Na Estrada Paulistana. Com a Fernanda.

Em tempos de lançamento do Na Estrada, feliz transposição para o cinema do livro On The Road de Jack Kerouac e dirigido pelo Walter Salles, um convite para uma viagem ao lado da escritora Fernanda de Aragão pelas ruas da cidade de São Paulo. On The Road é o símbolo maior de toda uma geração (à qual humildemente me incluo) e a Fernanda é a nossa imagem dos novos escritores. Este texto, já Lingua Cronica, foi aqui postado em anos passados pela, na época nossa dura mas sem nunca perder a ternura, Editora Chefe. O pedido de licença da chefia, autorizado pelo Joca e pelo Giba, encerra-se no final deste mes e teremos de novo o "pulso firme" na redação e as escritas da nossa Musa das Letras. O tempo apenas para se refazer de cursos, mestrados, doutorados, palestras, aulas, risasdas, aguardando o convite da Iara para a a Feira de Uberaba e das últimas fotos da participação na FLIP.  


"Tá, talvez eu não tivesse nada de útil para fazer, como me disseram. Só que eu acordei vazia no dia 17, e qualquer lugar que me levasse para longe de mim ou da cidade seria um lugar ideal.
Subir até a Pedra Grande, na Serra da Cantareira, partindo do Núcleo das Águas Claras* seria ideal, e só me custaria 20 quilômetros e dois reais de entrada. A maior floresta urbana e uma vista privilegiada para a metrópole. Um bom passeio para ordenar os pensamentos, se eu não tivesse desistido só de imaginar o trânsito da volta. É que o caminho entre Santana e a zona sul em horário de pico não é pra qualquer um não, e, naquele dia, decididamente, não era pra mim, não mesmo!.
Avenida Paulista! Meio inerte me lembrei de Goya e de suas gravuras, ainda expostas no MASP (Museu de Arte de São Paulo). Lembrei, inclusive, que minha miopia não gosta muito de gravuras, o que me levou sair de casa meio desanimada e a entrar no metrô um tanto desconcertada por eu ter desistido de ir até a serra, desistido de ter me sentado na Pedra Grande e desistido de ter me perdido em pensamentos libidinais. Hunf! 15 minutos depois eu já estava lá, dependurada às 4 séries - “os caprichos”, “desastres da guerra”, “tauromaquia” e “provérbios ou disparates” -, às 218 gravuras do cara e às muitas sensações esquisitas provocadas por algumas das imagens. Acho que ser tão paulistana é isso: descer do 2º andar de Goya para o subsolo de Darwin; do retrato da angústia para a teoria da evolução com seus esqueletos e crânios, plantas e animais vivos (sapo cururu numa exposição??!?! estamos, de fato, em extinção!), um orquidário lindo na saída e, numa bela voz de homem, palavras vivas sobre a vida.


MASP (Museu de Arte de São Paulo) - Av. Paulista, 1578.


Ainda inebriada ganhei a Avenida Paulista e entendi que voltar a pé para casa era tudo o que eu precisava. Mas só porque eu queria aproveitar um pouco o que é diferente nas pessoas que freqüentam a avenida, que freqüentam o parque Trianon e que procuram alguns bugios nas copas das árvores. E também porque eu queria aproveitar o passeio largo da avenida, em passos lentos, como quem vai querendo não chegar, apenas existir.

Desta maneira, com o vento nos cabelos, alcancei o Reserva Cultural (prédio da Gazeta) para um cafezinho e para admirar a pequena e simbólica exposição “Cidades Imaginárias” da artista Eliana Minillo. Segui meu caminho para notar, anotar, perceber, descobrir a história da medicina, contada nas placas de bronze expostas permanentemente no muro externo do Hospital Santa Catarina. O painel, intitulado “vida”, é do artista plástico italiano Marco Ulgheri. Não sei quanto tempo eu fiquei lá, parada, retraída em pensamentos, enquanto pessoas passavam por mim. Também não sei quantos paulistanos nem quantos visitantes ou moradores da metrópole já se deram o direito de parar e contemplar a cidade, suas avenidas e seus muros.


Muro do Hospital Santa Catarina - Av. Paulista, 200.



Estava quase escurecendo quando atravessei a rua em direção à Casa das Rosas, que não é mais apenas a Casa das Rosas, mas que é a Casa das Rosas e o Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura. Nostalgia. Lá encontrei “O Poder da Rosa”, uma mostra de música, poesia, desenho e pintura de Rosea Novichenko, quando fez-se a noite.

Hora de voltar. O vento frio arranhava meu corpo quando eu ganhei as ruas, casas e prédios da cidade já sem saber quem eu era em meio ao realismo cruel e satírico de Goya, à poesia da evolução humana de Darwin, aos transeuntes da Avenida Paulista, ao ar pitoresco do parque Trianon, à sensibilidade construtiva de Eliana Minillo, à arte polida de Marco Ulgheri e às rosas de Novichenko que, em mim, inscreveram-se em palavras, música e silêncio.

Hein? Pode embrulhar sim, é para presente!."



3 comentários:

  1. Joca disse...:

    ...o ser-tão paulistano e suas surpresas; a Canastra e seus guardados, como disse Iara Fernandes! E nada com termos entre nós o ZéMaria, a retirar do nosso baú preciosidades como esta que acabamos de ler!

  1. Anônimo disse...:

    Fê, eu, que como o seu amigo, sou da geração beat, percebo claro as semelhanças de Kerouac com as angústias de seu texto. E me atualizo nelas, identifico. Literatura de primeira, pois não é isso o que o escritor faz? Atualiza a gente de nós mesmos, de nossa capacidade menor de contatar a realidade? Cada vez me impressiono mais, e gosto mais do que você escreve. P.

  1. Né, Joca? O Zé Maria está com afinco promovendo o meu retorno textual ao ser-tão. ó! Clap clap!

    P. volte mais vezes por aqui, nossa casa é aberta.

    E meninos do meu ser-tão, Zé, Joca um beijo e um abraço!

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