Divino Espírito Santo

Fachada das Casas em São Luiz do Paraitinga

Eu não sabia, três anos atrás, que minha volta a São Luiz do Paraitinga se daria na Festa do Divino e que me traria sensações diferentes das quais me acostumei, com minha vida, meu corpo e pensamentos urbanos. Trocar os grandes arranha-céus por uma cidadezinha colonial, incrustrada no meio da Serra do Mar, não é exatamente uma balada para minha solteirisse e qualquer praia do nordeste seria mais apropriada. Mas eu sou boa em, aos 30, realizar uma série de passeios que a gente faz com pai e mãe quando a gente tem 10 anos, e que aos 10 anos, tudo bem, tudo que vier é lucro. E eu também sou boa, muito boa mesmo, em, aos 30, realizar so-zi-nha outra série de passeios que a gente só faz com namorado a tira-colo, e que só assim fazem sentido, principalmente se a temperatura estiver bem uns 5 graus e você quer se proteger daquele vento gelado que corta a pele.

Só que nem sempre eu estou sozinha nesses passeios e, calmamente, vou me especializando em segurar vela. Quer dizer, eu não fui sozinha para São Luiz do Paraitinga e nem vi um grande problema quando os amigos - estes que são pau-pra-toda-obra e que eu admiro, cultivo e respeito - deram uma folgadinha e, na divisão dos assentos, no jantar de sábado à noite, decidiram ficar todos os quatro de um só lado da mesa e a trintona aqui, do outro, apenas na companhia de uma coruja de madeira, um chapéu e algumas bolsas em cima de uma das três cadeiras livres, que faziam fila ao meu lado.

Pouco tempo depois alguns moradores da cidade chegaram e sentaram próximos. Eu os reconheci por ocasião de ter me encontrado com um deles, três anos atrás. O coração quase saiu pela boca, as palavras se viram presas, pegas pela surpresa do encontro e quando nossos olhos se cruzaram em busca de confirmação, baixei os meus para que tudo ficasse como estava. Sem saber o que fazer, melhor foi devorar o pedaço de pizza que havia chegado e pensar que a tarde tinha sido mesmo maravilhosa por conta do almoço com os amigos e da cavalhada.
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Um dos pontos altos da festa do divino é a cavalhada, folguedo popular em que os cavaleiross vestem roupas coloridas (azuis e vermelhas), que representam cristãos e mouros. Num grande campo de batalha, de um lado, o lado do poente, 12 cavaleiros cristãos vestidos de azul, a cor do cristianismo, lutam contra 12 cavaleiros mouros vestidos de vermelho, encastelados no lado do sol nascente. No final da longa batalha, vencem os cristãos que ainda conseguem converter os mouros ao cristianismo.

Cavaleiros cristãos alinhados para a batalha.


Mouros e cristão se enfrentam um a um, na lutas das espadas.


Mouros e cristão fazem a batalha das espadas cruzadas.

Mouros e cristãos se apresentam de forma intercalada.

Mouros e cristãos representando a batalha final.


Representação da morte dos Mouros.

Representação da tomada do Império Mouro pelos cristãos.


Representação da Conversão dos Mouros ao Cristianismo.

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A Festa do Divino, em São Luiz do Paraitinga, acontece todos os anos, cinqüenta dias após a páscoa, quando os moradores enfeitam suas casas com bandeirinhas e fitas coloridas. De origem européia, a festa do divino representa o agradecimento do povo ao espírito santo pela fartura da colheita. Novenas, procissões, queima de fogos, paus-de-sebo e danças folclóricas como as congadas acontecem ininterruptamente de manhã e à noite nas ruas da cidade, durante dois finais de semana seguidos.

Um grupo de congada em visita a Casa do Divino.

Aprsentação da Banda na frente da escadaria da Igreja Matriz.

Grupo de congada se apresentando nas ruas em frente da praça.

Saída da procissão em uma das ruas em frente à praça.

O casal de bonecos gigantes João Paulino e Maria Angu.

