KÁTYA TEIXEIRA, 20 ANOS DE CAMINHADA

...e já se passaram 20 anos, desde quando numa dessas noites paulistanas, tão comuns, uma moça com seus longos e encaracolados cabelos subia no palco do Armazém, conhecido espaço alternativo da Vila Madalena, dirigido pelo músico Oswaldinho Vianna. O olhar atrevido da moça escondia sua timidez por encarar oficialmente o público pela primeira vez, e por sua vez revelava uma determinação inaudita em romper conceitos. E um dos chamados conceitos , diria saudosista, que vigorava (e, de certo modo, continua em certos círculos puristas) era a ideia de que a música popular brasileira se esgotara sucessivamente na bossa nova, na turma do clube da esquina e na musica de protesto: ou seja, que a Musica Popular Brasileira havia acabado por volta dos anos 1980. A moça que naquela noite de 1994 subia ao palco do Armazém queria não apenas assegurar seu espaço como cantora, mas demonstrar e provar que a música é um aspecto cultural da maior relevância e que sua essência está além de estilos ou rótulos: as puras formas musicais sempre existirão, cabendo ao artista se aprofundar, mergulhar fundo, buscar onde estiver. A moça em questão era Kátya Teixeira e seus dotes de cantora já eram conhecidos de há muito, por quem frequentava os espaços musicais do Bexiga e Vila Madalena, entre outros.

