CENTRO VELHO: RESSURGE UMA PARTE SOTERRADA DA CIDADE

A região do chamado Centro Velho de São Paulo sempre me encantou desde minha chegada à metrópole, em meados da década de 1970; sempre gostei de perambular por ali. Fui atraído a principio pela mera curiosidade, mais tarde pelo encantamento puro e simples até a passagem dos anos me ensinar que aquela aparente confusão muito tinha a revelar da história da cidade e sua gente. Anos depois a editora chefa Fernanda de Aragão, Giba da Viola e o guru e memorialista Zé Maria encontraram uma expressão que qualifica brilhantemente o que significa viver nesta cidade: ser tão paulistano!

Nas ruas irregulares e estreitas do velho centro, se estendendo rumo a Baixada do Glicério, Várzea do Carmo e adjacências, chegando ao então intransponível Córrego do Anhangabaú, o amontoado de estilos arquitetônicos se mistura à confusão do comércio de todos os gêneros e pessoas de todas as idades, credos e origens sociais. O comércio popular divide espaço com cafés tradicionais; defronte à BMF sobrevive uma das mais antigas profissões metropolitanas: a elegante engraxataria, ali presente desde o século XIX, antes mesmo da existência da BMF, inaugurada em 23 de agosto de 1890. Pelas ruas XV de Novembro, Boa Vista, São Bento, Álvares Penteado, outrora centro financeiro da cidade (e do país), se nos dias de hoje não ostenta poder e dinheiro, desfila charme e cultura: a antiga sede do Banco do Brasil tornou-se um centro cultural, local de shows e exposições. Dia desses, deambulando num fim de tarde depois do compromisso de trabalho, deparei-me na Rua do Carmo, diante do SESC, com o cartaz: “Tavinho Moura & Fernando Brandt”. Foi pegar o ingresso e entrar para o show que começaria em 20 minutos! Eita comecinho de noite inesquecível! Pouco antes, tomei café na Casa de Anchieta e lá de dentro observava jovens estudantes posando e fotografando junto ao Monumento e sisudos senhores num impressionante entra e sai dos clássicos edifícios do Tribunal de Justiça; na calçada em frente ao Impostômetro, na Associação Comercial, um solitário pregador anunciava o Apocalipse (será que ele já sabia da crise do euro?!).
Sob viadutos e pelas calçadas, silenciosos corpos amontoados repetem outros combates, tendo como testemunhas os gigantes que transmudam de formas ao longo do tempo: nos primórdios, compunham a invencível Mata Atlântica; atualmente, arranhas céus. Em 10 de junho de 1562, Tibiriçá e sua gente repeliram um ataque dos Tupis e dos Carijós, que teriam massacrado a missão jesuíta e provavelmente destruído a então Vila de São Paulo. Há pouco mais de uma década, outros guerreiros retornaram e formaram o batalhão Viva o Centro e estão salvando o que resta do Velho Centro, combate desigual ante a sanha da especulação imobiliária, mais feroz que os Tupis e Carijós! O esforço tem compensado: o Velho Centro aos poucos revela seu rosto, repleto das rugas da História.
Do alto do Viaduto Santa Ifigênia, observo o Vale do Anhangabaú, o calçamento de pedras que soterrou o temível rio que nos primeiros tempos da então Vila de São Paulo ceifou inúmeras vidas - daí o nome que em Tupi pode significar Águas do Mau Espirito, das Diabruras, do Feitiço! O rio, que curiosamente nasce no Paraíso, passa por baixo da Av. 23 de Maio, foi encanado e subjugado, mas vez ou outra se enfeza e apronta das suas, quando ocorrem súbitas enchentes que em segundos faz carros flutuarem levando motoristas ao desespero.
O Anhangabaú é uma concha. Como as similares marinhas, se colocarmos no ouvido, podemos ouvir suas vozes, as misteriosas vozes do passado; mais importante que ouvir o passado, é decifrá-lo: ele tem suas próprias leis. Algumas vezes, as ouvimos profusas e eloquentes; outras tantas são confusas e incompreensíveis, mas jamais se cala. Debaixo do concreto, o rio ora murmura, ora esbraveja. Outras vezes um sombrio e inquietante silencio parece se impor por intermináveis segundos à multidão transitando ensimesmada, cada qual mergulhado em seu destino...
Mas, quando menos se espera, irrompe o tonitroar estrepitoso de cascos de cavalos, tinidos de metais, rugidos de motores, farfalhar de helicópteros e no fundo de tudo, um rangir pungente de um carro de boi parece emergir do fundo dos tempos, mas é a Emergência do SAMU abrindo caminho...
Nas criptas da Catedral, a poucas centenas de metros dali, o cacique guaianaze Tibiriçá repousa ao lado do ex-ministro da Justiça do Império, Diogo Feijó, de Bartolomeu Gusmão e outros. Do prédio da Prefeitura, chamado pelo povo de Banespinha, o helicóptero alça voo. Será o Prefeito? Os heróis em suas tumbas parecem pouco ligar, transeuntes falando ao celular muito menos, cada qual tem seus próprios problemas a resolver.
A cidade: seu passado e seu futuro nos desafiam...



2 comentários:

  1. José Maria disse...:

    Joel Joca Ramiro: conheço tanto o Centrão, quer dizer achava que conhecia, que meus olhos não viram o que está nas ruas. Estou alugando o seu olhar. Parabéns.

  1. Joca disse...:

    Amigo Jose Maria: voce é nosso memorialista, o historiador dos detalhes, sobretudo gastronômicos (onde é mesmo a melhor calabresa? QUem quiser saber, é só perguntar ao Zé!)
    Outro dia, passando pela Rua São bento, vi o empório onde se vende a legitima linguiça de Bragança e lembrei do pai da Monica Gouvea, seu Décio, e suas histórias do futebol! Grande abraço!

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