Eu vi o lobisomem...quase...

Nossos pais não deixavam os filhos sair de casa em noites de lua cheia para ver lobisomem, pelo perigo e, principalmente, pelo mal que poderia causar. Quem fosse mordido ou simplesmente ferido pelas garras do “animal” transformar-se-ia também em lobisomem. Fica claro que aos adultos, e homens, era permitido, pois tinham o conhecimento e a prática necessários para se defender.
-” Você sabia que o pai do Pedrinho é lobisomem?”.
-” Sabia sim, o meu tio me contou, mas não fala nada, que ele não pode saber”.

Só o Pedrinho e o pai dele, Seu Quincas, não sabiam, porque o resto da cidade...
Mas se éramos privados da aventura noturna dos pais a nossa começava logo de manhã, quando íamos “sorrateiramente” procurar o homem já livre da maldição de transformar-se em lobo. Chegávamos na casa do Pedrinho e a primeira pessoa a receber o bom dia coletivo era Seu Quincas que, sem entender nada, nos convidava para tomar café. Já havia tomado o seu, levantava-se bem cedo. Como estava pronto para ir trabalhar já de terno, gravata e chapéu e sempre com gestos rápidos, só dava para ver alguns poucos pelos nas mão e no rosto.
Ainda restava mais uma chance, que era ir até o trabalho do Seu Quincas, e observar o “pacato funcionário público no seu ofício de carimbar papéis no guichê da repartição” - salve Nelson Rodrigues.

- “ Eu consegui ver restos de terra em baixo da sua unha”.
- “
E eu, como estava sem chapéu, ainda deu para ver alguns pelos em seu rosto”.
- "Quando nós nos despedimos dele eu ouvi um uivado bem baixinho".
- "Será que o Pedrinho também vai virar lobisomem?".
Sentados na escada da Coletoria, com o sentimento do dever cumprido e os comentários encerrados, a atenção voltava-se para a Joana, que do outro lado da rua, caminhava em passadas rápidas como que fugindo das pessoas.

- “Olha lá... a mulher que vira mula sem cabeça”.


As mal traçadas reminiscências, reais, de infância foram "lembradas" pela cronica do Carlos Heitor Cony:

"Antigamente, em cada bairro, em cada rua, havia um sujeito que tinha a fama (ou a glória) de ser lobisomem em noites de lua cheia. Havia sempre um corno em evidência, um bicheiro aposentado, um ex-padre amasiado com a empregada, um candidato a vereador eternamente derrotado. Mas o espécime mais notório era o cara que se transformava em lobo e andava pelas ruas uivando contra as estrelas.

Inspiravam mais pasmo do que horror. O sujeito até que não fazia nada de especial, mas todos o evitavam. Mesmo assim eram procurados, sendo bons em dicas que davam sobre o jogo do bicho. Seu Almeida acertou um milhar e atribuiu a façanha ao palpite que recebera do Sacadura -um tipo alourado e sem dentes que já fora visto em forma de lobo pulando a janela de uma tal de Moerís, mulher de um amanuense da Marinha de Guerra.

Não havia mulas-sem-cabeça nas ruas do Rio bucólico de outros tempos. Nem sacis -que eram exclusividade do interior mais profundo, do rio Meriti para cima. Mas sobravam lobisomens, que eram apontados nas ruas como os cornos. Muitos deles acumulavam as duas funções, cornos de dia e lobos em noites de luar.


Não havia balas perdidas naquele tempo. Morria-se de gripe, de pulmões avariados, de aneurismas arrebentados, de mortes decentes, que provocavam enterros decentíssimos, com direito ao pranto aberto e ao luto fechado. As viúvas ficavam mais apetitosas com as meias pretas e aquele véu cobrindo o rosto.

Receberei e-mails reclamando que não escrevo sobre os manetes do Airbus, as pistas ensaboadas dos aeroportos, os bois do Renan, as dificuldades do ministro da Defesa em acomodar seu 1,90 m nas poltronas da classe econômica. Preferi falar dos lobisomens. Terror por terror, eram mais inofensivos."



Serviço:
Quando uma mulher tem 7 filhas e o oitavo filho é homem, esse menino será um Lobisomem. Também o será, o filho de mulher amancebada com um Padre.
Sempre pálido, magro e orelhas compridas, o menino nasce normal. Porém, logo que ele completa 13 anos, a maldição começa. Na primeira noite de terça ou sexta-feira, depois do aniversário, ele sai à noite e vai até um encruzilhada. Ali, no silêncio da noite, se transforma em Lobisomem pela primeira vez, e uiva para a lua. Daí em diante, toda terça ou sexta-feira, ele corre pelas ruas ou estradas desertas com uma matilha de cachorros latindo atrás. Nessa noite, ele visita, 7 partes da região, 7 pátios de igreja, 7 vilas e 7 encruzilhadas. Por onde passa, açoita os cachorros e apaga as luzes das ruas e das casas, enquanto uiva de forma horripilante. Antes do Sol nascer, quando o galo canta, o Lobisomem volta ao mesmo lugar de onde partiu e se transforma outra vez em homem. Quem estiver no caminho do Lobisomem, nessas noites, deve rezar três Ave-Marias para se proteger. Para quebrar o encanto, é preciso chegar bem perto, sem que ele perceba, e bater forte em sua cabeça. Se uma gota de sangue do Lobisomem atingir a pessoa, ela também vira Lobisomem.



