A mesma praça, o mesmo banco, sem flores e jardim

Durante oito horas diárias Seu Octávio trabalhava de operário na Anderson Clayton nas funções de balanceiro e à noite, para complemento da renda familiar, transformava-se no pipoqueiro da pracinha.


Chegar em casa, tomar banho e pre
parar o carrinho de pipoca com o milho, óleo e sal – não existia a pipoca doce – e evidentemente a panela. Dona Judith já havia preparado sonho, sagu em pedaços cobertos com coco ralado e molho de pimenta que, para desespero dos pipoqueiros puristas, era a exigência da moçada (ainda não era galera) da época.

Tempos em que as famílias saiam para as ruas e praças logo após o jantar para dar uma volta, sentar nos bancos, conversar com vizinhos observando os filhos correndo e brincando nas diversas “brincadeiras de ruas”. Brincar nas ruas no sentido mais amplo e verdadeiro, sem preocupação com os automóveis, hoje chamados de carros, já que os poucos que saiam à noite eram dirigidos por motoristas que entendiam e respeitavam. Alguns pais mais severos na hora de voltar para casa levavam os filhos e outros mais “liberais” permitiam um pouco mais e sempre com alguma recomendação e marcando o horário da volta. Sabiam esses pais que o pipoqueiro e o sorveteiro estavam de olhos e ouvidos atentos e em quem podiam confiar. Olhos e ouvidos que também eram cúmplices dos primeiros olhares, da primeira “segurada de mão” e muito, muito difícil de um primeiro beijo.

Em vésperas de alguma eleição a praça foi “inaugurada e oficialmente entregue à população”, com o nome da homenageada e demais qualificações devidamente registrados em uma placa de bronze, ficando conhecida como Praça Dona Lidia.Hoje a praça está sem as flores e o jardim, o poder público não faz manutenção. Durante o dia as mesas servem para jogos de dominó disputados por aposentados sob uma pequena cobertura e à noite é totalmente vazia, solitária e triste. A placa de bronze que identificava a praça e a homenageada foi roubada.

Permanece o pedestal como triste símbolo da falta de memória de uma cidade, do descaso das autoridades e também da população.

Quem foi Dona Lidia?. Comerciantes próximos, os “jogadores-frequentadores” do dia, departamentos histórico ou cultural não tem informação e fica a hipótese de um dos que estava atento ao jogo de dominó: “deve ter sido uma pr
ofessora, já que naquele tempo uma professora era mais poderosa que o juiz e era chamada de Dona”. Pode ter razão, pois eram os tempos em que uma professora era valorizada e as primeiras edificações de uma cidade eram a sede da prefeitura, a igreja e a escola.

A restauração da memória da Dona Lidia pode ser o começo, ou recomeço de movimentos das pessoas pelo resgate de uma cultura. Ainda dá tempo. Mesmo durante o dia as crianças e os jovens de hoje não "brincam" nas praças e à noite, quando o fazem, a proposta é outra, bem outra. Individual ou em grupos, ou estão dentro das casas ou dos modernos centros de convivência que atendem pelo nome de lan house.
Ah! sim, aos sábados e domingos seu Octavio “mudava o ponto” para a Praça da Matriz e posteriormente, quando foi inaugurada a Fonte Sonora Luminosa, para a praça em frente à estação ferroviária. Ah! sim, tempos da jovem guarda, e das mais tocadas na rádio e nas brincadeiras dançantes era A Praça, do Carlos Imperial na voz do Ronnie Von.

Hoje eu acordei com saudades de você
Beijei aquela foto que você me ofertou
Sentei naquele banco da pracinha só porque
Foi lá que começou o nosso amor
Senti que os passarinhos todos me reconheceram
E eles entenderam toda minha solidão
Ficaram tão tristonhos e até emudeceram
Aí então eu fiz esta canção
A mesma praça, o mesmo banco
As mesmas flores, o mesmo jardim
Tudo é igual, mas estou triste
Porque não tenho você perto de mim
Beijei aquela árvore tão linda onde eu
Com meu canivete um coração eu desenhei
Escrevi no coração meu nome junto ao seu
Ser seu grande amor então jurei
O guarda ainda é o mesmo que um dia me pegou
Roubando uma rosa amarela pra você
Ainda tem balanço, tem gangorra meu amor
Crianças que não param de correr
Aquele bom velhinho pipoqueiro foi quem viu
Quando envergonhado de namoro eu lhe falei
Ainda é o mesmo sorveteiro que assistiu
Ao primeiro beijo que eu lhe dei
A gente vai crescendo, vai crescendo
E o tempo passa
E nunca esquece a felicidade que encontrou
Sempre eu vou lembrar do nosso banco
Lá da praça
Foi lá que começou o nosso amor



3 comentários:

  1. Fernanda disse...:

    aprendi a tocar violão com essa musiquinha... rsrsrs e desaprendi quando o tempo passou e as praças eram gramados bons para escorregar com papelão.

  1. José Maria disse...:

    Fernanda, que bom que você é escritora, fico feliz, que bom que a sua arte de escrever prevaleceu e venceu o seu lado cantora. Beijos

  1. joca disse...:

    Amigo Zé:

    O resgate aí está, e voce fez a sua parte, que é a parte do Leão. Algo prevalece e permanece e os tempos de cidadania chegarão. Afinal de contas, tempos em que professoras eram respeitadas não devem fazer parte do passado...grande abraço!

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