São Paulo de grandes amores

Eu conclui que acabara na segunda semana consecutiva em que eles não estavam mais lá. A certeza foi como se a última lembrança do amor se esvaziasse, e ali mesmo morresse, ainda estando viva, como a própria história. Ela no vocal, ele no violão. Duo. Como a gente. Nossa mesa de sempre já tinha se ido havia meses, com o último arranjo do estabelecimento. Agora eram eles, nossos cúmplices, que haviam partido.

De amor ausente o lugar se enchia a cada passo que eu dava, numa sexta-feira sem nexo não fosse a certeza de que apenas eu teria ficado. Um tango argentino, uma bossa nova antiga. Nós dois sempre acompanhávamos eles dois. Pedíamos músicas, outras, e aplaudíamos. Lá era o nosso lugar de paz e de espírito. E uma cidade como São Paulo exige que cada um tenha dentro dela um lugar de paz e de espírito. Cada casal, mesmo que depois de anos, se foram para lados opostos.

Deveria existir uma regra para amor vivente, de que nunca, em momento algum depois do fim, cada lugar de paz e de espírito se esvaziasse porta afora, e por qualquer avenida morresse, ainda estando vivo. Não, nunca.

Ainda levo a melodia por onde quer que eu vá nesta cidade que construo dia após dia. Hoje eu compartilho o fim que se solidifica.



“Bejo en la copa”, de Guto Maia. Voz de Rossana Rosengarten. Dois do Brasil.

“deixa um beijo na taça
que eu não pedirei o vinho
pois depois que te fores
eu beijo a taça e me embriago sozinho

hoje eu não quero pensar
eu só quero morrer
jogado num canto de bar
até o garçom vir varrer

o lixo que varra o passado
incluindo você!"



9 comentários:

  1. Bê Galvão disse...:

    Maravilhosa!

  1. Joca disse...:

    ESPETACULAR!
    Sem mais comentários, Senhora Editora Chefe! É ser-tão em festa, depois dessa postagem! Bjs!

  1. liza disse...:

    lindo fernandinha!!
    beijos

  1. iara disse...:

    Êh, Fernanda! Não me surprendo nem um pouco com a lindeza desse escrito seu. É o esperado. Mas, é meu dever emocional dizer-lhe o quanto ele me encantou. Tens as palavras na rédea, moça! Bonito de ver, isso!

    Beijos

  1. Fernanda disse...:

    queridos, é o amor que afia a palavra na gente... né não... e a nostalgia de vc chegar num lugar do passado e ele não ser mais do jeito que era... ô sodade! beijos

  1. guto maia disse...:

    O QUE É SER-TÃO PAULISTANO?
    Fernanda, querida!
    Suas palavras são aqueles presentes inesperados que demonstram o quanto nós, paulistanos, somos carentes de demonstrações simples de afeto. São Paulo é assim, e nos tornou assim: surpresos com demonstrações espontâneas de carinho. O fato de nossa música ter sido a trilha de alguns bons momentos da sua vida, e isso tornar-se inspiração para seu texto, nos faz privilegiados, e demonstra efetivamente o quanto é gratificante nosso trabalho. Somos gratos à música e aos poemas dos grandes compositores brasileiros. Quando recebemos demonstrações de carinho como a sua, sentímo-nos estimulados, e tudo se justifica. Receber sua homenagem num site onde figuram tantos talentos é uma honra. Esperamos continuar merecendo essa atenção e retribuir, divulgando seu valioso trabalho para artístas que, como nós, vivem do ofício. Assim como você, São Paulo na sua essência é cheia de adjetivos: solidária, abrangente, cativante, aconchegante, hospitaleira, e supreendente para quem têm algo a dizer e se expõe, e consegue reconhecer o afeto de cada atitude, como tão bem você demonstra nas suas andanças culturais, e na quantidade de bons amigos que carrega consigo. São Paulo é apaixonante por ser cosmopolita e nos faz, ao mesmo tempo, estrangeiros, por demonstrar-se de ninguém, na medida em que acolhe e aceita a todos indistintamente. São Paulo é da viola, dos violeiros, mas é também da guitarra, do samba, do choro, e, sobretudo dos botecos, onde a cultura se consumou e se consumiu, embriagada em versos, muita prosa, álcool, fumaça, amores feitos, desfeitos, e refeitos com muita música. Assim como você, temos orgulho de ser paulistanos! Um orgulho instável como a própria cidade. Pra cada um será de uma forma. Ser-tão paulistano é tão des-consertante quanto o sorriso tímido dos que não estão habituados a homenangens, mas que sabem que amanhã tudo recomeça, e a luta pela sobrevivência nos torna a todos guerreiros de uma luta sem tréguas, mesmo que lutemos com versos, mal o dia começa...
    Beijos e nossa admiração.
    Guto e Rossana. Doisdobrasil.

  1. joca disse...:

    Senhora Editora Chefe:

    Esse comentário do Guto merece uma postagem! E mais: quando sair em livro o Ser-tão Paulistano (ocê achar qui sou louco e sou mesmo, e bota visionário nisso!) esse poderia ser o Prefácio! Que beleza de texto-comentário, que sensibilizada aguçada a desse moço, o Guto!

  1. Fernanda disse...:

    pois não é Joca... fiquei muito feliz com a mensagem também! Estamos na fita. Bjs

  1. guto maia disse...:

    Joca! Obrigado por seu comentário do comentário. A Fernanda nos dá essa alegria dupla. A propósito, tenho notado o quando a Internet tem ajudado a reencontrarmo-nos com nosso passado, e redimirmo-nos de algumas culpas... Como por trás de toda tecnologia, há gente, deixo aqui um link de um vídeo que está no blog do Luli Radfahrer (http://www.luli.com.br/) Ph.D. em comunicação digital.
    Interfaces-nativas-e-usabilidade/ (http://www.luli.com.br/2008/07/23/interfaces-nativas-e-usabilidade/). Uma aula de tecnologia.
    Beijos a todos. Vocês são especiais.
    Guto Maia
    http://doisdobrasil.blogspot.com/

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