8 comentários:

  1. Joca disse...:

    Zé Maria: Nas pequenas cidades do interior ou mesmo em alguns bairros mais afastados, sempre existia um ou mais tipos curiosos - o/a louco/a, o corno, o vigarista, o lobisomen, a mula-sem-cabeça, etc. A música popular brasileira está repleta desses tipos 0 cito de cabeça "Chaleira do Alto da Serra", de Tavinho Moura, onde ele descreve a "a louca" que existe em cada aldeia. Louca que vivia "normalmente", circulando entre as pessoas... nas metropoles de hoje, esse "louco" é inviável, portanto os encarceramos em hospitais/clínicas, etc. Porém, o estranho, o inadequado, é uma espécie de mito em todas as comunidades... Outro dia mesmo falei do "Forró", que até hoje vende peixe numa carroça puxada por um cavalo... tem o "Jesus", citado pela Fernanda, que corre pelas ruas, faça frio ou calor, acenando para as pessoas...
    Parabéns pelo texto.

  1. José Maria disse...:

    Ô Joca,são "tipos" maravilhosos, com a humildade, a simplicidade, a ingenuidade, a loucura e "outros". São essas pessoas que nos dão lição de vida, basta querer aprender.Estão em todos os lugares,à nossa volta. Que bom!. Grande abraço.

  1. Joca disse...:

    A Administração Pública costuma designar esses "estranhos tipos" como "homem" (ou mulher, ou criança) de rua... Há, inclusive um jargão: "pop de rua", abreviação para "população de rua" que talvez já seja uma marca.... algum dia algum artista fará com que seja "fashion"... O chamado homem de rua arranja algumas dores de cabeça para o Serviço Social, pois, são considerados individualmente e quando são abordados, descobrem que eles muitas vezes têm companheiras, carroças, cachorros... Ou seja, são mais do que aparentam, tem uma vida, que a burocracia estatal desconhece...

  1. Anônimo disse...:

    parabéns! ZÉ MARIA, menino,que saudade da minha infância,quando meus pais contavam causus de arrepiar! e era tanta gente que virava lobisomen! a molecada cortava caminho ,quando acontecia de ter que passar perto da "pessoa".
    hoje em dia tudo parece tão distante..
    mas garanto,aqui no sertão GOIANO ainda contam muitos causus, de lobisomen, mula-sem-cabeça ..

    obrigada por resgatar esse cadiquin de passado.

    beijos

  1. Anônimo disse...:

    ZÉ MARIA E JOCA. os comentários só são postados. se eu optar em enviá-los como "anônimo". então, eis o motivo de eu não me identificar.
    beijos,
    liza

  1. José Maria disse...:

    Ô Liza, as novas gerações, ainda uma boa parte, acha bobagem estas lembranças mas como era bom, como era bom que as nossas mentes podiam criar em cima das informações. Passar à noite em frente ao cemitério?, nem pensar. Grande beijo.

  1. Gibadaviola disse...:

    Eu ví o lobisomem. Tava escuro cá no chão, pois a luona cheia prá mai de metro tinha se escundido por destrais das nuvi prá mó de amoitá o bicho que tava só assuntano. Eu levava uma caçarola com uns moido pro meu vô que guardava na cancela da Sorocabana. Pensei que era um cachorrão, tipo São Bernardo que naquele tempo era o que tinha. Mas já viu São Bernardo de pézinho ingual nóis tudo? Pézinho do Giba agiu rápido, vô ficou com bucho vazio e dilurido e eu ganhava de quarqué alazão agalopado naquela carreira...acho que já sei porque oa maiores corredores vem mesmo dos rincão, do sertãozão memo - é carreira de lua cheia sô....vá de retro coisa ruim....

  1. Iara Fernandes disse...:

    Ô Zé, aqui nas Minas também tem lobisomem, apesar de o Caboclo d'Água fazer presença mais acirrada.
    Já os "loucos" da cidade nos surprendem e nos encantam mesmo, com sua peculiar maneira de tocar a vida. Já dizia Guimarães que "de perto ninguém é normal". Ou todos são loucos ou ninguém, não é mesmo? O grande negócio é continuar encantando pela palavra, pelo trabalho, pelo amor que espalhamos ou acolhemos. É isso!

    grnde abraço!

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