A MÚSICA DO PONTAL: SEU EUJÁCIO ROCHA

A região do Pontal do Paranapanema, no extremo oeste paulista, talvez a ultima do Estado de São Paulo a ser desbravada, é dotada de variada riqueza musical. O relativo isolamento permitiu que uma cultura genuína e peculiar pudesse ser preservada até recentemente – digo, uns 40 anos atrás, época em que se iniciou o êxodo rural que nos anos seguintes faria com que 2/3 da população rural de todo o planeta se tornasse urbana. E com o Pontal não seria diferente: a poliagricultura – com alguma predominância em certos locais pelo café, noutros pelo gado leiteiro ou de corte - cedeu vez a monocultura da cana-de-açucar. E onde chega a monocultura, destrói-se a agricultura de subsistência, terminam o pequeno comércio local e como consequência, toda convivialidade, o cerne da vida social. Mas isso são outros quinhentos.

Falemos da musica e da cultura do Pontal que, apesar de tudo, sobrevive. E melhor: o que temos a dizer não é do passado e sim do presente. De Junqueirópolis nos veio o Indio Cachoeira, da vizinha Irapurú, Júlio Santin, e como eles, há muitos e muitos outros escondidos naqueles capões de mato e beira de córregos e muitos outros, infelizmente, jamais chegarão ao conhecimento do público. Lembro-me da infância tenra, na fazenda da vez, no radio de pilha, ouvíamos nas tardes de domingo o Ranchinho do Sapucaia, na Difusora de Junqueirópolis, onde de 60 a 80 duplas caipiras, trios, violeiros solos, sanfoneiros se inscreviam para tocar e cantar e muitas vezes as 3 horas de duração do programa patrocinado pela Loja dos Retalhos. E muitas vezes, quando chegava a vez, alguns exímios violeiros e cantadores simplesmente travavam diante do microfone e então existia a figura do “tocador-socorrista” que tomava a frente até os cabras se desenrrascassem e conseguissem tocar e cantar. Alguns simplesmente não conseguiam, o microfone assombrava. Lembro-me de um sanfoneiro, o negro Juraci, exímio em sua arte, o mais entendido de todos, seria o que mais tarde chamaríamos “arranjador”, e ele peão de roça com mãos calejadas, fazia na base da intuição. Não tenho certeza, mas é provável que o famoso Indio Cachoeira, que deveria ter então uns 12 anos, tenha se apresentado lá. Enfim, o que importa é que havia uma efervecência enorme de musica, de cantadores: aquilo fervilhava. Os bailes, as quermesses, as quadrilhas.
Há algum tempo publicamos aqui no ser-tão sobre o belo CD do Levi Ramiro, “Na Trilha dos Coroados”. Levi aborda como tema principal o passado ignoto, os índios kaicangs que dominaram a região até meados do sec. XIX, quando foram exterminados ou expulsos pelos posseiros e grilheiros que no decorrer do sec. XX fundariam as cidades da região: Lucélia, Adamantina, e outras. Junqueirópolis é de 1946. Embora não seja da região – Levi é de Pirajuí – o mestre luthier, violeiro, cantor, contador de causo recria com perfeição algo que chamaria memória sentimental da região. Os bravos Kaicangs desapareceram fisicamente, mas sua lembrança é viva: eu nasci bastante próximo a um córrego cujo nome é uma homenagem aos índios: Ribeirão Kaicang, que no linguajar caboclo se tornou Córgo Canganha. Levi, artista sensível, pega o rastro dereitinho e nada lhe escapa: os trens de carga e de passageiros, com suas 1ª e 2ª classes, as colheitas. (Ao tempo em que eu ainda vivia por lá existia um sujeito que vivia nas margens do “Corgo Canganha” juntamente com uma matilha de cães e que diziam ser índio... seria o Afonso dos Cachoros o último Kaicang? Aguardem o famoso livro de Joca Ramiro,onde o mesmo realiza uma exaustiva investigação sobre o destino de Afonso dos Cachorros!)
O disco de estreia de Julio Santin abre com a bela Irapurú e termina com uma “Colheita do Milho”. Quem é de lá ou já cultivou milho para consumo próprio sabe do significado e do ritual necessário “pra que tudo dê certo”...
O trabalho do Indio Cachoeira, embora não cite diretamente sua Junqueirópolis ou os arredores, é testemunho vivo da força musical dos lugar: região de três fronteiras, por ali se ajuntava gente vindo do Paraguai, do Sul do país, de Minas e do nordeste e seguramente, até do altiplano boliviano. Eram muito comuns as guaranias paraguaias, boleros, tangos, um ritmo que provavelmente vinha do altiplano boliviano, chamado huapango.
O Caipirapurú, encontro de violeiros que acontece na cidade de Irapurú já é uma tradição no estado. E tem tido um papel importante no resgate da cultura regional, iniciativa pioneira visando preservar um importante traço da cultura paulista: foi num desses encontros que se apresentou o mestre sanfoneiro Eujácio Rocha, conhecido desde a década de 1960 por animar bailes, quermesses, quadrilhas e demais festas populares por toda a Alta Paulista com o seu grupo, “Os Tangarás”. Com o êxodo rural e consequente diminuição das atividades culturais e econômicas, o grupo encerrou suas atividades em 1974 e com ele, acreditava-se que um importante ramo da vida artística, riquíssima da região, se ia junto... Graças ao Caipirapurú, em 2003, seu Eujácio Rocha subiu ao palco com uma sanfona emprestada e mostrou como eram os bailes e arrasta-pés de outrora. O violeiro Julio Santin produziu o CD “Baile na Roça”, com belíssimo trabalho gráfico da Musa da Musica Brasileira Kátya Teixeira.
“Baile na Roça” merece ser ouvido, conhecido, divulgado: um primor de registro que mostra toda força, beleza e vitalidade dos antigos músicos de ofício, que indiscutivelmente tornavam a vida camponesa mais alegre. O cenário poderia ser Praça da Matriz de uma daquelas cidades – Junqueirópolis, Irapurú, Flora Rica, Pacaembú, Lucélia, Dracena, Tupi Paulista, etc., - ou nas fazendas que agregavam nas imediações de suas sedes os colonos, 10, 20 ou mais famílias. Se tinha noticia de arrasta-pé, todos os pequenos sitiantes dos arredores chegavam e bastava erguer o encerado de lona e acender o lampião no esteio central. Sobre um velho estrado de madeira e sem microfones, os músicos de verdade comandavam e os pares de dança revoluteavam no chão de terra batida: até o dia raiá!

Conheçam Seu Eujácio, ao vivo.



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