Uísque na Cidade (por Catito)


Antigo Largo São Gonçalo (1892). Hoje, Praça João Mendes.


Adoro uísque, gosto mesmo, sinto prazer em tomá-lo e, pensando bem, acho que foi minha avó que me levou a gostar tanto do danado (sem querer, obviamente), afinal, a primeira vez que pus um uisque na boca devia ter uns sete anos. Foi mais por medicina do que por prazer. Este veio mais tarde, bem mais tarde.

Depois da escola, me encontrava com minha avó no Palácio Maúa, Viaduto Maria Paula, ao lado da Praça João Mendes e subíamos a av. Brigadeiro até em casa. Passávamos em frente ao Cine Teatro Paramount (qualquer hora eu conto sobre ele) e parávamos na padaria Java, esquina da Rua Jaceguai, para o lanche da tarde. Nas férias eu ia lá sozinho e, um dia, recebi uma das maiores lições da minha vida, a de ser honesto. É que minha avó havia me dado um dinheiro para as compras e o rapaz da padaria deu o troco errado. Cheguei em casa todo feliz: “vó, olha vó, o moço da padaria me deu mais dinheiro do que devia eu ganhei um montão de dinheiro”.
Ela me olhou, perguntou se gostaria que fizessem isso comigo e me obrigou a ir devolvê-lo, dizer que jamais fizesse isso de novo. O rapaz me agradeceu tanto, que até hoje não esqueço. Depois disso, toda vez que eu ia lá, ele vinha logo me atender e sempre me dava umas carolinas ou docinhos para levar.

Voltando ao uísque, vez ou outra íamos ao Cine Arlequim e numa doceira lá perto da av. Paulista, a
Doceira Pão de Açucar, ínicio do império da família Diniz. Ficava ao lado da igreja - que existe até hoje (não lembro o nome) -, esquina com a Rua Cincinato Braga. Numa dessas idas ao cinema, sessão da 20, não lembro bem o filme, mas era um Walt Disney, com certeza, após o filme, quando saíamos, o maior dilúvio. A Brigadeiro era uma enxurrada só e nada da chuva cessar. Espera que espera, e nada! Até que a minha avó achou melhor irmos assim mesmo, pois já era muito tarde.

Pegamos o primeiro ônibus circular avenida que passou e umas cinco quadras à frente tinhamos que descer, mas a chuva nada de parar. Descemos e quase que a enxurrada nos carrega. Ela me pegou no colo para atravessarmos a avenida e entramos na nossa rua, que era próxima, totalmente encharcados e rindo. Fomos tomar um banho quente e minha avó achou por bem tomarmos também um chá com conhaque para nos aquecer (em casa havia muitas bebibas finas porque, na época, meu avô ganhava várias). Como não havia o chá preto, foi um gole, um golinho só, de uísque Cavalo Branco, com rolha, que tomamos - será que foi só esse golinho me levou a gostar tanto de uísque assim?

Quinze anos depois fiquei noivo e abri a última garrafa dessa caixa, que fora guardada para algo especial. Na festa de noivado, aí sim, foram vários goles, que saudade.

Catito.



1 comentários:

  1. Joca disse...:

    Essa história do Catito lembra um anexo que vez ou outra me mandam, onde, numa sequencia de slides, nos é lembrado que na nossa infância (lá pelos finais dos anso 1960/70), garotos se amontoavam no banco de trás dos carros, sem cinto de segurança; descia-se as ladeiras em carrinhos de rolimã; tomava-se K-suco aos litros e mesmo assim, sobrevivemos. Aí, fico pensando: ah, se o Catito oferecer uisque pro seu filho de 9 anos e o Conselho Tutelar souber?... É bom, recomendável ter curso superior para ganhar cela especial... Aí, quem sabe não consegue contrabandear um frigo-bar, cheinho de uísque pra cela speciar, hehehe!
    Eu tomei meu primeiro porre de vinho tb aos nove anos e dele ficou uma lição: Sangue de Boi, nunca mais!

Postar um comentário

 
Ser-Tão Paulistano Copyright © 2010 - 2011 Template Oficial Versão 2 | Desenvolvido por Iago Melanias.