Sertão é mesmo igual cidade grande (por Thiago Bechara)


Cidade grande é igual sertão da gente. Seco! E tem lá seus mistérios. Acauã, na minha terra, canta mágoa dos caboclos. Cá, mágoa não tem. Nem acauã! Essa gente que não sente. Quer mais secura? Dá nisso, de nascer homem tinhoso, espinhento. E de espinhar, quem chega perto? Mandacaru! Sem tirar nem pôr, eu digo! Antes mágoa bem sofrida que essa ausência. Saudade mata a gente. Lá, se morre é de sede. Aqui, de fome! Vai-se indo. Só não se sabe bem pra onde. Carro que voa como feito pensamento. Diferença é que pensamento se pega de graça. Mas também, não chega a lugar nenhum. Vamos onde dá. Onde Deus quer. Há de querer!


Lá se via pouca gente, mas se tinha com todos. Aqui, se vê muita gente e não se fala é com ninguém. Deve dar na mesma. Voação de coisa por cima por baixo. Inventância de moda. Mas acho bonito! Tanto número; Nós nem sabe dizer. Não cabe no bolso. Nem na língua. O que cabe, é na mão. Enxada! Aí sim, como era em minha terra. Mas cá, se rastela no cimento. Nasce é nada, mas sobe cada muro alto, de fazer gosto; e morar gente dentro. Uma beleza. Juriti arrulha fim de tarde. Digo. As coisas são iguais. Por isso gosto daqui. Não se sofre mais, sofre igual.


Ana gosta da vidinha dela. Sai cedo, toma ônibus, metrô. Até na casa onde trabalha. Se tem serviço, vou junto; senão, to no Elias c´os meninos. Uma pra mim, uma pro santo. Não esqueço meu Padim Ciço. Frei Damião. E o tempo avoa! Corisco! Também que tudo é longe. Tudo grande. Lampião fazia festa. Roubava à vontade. Vida boa! Lá, cangaceiro é lei. Aqui não? Digo que nada muda!


Lá, chão é duro de calor. Aqui, tem tanto calor porque o chão é duro! Só isso. Mas nos dois sobra calor e falta chão. Vai vendo. Lá, notícia corre no lombo do jegue. Cá não tem jegue. Mas tem notícia. E corre qual o quê! Dá é gosto, como acontece coisa. Nós não aparece. Nunca. Não faço caso. Quizumba né comigo. Ana também não gosta. Quem sabe o dia que sertão virar mar. Mas digo. Se mar virar sertão, vai ser maior que o meu. Falam que tem mais água que terra. Não lá! E que anda acabando. Melhor não ter de vez. Já nascer seco. Aqui as coisas pioram. Engraçado.


De barco ou jegue, vou feliz. Amanhã tem serviço. Ana que não voltou. Vim do Elias e me pus falando que já chega. Nada dela. Vou esperar na cama. Com a licença? Me vendo na rua, chama! Se lembrar de mim. Aqui amizade acaba logo. Mas é boa enquanto dura. Vale isso. Né não? Volta amanhã. Não há de que se arrepender. Vai ver como sertão é mesmo igual cidade grande.


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Thibalaio é o blog do Thiago, e este texto foi tirado de lá, um intercâmbio talvez!
E que ele não se importe com a importação!



4 comentários:

  1. Thiago Bechara disse...:

    Fê...
    Lógico que não me importo com a importação, hehehehe... fico mto lisonjeado, aliás...
    Seu reconhecimento é de grande orgulho pra mim, afinal eu sou profundo admirador dos seus textos e da beleza com que conseguem ser simples, urbanos e sertanejos...
    te adoro...
    Beijos
    Thi

  1. É Thi, e pensar que nós nos encontramos por causa deste seu texto, bom demais, né? Espero que outros gostem destas letras também.
    Obrigada pelos elogios, né? Estou tentando me encontrar na escrita, daqui a pouco eu chego lá. chegaremos, aliás!
    Beijos

  1. Joca disse...:

    Óia, mas, como no sertão, aqui o Sol eventualmente aparecepor entre os garranchos das árvores e dos prédios; si reparar bem e aprumar os óios pro céu, lá pelas tantas da noite, si a neblima deixar, a genti pode inté vê a Lua! E, como as cacimbas e olhos d'água que mitigam a sede, em pontos ditos estratégicos desse sertão paulistano, podemos igualmente matar a sede, com chopp, onde calor mermo, só o da amizade....

  1. José Maria disse...:

    Ô Joca, se a Fê e o Thi - perdoem-me a intimidade - permitirem, ofereço-me como guia para os pontos dito estratégicos deste sertão e aumentar ainda mais o calor. Preferimos este aquecimento global. Grande abraço.

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