O CORPO NO ESCURO: A POESIA DE PAULO NUNES

fios de eletricidade conduzem

Mas não há saída, e em cada beco
Outras pessoas também intransponíveis
vão no mesmo elevador, e somem”
(trecho do poema Endereço)
O mineiro radicado em São Paulo, Paulo Nunes, lança seu primeiro livro, de poesia, fruto de longa e sólida maturação. Li-o com moderação , parando, pensando, por vezes retrocedendo e recomeçando, pois sua poesia não é uma distração, um passatempo. Conheci-o através da Musa da Música Brasileira, a Katya Teixeira, de quem Paulo foi parceiro numa das faixas do importante disco, o 2Mares, em parceria com outro mineiro, o Luiz Salgado. O livro me surpreendeu, pois achei diferente da pessoa do Paulo, afável, gentil, dono da boa prosa de quem está de bem com a vida. O livro, inicialmente claro e tranqüilo, aos poucos se adensa e nos faz pensar no homem moderno em quem nos tornamos...
Modernidades. Indústria cultural. Imagens fugazes. Velocidades. Impermanências: a boca voraz consome e tritura, impiedosa: diante de tal horror, o Corpo frágil e mortal, se esconde no escuro, aniquilado. Foge, talvez sem atinar do que, mas foge, por instinto; foge das luzes ofuscantes, implacáveis.
Não foge do horrível, do feio, dos frangalhos dilacerados dos corpos decompostos, foge do horror asséptico, dos corpos irreais do photoshopping e bronzeamentos artificiais, foge dos bisturis sangrentos mutiladores. Perante o horror que apenas a alma sensível enxerga, o Corpo, aquele de pele, músculos, ossos e nervos, que vive e sofre as vicissitudes do tempo, oculta-se no escuro. Ou nos desvãos deixados para trás pela volúpia avassaladora da sociedade de consumo.
É sobre isso – a fragilidade e finitude do corpo e da vida, que fala a poesia do Paulo. A medida em que nos embrenhamos em sua lírica, nos surpreendemos com as observações dos eventos prosaicos, comuns de qualquer habitante das modernas cidades do mundo ou nos interiores mais remotos de qualquer lugar: a cidade invade o sertão com sua estética incongruente, dissonante, a tudo desmoronando – linguagens, costumes: a TV e seus astros e dramas e éticas(?) padronizantes, arautos de uma falsa democracia. Mas o sertão se vinga e por sua vez invade as cidades. Bandos de jagunços e bandoleiros de vários naipes e timbres assolam as ruas e palcos e tribunas e impõe a lei do mais forte. Quem pode, se refugia em torres e castelos inexpugnáveis, quem não pode se expõe, enfrenta, negocia, se submete, reza. Nesse ínterim, mediando o impossível, arremedos de autoridades (políticas, judiciais, religiosas, policiais), todos aqueles que ao longo dos séculos fomentaram a ética(?) do “jeitinho” , falsamente travestido como “criatividade”: ensinaram ao povo que a corrupção milionária é uma espécie de “sorte grande.”
É nesse cenário meio kafkiano que vagam os personagens de “O Corpo no Escuro”. Personagens de carne, músculos, ossos, nervos que superam a solidão, a angustia, o descaso, a morte, a tristeza: ás vezes voam livres em céu azul, outras mergulham em ambientes sombrios que se adensam à quase solidez impenetrável. É a saga do poeta, para quem os tempos sempre foram difíceis ( Baudelaire bancou a primeira edição de 700 exemplares das Flores do Mal,que encalhou!). Porém, poeta e poesia são necessários, porque só podemos superar as crises através dessa sinceridade visceral, radical, atributo, dom, o que seja, dos poetas e sua capacidade de retomar a linguagem primordial do ser (o ritmo) para seguir em frente. Como toda boa poesia, a de Paulo Nunes ressoa questões fundamentais de nosso tempo: os permanentes conflitos dos seres humanos entre si e a consciência da finitude, na perenidade do tempo que escoa rapidamente.
Ser poeta, é ser mágico. É dançar conforme a musica, mas sem se acomodar. Muda o ritmo, mostra que é possível transformar. Artesão de palavras, ser poeta em tempos sombrios, é ser construtor de candieiros, velho instrumento de grande utilidade quando falta luz!
“Seremos nós, que olhamos e vos olhamos,
corpos no escuro?
Tateando
Tateando-se
Em infinita busca?”



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