o descobrem passam inesquecíveis momentos: boa musica, boa prosa, bons petiscos, boa cachaça e demais destilados e cerveja sempre no ponto - mesmo no rigoroso inverno atual do sertão paulistano.



O Bar do Frango, quem conhece sabe: é desses lugares que poderia ser um símbolo da generosidade hospitaleira do nosso povo paulistano, democrático por excelencia, reduto autêntico da cultura brasileira.



O próximo domingo, a partir das 18 horas, será dedicado àprática do Cordel e do Repente, duas verdadeiras representações da riqueza de nossos ritmos.
Ambos - Cordel e Repente - remontam séculos de existência em nossas terras brasílicas, provavelmente desde o século XVI, ou seja, existe desde que o Brasil existe. O mais impressionante é sua inserção entre as classes populares, tendo tido sua época de ouro no Nordeste do século XVIII até meados do XX.
O Cordel é basicamente a transcrição da literatura oral para a escrita, geralmente em forma rimada, impresso e ilustrado com xilogravuras nas "edições" mais caprichadas, mas a grande parte contém a dita xilogravura apenas na capa. O nome "cordel" deve ser porque desde os principios, nas feiras típicas do nordeste, os folhetos ficavam expostos em "barbantes" ou pequenas cordas...

O Repente são versos improvisados geralmente por dois "cantadores" -daí também ser denominada "cantoria" simplesmente. A riqueza e talento dos "repentistas" é impressionante, pois qualquer coisa, qualquer tema serve para versos perfeitamente rimados, criados na hora. Câmara Cascudo relata em sua obra "Vaqueiros e Cantadores" desafios de repente que duravam dias!

Bem, no bar do Frango, no próximo domingo, teremos uma pequena mostra dessas genuínas representações de nossa cultura popular!

Lá estaremos!


SERVIÇO:

O Bar do Frango está localizado na Av. São Lucas, 479, altura do nº 5.000 da Av Luiz Inacio de Anhaia Melo ou Av do Oratório, 2300. O metrô mais próximo é a estação Vila Prudente.

ENTRADA FRANCA!




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DO MARANHÃO PARA O MUNDO: PAPETE



Uma indestrutível Bandeira de Aço tremula no ponto mais alto do panteão musical brasileiro. E por lá brilhará para sempre, fazendo parte da imensa constelação de nossas maiores estrelas. Junta-se aos  conterrâneos João do Vale e Irene Portela, a Zé Gomes, a Dércio Marques, Vinicius de Moraes, Cauby, Vila-Lobos, aos Gonzaga pai e filho, a Tom Jobim, entre outros. Nos deixou cedo, a 26 de Maio de 2016, aos incríveis 68 anos, pois Papete tinha o entusiasmo e a curiosidade de um adolescente. Seus discos de estúdio conservavam frescor, leveza, informalidade, como se fosse um show ao vivo.


            “Boa noite meu povo
            Que veio aqui me ver
            Com essa brincadeira
            Trazendo grande prazer

            Salve grandes e pequenos
            Este é o meu dever
            Sair pra cantar boi
            Bonito pro povo ver”
            (trecho de Urrou do Boi, Toada de Coxinho do Boi de Pindaré)

            Enquanto esteve entre nós, foi um incansável lutador, que o jeito menino não ocultava: quando o assunto era cultura brasileira seus olhos brilhavam. Para ele, vida e arte caminhavam juntas, uma se inseria na outra. As batidas do coração de sua filha Manuela, gravadas quando ela ainda habitava o ventre materno e inseridas no final de uma canção de um de seus discos, revelam seu compromisso, o afinco e a leveza, arte e vida, entrelaçadas.
O foco principal de seu interesse sempre foi o universo de seu querido estado natal, Maranhão, o tão maltratado Maranhão, economicamente corroído por uma sequência trágica de governantes inescrupulosos, não obstante possuir riquezas inestimáveis. Lembro-me de certa vez ter lido uma declaração sua onde dizia com todas as letras que o Maranhão era o estado mais musical do Brasil.


