EM TEMPOS CAIPIRAPURÚ:

O Caipirapuru, realizado anualmente na pequena cidade de Irapurú, região da Alta Paulista, consolida-se como um evento regional de muito vigor, com ressonância por todas as cidades circunvizinhas – Junqueirópolis, Dracena, Tupi Paulista, Flórida Paulista, etc. Guardadas devidamente as proporções, diria um fenômeno, em se tratando do tema: a “cultura caipira”, que entra ano e sai ano, muitos declaram extinta, mas ela é teimosa e insiste em continuar desafiando prognósticos: apesar da força avassaladora dos interesses comerciais, que toma conta de quase todos os aspectos da vida, as manifestações puras da alma, ainda tem o seu lugar. O evento Caipirapuru é exemplar na demonstração de como a cultura regional deve ser tratada: sem radicalismos, sem a politização excessiva que divide em vez de unir.

Quando escrevo “caipira” falo essencialmente de um modo de ser, o caipira como ocupante de um espaço no qual transita livremente o patrão, o agregado, o meeiro, não importando ideologia ou classe social. Embora o caipira dos dias de hoje não seja o mesmo de 40 ou 50 anos atrás, sua condição de ser permanece impregnada nas mentes e corações e isso é perceptível à medida em que se penetra no interior paulista, de modo mais ou menos acentuado: o caipira revela-se um tipo humano em plenitude. Há de distinguir “cultura caipira” da chamada marca “caipira”, incorporada por certos meios de comunicação de massa, mais a serviço de setores do comércio e da industria do que da informação correta.
Quem for ao Caipirapurú pensando num típico festival denominado aleatoriamente “caipira” perceberá certas diferenças: não verá congestionamentos de camionetes importadas ou jovens fantasiados de cowboys ou cowgirls, com roupas e botas reluzentes. O publico participante comparece bem vestido, com a tradicional “roupa de domingo”, no entanto, convencional, nada daquelas fantasias mais apropriadas ao circo: é a roupa “normal”, as botinas, a camisa abotoada na gola e nos pulsos, o gasto chapéu, como usa no dia a dia. O comportamento desse mesmo público é de atenção respeitosa, nada de gritinhos eufóricos ou claques comandadas por voluptosas garotas de roupa apertada; artistas e público se (re)conhecem, grande parte dos que sobem ao palco é gente que ele, público, conhece e convive cotidianamente. As crianças não precisam pintar falsas sardas nos rostos ou colocar camisas propositadamente rasgadas ou chapéis de palha ou ainda vestidinhos de chita colorida para serem reconhecidas como caipiras. Aliás, nenhuma imagem pode ser mais falsa do que essas caracterizações para "inglês ver!"
Vendo as coisas desse modo, fiquei a pensar: o Caipirapurú – que nesse 2014 completou a 14ª edição – deve continuar a ser o pólo irradiante que é a partir da manifestação e envolvimento puro de sua gente ou deveria ser ampliado, tornar-se um acontecimento midiático, algo destinado a fazer da pequena Irapurú um evento efervecente de passagem de ano? Não tenho dúvidas de que a primeira opção – ser como é! – está na minha preferência, a se levar em conta o bem estar de sua população e a preservação genuína de sua cultura. Em Irapuru e adjacências, caipira não é uma marca, um design ou outras expressões do mundo business destinadas ao consumo e imediato descarte; o irapuruense é simples e discreto e gosta de ser assim. Tem orgulho de ser como é, aprecia a vida tranqüila, tem uma aguda consciência do controle de suas vidas, do qual não abre mão. Em breves conversas, a única queixa se referia a falta de oportunidades de trabalho, consequencia da prevalência da monocultura da cana. Mas de resto, nem mesmo isso parece importar tanto, quando o que está em jogo é a tranqüilidade, que lhes dá uma sensação de liberdade, num sentido diferente daquele comumente compreendido nos meios sociais que não diferenciam preço e valor: os irapuruenses gostam de ser como são, de conhecer todo mundo: esse conhecer tem um amplo sentido, de identidade, que no fundo é um re-conhecimento: ao chegar ao lugar, tendo a pousada “oficial” já lotada, fui a uma alternativa, onde a dona, a principio, disse não ter vaga. Mas ao me identificar como antigo morador da região que estava retornando, imediatamente fui admitido e tratado como “da casa”, ou seja, a segurança de conviver mesmo que por poucos dias com um conterrâneo é mais importante a relação comercial. Frase de uma moradora local: “Aqui, se entra um estranho na cidade, imediatamente, todo mundo sabe!” Não se trata, como pode parecer a principio, de desconfiança, mas de saber com quem está lidando: em regra, o irapuruense é hospitaleiro e gentil.
