JAIR RODRIGUES

Por muito tempo a cantiga “Disparada” foi a preferida no meu hit parade particular. Era um encantamento! E não era a cantiga em si, a “Disparada”, de Théo de Barros e Geraldo Vandré, mas a “Disparada” de Jair Rodrigues, aquela por ele eternizada, naquele ritmo ritmo alucinante, do início sussurrado, com algumas tonalidades melancólicas, e que lá pelas tantas desembesta em trovejantes gritos de guerra, aureolados pelos mágicos floreios da viola!

O cerrado, o pampa, a mata, a chapada. As ruas, o povo, a luta, a dança, a alegria desmedida, contagiante. Absurdamente exagerada, assim era a “Disparada”, mas não uma “disparada”, qualquer, mas a de Jair, flecha em chamas nos céus do Brasil,por onde passava deixava um clarão: ninguém ficava indiferente á sua presença.
Criança ainda, ouvia “Disparada” e me emocionava, tecia enredos com aquelas cenas mirabolantes que a letra sugeria e que o comando persistente e contundente do cantor determinava.
Mais tarde convenci-me que a “Disparada” – não uma disparada qualquer, mas a do Jair! – era a música-símbolo do Brasil, superando com honras Ari Barroso, pois seu canto não era somente de exaltação, mas de desbravamento: a golpes de facão, abria picadas nos sertões, nas ruas rompia cercos e revelava as entranhas do país. Fazia estardalhaços: não se fazia de rogado.
Toda honra e glória aos compositores, como diz o Sr. Brasil Rolando Boldrin, mas se Vandré e Theo foram os autores idealizador, Jair Rodrigues foi – literalmente! – o instrumento, o porta-voz. Foi Jair quem lhe deu cara, tornou-a a face do povo brasileiro! De todos os artistas que honraram esta cantiga magnífica, Jair Rodrigues foi a mais perfeita tradução.
Falar e louvar Jair é, como diz o Zé Maria, “chover no molhado”: muitos escreveram e escreverão mais e melhor do que eu; mas em nome do blog sertão paulistano, não poderia me furtar a essa homenagem simples, singela, mas sobretudo sincera para o homem que tinha paixão por música, pela vida, pelas pessoas, pelo Santos Futebol Clube, pelo Brasil!
Parece inacreditável imaginarmos o mundo da música sem sua presença. E de fato, é, inacreditável pensarmos isso, pois Jair, pura energia vibrante, é estrela fulgurante juntada à constelação dos grandes de nossa música: ele está em todas, cutucando, provocando, irrompendo, fazendo da música elemento de comunhão: Da bossa ao caipira ao rap ao samba à canção à toada.
Jair Rodrigues demonstrava no palco e na vida visionária capacidade de diluir diferenças, de harmonizar. Na vida e na arte, poucos conseguiram isso e de memória me recordo do grande Yehudi Menuhim, o violinista clássico que tocava com Ravi Shankar, fazia concertos na Alemanha, em Israel e na Palestina e respondia com um sorriso a cada uma das provocações que lhe faziam.
A Arte, a verdadeira arte, aquela que brota do coração, prova que a paz é possivel.



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