HISTÓRIA & MUSICA POPULAR & INEZITA BARROSO & BAR DO FRANGO

Embora fuja do espírito deste blog, basicamente dedicado a cultura regional paulista e paulistana, o post de hoje versará sobre livros, um livro em especial: há poucos dias caiu-me nas mãos uma obra denominada “História & Musica Popular”, uma série de textos editado pela Universidade Federal do Piauí. Até chegar às minhas mãos o livro percorreu inusitados caminhos: dica no face, um email de contato, tentativa de contato sem retorno até finalmente o surpreendente contato, acertos, depósito, todos os elementos indispensáveis para um acerto comercial e finalmente o livro vem a mim:

Ao ter em mãos o volume impresso, afinal e enfim, caí em mim e descobri-me surpreso refletindo História e Musica através de uma obra editada pela UFPI! Envergonho-me da surpresa, pois, apesar de minhas origens nordestinas, nunca fui habituado a pensar “piauí”, palavra quase estranha por essas bandas, que reverbera em nosso imaginário como um outro mundo, um mundo arcaico, uma fantasia brotada da cabeça de um cineasta experimental.
Pausa para refletir sobre nossa ignorância do país onde vivemos, ignorância de nós próprios. Mea culpa exposta, sou enfim grato por ser levado a refletir sobre duas coisas que sempre gostei. História e música dialogam há muito tempo, existem centenas de publicações a respeito, embora o acesso não seja algo fácil. Embora musica (e futebol) seja uma paixão nacional, não é tema corrente entre o publico leitor e ouvinte. São poucos os romances que mencionam essa estreita relação, embora o povo brasileiro seja, essencialmente musical – vale mencionar a obra do matogrossense Ricardo Guilherme Dicke, já falecido, onde a musica está sempre presente. Cito aleatoriamente a novela Sinfonia Equestre e o romance Madona dos Páramos. De resto, é assunto sempre restrito à Academia, aos estudiosos. Por isso, peço licença à nossa Editora Chefa Fernanda de Aragão y Ramirez para mencionar esse trabalho editado pela Federal do Piauí e não estou com um número da revista Piauí, a irreverente revista editada em São Paulo!
O espanto – em diversos sentidos - saibam, não é inusual. No nosso imaginário sulista encravado no que se chama “eixo” Rio São Paulo com ressonâncias por Belo Horizonte e Porto Alegre, um pouco Curitiba, não estamos habituados a pensar na vida nas outras capitais que não sejam Salvador, Recife, Fortaleza, um pouquinho Brasilia/Goiania e Manaus. O resto, todo o resto na nação, litoral ou interior, simplesmente não existe para nós. Foi com esse espírito que comecei a leitura e de cara dei-me conta de algo que poria por terra o meu/nosso pré-conceito: uma das eminências do tropicalismo, figura central da cultura brasileira é um legitimo e autentico piauiense: Torquato Neto, motivo mais que suficiente para colocar qualquer lugar no mapa. E o Piauí nem é tão longínquo assim:
Uma breve reflexão: é a história que se apropria da musica ou a musica que se apropria da História? Sem dúvida, caminham juntas, se interpõem ou se intercalam. Se sabe que os estados nacionais, notadamente aqueles de caráter totalitário, procuram intervir o quanto podem na produção musical; todos sabem, por exemplo, que o incentivo estatal chegou mesmo a fazer surgir um gênero musical, o samba exaltação, valendo-se para isso de um dos nossos maiores artistas, o Ari Barroso, que criou um hit que se consagrou como um dos hinos nacionais
(...) Ah! ouve estas fontes murmurantes
Aonde eu mato a minha sede
E onde a lua vem brincar
Ah! esse Brasil lindo e trigueiro
É o meu Brasil brasileiro
Terra de samba e pandeiro..(..)
