CANTIGAS DE EMBALAR

Meu primeiro contato com a música de Jose Afonso foi através de Dércio Marques e seu LP Canto Forte – Coro da Primavera, belíssimo e raro disco que encontrei em um sebo, aqui no Centrão do Ser-tão paulistano. O disco jazia em meio a um saldão, ao custo de alguns centavos. A capa estava num estado lamentável: tinha sido molhada, estava cheia de bolor; parte do encarte se desfazendo. No entanto, como por milagre, o disco estava intacto, “zerinho”, na linguagem dos vinilógos. Como havia sobrevivido ao desastre, pois aparentemente havia sido recolhido em meio a um monte de entulho? Acho que nunca saberei.

Com as mãos trêmulas – era um disco famoso, que todos comentavam e ninguém o tinha, poucos tinham ouvido – coloquei na minha velha vitrola e me deleitei com verdadeiros tesouros de nossa música: Natureza, toada brejeira de Dino Franco [tem cd aqui], com a famosa Orquestra de Violeiros de Osasco; Arrumação, de Elomar; uma magnífica versão de Tonta (Companheiro, me ajude/ Eu não posso cantar só!/ Eu sozinho canto bem, com você canto mió...), de “seo” Chico de Ubatuba; Leito do Gavião, impressionante introdução para Chula no Terreiro, também de Elomar; as cantigas infantis Era Uma Vez e entre outras obras primas, uma dolente cançoneta que soava perfeita na voz no eterno-menino Dércio: Cantiga de Embalar, de um misterioso – para mim – compositor português de nome José Afonso.

A principio passou meio despercebido, mas depois verifiquei que esse português circulava entre outros artistas brasileiros com certa desenvoltura: Diana Pequeno gravara dele Rio Largo di Profundis e Se o Amor Não Me Engana. O próprio Dércio registraria in loco um trecho de “Maravilha, Maravilha”, na voz de Pedrinho Afonso, extraído do disco Enquanto Há Força. Mas, quem era mesmo esse português? Não era fácil encontrar material sobre ele. Parece que apenas os iniciados sabiam alguma coisa, além de um pequeno nicho do meio musical, onde estavam gente como Dércio e Diana.

A muito custo encontrei num sebo o LP Que Venham Mais Cinco, em muito bom estado, ao mesmo tempo em que encontrava pessoas que sabiam algo dele... Qual não foi meu espanto quando descobri que aquela voz doce e frágil pertencia a um ativo e – de certo modo – incendiário simpatizante do PCP (Partido Comunista Português). Era oficialmente apenas “simpatizante”, pois nunca quis se filiar, ao contrário do amigo também cantor e compositor Adriano Correia de Oliveira.) Os comunistas brasileiros falavam dele com reverencia e respeito – na música Alípio de Freitas ele fez uma única referencia ao Brasil, às Ligas Camponesas e ao líder Francisco Julião.... Meu amigo e colega universitário, grande colecionador de música de todos os gêneros, o Agnaldo Mori, ex-militante do Partidão, dizia com orgulho que eu precisava algum dia ouvir Vila Morena, a música que foi escolhida como senha para os tanques do exército português saírem às ruas, aos 20 minutos do distante 25 de abril de 1974.... (Por essa época, eu e meus pais deixávamos o sertão caipira, lá no Pontal, para nos aventurarmos no sertão paulistano, onde mil aventuras me aguardavam, montado na sela do meu Murzelo Alazão, anos depois...)

A música desse português, José Afonso, o Zeca, é assim, capaz de embalar crianças de colo e também fazer tanques de guerra rolarem pelas ruas e derrubar ditaduras. Tem um caráter universal e talvez por isso ressoa tão bem nos sertões de nossas almas e por muitos outros rincões. Por toda parte, onde exista opressão, lá está a música e a atitude do Zeca, inquietando, mesmo 20 anos depois de seu desaparecimento físico. Existe entre sua obra e a cultura brasileira algo que soa além dos lugares-comuns, dos clichês tipo país-irmão, língua-madre, essas coisas. Era um artista que não negava suas origens ibéricas e igualmente mergulhava fundo nos ritmos africanos e tinha um olhar e ouvidos argutos, sempre buscando ver algo novo no horizonte tanto em termos musicais como a valoração da Fraternidade entre os povos, na qual ele acreditava piamente.

A disseminação da técnica permite-nos hoje em dia ter acesso a quase totalidade de sua obra. Entre a avassaladora quantidade de informações atualmente à nossa disposição, vale a pena debruçarmos-nos um pouco sobre sua obra. Katya Teixeira gravou Alegria da Criação e Adeus Ó Serra da Lapa no seu segundo CD, o Lira do Povo. Recentemente tive o privilégio de vê-la cantar lá no SESC Santana, dentro do projeto “Feitas Por Nós”, As Sete Mulheres do Minho, com singela energia e beleza que certamente obteria a aprovação do Zeca, auto-acompanhada de viola-de-cocho – um instrumento que um amigo português, o Alexandre, jura ser de origem portuguesa, pois, segundo ele, tem afinação semelhante à viola braguesa.

