Tem problema?

Caminhada matinal com Dona Judith, minha mãe, e caminhada aqui é apenas "modo de falar" pois é o chamado passinho, passinho do alto dos seus oitenta e cinco anos. Parada logistica e providencial da Dona Judith no bar do Tião, na cadeira da calçada, ponto estratégico para ver e conversar com as pessoas que passam. Afinal são décadas morando na mesma casa, na mesma rua, mesmo com a certeza que muitos vizinhos já se foram ou "partiram desta para a melhor". Ainda não há provas cabais confirmando se o outro lado é mesmo melhor. Salvo um, ou outra, da mesma geração os cumprimentos maiores são de filhos e netos dos conhecidos.

Entre um gole de suco de laranja, uma mordida na esfiha, um bom dia para um conhecido, Dona Judith olha para um rapaz parado e pergunta para mim: "ele tem problema?". Tomei tento do espanto inicial ao olhar e ver que "ele" é o irmão do Tubaina, de pé, olhando para nós e para os lados desde que chegamos, sem falar uma palavra, sem pedir nada e sem arredar pé do lugar. Ele fica assim horas e horas, de pé, apenas observando, sem nenhum comentário, analisando o comportamento das "pessoas normais".

Nesse momento foi necessária uma volta aos tempos, aqueles em que uma pergunta ou afirmação explicava os "loucos", assim eram chamados antes do politicamente correto. E convenhamos que era simpático, prático, resolvia a situação, todos entendiam, os familiares aceitavam e não ficava nenhum mal estar. Era simples: se alguém falava sózinho, ou conversava e brigava com pessoas invisíveis, ou soltava grunhidos, ou ficava correndo em volta dos pais sem parar, ou tirava a roupa em público, ou dizia que era o profeta Isaias, ou saia correndo e gritando pelas ruas, os pais falavam "ele tem problema", estava tudo resolvido e não havia nenhum constrangimento entre as partes. De modo igual, quando um desavisado se assustava com um "problemático" a primeira providência era perguntar a alguém por perto: "ele tem problema?" e recebendo a resposta afirmativa se acalmava e entendia a situação.

O Raulzão era dos mais clássicos, conhecido por todos, era alto, quase dois metros de altura, um andar desengonçado e um vocabulário de poucas palavras. Alguns "engraçadinhos desocupados", assim eram chamados os "boas praças", disseram ao Raul que ele era o delegado da cidade. Toda manhã o Raulzão comparecia à delegacia para as providências de praxe, recebia as informações dos policiais, do delegado oficial, determinava o que eles deveriam fazer e ia embora.

O lixo residencial era colocado em "latas de vinte litros" - latas de óleo vegetal - e também em pequenos tambores que eram deixados em cima do muro das casas até a passagem do caminhão da prefeitura, o caminhão do lixo. Os funcionários da prefeitura, os lixeiros, jogavam o lixo no caminhão e colocavam de volta as latas em cima do muro. O Raulzão também se considerava um responsável pela guarda dessas latas e no seu caminhar, rumo ao trabalho, pegava as latas de lixo antes que fossem guardadas e jogava, até com uma certa força, dentro dos quintais sem nenhuma preocupação quanto à conservação delas e ao barulho feito pelas latas batendo no chão. Para desespero das mulheres e alegria das crianças, sempre elas, que ao bater da primeira lata sabiam que o Raulzão vinha vindo. Ao mesmo tempo que exercia as funções de "guardador" das latas também fechava os portões que encontrava aberto. Não gostava de ver portões aberto, ficava bravo, dizia algumas coisa e seguia em frente.

O Raulzão tinha ainda outras "obrigações" no seu corrido dia e uma era a de chefe dos bandidos, funções outorgadas por outros "engraçadinhos desocupados" que disseram ser ele o chefe ideal dos bandidos. Das suas poucas frases uma das preferidas era perguntar "quem é o chefe?" e vibrar com a resposta "o chefe é você Raul, você é o chefe dos bandidos". Saia feliz, muito feliz dizendo "eu sou o chefe, eu sou o chefe".

Como ele conseguia administrar as antagonicas funções de delegado e chefe dos bandidos?, ah! só ele sabia. Afinal quem tinha e ainda temos prolemas somos nós.


"Sim sou muito louco, não vou me curar.
Já não sou o único que encontrou a paz.
Mas louco é quem me diz.
E não é feliz,
Eu sou feliz."



3 comentários:

  1. Anônimo disse...:

    Grande Zé, peguei só o final do Raulzão. Na época do falecimento do mesmo, o boato é que foi aplicada uma injeção sossega leão, e o leão já não tinha mais aquele viço e não resistiu.
    Atualmente quem esta com deprê, é o nosso amigo Pão; aliás, esta vem com data marcada:de quatro em quatro anos(eleição) vce bem sabe que ele se considera o eterno candidato a vereador, mas iletrado não consegue registro. Questionável aqui em nossa cidade,pois, com raras exceções, quase todos os atuais vereadores se igualam ao Pão neste quesito
    Abraços
    Velho BARBA

  1. José Maria disse...:

    Salve Velho Barba, o Raulzão era mesmo clássico,o grande chefe. Ouvi relatos sobre a tal injeção. A deprê do Pão tem como causa principal a sua negativa de assessora-lo na campanha. Não quer nem ouvir o seu nome. Grande Pão,é dos "que tem problema" dos mais adoráveis. Obrigado pelo comentário, grande abraço, estarei por ai nas folias de momo.

  1. Joca disse...:

    Estudos sobre a loucura são muitos ao longo da história, alguns clássicos. Mas nada como ler nosso amigo Zé, o memorialista oficial do Ser-tão, onde tudo é muito simples: o louco deixa de ser o "estranho" ou "objeto de estudo". O louco se aproxima muito de nós, é até mesmo um de nós!
    Nos tempos antigos, cada aldeia tinha o seu louco - ou mais de um! - que se entendia com todos, cuidava e era cuidado por todos.
    Na periferia de nossa Sampa, ainda são possiveis alguns "louos tradicionais": Aqui no Jabaquara tem ainda o Zé Louco, que conheço há uns 33 anos. Fortíssimo, deve ter 1:90, muito prestativo,carregava sacolas de compras das senhoras, empurrava carros enguiçados e nunca aceitava pagamento. O único perigo que representava era um "tapinha" no ombro de quem gostava. Certa vez, eu, então magrelinha de 22 anos o encontrei e ele sorrindo veio me cumprimentar por ser o "grande atleta maratonista do bairro (na verdade, o único)" e despejou o "tapinha" no ombro que me jogou no chão violentamente. Desde então, passei a me prevenir dos "tapinhas" e nos demos bem desde então, mesmo que as vezes eu sisse correndo e ele se esborrachava de rir!

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