EM TEMPO DE POESIA: VEM AÍ “O TEMPO E O BRANCO”, de Consuelo de Paula

O momento é bastante favorável: diria um daqueles momentos em que os astros conspiram a favor. Tempo bom de cultivar e colher, para a gravação e futuro lançamento do Cd “O Tempo e o Branco”, da cantora e compositora mineira Consuelo de Paula, chamado por ela “o Cd da poesia”, criado a partir de leituras da obra de Cecília Meireles. Lembremos que não são poemas musicados, a obra da inesquecível poetisa carioca serviu de inspiração. O Tempo e o Branco - atenção para os significados, referências, dimensões contidas! - nasceu de uma "conversa" com a obra de Cecília.

Ela sabe o que diz, ela própria poeta, antes de tudo: pensa, age, vive poeticamente. E como não poderia deixar de ser, sofre poeticamente com as dissonâncias da vida, a dura vida do artista que ousa ser independente. Outro, outros caminhos? Existem, é o "mercado", mas o compromisso do "mercado" é outro, a ver com lucros e cifras. O artista, o poeta é porta-voz do povo, de onde extrai sua matéria prima e raramente os interesses com o "mercado" coincidem, ao contrário.
Fora as idiossincrasias inerentes à condição subversiva do poeta, é tempo de arregaçar mangas e pôr mãos a massa; é um bom momento, pois pressentimos que os corações e mentes estão muito receptivos ao dizer poético. Há um interesse vivo pela linguagem, o sentimento poético. Claro que falta muito, talvez nunca se chegue a um mergulho na verdadeira poesia, provavelmente nunca se volte a atingir a importancia que teve na Antiguidade Clássica, mas há bons indicios no ar: inda outro dia fui ao lançamento do livro de poesias do nosso amigo Paulo Nunes e fiquei agradavelmente surpreso com a quantidade de jovens presentes e vivamente interessados em poesia.
A Poesia Necessária
Acredito que a poesia se impõe como uma necessidade para o ser humano dos tempos que correm, sufocado por terrores que mal consegue distinguir na azáfama cotidiana, que mal compreende. Mudança de paradigma? Pode ser. As motivações humanas percorrem caminhos inesperados quando em busca de ar puro, a vida sempre encontra saída! A poesia, ou melhor, o dizer poético, se opõe a racionalização trazida pela prosa, ao conforto contemplativo da sedentarização que por sua vez, leva ao estreitamento da linguagem e do modo de pensar, oculto nos modos comportados da deusa razão. A poesia jorra direto da fonte da vida, sem aparas, sem intermediações; seu comunicar é instantâneo, se vale de imagens, de sons, de símbolos, não se detém no decifrar. Poesia é risco e o ser sedentário não quer risco, não obstante vidas subterrâneas fervilhem dentro de si, almejando o pulsar vital, o atirar-se a frente. Poesia é inspirar e respirar, saltar, mergulhar em escuros, em vazios, em corredeiras de luz.
É provável que as pessoas estejam cansadas da racionalização, da lógica, das certezas malogradas, conseqüência da decepção pelo fim das utopias, todas irremediavelmente destroçadas. A política falhou, a economia idem, os modelos e os ídolos sucumbiram. Contudo, continua existindo, subliminarmente, carência de ver e sentir o fluir da vida sob outro, outros ritmos. Será essa a causa da ânsia pelo ritmo poético, a busca inconsciente de uma sinceridade radical, que só o coração intui? Seria a poesia o reencontrar conosco (a redescoberta do “outro” em nós, enquanto potencial) e, conseqüentemente, com o “outro”, o próximo, aquele que está do nosso lado? Poderia ser o ritmo poético o re-condutor de uma nova e possível comunhão?
O Tempo E O Branco: Testamento Poético
O Tempo e o Branco é mais uma etapa da carreira iniciada oficialmente 15 anos atrás, com o lançamento de Samba Seresta e Baião, ao qual se seguiu Tambor e Flor, Dança das Rosas, Casa e o Cd/Dvd Negra. Consuelo esculpe num único e sólido bloco sua obra, negando-se terminantemente a repetição, a copiar-se. Cantou e louvou o samba, a congada, a toada. Agora, seu trabalho de escultora de música se volta para a poesia, outra tradição brasileira: nossa fértil vocação poética não é de hoje: por cá ressoam ecos de epopéias de toda parte, adaptadas, convergidas. Se na poesia formal, erudita, temos Cabral de Melo Neto, Adélia Prado, Drummond, Manuel Bandeira, Castro Alves, etc., na poesia popular explode a arte pujante dos aedos, rapsodos, payadores, repentistas,cordelistas, poetas de rua, com quem perfilam,qual estrelas cintilantes, Cora Coralina, Patativa, Juca de Angélica. São os legitimos sucessores do Cego Aderaldo, Zé Limeira, Manuel Cabeceira, Preto Limão, Leandro Nunes de Barros, Maria Tebana, Ventania, etc, artistas geniais que reinaram soberbos no nordeste desde meados do século XVII até principios do XX. Nossa gente tem vocação poética, gosta e nela se identifica. O Tempo e o Branco é, num certo sentido, uma retomada de caminho.
O Tempo e o Branco, no entanto, será diferente de tudo o que Consuelo já fez até hoje. Ao “diálogo poético” com Cecília Meireles, juntou-se o melodista Rubens Nogueira, parceiro mais freqüente. Agora, a Voz de Anjo (referência ao momento do Dvd Negra quando Dante Ozzetti improvisa um versinho), caracterizada pelo timbre claro e suave, porém , contundente, com a segurança de quem sabe a que veio, emoldurará poesias: da “conversa” com Cecília, surge seu Testamento poético.
TESTAMENTO
(Consuelo de Paula)
hora clara, hora escura
tarde nem sol nem lua
minha vida espia
casa vazia
ainda sou sua
deixarei poesia pra antônio e maria
testamento de artista escrito com sonhos
deixarei passagens pra becos e lagos
ilhas, esquinas, caminhos distantes
beijos amantes
lembranças, heranças de nada
meu amor explodindo no rosto
na boca, nos olhos de cada pessoa
estive aqui somente por causa do amor
e deixo a minha vontade de te dizer
outras palavras, palavras, palavras
hora clara, hora escura
tarde nem sol nem lua
minha fita, meu guia
canção que eu faria
tarde demais
pra quem serviria
casa vazia
ainda sou sua
Que assim se cumpra:
"Que meu CD da poesia cumpra seu destino e nos traga momentos de beleza. Que minha conversa poética com a Cecília seja abençoada. Que minha conversa musical com o Rubens seja abençoada.Que eu consiga exercer meu ofício da melhor forma possível. E que este bastão seja passado de mão em mão, nota por nota, respiração por respiração, tempo a tempo."
De coração para coração; inspiração. Presença:
“... palavra por palavra,
Em cada bater de asas
Em cada toque de tambor
Em cada pulso do coração
Amor amor amor...”
O poema: um momento, um instante da vida; sob o olhar poético, o mundo muda;
O TEMPO E O BRANCO
(Consuelo de Paula)
sonhei galho de ipê carregado de brancas flores
enquanto o tempo passava pétalas tingiam o ar
breve caminho, longo voo
presente do galho para o chão
encomenda divina e louca
tapete tecido com profunda entrega
beijo e salto mortal
sonhei galho de ipê separado de suas cores
enquanto o tempo passava pétalas cobriam o chão
leve caída, forte gozo
distante dos ares, perto do vão
oferenda franzina e pouca
semente traída, dolorida espera
sexo e amor fatal
a vida sempre espera um sinal
bastão jogado de mão em mão
novamente a folha em branco
afinal, a possível ressurreição



