OCUPAÇÃO ELOMAR

Está em cartaz no Itaúcultural até 23/08, a exposição Ocupação Elomar, belíssima iniciativa, privilegiando renomados artistas nacionais, trazendo-os para mais junto do público que tem acesso não só à obra em si, mas também permite um olhar quase íntimo do artista e seu processo criativo, aspectos do cotidiano como fotografias familiares, bilhetes, objetos caseiros, diários, anotações, etc.

Elomar Figueira de Melo é poeta, compositor, cantor, escritor, criador de bodes, arquiteto e outras coisas mais: se o chamarmos de andarilhos de mundos, tal não seria incorreto.
Salvo engano, tem aproximadamente 11 discos gravados, pequena parte de uma imensa obra já partiturizada que inclui peças sinfônicas, árias, operetas, etc., e segundo o próprio tem outro tanto dentro de sua cabeça, prontas para ganharem o mundo. De seu trabalho sinfônico, duas peças podem ser encontradas completas: Fantasia Leiga Para um Rio Seco e Auto da Catingueira, que considero o núcleo central de seu trabalho. O álbum duplo Na Quadrada das Águas Perdidas, produzido por Marcus Pereira é uma lenda para seus apreciadores, pois pode ser considerado uma importante síntese de sua obra. Nesse disco estão “cenas” d”O Tropeiro Gonzalin” – que nunca foi gravado completo -, d’O Auto da Catingueira e canções “avulsas” de várias etapas de sua carreira até então (o disco é de 1981). É um material que se destaca sobretudo pela riqueza de ritmos e estilos. Dentre os demais discos, destaque para o álbum de estréia, “...Das Barrancas do Gavião, de 1973, com texto de apresentação por Vinicius de Moraes. Nele estão canções antológicas, como Cantiga de Amigo, O Violeiro, Retirada, que fez parte da trilha sonora da novela Gabriela. Nota: nesse disco se encontra a primeira e pode se dizer definitiva versão d’O Pidido, o “canto de Dassanta”, a mulher tão bonita que “...inté fazia horrô...” causadora da disputa mortal entre um cantador errante e um modesto vaqueiro, tema central do Auto da Cantingueira. Na parte “Das Violas da Morte”, Dercio Marques e Xangai protagonizam o terrível Desafio que tornou imortal a donzela por quem “...muinto saingue derramo/ Conta os antigo qui ela/ Dispois da morte virô/ Passu d’asas amarela/ Jaçanã, pomba fulo...” Imperdível e dramático, como nunca se viu , essa ópera que nada tem a dever a Goethe ou Shakespearre, que merece noitadas de gala no Teatro Municipal...
Ao longo do tempo o compositor tornou-se extremamente complexo: as canções ligeiras dos primeiros tempos aos poucos deram lugar a um eruditismo crescente, cujo valor é ainda imensurável. Destaque para a série de Antífonas, um tipo de ofertório derivados dos Salmos. O canto religioso, por sinal, cada vez se incorpora ao trabalho. Muito pouco desse trabalho chegou ao restrito público que o assiste nas poucas vezes em que se dispõe a sair de seu refúgio nas cercanias de Vitória da Conquista, caprichosamente batizado por ele desde sempre de Casa dos Carneiros. O disco Árias Sertanicas, com participação especial de seu filho João Omar, traz trechos da ópera A Carta (ou Béspas Esponsais, relatos trágicos de casamentos fracassados).
Embora seja praticamente desconhecido do Grande Público brasileiro, o baiano natural de Vitória da Conquista, sertão baiano, é figura lendária, seja pela sua arte singular seja pela própria figura que ele encarna: de chapéu, botas, cabelos e barba crescidos, penetrantes olhos azuis, voz poderosa e grave. Nele, misturam-se as figuras do artista, de um personagem um tanto mítico e do homem em carne e osso, criador de bode. Muitos dizem-no “medieval”, o que seria ao mesmo tempo uma redundância e também uma imprecisão: “medieval” ele é, por esse período da história da humanidade servir-lhe de manancial abundante; impreciso pois se aquele rico período da História lhe serve de inspiração, é do destino do Homem, de qualquer tempo, de quem ele fala. Numa de suas composições mais conhecidas, “O Pinhão na Amarração”, vemos que pode muito bem ser o vaqueiro sertanejo ou o “peão” de fábrica ou de escritório, cada qual sonhando, quiçá, com um mundo onde não seria possível “...não ser mais empregado e também não ser patrão”; são anelos do “homem”, em qualquer época. Também o personagem da peça “Faviela” pode ser um vaqueiro sertanejo ou um jovem pobre da cidade que foi preterido pela amada.
