FUTEBOL DE FAZENDA

Em tempos que o futebol tornou-se o negócio mais rentável do mundo, ocorre-me lembrar de uma época em minha vida, a não tão distante infancia no Pontal do Paranapanema, onde o futebol literalmente fazia parte de nossas vidas e não era visto como meio de vida. Não, não se preocupem! Não é um ataque de nostalgia, não vou dizer que “...no meu tempo é que era bom...” ou coisa parecida. Talvez sirva de alento para lembrar aos incautos que o futebol não é simplesmente negócio ou paixão a ser explorada, muitas vezes de maneira cínica e oportunista. Quando o que vale são os interesses meramente comerciais e financeiros, entramos num perigoso campo, cujos desdobramentos pagamos caro: a exploração desenfreada explora os piores instintos e a exposição massificada de cenas de homens se estapeando selvagemente corre o risco de tornar primeiro febre, posteriormente, “paixão nacional”... Fico a imaginar nossos adolescentes “treinando” nas periferias para serem futuros e milionários astros do mma (se escreve em minúsculo mesmo!)

O trecho abaixo são cenas antigas, porém, repito: não se trata de endeusar o passado, mas de refletir sobre os pequenos gestos cotidianos de cada um de nós, que no conjunto compõem a História que alicerça nosso futuro. Ocorre-me uma frase do “filósofo da complexidade”, Edgar Morin: “A História faz os homens que a faz.”




Nos finais de tarde, ao chegar do cafezal, nos reuníamos no campinho diante da sede da fazenda para o racha que duraria até a escuridão chegar. Aquilo era mais que um jogo, era mesmo um modo de ser. A apoteose ocorria aos domingos, depois da Missa, quando times das fazendas circunvizinhas de reuniam para disputadíssimos “torneios”. Na torcida, nossos pais, vizinhos, moças, rapazes, gente de todas as idades.

Categoria no trato com a bola era o quesito balizador: tinha os de muita categoria, os de categoria regular e os pernas-de-pau sem categoria nenhuma. Naquela comunidade que deveria reunir aproximadamente 150 pessoas, excetuando as crianças muito pequenas e os muito velhos, regularmente existiam quatro equipes: 1° e 2° quadros, os juvenis e o grupo oficial dos pernas-de-paus, o MandaBrasa, que sempre faziam as preliminares das partidas e eram uma espécie de bufões. Não importava se perdiam ou ganhavam, eram a atração. Entretanto, o esforço dos pernas-de-pau mandabrasa nada tinha de patético: divertiam, mas eram modelos de garra, de esforço.

Quando se perfilavam para o início das pelejas, os MandaBrasa eram os mais elegantes dentro das limitações: meias de cores diferentes, mas levantadas; velhas chuteiras imprestáveis para os outros jogadores ou kichutes; camisas por dentro do calção. Solenes, litúrgicos, aguardavam as palmas. Mal o juiz autorizava o inicio e partiam em grupo na direção da bola, um bando desenfreado; não era raro dois jogadores da mesma equipe chocarem-se disputando a bola.




O time do MandaBrasa nunca ganhou um jogo, sequer empatou; fosse um clube com estatuto regular, certamente entraria para o Guiness book e desbancaria o Íbis, de Pernambuco, considerado o pior time do mundo. Entretanto, nunca houve grupo de jogadores mais felizes e unidos na busca de um ideal – e qual era o ideal “mandabrasa”? Simplesmente estarem em campo, correndo, disputando, jogando, sendo vistos pelos amigos, filhos, esposas. De algum modo, o “mandabrasa” era a personificação do torcedor comum, aquele que quer estar em campo, literalmente sentindo o calor de uma partida. Por conta disso, tinham a maior torcida, pois até os adversários torciam por eles – situação que certamente mudaria se num dado momento o MandaBrasa desandasse a marcar gols e ganhar jogos.

Nos jogos, havia uma proibição geral: jogadas maldosas e palavrões, em respeito à senhoras e moças. Era de bom tom se comportar bem: de certo modo, o futebol retomava sua origem nobre, quando os homens literalmente jogavam de paletó e gravata. Jogadas ríspidas só valiam se fosse para retribuir outra do mesmo gênero no momento imediatamente anterior, espécie de vendetta caipira, onde os alvos felizmente se resumiam às canelas dos adversários.




2 comentários:

  1. José Maria disse...:

    Salve Joca Ramiro, eu, sem qualquer dúvida quanto a ser nostálgico e saudosista, tranquilamente posso escrever: futebol era o do passado e mesmo quando podemos nos referir ao futebol profissional. Recentemente fui ver o meu Santos, no saudosista e nostálgico estádio do Pacaembu. Fiquei mais saudosista e nostálgico. E antes de assistir ao Barcelona Santos. Em Paraguaçu chove, e muito, então posso chover, digo escrever no molhado: belissimo, alguém duvidava?, texto. Grande abraço

  1. Joca disse...:

    ...amigo Zé! Tinha outro texto pronto, mas estava "futebolístico" demais, corria o risco de veto por parte da Editora Chefa, afinal, este é um blog de cultura regional, né mesmo? No outro texto eu escrevia sobre A Grande Ilusão que o atual futebol brasileiro representa. Montados no sucesso de gerações de ouro dos anos 60,70 e 80, hoje em dia jogadores recebem salários milionários antecipados, ou seja, sem necessariamente mostrar serviço. Nos dias de hoje, o cara acerta dois passes e é chamado Gênio! Em Sampa chove a cantaros, é o Sertão das Águas! Grande abraço!

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