" ...da força da grana..."

O hoje também velho compositor cearense, nos tempos em que era “apenas um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior”, trazia de cabeça “uma canção do rádio em que um antigo compositor baiano me dizia tudo é divino, tudo é maravilhoso”.

Anos depois, no encontro com Sampa, o baiano “aprende depressa a chamar-te de realidade, porque és o avesso do avesso do avesso do avesso” e confessa que “foste um difícil começo, quando eu cheguei por aqui eu nada entendi da dura poesia concreta de tuas esquinas”.

Nos anos do milagre economico a afirmação de um ex-prefeito de que “São Paulo não pode parar” serviu de mote para os administradores municipais investirem em viadutos, avenidas e minhocões; a iniciativa privada em edificios comerciais que mantivessem o status de cidade mais rica do pais e, depois, em fortalezas residenciais para garantia de sossego de seus proprietários que abandonaram suas casas. E o que prevaleceu, sem qualquer modelo de preservação do meio ambiente, caracteristicas históricas, culturais foi a “da força da grana que ergue e destrói coisas belas”.

O progresso é necessário e bem vindo, a cidade precisa de escolas, transporte digno e moradias. Luxuosos edificios residenciais em bairros nobres foram construidos e, no seu entorno, as moradias que seriam temporária dos operários, erguidas sem estrutura e apoio do poder público, tornaram-se definitivas.

“Tá vendo aquele edifício moço?
Ajudei a levantar
Foi um tempo de aflição
Eram quatro condução
Duas pra ir, duas pra voltar
Hoje depois dele pronto olho pra cima e fico tonto
Mas me chega um cidadão e me diz desconfiado, tu tá aí admirado ou tá querendo roubar? Meu domingo tá perdido vou pra casa entristecido
Dá vontade de beber
E pra aumentar o meu tédio eu nem posso olhar pro prédio que eu ajudei a fazer

“Tá vendo aquele colégio moço?
Eu também trabalhei lá
Lá eu quase me arrebento
Pus a massa fiz cimento
Ajudei a rebocar
Minha filha inocente

vem pra mim toda contente
Pai vou me matricular
Mas me diz um cidadão
Criança de pé no chão
aqui não pode estudar

Esta dor doeu mais forte”


A “grande alavanca do progresso” é hoje a o avanço do metrô para os bairros mais distantes e o progresso e bernefício para os moradores ém proporcional à tristeza dos moradores. que tiveram suas casas desapropriadas. Pessoas, como o seu Carlos, setenta anos, nasceu e morou na mesma casa até o ano passado e hoje o quintal de sua infancia será a futura estação do metrô de Vila Prudente.




Nada pode ser tão paulistano como Adoniran Barbosa

"Se o senhor não tá lembrado
da licença deu contar
que aqui onde agora está esse adíficio arto
era uma casa veia, um palacete assobradado.

Foi aqui seu moço que eu Mato Grosso e o Joca contruimos nossa maloca
mas um dia, eu nem quero me alembra,
veio os home com as ferramentas, o dono mando derrubar
peguemo tudo as nossas coisas e fumo pro meio da rua
apreciar a demolição
que tristeza que eu sentia
cada tauba que caía, duía no coração
Mato Grosso quis gritar, mas em cima eu falei
os home tá com a razão, nois arranja otro lugar
só se conformemo quando Joca falo: "Deus dá o frio, conforme o cobertô"
e hoje nois pega paia, nas grama dos jardim
e pra esquecer nós cantemos assim:
Saudosa maloca, maloca querida, din din donde nos passemos os mais feliz de nossas vidas"



Serviço: Das letras de Belchior, Caetano Veloso e do Cidadão Lucio Barbosa.
Serviço: Não existe relação de tempo, de filosofia, mensagens e etc. do tropicalista Divino Maravilhoso com a "descoberta" de Sampa.
Serviço: Imagens dos outrora residenciais bairros do Ipiranga e Vila Prudente.



4 comentários:

  1. joca disse...:

    Amigo Zé:
    Bem ostado e bem lembrado. Tempo de Cidadania, seu ZéMaria, guru do Sertão!
    Num trecho de uns 4 km, a partir do metrô jabaquara, há uns 25 anos era um pacato bairro residencial, com comércio local e muitas velhas residencias. Tudo aquilo foi rasgado para abrir espaço para o terminal Intermunicipal - minha casa lá, escapou por pouco!
    Então, virou um espaço morto, bairro fantasma.Houve gente que teve a casa parcialmente demolida e por falta de recursos e opções, ficou vivendo no que sobrou. Lugar, outrora tranquilo, hoje virou pista de automóveis. Mas, alguns resistem e insistem, como o "Forró", do qual já falei aqui há muito, muito tempo!

  1. José Maria disse...:

    Joel Joca, não é nada de saudosismo barato ou ir contra o que tem de ser feito, principalmente na cidade de São Paulo, e espera-se, em benefício das pessoas. Mas parece que "falta coração" às autoridades que vão destruindo. É um caminho sem volta e sei bem disso, mas acompanhar a emoção das pessoas que que nasceram, criaram filhos e netos e de um dia para o outro tudo é entulho é imaginar o que acontece nos terremotos que assolam outros paises. Abraços

  1. Sonia Regly disse...:

    Obrigada pela visita ao Compartilhando as Letras. Lindos e excelentes textos. Parabéns!!!

  1. joca disse...:

    Caro Zé:

    O efeito é mesmo de terremoto, as fotos postadas dão idéia exata da sensação. No caso do Jabaquara, demorou uns 15 anos para começar a se recuperar lentamente. na verdade, é uma nova geração que se estabele, pois os velhos vão morrendo, sabe como é.. E os mais novos ou os chegantes vão construindo sobre os escombros e parte do bairro fica sem memória....

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