A atmosfera do mundo mágico medieval lhe serve muitíssimo, ali ele se sente perfeitamente a vontade: pode encarnar o Narrador (figura chave daquele universo), o Grande Senhor do Castelo ou o pobre vassalo, o servo. Em cada um, entretanto, prevalece a voz do Homem, sempre um solitário peregrino, em qualquer tempo. Certa vez, numa das duas ou três conversas que tive com o bardo, perguntei-lhe porque ele nunca se referiu em seu trabalho aos acontecimentos de Canudos ou ao Cangaço: mui respeitosamente e com grande segurança mo respondeu: “Meu amigo, não obstante a importância desses temas, não me interesso pelo coletivo, mas sim pelas vicissitudes do peregrino, em sua solidão pelos caminhos da vida...” (Não estou seguro da exatidão das palavras, pois já faz muito tempo, mas foi precisamente esse o sentido de suas palavras, o que por si muito diz)
Embora seja, o homem e o artista, extremamente complexos – coisa que por si valeria uns bons volumes biográficos - , lá na Ocupação Elomar, quem for, terá oportunidade de ouro de um breve olhar, um “insight” breve no seu mundo, mas se igualmente desejar, pode mergulhar a fundo em sua obra musical, pois , praticamente tudo o que foi gravado por ele lá se encontra e pode ser ouvida através de LPs e fitas cassetes. Também por lá estão expostos parte de seu trabalho de arquiteto, como os projetos de sua moradia, de cadeiras que tem como matéria prima couro e madeira, material comum em sua região serteneza, e provavelmente sua grande obra arquitetônica, o teatro Domus Operae.
O rótulo “música medieval” pode ser um enorme equívoco, pois torna superficial algo cujas verdades só podem ser encontradas a grandes profundidades. Vejamos, por exemplo, a musica do catalão Jordi Savall: seu objeto é a musica antiga, até onde é possível: reconhecemos ali não só o registro de uma época, mas singularidades que até os nossos dias continuam presentes através dos folguedos, que adquirem por toda parte novos elementos. Porém, a identidade básica remonta ao mesmo tronco – jigas ou Gigas, danzas, romances, malambos, epopéias, , galopes estradeiros, sagas, etc. – o que assegura sem sombra de dúvida a universalidade do espírito humano.
Uma possível imagem poética a fazer jus ao que significa Elomar para nossa cultura poderia sair da boca de um sábio erudito ou de um matuto: ele canta e louva os dias esquecidos!
Todos, matutos e eruditos, ao ouvirem suas cantigas, talvez convivam com estranhos sentimentos, uma tristeza longínqua, indefinida e misteriosa. Nesse ponto, campônios e citadinos se encontram, se reconhecem, se igualam: ponto de intersecção, milagre que só a Arte – Divina Arte! – é capaz de produz, ao anular diferenças de classes, de raças, de idades: proviemos todos da mesma humanidade, somos todos uma grande irmandade, como diria o poeta Octávio Paz em seu poema Hermandad:
“Sou homem: duro pouco
e é enorme a noite.
Mas olho para cima:
as estrelas escrevem.
Sem entender compreendo:
Também sou escritura
e neste mesmo instante
alguém me soletra.”
Elomar Figueira de Melo forma com Guimarães Rosa e Ariano Suassuna a poderosa trinca de decifradores do nosso sertão: cada qual em seu Grande Sertãomundo – que pode ser de qualquer deles, que está longe, que está logo ali ou bem aqui, dentro de nós.
Vão a exposição Ocupação Elomar, no Itaúcultural e arreparem bem: aquilo não é tão estranho e diferente de nós quanto pode parecer: aquilo é parte do que somos.
SERVIÇO: Itaúcultural, Av. Paulista, 149, Bela Vista, próximo ao Metrô Brigadeiro.



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