Violas-de-cocho, violas-braguesas, fados, modinhas, lundus, rimances ou romances medievais: A Nau Catarineta, versos recolhidos por Suassuna [livros aqui] no nordeste e que Antonio Nóbrega brilhantemente musicou e gravou, tem suas origens na região do Algarve. Senhora Rainha, bela e vigorosa gravação do Lira do Povo, com Kátya e mestre Zé da Ernestina, igualmente tem ecos lusitanos. Outros exemplos se multiplicam, como a gravação de Ana Salvagni para Macelada... Nosso abraço, portanto, aos caros murrugas, ao português da padaria do Zeca Baleiro, que nos ajudaram em algo mais que a simples transplantação da língua: sua cultura igualmente mestiça – mouros, judeus, etc. – por aqui encontrou eco e solo fértil nos nossos sertões....

Veja os vídeos abaixo, graças ao gênio de nossa Editora-Chefa, mestra nesses mistérios enfeitiçantes da técnica. Quem desejar saber e ver mais, é só clicar no link: http://delta02.blog.simplesnet.pt/ onde se pode acessar um rico material sobre o Zeca....



Canção de Embalar (José Afonso)



A morte saiu à rua (José Afonso)



10 comentários:

  1. Fernanda disse...:

    Joca, muito bacana este Zeca Afonso... adorei ficar vendo os youtube dele... bjs

  1. HKumk disse...:

    um belo achado. as referências também são muito pertinentes, pois que os elementos agregadores em Décio e Elomar são muitos e ainda outros.

  1. joca disse...:

    Senhora Editora, Fernanda:
    Isso nos mostra o quanto esse pessoal, Dércio e Diana entre outros, são pessoas que sempre estiveram adiante de seu tempo ou, pelo menos, sempre estiveram antenados ao que acontecia no mundo. À época da gravação de Cantigas de Embalar no LP Canto Forte-Coro da Primavera, que também é título de uma música do Zeca, ainda estávamos na época da Ditadura iniciada em 1964 e tudo o que era de esquerda ou que parecesse com esquerda era marginalizado (Canto Forte deve ser de 1982). COntudo, o que vale muito no Zeca é que sua obra, além de engajada, é de grande beleza.

  1. Joca disse...:

    ...a gravação de Diana de Rio Largo di Profundis - do LP do Zeca QUe Venham Mais Cinco, de 1973 - também é desse perído, dos estertores da ditadura. No caso do Zeca, marcava a influencia dos ritmos africanos exercido sobre ele, que viveu algum tempo em Angola. Um grande entendido na matéria, o Alexandre SIlva lá de Lisboa, me disse que a gravação da Diana vai ainda mais fundo naquilo que o Zeca pretendia em termos de ritmo e harmonia...

  1. Joca disse...:

    Correção: o disco Canto Forte - Coro de Primavera, de Dércio marques, é de 1979, em pleno vigor da Ditadura de 1964, apesar de estar um tanto arrefecida. A morte de Herzog a havia abalado consideravelmente....

  1. Anônimo disse...:

    Parabéns pelo marivIlhoso texto!

    ZECA AFONSO é realmente um ícone da música portuguesa, um modelo de homem que com sua voz e canções que embalam a alma com sua ternura, por outro lado, transforma- se com tamanha determinação e coragem na voz do povo,. o grito de libertade de quem acreditou e buscou a liberdade.

  1. José Maria disse...:

    Zecafonsologo Joca: belíssima e oportuníssima lembrança (mais uma vez chover no molhado, né mesmo Soll). Corre na redação que a Fernanda está preparando um e-mail interno (ainda bem que o memorando interno não é do seu tempo) proibindo o uso de citações "lugares comuns", mesmo que seja entre aspas, e exigindo mais criatividade no vernáculo. Ouvír Grândola Vila Morena era uma luz no fim do túnel, demorou anos mas ela se clareou. Valeu. Parabéns.

  1. Joca disse...:

    ..mais artistas da MPB gravaram Zeca: Gal Costa, no LP Indio (ou India?) de 1975, Milho Verde; Nara Leão, num disco de 1974, chamado A Senha do Novo Portugal, gravando Grandola e Maio Maduro Maio....
    Mestre Zé: bem lembrado: "lugares comuns" está banido do vernáculo! Zecaafonsológo são mesmo o eterno menino Dercio Marques e a menina-mulher-estrela Katya Teixeira! Estes, sim! Sabem tudo do homem e ´cantam inté mió qui o homi!

  1. Lóri disse...:

    Tou te devendo a cópia de um cd dele... tou arrasada por ser tão promissora e nada cumpridora... mas a vida tem sido casaca grossa de doer... te conto dia destes. Agora tou indo pra outra viagem de trabalho... sinto-me meio ET, meio burro de carga... Mas resolvi exercer a paciência durante a tempestade... vamos ver quem vence. I'll be back! I promise! Beijo carinhoso,Ida

  1. joca disse...:

    Ida: são os encargos destinados aos nobres, o sagrado sacerdócio do ofício. Como é senhorita de fibra, sempre vence as tempestades! Obrigado pela visita! beijo.

Postar um comentário

 
Ser-Tão Paulistano Copyright © 2010 - 2011 Template Oficial Versão 2 | Desenvolvido por Iago Melanias.