Em boa hora veio o filme “As Dores do Mundo”, biografia do
cantor e compositor Hyldon, de Emilio Domingues e David Rodrigues.
Hyldon é uma daquelas figuras emblemáticas dos anos 1970,
como Sidney Miller, Abílio Manoel ou Luis Carlos Paraná, personagens musicais fulgurantes,
que brilharam por um instante e saíram de cena pouco tempo depois, por vários
motivos. Muitos se perderam, no ostracismo, todavia, alguns outros jamais
perderam o brilho sendo lembrados décadas depois. É o caso do baiano Hyldon de
Souza, que 50 anos depois do lançamento do antológico álbum “Na Rua Na Chuva Na
Fazenda”, desperta vivo interesse, o disco se tornando objeto raro nas mãos de
felizes colecionadores. No mesmo álbum,
a faixa “As Dores do Mundo”, completa um ciclo que jamais voltaria a ser
repetido. Hyldon acabaria marcado pela maldição de artista de um disco só, mas,
nesse caso, vale a pena ressaltar, que sua concepção não foi casual. Foi tratado
e cuidado em silêncio, maturado ao longo de um certo tempo enquanto Hyldon,
profícuo compositor e produtor, abastecia cantores da época com obras menos
relevantes. Ao ser lançado, “Na Rua Na Chuva Na Fazenda”, foi um fenômeno instantâneo,
com suas letras simples e fortes, imagéticas, temperadas por intensa poética.
Entretanto,
sabe-se lá por que, depois do estrondoso sucesso de “Na Rua na Chuva na
Fazzenda” e “As Dores do Mundo”, Hyldon sumiu de cena. (o filme,
propositalmente não se aprofunda nesse aspecto, afinal, é o destino de dezenas
de artistas ao longo da história).
Em se tratando de Hyldon, na
verdade ele sumiu da mídia, da grande mídia, bem entendido. A Grande
Mídia, essa entidade de humor esquisito, quando cisma com alguém, anula a
vida e obra desse alguém a seu bel prazer, que passa, então a deixar de
existir. E mesmo que continue a carreira, tem d se virar sem o necessário aparato
de divulgação, Desprovido de capacidade de divulgação, é como se fosse decretada
uma espécie de morte civil e artística. Não me lembro, um momento algum em
dezenas de anos de ouvir falar em Hyldon: para todos os efeitos, Hyldon
sumiu mesmo!
Ante a ausência de notícias,
surgiram inúmeras lendas. Umas dessa ouvi de um frequentador num sebo no Centro
de São Paulo. Disse ele que Hyldon havia se casado com uma milionária e vivia numa fazenda paradisíaca, ou seja, a
materialização do cenário “Na Rua Na Chuva Na Fazenda”... Outras lendas davam conta
de uma reclusão voluntária, ao estilo de Geraldo Vandré. Outras histórias
mencionavam prováveis protestos contra o
stablichment, embora em nenhum momento Hyldon tenha se posicionado como
um ativista anti-sistema.
Foi uma enorme, quase
inacreditável, surpresa que vi na programação da 50ª Mostra de Cinema de São
Paulo, 2026, uma cinebiografia do artista, em exibição na sala da Biblioteca
Roberto Santos, a única especializada em cinema da nossa cidade. (Foi exibida
em outros locais da rede SPCine, não me lembro se passou – ou vai passar – nos conhecidos
points de nossa cidade, o que não é de se estranhar, em se tratando de
um artista fora do circuito...).
Fui ao cinema com grandes ansioso por esclarecimentos. Que dizer de
lendas? Verdades? Mentiras? Conversas jogadas ao vento? Ou nem uma coisa nem
outra, apenas a folclorização daquilo que não sabemos ou compreendemos?
O filme é curto. É como se fosse
um olhar sobre a vida e obra de um artista que atualmente vive quase no
anonimato. Mas Hyldon, artista e cidadão, aparece por inteiro, revelando a
passagem do tempo... Seria preciso um roteirista de grande habilidade para
criar um personagem tão complexo e que espanta justo no oposto: a simplicidade:
Hyldon vive imerso no mundo da música; isso explica tudo.
