15 ANOS

Shopping Iguatemi - década de 80.

1.

Quando eu tinha 15 anos era diferente. Lembro que passeava pelas ruas de São Paulo apenas por prazer, sem pressa, curtindo a paisagem. Adorava a Brigadeiro Faria Lima, principalmente a frente do Shopping Iguatemi e suas calçadas. Muito mais o passeio mediano do que a arquitetura. Uma calçada não tão larga quanto a da Avenida Paulista, mas que tem, igualmente, alguns canteiros bem cuidados, e parte deles com flores. Eram naqueles que estão na frente do shopping que eu me encostava para observar aquilo que poderia me chamar a atenção. Qualquer coisa. Não tinha tanto carro como agora, nem tantos fios pelos postes, nem tanta propaganda pendurada [escrevi isso antes da lei cidade limpa]. Também eu não era como sou agora, mais rude, de aspecto e de personalidade. Acho que fui endurecendo na medida em que a cidade foi empobrecendo, embora tenha ficado ainda mais rica. Hoje eu já não ando calmamente pelas calçadas e se dirijo durante à noite, passo no farol vermelho, porque é claro, a segurança pública não é mais a mesma. Não que fosse excelente naquela época, mas piorou bastante. Ou sou eu que tenho mais coisas a perder (a idade faz isso) e só agora comecei a me dar conta de que não está suficiente, a segurança.

Aos quinze anos a vida simplesmente passava por mim. Balançava meus cabelos ondulados, cheios e longos, tranzendo certa sensação agradável como se eu pudesse voar junto com as pipas quando coloriam o céu. Agora se olho para o céu, não vejo muita coisa senão os prédios da cidade. E se vou ao Parque do Ibirapuera, as pipas são escudos de times de futebol, que é a única coisa que as diferencia por conta da produção em série. Não tem como negar. O capitalismo está mais presente do que antes e se fortalece a cada dia, pelo menos nas grandes cidades. Eu sentia um povo mais alegre e disponível, o que me fazia bem. Diferente deste corre-corre, o ritmo da cidade, de pessoas sérias que fazem o que todo mundo faz e que, então, está tudo muito bom. E está bom porque é mais fácil levar a mesma vida que outros, comprar as mesmas roupas, ir aos mesmos lugares, cada um na sua tribo. Difícil porque não me adapto ao estilo, e nem quero.

São Paulo é assim, das multidões regionalizadas. Tem a José Paulino, pra quem quer se vestir na moda e pagar menos. Tem a Vila Madalena pra quem não quer perder o buchicho da boemia; a 25 de março pras bugigangas importadas; a Gabriel Monteiro da Silva com sua arte e desing. Tem o bairro da Liberdade para os orientais, o Bom Retiro para os judeus e a Mooca para os Italianos, que também estão no Brás. E, por-aí-vai, tem a Rua das Noivas pra quem acredita.

2.

Nos meus 15 anos os homens eram diferentes. Ou eu me deixava ser vista de outra forma, que não esta de agora, em que sei que homem é homem e não mais um menino, como muitos ainda insistem em ser. Talvez eu os visse de um jeito diferente, de menina igualmente, e por isso não me irritava com o falso cuidado sentimentalóide daqueles que se aproximavam. Naquela época, depois de um primeiro encontro em que eu tivesse ido sozinha, se eles me pedissem para eu ligar de volta assim que chegasse em casa só para tranquilizá-los ao saberem que, comigo, ficou tudo direitinho-inho, eu também ia achar bonitinho-inho. De fato eu achava engraçadinho mas apenas uns poucos eram capazes de me surpreender.

Certa vez eu estava encostada em um dos canteiros em frente ao shopping. Esperava o tempo passar e quanto mais agradável a tarde se tornava, mais eu ficava lá, a plainar junto às pipas, meu devaneio. O sol tinha brilhado muito nos dias anteriores, tornando-os excessivamente quentes, mas naquela tarde de primavera, as nuvens encobriam o céu e anunciavam uma refrescante chuva que decidi esperar. Nesta São Paulo antiga mas nem tanto, chover no fim da tarde era coisa comum. Podia-se dizer tranquilamente: "nos encontramos depois da chuva", e as pessoas se encontravam quase sempre no mesmo horário porque quase todos os dias chovia no mesmo horário. Hoje em dia, com a cidade pavimentada e cheia de problemas, nem pensar numa insanidade dessas. Não tem mais a garoa fim-de-tarde e, mesmo se tivesse, encontrar alguém depois da chuva, simplesmente por encontrar, se tornou coisa de herói.

