POESIA

Sempre fico reticente quando me ocorrem versos, pois não sou poeta. Sou, sem falsa modéstia, um ignorante em poesia, apesar de não ser insensível: vez ou outra, a Musa da Poesia passa por mim e acena, um rápido insight e se vai, deixando-me generosamente um ou outra resquício, que, as vezes consigo apreender, outras não! Em matéria de letras, quando muito arrisco prosa, narração. Sei que o mundo é construído por palavras, toda a Criação provém das palavras. O mundo, a invenção do mundo, é feita por palavras e nisso não há nenhuma subjetividade: os mitos fundamentais de todos os povos provém da Palavra. E talvez seja essa própria lógica mítica que fala mais alto em mim: através da palavra, procuro compreender o mundo.

A poesia, composta igualmente por palavras, difere de modo visceral e fundamental da prosa. E uma explicação/ideia do grande poeta mexicano Octávio Paz me encorajou a finalmente não ter medo de colocar no papel palavras que não tivessem a intenção de explicar, tal como me ocorria antes: “poesia é imagem”, diz ele, “imagem em palavra”. E a imagem não carece explicação, fala por si mesma – não é á toa a velha alegoria: “uma imagem vale por mil palavras” e acredito que o mesmo possa se aplicar ao gênero lembrado por Octávio Paz, a poesia, A Outra Voz. Ou a primeira linguagem do ser humano. Outro dia uma amiga poeta me disse a respeito de algumas vezes eu conseguir compor uns poucos, raríssimos versos: “São os momentos em que voce consegue ser mais rápido do que a razão!”
Razão e instinto: o eu, o que sou, o que penso que sou! Poesia deve ter muito a ver com isso, com a essencia do ser. Será por isso que é tão dificil apreendê-la? Seria a poesia um território da liberdade?
Transcrevo abaixo algumas imagens que me ocorreram outro dia:
MANHÃ
I
- Nada é casual
Me sussurou a Manhã
Jovem Manhã
Mansa e célere
Pão crocante e café
Sol morno a temperar
Entre fumaça fuligem
Ruídos ruínas
A Manhã se despede
Parte o trem
A carregar paisagens.
II
De longe a Manhã me diz:
- Ainda ha flores no mundo!
Uma incandescência viceja
São corações a pulsar



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