Vai passear! (...) Então eu fui, uai!

Museu Paulista ou Museu do Ipiranga, Parque da Independência.


Como qualquer pessoa eu estremeço quando atendo ao telefone e do outro lado da linha, vem de uma vez só e numa voz que nunca ouvi antes, meu nome e sobrenome, com um leve pingo de engasgo.

É que meu nome, com cinco pedaços, é passível de gagueira. Facilitaria se qualquer uma destas partes fosse um verbo, porque certamente deixaria de ser um nome para se tornar frase completa, com sujeito e predicado. Mas sem o verbo, a pessoa do outro lado da linha engasga. Engasga porque, além de ser uma oração ausente, tem um “e” minúsculo no meio, uma conjunção que só complica as coisas.

Então, quando sou vítima do engasgo, eu já sei: quem está do outro lado da linha não me conhece e vai querer me vender alguma coisa.

- eu já tenho cartão com anuidade grátis, não quero outro, obrigada!
- mas, senhora, nossa proposta é diferente - blá blá blá -, qual é a sua profissão?
- sou professora.
- da rede privada?
- [hum, que gente intrometida!] aham.
- qual seu salário bruto?
- tanto!
- óquei, senhora, infelizmente não podemos continuar com a proposta, tenha uma boa tarde!

Não deu, porque a mocinha deveria estar com pressa e desligou o telefone bem rápido, mas eu queria ter lhe agradecido por deixar de tomar parte do meu tempo, e agradecido, muito mesmo, por me mandar passear assim de modo tão enfático e por eu ter descoberto uma maneira sutil de dispensar as operadoras de cartão de crédito. Na próxima vez, para me garantir, vou dizer que sou professora da rede pública. Até já imagino o diálogo:

- blá blá blá, qual é a sua profissão?
- sou professora.
- da rede privada?
- não.
- óquei, senhora, infelizmente não podemos continuar com a proposta, tenha uma boa tarde!

É, fora da “privada” teria sido muito mais fácil (e mais rápido), porque eu economizaria em salário e ganharia mais tempo para ter uma boa tarde. Eu olharia mais cedo pela janela - como fiz assim que coloquei o telefone no gancho - e decidiria ganhar as ruas da megalópole mais cedo também.

Eu teria pego um farol antes em direção ao Parque da Independência e teria tido um farol a mais para curtir a fonte instalada nos jardins inspirados naqueles do Palácio de Versalhes. Já as cinco palavras que deixariam de ser pronunciadas teriam me dado a chance de eu curtir a Casa do Grito ou de ver, por mais uma vez, o quadro "independência ou Morte", de Pedro Américo, exposto no Museu do ipiranga. Mas quando por lá eu cheguei, passavam vinte e poucas letras das cinco.

Tudo bem. Eu ainda teria dois parágrafos a mais para sentir o vento de inverno sobre minha pele, quando decidiria, seguindo o conselho da moça da operadora de cartão de crédito, ter a minha boa tarde, vestida com meu sobretudo "José Paulino", minha boina "25 de Março" e um cachecol feito de próprio punho.


"Independência ou Morte", Pedro Américo, 1888.

Casa do Grito, Parque da Independência.



5 comentários:

  1. Carlos Henrique disse...:

    Ô Fernandinha, te conheço mas não sei o seu nome todo,com esse montão de nomes ta certo ir ver seus conterraneos no Museu, tão pertinho de casa né!Bjs e saudades Catito.ps: nossa faz tanto tempo que não vou lá.

  1. Joca disse...:

    Ah, mas tenho uma técnica infalível: atendo o telefone calmamente, deixo a pessoa falar, ouço, e digo que o negócio dela é excelente, mas não estou interessado. Se insistir, repito que não estou interessado, mesmo sendo o melhor existente. E assim, fico repetindo, como um mantra... Garanto que assim consegui me livrar inté da LBA!

  1. liza disse...:

    parabéns pelo seu texto!!
    está maravilhoso!!
    a técnica do Joca, É muito boa!

  1. José Maria disse...:

    Antigamente as formas de vendas diretas eram os “mascates” passando de cidade em cidade, de casa em casa oferecendo “quase tudo” a que nossos pais não tinham acesso e conheciam ouvindo a Rádio Nacional, lendo a Revista do Rádio, a Manchete e a maior influencia americana a gloriosa Seleções do Readers Digest. Eram chamados de “os turcos” independente de qual o pais de origem e, eram bons, tinham a técnica de vendas, negociavam demais e isto com um vocabulário de poucas palavras em portugues. Hoje temos as meninas do Marketing Direto. Nas andanças pelo nosso Sertão Paulistano , em vários bairros, somos abordados pelos “chineses”, também independente se são originários da China ou das Coréias, e que também falam umas cinco palavras da nossa língua. Serão os “novos turcos”?. Eu sempre “viajando” nos textos da Fernanda, e enquanto não houver censura prévia...

  1. Catito, que vergonha, você mora tão pertinho!!! Eu só fico meio abobalhada das pessoas nem saberem que a Casa do Grito fica aberta à visitação. E tem tanta coisa nesta cidade aqui...

    Joca... você ainda tem paciência de ficar escutando... você é meu ídolo!!!

    Liza... obrigada! Fico feliz por ter gostado... :)

    Zé, você como sempre fazendo a intermediação histórica da coisa... um poço de cultura (no bom sentido, claro!)

    Vamos seguindo!!!

    Beijos

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