Papete sabia das coisas e ao dizer isso, não estava longe da verdade: não foi uma bravata, nem qualquer intenção de denotar superioridade acendendo rivalidade entre irmãos: Papete tinha a alma leve e simples de homem do povo, de cujo seio jamais se afastou, apesar de possuir talento para ser uma estrela internacional. Mas ele (bem como seu conterrâneo Chico Maranhão) sempre quis ficar e se entende porque: uma rápida passada d’olhos pela imensa quantidade de ritmos, de danças, talentos, tudo temperado por um manancial multicor, mostra porquê: o Maranhão é um sol, uma poderosa usina de energia, um coração cujo pulsar cintila Brasil afora. Não é por acaso a terra de dona Irene Portela, Chico Maranhão, João do Vale, além do próprio Papete.

Embora os temas maranhenses ocupem a quase totalidade de sua obra, sempre foi um atento observador da cultura de todo o país e por toda sua obra se espalham temas típicos de várias regiões do país: Luiz Gonzaga (O Xote das meninas), Renato Teixeira (Vira (No Meu Quintal), Paulo Ruschel (Cancha Reta) são exemplos imediatos, além da longa parceria com Toquinho e inúmeras contribuições com Diana Pequeno, Almir Sater, Zé Gomes, etc.


Nascido José Ribamar Vianna, em Bacabal a 08/11/1947, era músico em tempo integral conforme concerne aos gênios. São antológicos os textos escritos sobre ele pelo produtor Marcus Pereira, impressionado com suas performances. Pela gravadora de Marcus, conhecido por ter feito um dos melhores mapeamentos musicais do Brasil - 16 belos e importantes discos, 4 para cada região do pais: Musica Popular do Nordeste, Centro-oeste, Sul e Sudeste -  Papete lançaria seus primeiros discos, além de atuar como pesquisador para a série ”Musica Popular.” O reconhecimento de seu trabalho ultrapassou fronteiras sendo ainda muito jovem. Foi eleito por três vezes como um dos 3 melhores percussionistas do mundo em 1982, 1984 e 1987, no Montreux Jazz Festival, na Suíça.

Papete foi protagonista de um Era de Ouro da Musica Popular Brasileira, entre o final dos anos 1970 e 1990, quando houve uma importante revalorização da musica de caráter regional e importantes artistas que não orbitavam em torno dos “caciques” da MPB puderam lançar seus trabalhos e com isso fizeram histórias, produzindo álbuns que se tornaram raridades.  “Bandeira de Aço” e o famoso encarte que o acompanhava é um exemplo clássico. Eu tenho o LP, em bom estado, mas sem o encarte. Os amantes do vinil hão de entender o que quero dizer: certos discos fazem sentido quando você além de ouvir, pode ver ou tocar com as mãos, como é o caso do “Milagre dos Peixes”, do Milton, onde cada faixa ou grupo de faixas correspondia a uma cor. As cores do encarte, portanto, funcionavam como ‘código’, o “Milagre” em particular, pois as letras haviam sido censuradas e só a parte instrumental veio a publico. “Bandeira de Aço” foi relançado em CD, porém o foi com tremendo descuido: uma capinha mixuruca, onde só consta o titulo das musicas. Um erro irreparável, falta de respeito para com público e artista.


São muitos os seus discos antológicos. Bandeira de Aço deve ser o mais representativo, pois se trata de uma síntese da cultura popular que anima desde a capital até os mais distantes rincões, da praia ao sertão. A fusão com ritmos caribenhos dá um tempero especial. E por falar em disco antológico, como não lembrar de “Planador” e sua magnífica parceria com Almir Sater em “Luzeiro”? Ou o melhor solo de rabeca,  por Zé Gomes, na faixa “Pastorinha”?

Bela Mocidade é outro belo disco, dentre tantos. .É um trabalho que fala do Maranhão como um todo, onde cabe bem a expressão “tudojuntoemisturado”: cidade, interior, praia, passado, presente, pinceladas fortes de reggae, memórias afetivas.


