Ser Tão Elis Eternamente

O que você fazia no dia dezenove de janeiro de mil novecentos e oitenta e dois?. A resposta à pergunta foi rápida: era bancário e trabalhava na rua Joaquim Floriano, Itaim Bibi. O Bibi foi acrescentado para diferenciar do Itaim Paulista da distante zona leste e lugar, já naquela época, de "uma gente diferenciada". Seu Bibi foi dono de chácaras que depois se transformaram no elegante bairro.

A maior parte do comércio, lojas, bares e restaurantes eram dirigidos pelos moradores do bairro, que ali também residiam em casas térreas, espaçosas com jardins na frente e quintais no fundo do terreno. A "força da grana que destroi coisas belas" transformou as casas e o antigo comércio em espigões e a Joaquim Floriano é rua de comércio chique. Muito provável que o Botequim do Hugo, na rua Pedroso de Alvarenga, seja um dos últimos imóveis, comercial na frente e residência ao lado. Construido em mil novecentos e vinte e sete foi durante muitos anos um empório, mantém a originalidade do local e é hoje um "bar da moda". Vale uma visita.

Naquele dezenove de janeiro por volta do meio dia o meu amigo Joãozinho telefona bastante aflito e com dificuldades para falar: "Zé, você não sabe o que aconteceu, quem morreu". O Joãozinho era representante comercial, ouviu a notícia pelo rádio do carro e naquele momento sentiu que precisava avisar os amigos. "Acabei de ouvir no rádio que a Elis Regina morreu". Foi um choque, Elis era a Maior, a cantora de maior sucesso no momento e já considerada uma das maiores vozes da música brasileira.

A rede social daquele momento eram o telefone e o rádio e a notícia foi se espalhando, muitos com dificuldade para acreditar e entender. As rádios interromperam as programações normais e passaram a transmitir direto do hospital, os fãs fecharam a Teodoro Sampaio e choravam abertamente. O velório foi no Teatro Bandeirantes, ali na Brigadeiro Luiz Antonio no coração do Bixiga. Durante a tarde, noite e madrugada milhares de fãs fizeram enormes filas para a despedida emocionada.

Foi ali no Teatro Bandeirantes que vi, várias vezes, o show Falso Brilhante e impossível esquecer o início com Ela entrando no palco cantando "No dia em que eu vim-me embora minha mãe chorava em ai, minha irmã chorava em ui e eu nem olhava pra trás, no dia que eu vim-me embora não teve nada de mais".

Ou em uma cadeira de balanço "balançando" no alto do palco: "quero ver o sol atraz do muro, quero um refúgio que seja seguro, uma nuvem branca sem pó nem fumaça, quero uma estrada que leve a verdade, uma floresta em lugar da cidade, uma estrela pura de ar respirável, quero um lago limpo de agua potável...".

A manhã do dia seguinte ficou gravada para sempre, a cidade estava triste, as pessoas compreendiam e sentiam que a musica brasileira ficava pobre, muito pobre e acompanharam o caixão, do Bixiga até o Morumbi, com a certeza que igual a Ela nunca mais.

Elis soube se posicionar contra o regime da época, deu oportunidade a inúmeros compositores novos e desconhecidos, valorizava os músicos que a acompanhavam.

O toca discos está "à toda" neste momento com muitos, muitos elepês de Elis rodando na vitrola.





2 comentários:

  1. Joca disse...:

    ... eu também era bancário, uma agencia ali pertin da Joaquim Floriano, já na avenida Santo Amaro. Trabalhava a noite e nesse dia soube da notícia em casa, pelo rádio. Foi um choque, pois eu estava encantado pela "Pimentinha", aquela cantora capaz de cantar de tudo com propriedade - músicas caipiras, sambas, as sofisticadas letras do Aldyr Blanc. Encantava-me também com sua personalidade forte, sua "falta de paciência com gente burra, medíocre e bajuladora" e aquele riso riso fácil, a gargalhada sonora, Enfim, eu era apaixonado pela Elis!
    Boa lembrança, amigo Zé! Não é a toa que és o memorialista do Ser-tão!

  1. Anônimo disse...:

    Caro Zé, eu tbem neste dia, aumentei minha cota de cerva ali na Rua das palmeiras, na padaria do português(que redundância) quase de frente a radio excelsior/globo. Havia poucas semanas que tinha ido ao show da mesma.
    BARBA

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