"OS SERTÕES", SEGUNDO ROBERTO BACH

A destruição do arraial de Canudos, no sertão baiano do final do séc. XIX, que provavelmente entraria para o esquecimento não fosse o livro de Euclides da Cunha, continua, ainda, passados 116 anos, a ser um enigma na consciência nacional, uma mancha indelevelmente vergonhosa da nossa história republicana. Nunca compreendemos o que ali se passou de fato, seu principal líder, Antonio Mendes Maciel, é santo, profeta, neurótico, conselheiro, louco, revolucionário, bárbaro, monarquista, tudo isso ao mesmo tempo e um pouco mais. Não passa pela cabeça de ninguém que uma numerosa comunidade se organizasse e se desenvolvesse a margem do Estado, no ignoto sertão, perdida no espaço geográfico e deslocada, em todos os sentidos imagináveis, do próprio tempo histórico: medieval, bárbara, primitiva. Pré-histórica? Imaginemos nos dias do atual sec. XXI, um líder carismático que saia pelos sertões, caatingas e cerrados pregando contra o Estado e corrupção, tratando esses “entes” como coisa demoníaca e que algum tempo depois reúna em torno de si milhares de pessoas – um cálculo aproximado avaliaria em torno de 100 mil. Não é difícil adivinhar o resultado: seria tratado como sério caso de Segurança Nacional e seria liquidado, se não por canhões, baionetas e facas estripadoras, mas por outros meios nem tão evidentes, contudo igualmente letais. (A melhor sorte que poderia ser lhe atribuída seria a cooptação, talvez se tornasse deputado ou senador ou um cargo comissionado qualquer, enquanto fosse útil. Ou seja, lhe restaria apenas um amargo fim, de um modo ou de outro).

Dos poucos capazes de entender o que foi Canudos e sua gente encontram-se os poetas e cantadores, embora durante a existência do arraial não houvesse aquilo que poderíamos chamar uma música típica canudense, como ocorreu, por exemplo, no cangaço. Isso se devia ao fato de Antonio Conselheiro ser um líder religioso extremamente severo e asceta, com regras rígidas de comando cumpridas zelosamente pelos chefes de campo, onde se destacava o temível João Abade. Posso estar equivocado, pois não pesquisei o suficiente e não tenho conhecimento se alguém chegou a pesquisar a “musica de Canudos”, mas não consigo imaginar no arraial festivos folguedos e danças, muito menos folganças regadas a cachaça ao som alegre de violas, tambores, pífanos, rabecas, sanfona pé-de-bode (8 baixos), instrumentos típicos sertanejos: as manifestações musicais se reduziam à benditos, ave-Marias, piedosos cantos de louvor e graça que se seguiam às suas famosas prédicas, ao anoitecer.A música profana em geral deveria ser considerada herética, assim penso. Outro estilo musical provável deveriam ser os aboios, comuns na lida do gado, não caracterizado como profano.
Ao longo do tempo, no entanto, surgiram trabalhos musicais de relevo inspirados por Canudos, sendo um deles, o mais recente que conheço, “Os Sertões”, de Roberto Bach, este diretamente inspirado na obra euclidiana, a partir de textos de Marco Bala.
Roberto Bach, baiano de Vitória da Conquista, tem autoridade para tratar do tema: não por ser baiano, mas porque sua alma é medievalesca, assim ele se posiciona no mundo, assim é o seu olhar e modo de sentir. Mas Roberto Bach não é personagem típico do período medievo, aquele que age de acordo com os princípios cavalheirescos, não é protetor dos fracos e oprimidos, não é o portador da justiça num mundo sem lei e ordem; em nada lembra os representantes daquela época que se cristalizou no Ocidente a Era de Heróis – que tem na lenda de Arthur seu ponto máximo. Antonio Roberto Bach é um poeta, um menestrel, entretanto, um renegado, um goliardo.
Os goliardos eram monges expulsos dos mosteiros e como não sabiam lavrar a terra e não tinham talento ou capacidade técnica para os ofícios ou a guerra, ganhavam a vida – literalmente o pão! – ensinando música e poesia ou divertindo o populacho com versões picarescas da grande arte exibida nos grandes salões aristocratas ou da Igreja. Libertos das obrigações sacras dos mosteiros ou talvez por vingança contra o regime opressor, carregavam fortemente os temas profanos, alimentados de forte teor blasfemo, erótico. São chamados “hippies da idade média” e a meu ver a comparação , se não correta, é muito apropriada para compreender sua postura frente o mundo e seu modo de ser: há, de fato, uma correspondência entre os goliardos e a geração beat: talentosos, ousados, desbocados, sensíveis; com distância de séculos, ambos – hippies e goliardos -, anunciavam profeticamente novos tempos, através do rompimento traumático dos velhos costumes.