Aquarela do Brasil, trecho
Na década de 1970 a dupla Dom e Ravel se destacaria compondo canções de louvor as belezas do Brasil, naturalmente usadas pelo governo militar. Lembro-me que na escola rural onde estudei no Pontal do Paranapanema, costumávamos cantar "Eu Te Amo Meu Brasil" nas ocasiões cívicas. Um de suas músicas era tema do MOBRAL (Movimento Brasileiro de Alfabetização), projeto que visava erradicar o analfabetismo do país. Fato era que a ditadura usava as canções da dupla mas até onde sei, não se pode dizer que eles (os artistas) faziam isso conscientemente ou era simplesmente alienados. Com o fim da ditadura, a dupla sofreu até o fim o ostracismo. Justo? Não o sei dizer! O que se pode concluir a partir disso é que o artista deve ser consciente do que é capaz, do lado de quem ele deve estar, deve ser, enfim, consciente do trabalho que faz, do alcance de uma obra de arte no tempo e espaço onde é produzida e conhecida, da responsabilidade que isso acarreta. A verdade é que depois de acontecido é muito fácil atirar pedras e condenar. Mas não se conhece as circunstancias em que tudo aconteceu: muitas vezes o uso de uma obra ocorre, para o bem ou para o mal, à revelia das intenções do(s) autor(es). Todos conhecem, por exemplo, as deliciosas histórias envolvendo a dupla Alvarenga e Ranchinho que viviam sendo presos e soltos devido ás suas irreverências aos políticos da vez, especialmente Getúlio Vargas. Ao longo do tempo são inúmeras as tentativas de cooptação de artistas populares para uso político, algumas bem sucedidas, outras desastrosas para todos. Não acredito, sinceramente, que Alvarenga e ranchinho fizessem deliberadamente oposição ao ditador Vargas. Tinham tão somente uma vocação irresistível à zombaria, de quem quer que fosse, de tudo o que fosse institucionalizado, como se pode ver n'O Romance de Uma Caveira, onde sua irreverência sobra até para Shakespeare. De confronto ou apoio, a história está cheia de situações envolvendo artistas e o poder político: exemplos claros e diretos de politização são as chamadas musicas de protesto das décadas de 1960 e 1970, exemplos visíveis e conhecidos. Enfim, sobre as influencias recíprocas entre musica & e história é discussão que vai longe: o que quero ressaltar aqui é que nós, publico e consumidores, podemos e devemos ficar atentos e deveríamos procurar compreender melhor esses processos uma vez que corre muita grana, dinheiro público (nosso) nas famosas leis de incentivo à cultura cujas intenções pouco contemplam os verdadeiros interessados, o povo e a cultura nacional: ora buscam interesses comerciais, outras simplesmente favorecem aliados e simpatizantes e por aí vai.
O livro.
A obra “História & Musica Popular”, organizado pelos historiadores Assis de Souza Nascimento e Hermano Carvalho Medeiros é composto por nove textos que servem tanto para o estudioso de história e musica, professores em geral, e também para o publico curioso interessado (meu caso), pois traz informações e curiosidades. Pode-se não concordar com uma coisa ou outra, afinal são nada menos que 13 autores diferentes, com visões, posturas e sensibilidades diferentes, que ora se dirigem ao estudioso e estudantes, ora ao público em geral, porém põem à mesa, mesmo de forma fragmentária, essa importante fonte de entretenimento, prazer, conhecimento, análise do cotidiano, expressão de sentimentos e modo de ver o mundo. A música sempre foi ao longo da história um poderoso instrumento de transformação e conhecimento: os acordes de uma danza ibérica do século XVI, a peça Canários, recolhida por Gaspar Sanz, nos faz imaginar como aquele povo bailava; alguns versos de Adoniran Barbosa podem informar mais dos pobres urbanos do que um volumoso catatau escrito por um especialista.
Que bom que essa provocação (pensar história & musica) tenha sido desperta por esses oásis que é o grupo “História, Teatro, Musica e Estética”, vinculado ao CNPq e ao programa de pós-graduação em história da Universidade Federal do Piauí. A amplidão das abordagens, nos instigando a pensar desde os regionalismos, nacionalismos, gêneros musicais, contrapontos que servem de alerta contra o comodismo; a leitura da obra me fez pensar quantos “piauís” existem dentro de nossa metrópole paulistana, conhecida por agregar gentes e culturas de toda parte, mas que no entanto, igualmente segrega, ao criar compartimentos étnicos e classistas que não dialogam entre e que só se notam uns ao outros quando os respectivos territórios são “invadidos”, simbolicamente ou não! Ter me deparado com o livro deixou impressa uma sensação de frescor e achei pleno de sentido os versos da velha canção:
A novidade é que o Brasil
não é só litoral
é muito mais do que qualquer zona sul...
(Noticias do Brasil, os Pássaros Trazem, trecho, de Milton Nascimento e Fernando Brandt)
Serviço:
Textos dos professores Alessander Mario Berber, Adalberto Paranhos, Claudia Cristina da Silva Fontineles, Edwar de Alencar Castelo Branco, Emilia Saraiva Nery, Francisco de Assis de Souza Nascimento, Hermano de Carvalho Medeiros, Jonas Rodrigues Moraes, Juliana Wendpap Batista, Jurema Mascarenhas Paes (ela mesma, a cantora Jurema, filha do Fábio Paes), Maria Izilda Santos de Matos, Paulo Ricardo Muniz Silva, Pedro Pio Fontineles Filho.