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Você já foi a São Luiz do Paraitinga? Não? Então vá. É, por certo, a síntese das "Cidades Mortas" do Vale do Paraíba de que falava Monteiro Lobato. Depois do café, um século 20 economicamente gris preservou, na base do imobilismo mesmo, a memória arquitetônica do lugar, hoje tombado pelo patrimônio histórico. Felizmente os costumes, as festas, a comida e a moda de viola também ficaram.

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São Luiz do Paraitinga, fica a 177 quilômetros de São Paulo, na Rodovia Oswaldo Cruz, entre Taubaté e Ubatuba. Fazendas com arquiteturas do século XVIII e XIX estão abertas à visitação: Boa Vista, localizada no bairro de Santa Cruz, a 16 Km de São Luiz, e Paineiras, no bairro do Rio Claro, a 10 Km da cidade.



8 comentários:

  1. Carlos Henrique disse...:

    Ô Fernandinha, como assim ficar sem saber o que fazer, levante esses olhos e veja a vida, bonita ou não mas é a vida,mas a sua compania é sempre agradavel. Bjs Catito

  1. Joana disse...:

    Fê...
    Que bom que você não se importa muito quando os seus amigos dão uma folgadinha! rsrs
    Nunca fui para São Luiz do Piraitinga. Quando tiver oportunidade irei sim! Pois eu adoro observar as arquiteturas antigas e colocar minha imaginação pisciana para funcionar, relembrando aquela minha saudade!
    E por falar nisso, adorei ontem! Matei a saudades que estava de você e ainda tive o prazer de conhecer o famoso Zé Maria!
    Bjos.

  1. joca disse...:

    Olha, dá uma vontade de ir até São Luiz do Paraitinga ver essa batalha medieval, segurando vela ou não... Ver o rei Carlos Magno e os Doze Pares de França. E o Grupo Paranga, daria uma canja por lá?

  1. ô Catito, tem veiz que nóis num espera os acontecimento né? Daí branqueia as idéia tudo... e enquanto os pensamento penseia na gente, nóis vai mesmo é pra frente sim... beijos

  1. é Joca... ficar em casa a perder a vida que não dá, né não? De Paranga eu pouco sei, porque nunca vi, isso é coisa de Zé Maria, enquanto eu fico cá, no aguardo da oportunidade de poder ouvi-los dia desses, nem que seja em LP na casa de Zé.

    e Jô, devo dizer, muito bom te ver também!

    bjs

  1. JOCA disse...:

    Pois é fernanda. Vamos ver se o Zé Maria nos dá notícias do Paranga. Eu tenho o LP - quase mítico - e sei que tem em CD, apesar de eu nunca ter visto. Se não me engano, o Paranga se desfez, foi cada um pro seu canto... Esse Vale do Paraíba tem história, hein?

  1. José Maria disse...:

    Ô Joca, o Paranga continua mais vivo do que nunca. O Negão, a Renata e o Nhô, do grupo orignal continuam firmes e fortes se apresentando inclusive aqui em São Paulo. No post do Elpídio a foto é o Negão e a Renata em apresentação do Paranga. Abraços.PS. Se quiser ver o CD eu mostro.

  1. Meg disse...:

    Prezada Fernanda e colaboradores,
    Ao encontrar esta matéria sobre a Festa do Divino e sobre as Cavalhadas meu coração se encheu de alegria. Sou gaúcha, da cidade de Gravataí, e aqui as cavalhadas existiam , pois agora já fazem mais de 15 anos que não correm por aqui, apenas em municipios vizinhos como Glorinha e Santo Antônio da Patrulha, todos municípios de colonização açoriana. Me criei assistindo Cavalhadas, que ocorrem não só por ocasião da Festa do Divino,mas em comemorações das Festas de Igrejas locais como comemorações dos aniversários de municípios. Sinto muita saudade,inclusive eu e meu pai narramos Cavalhadas, isso é, com um sistema de som no campo vamos explicando parte por parte do que esta acontecendo, por acaso isso ocorrem em São Luiz do Paraitinga? Quando costuma ter, somente por ocasião da Festa do Divino?
    Muito obrigado por partilhar esta sua experiência e assim continuar mantendo viva esta tradição tão linda não só para o interior paulista, como gaúcho mas para todo o Brasil, onde as Cavalhadas são revividas.
    Beijos
    Marília Alves

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