4 comentários:

  1. Anônimo disse...:

    Joel, ao ler seu texto me veio uma coisa boa, assim como as coisas mineiras...Chegou como um vento amoroso. Tá muito bem escrito, profundo sem ser pesado,tá fluido, abrangente e preciso. É visível o trabalho laborioso.Trabalho de alquimista com as palavras com as ideias. E principalmente, coloca o trabalho dela numa ótica humana, precisa/contextualizada. Através de vc, pude ver a Consuelo, suas buscas, seu caminho, seus processos. Tudo que eu posso ouvir nas músicas, mas agora de uma outra forma - mais próxima, mais carne e osso. Ela conversou com a Cecília, colocou a gente na conversa, vc conversou com ela,partilhou com a gente esta conversa.É isso, bom assim, lindo assim. Gracias! Angela

  1. Joca disse...:

    Que bom ver a coisa desse modo: é tempo de falar direto aos corações. Há muita mentira, muito engodo nesse mundo, as pessoas estão confusas. Como foi dito la atrás, acredito que precisamos de uma sinceridade radical, só assim sairemos do atoleiro em que nos encontramos. Que a poesia seja o nosso facho de luz! Olê olerê, como diz a cantiga!

  1. Marisa Viana disse...:

    Belo texto Joel!! Que a poesia seja o fio condutor para a energização de nossos pensamentos, palavras e atos. Que sejam abençoados todos os que nela depositarem seus sentimentos, suas experiências, seu mundo.Falar de Consuelo é falar de alma. Alma de alquimista que deixou as fórmulas matemáticas, os experimentos solitários laboratoriais, por fórmulas poéticas, experiências musicais, fórmulas humanas de doação e amor. De nada valem as vivências se não as compartilhamos. Consuelo, uma flor em nosso jardim terrestre, sabe como fazê-lo majestosamente, sem perder contudo, a delicadeza necessária. O olhar de uma "Flor" sobre as flores da nossa cultura! Parabéns Joel, por sabê-lo captar com o mesmo cuidado, porém sem perder sua força e dividir esta dádiva que a vida nos proporciona. Grata.Marisa.

  1. Joca disse...:

    QUe coisa bonita, Marisa Viana! Linda a imagem de Consuelo como Alquimista, nada mais perfeito, pois o ambiente do laboratório é comum a ela. Eu gostava de imaginá-la como "curandeira" - a musica que cura as nossas dores! - e como escultora e tapeceira de música - vai tecendo, esculpindo, moldando! A isso, agora acrescentamos a Alquimia! BELO BELÍSSIMO! OLÊ! oLERÊ!!!!

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