O FUTEBOL E A VIDA

Há quem veja como magia, outros como arte, outros como guerra. Não faltam os teóricos, que tratam como ciência. Fato é que o futebol é um inesgotável tema, que rende histórias dramáticas e cômicas, às vezes numa mesma situação: pode-se falar muito a sério ou simplesmente “jogar conversa fora”.

O jornalista Mario Filho escreveu um livro-referência, O Negro no Futebol Brasileiro, sobre a luta dos primeiros negros a vencerem o racismo e se imporem no esporte trazido ao Brasil para ser diversão exclusiva dos aristocratas de origem inglesa; o irmão de Mário, Nelson Rodrigues, escrevia brilhantes crônicas sobre inesquecíveis jogos aos quais assistia pessoalmente no Maracanã e conta-se que praticamente nada via do jogo em si, pois tinha alto grau de miopia e não tinha o menor interesse em de fato ver, limitando-se a bebericar seu uísque e a fumar sem parar...

O futebol rendeu ensaios “sérios”, como do antropólogo Roberto DaMatta (Futebol: Ópio do Povo ou Drama de Justiça Sócial) e do músico e professor José Miguel Wisnick (Veneno Remédio: O Futebol e o Brasil), entre tantos outros. Os filmes Boleiros (1 e 2) , de Ugo Georgetti, são sucessos de crítica e bilheteria

Na música popular, rendeu – e rende – muitos temas, desde Raul Torres, com o impagável Futebol da Bicharada, passando por Naná Vasconcelos e Chico Buarque, que de tão apaixonado, é “dono” de um time verdadeiramente amador, o Polytheana. Como não lembrar de O Jogo É Hoje, de Paulinho Nogueira, ou Bola de Meia, Bola de Gude, do Milton Nascimento?


Futebol é drama. Algumas partidas são verdadeiras epopéias, tanto na época romântica e nostálgica, quanto na era moderna, em que se tornou espetáculo e negócio. Está na história: 7x6 de Santos e Palmeiras; 4x3 de Corinthians e Palmeiras; o dramático 2x1 de Uruguai e Brasil em 1950; 4x1 de Brasil e Itália em 1970; o titulo do Corinthians de 1977, os titulos mundiais do São Paulo, etc, etc.


Noite de 22 de junho de 2011, eu, torcedor de poltrona e TV, vejo a final da Libertadores com meu filho, coração aos pulos. O jogo se aproxima do fim, o nosso Santos ganha apertado, estamos entre a glória do tricampeonato e a angústia de sofrer o empate numa jogada casual e vir a prorrogação, pênaltis, o horror infernal...

Contra ataque do Santos, fatal, vislumbramos o gol redentor que dará tranqüilidade e por cima há de tirar o estigma do folclórico Zé Love, que se notabilizou na competição pela inacreditável capacidade de perder gols feitos e não perder o lugar no time! Nos levantamos, preparando o pulo e o grito de “GOOLLL!”, mas Zé Love é fiel à escrita e perde o gol, mais um para sua bizarra coleção - talvez entre para o Guiness como o anti-artilheiro! Meu filho se ajoelha,cobre o rosto, balbucia “Zé Love, não!...”

Na mesma hora, vejo na TV um torcedor levar as mãos em desespero à cabeça, literalmente chorando. E haja sofrimento, até o apito final.

A imagem do jovem chorando o gol perdido ficou na cabeça: assim é o futebol, uma peça que pode imitar a vida, sob os auspícios da imprevisibilidade: da alegria à dor e vice-versa, a vida num lance, num segundo, num gesto!


Reproduzo abaixo um trecho do blog “O Biscoito Fino e a Massa”, que fala por si:


Diz a lenda que na noite de 16 de julho de 1950, Obdulio Varela saiu sozinho para tomar uma cerveja no Rio de Janeiro. Por si só, esse fato já é um testemunho da diferença entre o futebol de então e o de hoje.

Varela, o capitão da Seleção Uruguaia, acabara de protagonizar o mais chocante feito da história das Copas do Mundo: a vitória de virada sobre a favorita Seleção de Zizinho e Ademir, proclamada campeã por antecipação pelos jornais brasileiros. Depois de algumas cervejas, El Negro Jefe é chamado pelo dono do bar. Havia um torcedor brasileiro que queria falar com ele.

Varela se levanta preparado para o pior: um xingamento, uma agressão. O torcedor se aproxima, encara-o olho a olho, abraça-o e desaba num choro desesperado e convulsivo. Conta a lenda, ainda, que o capitão uruguaio consolou esse torcedor durante mais de meia hora...
www.idelberavelar.com


O Futebol
Chico Buarque


Para estufar esse filó
Como eu sonhei

Se eu fosse o Rei
Para tirar efeito igual
Ao jogador
Qual
Compositor
Para aplicar uma firula exata
Que pintor
Para emplacar em que pinacoteca, nega
Pintura mais fundamental
Que um chute a gol
Com precisão
De flecha e folha seca

Parafusar algum joão
Na lateral
Não
Quando é fatal
Para avisar a finta enfim
Quando não é
Sim
No contrapé
Para avançar na vaga geometria
O corredor
Na paralela do impossível, minha nega
No sentimento diagonal
Do homem-gol
Rasgando o chão
E costurando a linha

Parábola do homem comum
Roçando o céu
Um
Senhor chapéu
Para delírio das gerais
No coliseu
Mas
Que rei sou eu
Para anular a natural catimba
Do cantor
Paralisando esta canção capenga, nega
Para captar o visual
De um chute a gol
E a emoção
Da idéia quando ginga

(Para Mané para Didi para Mané Mané para Didi para Mané para Didi para
Pagão para Pelé e Canhoteiro)


video



2 comentários:

  1. José Maria disse...:

    Velho e Bom Joel Joca, até "ontem" os santistas eram antes de tudo Pelézistas, o que pelo nome se explica. "Hoje" é bem grande e aumenta sempre o número de jovens e principalmente de meninas que nunca viram um grande time no sentido bom do futebol. O ano passado começou bem e ressaltar também o respeito que os que gostam de futebol tem ao Santos, os que verdadeiramente gostam do bom futebol. Há esperança de que os novos torcedores aprendam o respeito necessário à opiniões e gostos diferentes. Grande abraço

  1. joca disse...:

    Amigo Zé: aos amigos que me provocam com o epiteto "viúva de Pelé", garbosa e orgulhosamente respondo, de queixo erguido: a viúva de Pelé casou de novo!

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