Roberto Bach é um pouco de tudo isso: talentoso músico, poeta e artista plástico, desbocado, sensível e irascível na defesa de seus princípios, não se enquadra em nenhum grupo. Espírito livre, sem papas na língua, Bach é movido por uma estranha paixão que transparece e transborda. Seus versos são dotados de uma energia dilacerante, tal qual um louco pregando no deserto, nas mãos em vez de espadas e punhais, o violão ou as flautas. As palavras declamadas na Abertura – “...um dissidente insurgindo-se contra a Igreja de Roma, nos sertões do Brasil, nos sertões da alma...” – valem para ele próprio. O solitário e dissidente menestrel empunha seu violão e brada, solta a voz, sempre um corpo estranho por onde passa quando eventualmente participa de algum festival, nos sertões do mundo onde milhões de seres vagam em massa, como almas penadas. Ninguém mais apropriado, portanto, do que um goliardo para decifrar a atmosfera daquele reino “que não era deste mundo!” Eis o mundo de Canudos: nem a Utopia de Morus, nem o reino de São Sebastião, nem o Paraíso do Novo Mundo; Canudos foi um caso único na história.
OS SERTÕES, SEGUNDO BACH
O autor tem pulso no tratamento dos temas, sem apelar para o emocional superficial que sempre caracteriza as denuncias contras as injustiças. Os 13 temas que tratam dos principais episódios desde as andanças iniciais do peregrino Evangelizador, a construção da Tróia de Taipa, o Primeiro Confronto, alguns personagens, como as mulheres Guerrilheiras, a derrota inesperada do coronel Moreira Cesar, as táticas de combate no Quadrado de Baionetas, as armas – Canhões contra velhos fuzis -, o mar de sangue, o horror sem nome da Matança cruel, até o Amargo Fim.
O Conselheiro, que antes de se estabelecer na fazenda abandonada de Canudos (o nome “canudos” derivava dos bambuzais à beira do rio Vaza-Barris, os canudos de bambu) peregrinou por cerca de 20 anos por toda a região, fazendo pregações e reformando igrejas por onde passava. Canudos, chamada por Euclides de a Tróia de Taipa, reuniu no auge de sua existência, de 25 a 30 mil habitantes, dotada de autossuficiencia, algum saneamento básico, negociava o excedente de sua produção com as cidades das imediações – sua principal atividade era a criação de cabras, que lhes fornecia carne, leite e couro, que tinha múltiplas finalidades, de sapatos, a roupas e assesórios (bolsas,capas, etc). Numa região de miséria crônica, Canudos era um oásis, que crescia ano após ano, pois lá as pessoas trabalhavam para si mesmas, tinham moradia e até escola para os filhos. Com isso, esvaziavam pequenas vilas e fazendas da região, trazendo sérios problemas de mão de obra para os fazendeiros. (Tivesse Canudos sido deixada em paz, no que se poderia ter se tornado? Uma próspera cidade, exemplar numa região miserável, rude e áspera? Ou teria sucumbido uma ou duas gerações depois, engolida pelo coronelismo regional? São perguntas que jamais saberemos a resposta, seus apologistas e detratores se entrincheiram, ainda hoje, de cada lado de um campo de justas imaginário).
Roberto Bach se dispõe a narrar poética e de maneira concisa, essa irreparável tragédia nacional que ficou para a história como exemplo de resistência, bravura, loucura,covardia, mentira, intolerância: a expressão “Canudos não se rendeu” continuará para sempre ecoando, da mesma forma que no extremo sul do país, as palavras do índio Sepé: “A nossa terra tem dono!”, proferida no momento de sua execução. Expressões singulares, proferidas no calor da luta, carregadas de imenso simbolismo, que o tempo tratou de jamais fazer esquecidas.
O artista/cantor/narrador/poeta/pintor/músico em linguagem cortante, dilacerante e contundente, discursa com a “alma”, tendo ao fundo as vozes de lamento, dor e horror, tão vivas, tão presentes. Acompanham sua voz narrativa o som de flautas, fagote, viola, marimbau e um violão tocado com tamanha sensibilidade que se assemelha as batidas do coração humano. Para expressar poeticamente os fatos acontecidos naqueles sertões ignotos, para descrever a existência daqueles distantes e ainda tão vivos acontecimentos; para nos transmitir a sensação vívida do que significava aquele reino que não era deste mundo, ninguém melhor do que o goliardo Bach, herdeiro das tradições profanas dos renegados monges/poetas medievais. Sua voz de trovador nos conta e nos guia, colorida pelos instrumentos característicos que evocam outros tempos idos da saga humana, nos reconduzem por raros momentos àquelas cenas, onde se misturam sonho, loucura, horror, desejo de fraternidade. Por um momento, somos capazes de vislumbrar as vozes do povo desaparecido no árido e sangrento palco, onde se travou um combate de morte em nome de um “ideal”, mas não havia ideologias, pátria, mártires, honra, etc., e outros conceitos que venhamos convencionar segundo os nossos modernos princípios.
