O MAIOR VIOLEIRO DO BRASIL

Não é de hoje que Ricardo Vignini qualifica o Indio Cachoeira (José Pereira de Souza, um dos “Pajés”, da conhecida dupla Cacique e Pajé) como o maior violeiro do Brasil. Pesquisador versátil e atento que é, Vignini sabe do que fala, pois mesmo sua relativa pouca idade cronológica, permitiu que entrasse em contato com os grandes mestres do instrumento dedilhado considerado símbolo do interior profundo do país continente Brasil. 

 Indio Cachoeira

De violas e violeiros o Brasil está bem servido: desde o litoral onde reinam os mestres violeiros caiçaras (vide fandangueiros de Cananéia), ao nordeste, passando por cerrados, campos, caatingas, terreiros e nos últimos tempos – felizmente! – por salas de concerto e demais respeitáveis palcos aqui e no exterior, a viola e os violeiros tem ocupado lugar de destaque. Tornou-se comum ouvir expressões como “cebolão” ou “rio abaixo”, talvez as afinações mais conhecidas da viola caipira, dentre as dezenas existentes. A viola caipira , de certo modo, retoma seu posto de destaque na cultura popular, que ocupou por séculos, quando reinava absoluta entre os repentistas do nordeste, dividindo a preferência daqueles artistas com a rabeca (naqueles idos tempos a afinação preferida era chamada “Paraguaçu). 


Indio Cachoeira, o maior violeiro do Brasil: não se trata, evidente, de um concurso, pois qualquer resultado resultaria injusto, tal a safra de virtuoses do instrumento; Cachoeira, entretanto, é mais que um instrumentista: é alguém que incorpora o “espírito” da viola em si, que agrega o sentimento singelo do matuto (bem entendido, não do matuto esteriotipado dos programas humorísticos ou novelas de televisão, mas do personagem que permaneceu esquecido e intocado por séculos, forjando em torno de si uma cultura pura e genuína) à aplicação de soberba técnica que valeriam anos de cátedra universitária. Afirmar, pois, que Cachoeira é o maior, é estar homenageando Tião Carreiro, Renato Andrade, Badia Medeiros, Paulo Freire, Roberto Correa, Zé Côco do Riachão, Pereira da Viola, Noel Andrade, Valdir Verona, Neymar Dias, Fernando Deghi, Rodrigo Azevedo, Daniel de Paula, João Arruda, jayme Alem, Adelmo Arcoverde, Zeca Collares, Almir Sater, Manoel de Oliveira, Gedeão da Viola, Milton Edilberto, Levi Ramiro, Julio Santin, Victor Batista, Carlinhos Antunes, Passoca, Tavinho Moura e tantos e tantos outros. Para não tornar fortuita tal afirmação, lembremos que Cachoeira é luthier , fabrica suas próprias violas e faz sob encomenda: literalmente um construtor de sons


Ricardo Vignini, urbanóide e originário do rock, conhecedor de Hendrix, Hetfield (Metállica), Page e todas aquelas feras da guitarra elétrica, migrou para a viola caipira sabendo o que queria e não pelo oportunismo que norteia outros, atraídos pela magia violeira, mas que chegam envelopados e plastificados : é fácil descobrir o violeiro embrulhão dos dias de hoje: fogem do improviso como o diabo da cruz e não é incomum se encontrar violeiros que só se apresentam no you tube! Ricardo Vignini não usa calça apertada, cintos com fivelões, nem mesmo chapéu. Ao adentrar o palco, parece o roqueiro que foi um dia (e continua sendo, pois rock é antes de tudo, atitude); conhece Cachoeira e sua técnica desde há muito, tendo se tornado seu produtor e parceiro, tendo com ele viajado mundo. Ultimamente estiveram em França, onde desfilaram a técnica refinada de instrumentistas e Cachoeira soltou seu vozeirão em genuínos pagodes – ao que consta, não foi necessário aprender francês para agradar!
 