Enquanto eu esperava a chuva, percebi um homem, cabelos negros e lisos, curtos, bem ajeitados. Era magro, cerca de 1,80m, com passos calmos e decididos. Atraente. Lembro de tê-lo visto àlguns minutos antes, em sentido contrário, igualmente calmo e decidido, em linha reta. Só que nesta segunda vez ele mudou, foi até um canteiro que chamava a atenção por conta de algumas poucas flores que coloriam o calçamento. Inclinou-se, escolheu uma que era, inclusive, a mais vistosa, colheu e voltou a caminhar calmo e decidido. Vinha em minha direção e ao se aproximar, sorriu. Tinha dentes grandes, alinhados e envoltos em lábios carnudos. Seus olhos, misteriosos, brilhavam alegremente. Eu sei porque os observava profundamente enquanto esperava que ele me dissesse alguma coisa. Não disse nada, apenas me entregou a flor que estava em suas mãos e retornou para seus passos em linha reta. Tentei chamá-lo mas não consegui. Tentei mais uma vez, com o braço esticado, em suspense. Eu queria que ele voltasse. Eu queria saber seu nome, pegar o número do seu telefone. Eu queria tantas coisas mas fiquei ali, com a flor na mão, vendo o homem se afastar sem sequer olhar pra trás. Sem qualquer contato que me desse a certeza de que este gesto poderia se repetir por mais uma vez, e outra, e sempre.

Eu ainda olhava na mesma direção quando a chuva começou a cair, sorrateiramente. Tentei caçar algumas gotas, sem sucesso. Pensativa, fui me dando conta de que deveriam existir muitas maneiras de se dar flores à uma mulher e tantas outras para dá-las a uma menina. Deveria ser assim porque era a primeira vez que eu me sentia mulher, mesmo sendo uma menina.



6 comentários:

  1. André disse...:

    Oi Fernanda. Chego aqui pela primeira vez, pesquisando coisas do sertão pela internet. Causos, lendas e culturas tão vivas na cidade. Tão viva quanto você, Fernanda.

    Parabéns pelo espaço. André

    PS: triste a foto desta flor. Ela morreu Fernanda? Ou apenas andam esquecendo de dá-las a você?

  1. Joca disse...:

    Fantástico seu texto, senhora editora-chefe. Um cadiquin (como se diz lá pras bandas de Goiás e quiçá em oputras paragens!) da magia poético/encantadora de Sampa, cidade-mistério. Lembra um pouco o poema "A Uma Passante", de Baudelaire, que falava de uma Paris, onde um olhar podia se perder para sempre. Era o prenúncio da Modernidade. E a pós-modernidade passa pela gente, porém, sentimentos e gestos ainda nos surpreendem...

  1. Thiago disse...:

    Fê, como sempre, um texto bem escrito, rico em detalhes de sua experiência pessoal e emocionado com o momento que vivemos. Se talvez o saudosismo nos põe em alguns momentos, descrentes disso tudo, pense que jamais vc teria a maturidade para escrever tão lindamente sem viver essas transformações. E é muito bom a gente poder ter o que perder, senão, seria sinal de que nada construimos... Um beijo

  1. Joaninha disse...:

    Bonito texto da Fernanda, mas não estou aqui para comentá-lo!
    Quero falar aqui com os amigos dela!

    Vocês que também são escritores do sertão, ou que apenas lêem o que esta "editora-chefe" escreve!

    É que eu gostaria que todos vocês lessem a homenagem a ela, Fernanda, que está no meu novo blog, e me dissessem se concordam ou não comigo!

    Porque eu penso que ela merece!

    Obrigada!
    Bjos,
    Joaninha.

  1. Joaninha disse...:

    Opa!!

    O endereço do blog é:

    www.jardimdajoaninha.blogspot.com

  1. Anônimo disse...:

    lindo texto FENANDA, PARABÉNS!!
    BEIJOS,
    LIZA

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