O mundo canudense, entretanto, não era medieval, não era uma célula preservada do universo medievo que sobreviveu no tempo; era uma sociedade que propunha uma vida piedosa segundo princípios religiosos, mas não era um movimento religioso. Canudos, a Tróia de Taipa, foi um episódio único, ainda à espera de ser decifrada, de uma compreensão mais abrangente que leve em conta as motivações que levaram milhares de pessoas desassistidas e vitimas por todo tipo de opressão, a lutar de maneira tão ardente, até o último homem. Somente essa cega e estranha paixão os levou a não se renderem... à guisa de conclusão, como um retrato inexplicável, que no entanto fala por si, o então correspondente do jornal O Estado de São Paulo, Euclides da Cunha, atesta em palavras reproduzidas por Bach no encarte do CD, “Canudos não se rendeu. No ultimo dia de combate, eram quatro apenas: dois homens, um velho e uma criança, na frente dos quais rugiam furiosamente 5.000 valentes soldados”.
O que se seguiu, o destino dos não combatentes, das mulheres, das crianças e dos homens encontrados com vida, não existe descrição possível para qualificar o horror, os abusos, o sadismo, a sanguinária vingança perpetrada pelas forças legalistas.
Uma estranha e inominável paixão movia os canudenses: o direito de (re)construir suas vidas de homens desprovidos de dignidade. Provavelmente não havia uma consciência politica clara do estavam fazendo ou mesmo do que queriam: mas aquela era a vida, era sua escolha, era sua fé e razão de ser e viver. Haviam conseguido, e não em nome de um projeto, palavra gasta e vulgarizada, enganosa e enganadora. Provavelmente, se houvesse consciência política ou outras ambições em pauta, teriam negociado a rendição ao pressentirem a derrota: mas aqueles homens e mulheres simples não tinham escolha, não tinham o que negociar, pois haviam se refugiado no ponto extremo de sua condição de homens e mulheres: haviam alcançado, metaforicamente, o Paraíso, e dali não retornariam ao inferno cotidiano de vida miserável, mesmo se o desejassem ou pudessem: haviam se tornado à duras penas homens e mulheres de verdade, ultrapassaram os mundos dos sonhos impossíveis – eram a própria encarnação do sonho impossível e dali não retornariam, lutariam até o esgotamento completo, tal como se deu.
Compreender o que foi Canudos e sua luta, pode nos ajudar a compreender a nós próprios, o que somos e o que queremos, pode nos levar a refletir sobre líderes salvadores. O trabalho de Roberto Bach, sua fidelidade aos fatos e a qualidade musical, merece ser conhecido: compreender o que foi Canudos, é compreender a nós mesmos, nossas singularidades enquanto nação mestiça...
Sobre o CD: a lamentar apenas o tratamento espartano do acabamento gráfico, evidente conseqüência da dificuldade de financiamento da produção. Até que Roberto Bach se esforça em fornecer detalhes: tem um subtítulo elucidativo por si: “Um Cantico Sobre o Episódio Mais Sangrento de Nossa História.” Na ultima capa, a reprodução das duas ultimas frases do livro. Duas pinturas de Roberto Bach ilustram a primeira e última capa. E só e muito pouco: merece um libreto com todas as letras e comentários de especialistas em história e música, descrições dos lugares, se possível um mapa da região de então – teria de ser uma reprodução muito antiga, de época, pois o governo militar fez o grande favor de inundar a região construindo um grande açude, talvez com a intenção de afogar e apagar a história, só pode...
Serviço:
Roberto Bach tem quatro CDs gravados: a trilogia medieva contendo os discos “Oliveira”, “Pequeno Concerto Campestre” e “A Colina dos Cavalos Fortes” e “Os Sertões”. No final da Trilogia o autor escreveu “...que toda a minha obra está esgotada e nada mais tenho a dizer sem me tornar repetitivo.” Duvido: o universo da musica medieval é vastíssimo e ele, Bach, é um dos raros conhecedores. Cada aspecto da musica medieval tem inúmeros desdobramentos – cantigas de escárnio, de amigo, de amor, cantigas de Santa Maria, pastorais, etc., sem contar o conhecimento de autores do período, especialmente John Downland. Existe no youtube uma versão em português feita por ele, Bach, para “Greensleaves to Ground, música ícone do período.



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