Foram 18 albuns  ao longo de aproximadamente 40 anos de carreira, o que dá a média de quase 1 disco a cada dois anos, numa impressionante regularidade, sempre tendo o Maranhão como tema principal, porém, sempre voltado, sempre antenado com a cultura brasileira como um todo: a arte popular, de todos os recantos, manancial inesgotável – diferente de outros ritmos, melhor dizendo de outras modas que mesmo tendo grande valor, com o passar de alguns anos, cansa e se esgota por si.

Papete, ou melhor, o pesquisador de cultura popular José Ribamar Vianna, idealizou, coordenou e publicou no ano passado o livro “Os Senhores cantadores, amos e poetas do bumba meu boi do Maranhão”, cujo titulo altamente sugestivo fala por si.


UMA CURIOSIDADE: Enquanto finalizava esse texto ouvindo um de seus LPs na minha simpática vitrola, deparei-me com um texto datilografado dentro da capa do disco, um breve comentário sobre ele. Quem o escreveu? Não sei. Pode ter sido eu mesmo muito tempo atrás, mas de fato creio que não, tem particularidades nas quais não me reconheço. Mas é um comentário tão espontâneo e sincero que acho importante reproduzi-lo aqui, na integra. A hipótese mais crível é que o antigo dono ou dona  do LP, apos ouví-lo teve um rompante poético e descarregou no papel tudo o que sentiu. Verdade é que ficou lindo, muito bom, pois é a cara do Papete e acredito que ele certamente gostaria de saber o que seu trabalho inspirava nas pessoas.
Um texto de puro sentimento e verdade. Assim, com o mesmo ímpeto que o autor deve ter escrito, tomei a decisão de aqui reproduzir, nesse singelo texto que tem somente a intenção de mencionar a grande importância de Papete para a musica e para a cultura brasileira de um modo geral.
Eis o texto (se alguém identificar o autor, agradeço a informação):


“PAPETE

Papete arrasta voce para um universo de sons incomuns, luminosos ou sombrios, que lembram uma entrada pelos matos, um avanço em que o sol brinca de esconde-esconde, um serpentear de um riacho e, de repente, uma cachoeira.

Manifesta sua força quando toca uma singela modinha, nas beira da calçada, antes que a lua apareça ou quando participa da “folia de reis”.

Fala, de perto a parcela de sangue selvagem de cada um, provoca um chacoalhar de sentimentos, surpreende voce, confunde um pouco, depois lhe permite um enriquecimento da consciência. Pode ser uma “brincadeira” bastante séria: “Dou um doce a quem souber”...reserve um tempo para Papete, ouça-o várias vezes e voce saberá.” (autor desconhecido)



Papete se foi. Mas o seu estandarte está impresso a fogo vivo na Bandeira de Aço que tremula elegante e soberana em lugar nobre: o coração de cada brasileiro.

“Na ilha de São Luis tem um boizinho chamado Barrica, que no mês de junho gostam de brincar à luz das fogueiras na terra e  das estrelas no céu.  Barrica emociona: traz a esperança de que nossa alegria há de durar para sempre, como para sempre há de durar o valor de nossa  gente”
(introdução a Rompendo Fogo)



DISCOGRAFIA:
Berimbau e percussão (Discos Marcus Pereira)  1975)
Bandeira de aço (Discos Marcus Pereira)  1978)
Água de Coco (1980/1979)
Planador (1982)
Papete (1987)
Rompendo fogo (1989)
Bela Mocidade (1991)
Voz dos arvoredos (1992)
Laço de Fita (1994)
Música Popular Maranhense) (1995)
PAPETE (1996)
O melhor de Papete (1997)
Tambô (1999)
Era uma vez... (2004)
Jambo (2006)
Aprendiz de cantador (2008)
Estrada da Vitoria ( 2010)
Senhor José (2013)



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