A produtora Diná e Levi Ramiro, chegando para a festa.
Por conta desses certos pormenores, o Caipirapuru deve continuar a ser como é, até mesmo por conta da personalidade de seu idealizador, Julio Santin, inspirado pela figura de Gedeão da Viola, o violeiro que tinha com o instrumento uma relação muito particular, que ia além da técnica: Gedeão, que pelo jeito de ser poderia ser um irapuruense (era natural de Barretos), tratava a viola como um ser humano, que o violeiro deve conquistá-la como a uma mulher!, atitude que nos faz refletir quando vemos violeiros “que faz o que quer com a viola”, subjugando-a através de sua técnica. (São maneiras e maneiras de conviver, de tratar a companheira: a violinha subjugada, a mercê de seu senhor, não parece se importar, se porventura o público se cansar de todos aqueles floreados e badulaques. Mas onde se tem viola e violeiros tem-se de tudo, desde o humilde e discreto até o atrevido, provocador e altivo; é uma tradição secular, os desafios, que o baiano Elomar reproduz com a costumeira maestria no álbum Auto da Catingueira, especialmente na parte “Das Violas da Morte”, onde um divertido “desafio” chega às vias de fato!).
O Caipirapuru nasceu como extensão de rodas de viola que Julio e amigos (Mané “Zuada”, Edinho, hoje da dupla Edson Esteves e Fernando, Manelão, etc), entre eles o cordelista Jorge de Jesus Burarana, realizavam pelas casas. Reproduziam um hábito muito comum no passado, quando as comunidades da zona rural eram muito ativas – a transformação da economia na zona rural mudou drasticamente esse quadro, que se tornaram mais e mais restritos. Daí e com o apoio de Levi Ramiro e Zeca Collares, a “roda de viola” foi trazida para a praça e daí para se transformar em evento, foi um pulo: tudo o mais é a história que se construiu ao longo dos últimos 14 anos.
Santin é um filho da terra, nasceu e viveu na região e embora conduza rigorosamente sua carreira de médico na capital paulista, mantém permanente contato com o lugar, onde reside sua família. E como genuíno filho da terra, os traços de “caipira típico” jamais o abandonaram. Discreto, tarefa nada simples em razão de seus quase dois metros de altura, com sua fala mansa e econômica só se manifesta no momento exato: no mais fica por ali “assuntando e observando os movimentos”, como geralmente faz o caipira de fato. Trabalha com denodo na organização para que tudo saia a contento, mas quem o vê pelas ruas em seu passo tranqüilo, imagina-o apenas acompanhando de longe, vagamente, a festa que envolve toda a população local. Julio, com sua música e sua atitude, traduzem perfeitamente o espírito que permeia aquele pedaço de chão. Ele e seu povo, são representantes, portadores naturais da inata “sabedoria caipira”, que, nada tem a ver com o que é mostrado mundo afora, onde a figura do caipira é apresentada através de trejeitos e esteriótipos, seja do ingênuo Jeca ou do esperto Malazartes. O “caipira tipico” é tão somente um “tipo social”, gestado por décadas ou mesmo séculos, que sobrevive utilizando e maximizando os recursos que tem disponíveis. Equilibra-se sabiamente perante as necessidades da vida, “não dá murro em ponta de faca” porque não é doido; sua decantada esperteza não é o equivalente à malandragem. Mas dorme com um olho fechado e outro aberto, pois sabe instintivamente que um dos segredos do viver sem sobressaltos inesperados é ser “velhaco como cavalo de açougueiro”, frase cunhada por Levi Ramiro e que merece reflexão: haverá no mundo algo mais temeroso do que ser “cavalo de açougueiro”, o permanente risco de hoje ser montaria hoje e amanhã bife? O cavalo sabe disso e à 1ª ameaça não hesita em aplicar um certeiro coice no dono ingrato e ganhar a liberdade dos campos.