Nasceu em meio a uma família inteiramente musical – avô seresteiro; mãe cantora; o pai, Chico Teixeira, era aboiador (gênero de canto para puxar o gado); seu tio Eliezer Teixeira é um importante folclorista, autor de livros e CDs. A família Teixeira formou o Bando Flor do Mato, dedicado a um trabalho de resgate da música folclórica, cantos de trabalho, etc., registrado em dois raríssimos LPs, hoje em dia nas mãos de sortudos colecionadores; outro de seus tios é o conhecido cantor, compositor, maestro Vidal França, que dispensa apresentações, assim como sua tia Mazé Pinheiro. Juntos gravaram o CD Sertão e Mar, um dos mais importantes da história da MPB.
Desde sempre, por sua casa circulavam personagens com João Bá, os irmãos Dércio e Doroty Marques, Klécius Alburquerque,Vital Farias, Katia de França, Zé Gomes,Stênio Mendes, Luiz Perequê, Oswaldinho e Marisa, tantos, tantos outros. A música, portanto, foi seu habitat natural; ao seu redor, em seu sangue pulsava desde sempre o DNA musical, o grande legado de cultura brasileira: aos 13 anos tinha sua voz registrada no disco (LP) “Fazenda”, do tio Vidal França.
Não tive a ventura de conhecer seu trabalho nestes primeiros tempos, só o fazendo quando já tinha gravado seu primeiro CD, o Katxerê. O conhecimento veio através do produtor e músico Chicão (Francisco Domingos de Souza) da Devil Discos e do grupo Terramérica. Eu era freqüentador/freguês habitual da loja da Devil, na Galeria do Rock, na 24 de Maio, onde regularmente comparecia à cata de novidades que só o mundo alternativo da música poderia oferecer. Numa das vezes, o Chicão (ou a Claudinha Lemos, não tenho certeza) retiravam da prateleira um CD e foram contundentes: “ Esse você leva. Se não tem grana, paga depois, mas leva. E se não gostar, devolvo o dinheiro!” Na capa, em primeiro plano a moça cujo olhar determinado lembrava a figura de uma madona de Velazquez, tendo ao fundo um brilhante sol. Linda capa, prometia: bons augúrios pra música brasileira? Paguei, claro, e fui correndo pra casa, curioso pela aposta. Provavelmente, o fato de não conhecê-la, tenha feito bem, pois ouvir sua voz de primeira causou-me um choque do qual jamais me esqueceria: o que tinha de inaudito e estranho , tinha de familiar, a voz clara e forte ecoando nostálgica nalgum ponto de minha memória ancestral.
A voz potente da moça enchia o ar de modo assombroso, mas que no momento seguinte soava suave, nos conduzindo leves pelas paisagens brasileiras: esse contraste, junção de força e delicadeza, compunha o ser humano e a artista Kátya Teixeira, ser híbrido potencializado das raças ibérica, índia e negra: canto forte da guerreira índia, da cabocla na congada, na canção, no aboio, na cantiga de ninar que desde o ventre a acalentou. Essa “base sonora” genética ganhou nela um corpo peculiar, de rara singularidade, acrescida ao convívio com os artistas de múltiplas origens e formações musicais, com quem privou desde sempre.
A subida ao palco, em maio de 1994, pelas mãos do Oswaldinho e com as bençãos de Marisa Vianna, foi o primeiro passo – oficial – de uma de uma carreira que sempre primou pela coerência, fiel ao limite aos seus princípios: por ora, quatro discos, quatro marcos, quatro propostas diferentes, quatro modos de ver e sentir o Brasil e sua gente. E o melhor de tudo é saber que há muito, muito mais ainda por vir:
-Katxerê, debut, de gente grande, se apresentando a cantora, a compositora, a pesquisadora, provavelmente o disco preferido do amigo e membro do seu estafe, o Zé Maria;
- Lira do Povo, corajoso empreendimento que custou cinco anos de viagens por várias partes do Brasil. Em várias faixas, é a própria voz do povo que se faz ouvir através de cantadeiras, rezadeiras, a forte presença de mestre Zé da Ernestina.
- Feito de Corda e Cantiga: a artista (cantora, compositora, instrumentista, designer) é o ponto de confluência entre quatro grandes compositores de diferentes estilos e origens: Giordano Mochel, Jean Garfunkel, Luis Perequê, Chico Branco. Segundo o poeta e parceiro musical Paulo Cesar Nunes, um dos dos CDs mais importantes dos últimos tempos da MPB.
- 2Mares, em parceria com o violeiro e compositor mineiro Luiz Salgado, lança luzes sobre as mais remotas origens dos mares português e brasileiro, por onde continuamos a navegar.
Assim é Katya Teixeira, “independente” em todos os sentidos, sem jamais ceder aos modismos fáceis e palatáveis, fazendo aquilo em que de fato acredita. Suas fontes são as raízes, a tradição oral, esteja onde estiver: nos terreiros, nas cozinhas, nas beiras de rio, nos pampas, nos cerrados, nas florestas, nos campos. Não há quem fique indiferente nas suas apresentações, à sua presença forte: verdadeiramente traz no canto a força amalgamada das três raças formadoras da brasilidade.
Casada com André Vênegas, formam uma verdadeira dupla do barulho, conforme podemos constatar nos Cds Feito Corda e Cantiga e 2Mares, com a participação especial dos Barbatuques.
Para terminar, com a palavra a própria Katya Teixeira, explicando as razões que a fizeram viajar pelo país, recolhendo temas para seu segundo CD, Lira do Povo, de 2004, onde em muitas faixas dá voz aos próprios protagonistas das cantigas:
"CAMINHANDO nesses Brasis, senti como se tivesse entrado nalgum conto, livro de história que já li... O cheiro, o sabor, os timbres, ritmos, pessoas, música. E pude perceber a Alma do Mundo, algo atemporal, o grande caldeirão cultural e social. Eu na o era mais leitora e sim, narradora,trovadora, cantando as imagens que desfilavam à minha frente..." (KÁTYA TEIXEIRA)
Parabéns Katya Teixeira, Katirina, Katyta, Mulher Estrela, Musa da Musica Brasileira! 20 aninhos é só o começo! Eita!



5 comentários:

  1. Marisa Viana disse...:

    Lindo texto, Joca! Katya Teixeira, orgulho nosso e para o Brasil! Privilégio nosso, meu e do Oswaldinho, que seus primeiros passos de uma carreira brilhante tenham sido no palco do nosso Armazém ....Desde lá sabíamos que aquele palco seria pequeno demais para esta artista talentosa e fiel às suas origens. Parabéns !!!

  1. Joca disse...:

    Ô, Marisa! Obrigado E sabemos que ser aprinahado por voces, é ter por toda a vida, um facho de luz no caminho Grande abraço!!!!

  1. Mercedes Cumaru disse...:

    Parabéns, Joca, pela linda homenagem para esse menina cantadeira que tanto admiramos. E esperamos que ela continue assim por mais 20, mais 20, mais 20, mais 20 e muito mais. Sinto-me privilegiada por ter a chance de trabalhar com ela e ser sua amiga. Parabéns, Kátya!

  1. Joca disse...:

    ..pois é, Mercedita, e ela merece todas as homenagens. Poucas personagens no cenário de nossa cultura representam tão bem a Arte Popular Brasileira!

  1. Parabéns pelo belo trabalho! Bravo!!! E o que é feito do Bando Flor do Mato?
    José Carlos Pereira
    josocarlos.pereira31@gmail.com

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