Logo no início o filme mostra um
rápido panorama de seus primeiros anos entre a capital baiana e o interior ,
até vir para o Rio de Janeiro com a mãe, o padrasto e irmãos e irmãs na sua faixa de idade.
Detalhes são supérfluos, pois o foco principal é sua “formação artística”
incomum, 100% autodidata. Destaque, nestes primeiros anos para a presença do
ainda desconhecido Tim Maia e os encontros inesquecíveis que contava, dentre
muitos outros, a presença de outros então desconhecido Cassiano. Nesses
encontros começava a ser fermentado o que seria conhecido como soul music
brasileira. Ou como diz Sandra de Sá em vários momentos, “soul musica
preta brasileira”. Num dado momento do filme, o próprio Hyldon confessa ter
se descoberto preto ao constatar a profunda identificação que o ligava a música
negra americana, de matiz romântica, marcada por sofisticados arranjos
instrumentais e vocais, caracterizada pela ampla liberdade criativa e profundo
sentimento (no futuro, entretanto, Hyldon se negou a fazer versões de suas músicas
para o inglês, alegando que seria uma descaracterização do próprio estilo. Seu
grande orgulho é saber que o público americano ouve suas músicas em bom portugues,
num processo inverso, um tipo de colonialismo cultural às avessas, com a
Metropole se rendendo ao distante mundo periférico. Nas lojas especializadas do
Harlem, seus discos disputam espaço com Marvin Gaye, Sam Cooke, Aretha Franklin,
etc).
Saí do cinema feliz da vida,
acordes e imagens ressoando. Um filme curto e denso, rico em detalhes
pitorescos, formando um mosaico que diz muito sobre o mundo da música dos anos
1970, que ia muito mais além do que nos é dado conhecer. Havia poucas pessoas
na sala – talvez pelo horário. Sem o querer e sem assim se expressar, Hyldon da
dicas de como sobreviver, artisticamente falando, num mundo sem pertencer a
nenhum grupo, a nenhum movimento especifico e mesmo assim, manter a integridade
criativa.
Como um disco pode ser capaz de
manter interesse às novas gerações 50 anos depois do lançamento? Atenção para
os depoimento de Arnaldo Antunes, Sandra de Sá, do produtor Jairo Pires, entre
outros.
O mistério sobre o desaparecimento de
Hyldon continua. Não se trata de estratégia, manter em torno de si a aura de
mistério, à moda Geraldo Vandré ou do escritor curitibano Dalton Trevisan.
Hyldon de Souza simplesmente não permite que sua vida íntima seja exposta. Mas
faz isso meramente por intuição e não por estratégia.
Aparentemente ele nutre uma
profunda indiferença às luzes do estrelado.
Pra concluir, uma boa notícia:
Hyldon continua compondo e fazendo
shows para pequenos, mas fiéis públicos que curtem sua arte. Canta e compões
por que gosta, porque se sente bem, sem muitas delongas. Parece dar-se conta de
que a vida, especialmente a porção “vida artista”, é efêmera e nisso está a
graça: a glória é o momento vivido, eis o grande barato. Desde seu sumiço fez
12 ou 14 albuns, num processo muito parecido escritores de cidades longínquas
que escrevem para consumo local.
Hyldon se diz um homem feliz e a
serenidade da declaração faz crer que está sendo absolutamente sincero. Ele não
propôs revoluções – nem políticas nem estéticas nem de linguagens; não propôs
sociedades alternativas. Quis apenas ser um cantor romântico que aprendeu muito
bem seu ofício e por isso se sente
realizado. Sempre atento e afeito, fiel a seus princípios de maneira simples e
clara: não se propões a ser um enigma – apesar de que, como ser humano e ser
artístico, ter seus mistérios.
Termino essa breve reflexão sobre
esse artista que marcou a vida de tantas pessoas, com uma curiosidade que pode
(ou não!) explicar alguma coisa: o filosofo alemão Arthur Shopenhauer
influenciou a composição d’As Dores do Mundo”, embora a música tenha nascido oficialmente
ao atravessar, a pé, um túnel na cidade do Rio de Janeiro, à noite, sob intenso
barulho de motores dos veículos.