Ricardo Vignini e Indio Cachoeira

Cachoeira é do sudeste, nascido na pequena Junqueirópolis (tenho a honra de ser seu conterrâneo!), mas sua mente viaja, tendo grande facilidade em adaptar e incorporar outros estilos e toques, como os ritmos andinos (vide sua versão para a conhecida El Humanuaqueño) e já tive a oportunidade de vê-lo em show do Centro Cultural acompanhar Ricardo e a Banda Matuto Moderno em estocadas roqueiras. Afirmo com segurança que Cachoeira é daqueles violeiros que onde chega, os demais emborcam a viola, em sinal de respeito. Mas ele não se faz de rogado: em sua simplicidade, convida todos para a festa, pois ele é a própria viola! 

 
Trecho de carta de Ivan Vilela para Indio Cachoeira:
“Sua musica renovou minhas esperanças, encheu de novos sons o meu espírito e me trouxe alegria. Por isso tudo e por tudo mais que o senhor tocará com suas mágicas mãos, eu lhe agradeço. De coração. Que Deus o abençoe e ilumine sempre."
 
Ivan Vilela


“A musica de Cachoeira é como ele: real, honesta e apaixonada”.
Woody Mann, bluesman

 Woody Mann

 SERVIÇO: alguns tipos de viola brasileira: viola caipira, sertaneja, fandangueira, de arame, nordestina, Queluz, de 10 e de 12 cordas. Denominações típicas de região para região: cabocla, de pinho, cantadeira, chorosa, serena, etc.

Ricardo Vignini e Indio Cachoeira tocando e cantando Boi Cigano, de Carreirinho, lá pelas ruas da França. Imagens da Rita Perran.


Mais Ricardo Vignini e Indio Cachoeira. Observem a mais perfeita e pura imagem do caipira ouvindo a apresentadora falando em francês antes da apresentação em uma capela.  Imagens da Rita Perran





4 comentários:

  1. Anônimo disse...:

    Foi por oportunismo sim!

  1. Joca disse...:

    O comentário acima, anônimo, não está muito claro. Aparentemente refere-se ao Ricardo. Se o for, discordo: Ricardo antes de tudo é um estudioso do instrumento, haja vista seu disco "Na Zoada do Arame", trabalho impecável que deve servir de referência, pois em muito contribuir para a exploração das múltiplas e ainda inesploradas possibilidades do instrumento.
    O meio "violeiro", como em muitos outros e muito naturalmente, tem os adeptos "puristas". Nada contra e muito a favor! Opiniões são importantes! Por mim - que não sou violeiro, muito menos entendo/especialista, coloco-me apenas como observador da cultura e notadamente, a cultura de caráter popular, minha origem - acho que a viola caipira é um instrumento que construiu sua história dialogando com muitos outros. Sempre foi assim, desde o nordeste de fins de sec XIX a principios do sec XX, quando fazia par com a rabeca; desde sua origem "européia", pois certamente foi desenvolvida a partir da "vihuela" espanhola, do alaúde árabe (de 5 cordas), da tiorba italiana, talvez da própria cítara (ou a citara foi desenvolvida a partir do alúde, quem pode saber?) A musica, desde a antiguidade, sempre foi uma forma de dialogo entre os povos: nos desertos do Oriente Médio, em tempos remotos, caravanas se encontravam, acampavam e na ausencia de conhecimento da lingua, "dialogavam" na base dos instrumentos que cada grupo carregava. A musica, de modo geral, absorve e incorpora conhecimentos, por isso, os puristas que me desculpem, mas o argumento não se sustenta por muito tempo, desde que se disponha a refletir. A se confirmar o confinamento da viola caipira unicamente ao seu reduto que se convencional chamar tradicional e não teríamos o magnifico VI Encontro De Violeiros em plena av São João, centro de São Paulo, bem ao lado da famosa galeria do Rock, o primeiro shopping do sertão paulistano!

  1. Valdir Verona disse...:

    Mais uma ótima abordagem Joca,grato por me incluir nesta baita lista! Abração!

  1. Unknown disse...:

    Texto impecavel. Artistas como esses sao boa referencia a tantos mundo afora. Parabens pela materia!

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