INEZITA BARROSO
No mes de março, comemorado como o mês da mulher – se bem que no ser-tão paulistano o ano inteiro é dedicado às mulheres! – demos adeus a um de nossos ícones mais queridos e cultuados, uma das figuras mais importantes de nossa cultura: Inezita Barroso, conhecida como a madrinha ou rainha da musica caipira. O que falar de Inezita? O que falar de uma pessoa tão conhecida, que dedicou sua vida a cultura de raiz? Felizmente ela foi homenageada e respeitada em vida. As emissoras de rádio, os jornais e revistas, muito se escreveu e se disse de Inezita. Modestamente queria ressaltar sua importância como artista, como cantora, e não somente como o ícone da cultura caipira. A verdade é que Inezita foi artista completa: interpretava magistralmente praticamente todos os gêneros musicais populares, era atriz, professora, pesquisadora.
A caracteristica dela que mais impressionava, a meu ver, era o não fazer concessões: simplesmente não cedia a nenhum tipo de pressão, não fazia jogo duplo, não procurava agradar ninguém: era pão pão queijo queijo: nos seus programas não entrava instrumento eletrônico, ponto! Certa vez ouvi dela numa entrevista: “no fim da década de 60, a onda era jovem guarda e em matéria de musica séria, só valia Bossa Nova, aquela coisa da vozinha, do lá lá lá lari, era proibido ter voz! Eu com meu vozeirão tava ferrada!, ninguém queria saber de mim, nem Tupi nem Record, as emissoras que mandavam no pedaço de então!” Isso era muito Inezita, autêntica como artista e como pessoa.
Seu trabalho e sua atuação ao longo de uns bons 60 anos de carreira merece uma análise cuidadosa, é coisa para ficar na posteridade, legado insofismável para as próximas gerações. De nossa parte, aqui fica uma imagem poderosa: sua entrada em cena no Viola Minha Viola, o sorriso fácil, cativante, franco, honesto, como se abraçasse cada pessoa ali presente: mas seu abraço ia além, o abraço de Inezita alcançava todo o Brasil ou mesmo além dele, atravessava mares, ressoava na Ibéria, um dos berços de nossa cultura. Simbolizando nossas múltiplas origens, nosso caldeirão cultural, ela era múltipla artista. Por isso vem bem a calhar o nome hispânico/luso com o qual ficou conhecida Maria Ignez Magdalena Aranha de Lim.
Como forma de homenagem, acho justo reproduzir aqui o que disse o violeiro Paulo Freire, que diz por si:
O “Viola Minha Viola” é o buritizal da vereda. A gente enxerga mesmo nas distâncias. A Inezita era o Viola e muito mais. Sim, volto ao assunto. No tempo que vivemos, cada um tem sua verdade absoluta, parece que os cadernos de economia são sua principal referência. A Inezita nos encaminhava para a roça, para a importância de uma palavra empenhada ter mais valor que um contrato assinado, para a solidariedade (nos tempos que morei no sertão não havia mendigos, só “caminhantes”). Diferentes caminhos. O siô e a siora já repararam que o chão respira depois de uma chuvarada?
Grande Paulo Freire! De minha parte, lanço a ideia: que tal Paulo Freire para comandar uma nova etapa do Viola Minha Viola?
Tendo a grande dama Inezita Barroso como tema, o Sarau do Bar do Frango – aquele que é para poucos! – do próximo domingo será imperdível. Organizado por Mari Ananias, terá as presenças de Graziella Hessel, d’As Vozes Bugras, a maravilhosa Monica Alburquerque e muito provavelmente a mágica presença de Consuelo de Paula. Na ocasião será inaugurado um retrato de Inezita feito pelo artista plástico Sakae Tokumoto. Imperdível, será no domingo, 29/03, com inicio as 18:00 horas.
O Bar do Frango, recanto de resistência da cultura brasileira tradicional, por onde se apresenta alguns dos nossos maiores artistas – cito de passagem Katya Teixeira, Amauri Falabela, Levi Ramiro, João Bá, Dani Lasálvia, Vidal França, Paulo Matricó, Marcus Santurys, o amazonense Antonio Pereira, o baiano Walter Lajes, tantos e tantos outros – realiza o tradicional Sarau todo último domingo de cada mês. Todas as edições são especiais, mas esse será especialíssimo. Além das apresentações de primeira, a simpatia do Tatau que a todos e todas receberá de braços abertos, com boa cerveja e petiscos a preços honestos. E a entrada é grátis!
Inezita Barroso, pelas mãos inspiradas e iluminadas de Sakae Tokumoto, em 1 x 1,2!



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