O Caipirapuru não é somente um evento voltado para músicos e apreciadores da música de raiz, que por si só teria sua validade. É um evento que ganha corpo não por causa das atrações – apesar de as mesmas não serem negligenciadas, grande nomes da musica marcam presença. (Não cito aqui nenhum nome para não cometer injustiças e por fugir ao objetivo da crônica, que é uma abordagem do fenômeno Caipirapurú, e suas ramificações internas e externas, o diálogo artista/público, inexistente nos eventos mass media, onde a figura do artista sobrepõe-se e assim se distancia, adquirindo caracteres quase míticos).
A grande força do evento é o envolvimento de toda a comunidade, da zona urbana à rural: todos colaboram de algum modo, seja trabalhando ou simplesmente prestigiando. Na platéia, todos se misturam, uma confraternização que relembra os velhos tempos das “rodas de violas e de causos”, quando a função de poeta e de cantor se confundia com os afazeres cotidianos do roceiro, do “campeiro”, do mascate. Os artistas que vem de longe para ali se apresentar, por mais nome que tenham, não tem o status de estrelas: vão tocar e cantar não para receber gordos cachês, mas para se divertir, mostrar seu trabalho, trocar experiências, rever amigos, etc. Acredito que seja esse amalgamento e confluência de gostos e interesses, tanto do público como dos artistas, a guia mestra: nasce local, se amplia regionalmente até o limite da identidade, sem cruzar a perigosa e tentadora linha que seria tornar o evento um afluxo reluzente de consumidores; é essa peculiaridade de gostos e interesses comuns que os mantém coesos e nisso reside, creio, seu maior interesse.
Não seria o que é (o Caipirapuru!) se potentes caixas de som estrondejassem na Praça fazendo fugir os perequitos, as araras, as sabiás, os canários, os coleirinhas que continuam suas atividades pelo arvoredo em torno enquanto rola o show; não seria o que é se centenas de agroboys com barulhentas pick-ups e potentes holofotes de câmeras televisivas cegassem os olhos do povo que gosta de alegria e festa, mas não abre mão de ser o que é: o momento festivo tem valor incomensurável, que os milhões de reais que talvez engordasse os cofres de alguns não compensaria, ao custo de tornar a cidade um pandemônio durante três dias.
Aviso aos turistas: se estiverem a procura de agito, a invasão pode ser uma decepção, pois a cidade não tem estrutura, não tem hotel, tem raríssimas pousadas: o irapuruense recebe bem, mas não abre mão de ser o que é. O universo caipira, todo o interior, durante as últimas décadas sofreu violentas transformações no plano econômico e social: trabalhadores braçais das muitas lavouras – café, milho, amendoim, algodão, etc. – aos poucos foram sendo expulsos para as cidades grandes, mas quem conseguiu ficar, manteve inalterado todo um modo de ser e de pensar: por isso e outras, o Caipirapurú deve continuar a ser o que é nesses 14 anos: um pólo irradiador, uma semente viçosa, pronta para germinar, crescer, frutificar. Isso é alvissareiro.
Até o próximo Caipirapurú, se Deus quiser!



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