GRÂNDOLA, A CANÇÃO DO POVO

Foram muitos os artistas comprometidos com a derrubada da ditadura salazarista. Os movimentos revolucionários são raros momentos em que os sentimentos fraternos sobrepujam todos os demais interesses e tudo conflui: são momentos de força e esperança, repletos daquela beleza que só os corações sinceros reconhecem! Na Revolução dos Cravos, Zeca (José) Afonso pode ser considerado o maior símbolo, tornou-se clássica a cena em que ele ergue o cravo vermelho como um estandarte. Ou um troféu. Uma espada. Ou simplesmente a flor. Haviam outros, muitos, tão ou até mais comprometidos ideologicamente do que ele: Adriano Correa de Oliveira, José Mario Branco, Luis Represas, Sergio Godinho, Carlos do Carmo, os irmãos Janita e Vitorino Salomé, Fausto Bordalo, Brigada Victor Jara, etc. Porém, foi na figura aparentemente doce de Zeca que o símbolo se materializou e atravessou décadas.

A canção “Grândola, Vila Morena”, que ficou para a história como a segunda senha para o levante dos tanques nas ruas fez parte do álbum “Cantigas do Maio”, de 1971, que selou definitivamente a parceria musical com José Mario Branco, que mudaria a carreira de Zeca: um disco revolucionário não só por conta dos arranjos ousados de Jose Mario, mas especialmente pela forte simbologia nele contida. “Grândola, Vila Morena”, a quinta faixa, é uma simples canção, composta para homenagear os moradores daquela região operária e pobre, cuja principal força provinha da solidariedade e fraternidade entre si. A ligação de Zeca com o povo de lá era antiga, desde 1964, quando passou a atuar na Sociedade Musical Fraternidade Operaria Grandolense.
Menos de um mês antes da eclosão revolucionaria, militares do Movimento das Forças Armadas (MFA) assistiram a um espetáculo no Coliseu de Lisboa e combinaram que a canção seria a segunda senha – a primeira seria as 22:55 hrs de 24 de abril, “...E Depois do Adeus”, de Paulo Carvalho. Uma hora e vinte e cinco minutos depois, aos 20 minutos da madrugada de 25, no programa Limite, da Radio Renascença, tocou-se a Grândola e os tanques tomaram as ruas. Foi uma revolução feita por militares, entretanto, consolidada pelo povo, pela democracia. Jamais foi esquecida, nem a Revolução nem seus artistas, pois Zeca e seus companheiros foram mais que cantores de intervenção (que no Brasil foram chamados cantores de protesto). Mas esses artistas foram mais, foram atores do processo, havia um envolvimento genuíno, embalados pela fé naquilo que acreditavam, havia paixão, entrega, sobretudo empenho em construir uma nova sociedade. Difícil uma definição e também irrelevante; dizer que eram “engajados” parece diminuí-los, situá-los num determinado período, numa data, com pouco significação além do período vivido. Tais artistas eram como estandartes, convergiam e espalhavam, semeavam; eram cidadãos-artistas que colocavam a alma e a arte a favor de uma causa que era mais do que sonhos ou imperativos pessoais: artistas e cidadãos inteiramente comprometidos com o momento histórico que viviam.
Os cantores de protesto são seguidores de uma antiga linhagem de artistas, de provável origem ibérica ou do médio oriente, que foram se adaptando às novas circunstancias ao longo dos séculos, sem nunca se repetirem - eram artistas que viviam à margem, que não se conformavam aos esquemas, andarilhos que sobreviviam de levar e trazer noticias e por isso eram muito apreciados e aguardados pelas populações pobres, que não tinham meios ou condições de obter notícias do mundo - provavelmente vem daí o seu vinculo com os mais despossuídos. Uma das formas de fazer era através da musica, o que faziam em forma de "epopéias", "rapsódias", etc. É uma longa história. No século XX encarnaram o espírito "beat generation" nos EUA que resultariam em artistas como Woody Guthrie, Leadbelly que de algum modo ajudam a fomentar o movimento hippie. Como se vê, não há unidade nem artistica nem politica, não existe uma orientação, uma ideologia (por isso desconfio das teses que argumentam que todo movimento popular precisa de um lider, de uma orientação politica... Porque não pode ser expontâneo? captar o 'espírito' de uma época, de um determinado setor da sociedade, não seria essa uma das 'funções' do artista???) Os 'cantores de protesto' no Brasil, os 'cantores de intervenção' em Portugal são, assim, co-irmãos ou primos próximos, embora com estéticas absolutamente diversas. E olhe que os 'artistas de protesto' estão mais vivos e atuantes do que nunca: há pouco tempo publicamos aqui uma crônica onde falamos de Giancarlo Borba, um cantor militante do Sul do Brasil, seguidor direto - talvez involuntário - de Atahualpa Yupanqui e Victor Jara. Os 'missioneiros' capitaneados por Noel Guary, Cenair Maicá e Jaime Braun são exemplares nessa arte de sobreviver à margem. Atualmente, o Projeto Dandô - Circuito de Musica Dércio - idealizado por Katya Teixeira - é também um brado de resistência (palavra aqui mencionada com todas as dimensões possíveis!) se não marcadamente política como seus antecessores, mas contra os grandes esquemas mercantilistas da arte. Katya e seus companheiros de estrada, dos quais destacamos Giancarlo, Valdir Verona, João Arruda, Levi Ramiro, Paulo Matricó, Nadia Campos, o Grupo Viola Quebrada e tantos outros, inspirados pela arte de Dércio Marques são os atuais "epopeitas, rapsodos e aedos", que levam ao povo as notícias do mundo. E assim, faz-nos descobrir um pouquinho do que somos. E por essas e outras que fazemos aqui - mesmo arbitrariamente - essa ponte entre o movimento do 25 de abril e o Projeto Dandô.
A “Grandola, Vila Morena”, por tudo o que significou, tornou-se um símbolo: é uma canção portuguesa, criada num momento específico, numa região especifica, para uma categoria profissional específica, e que se tornou universal,ultrapassou as fronteiras lusas, ganhou ares e mares. Canção simples, podendo dispensar instrumentos fazendo uso somente de palmas de batidas de pés, num andamento que lembra marcha de soldados, qual a sua força? É um símbolo contra a opressão, opressão que muda de cara, de cor, de caráter, não obstante continue por toda a parte a ser o que sempre foi: nos dias que correm, apesar de todo o progresso técnico e material auferidos pelas sociedades e teoricamente disponíveis à todos, milhões ainda são diretamente escravizados nas periferias do capitalismo, sob os olhos complacentes das grandes potências e organismos internacionais (leia-se ONU) e outros tantos oprimidos pelo medo, pela ignorância. Ouvir a Grandola é ouvir um apelo, um chamado.
Perde-se a conta de quantas vezes foi gravada, outros tantos de milhares representada e cantada, tocada. Entre tantas curiosidades, existe versões em jazz, coral, etc. No Brasil Nara Leão foi a primeira a registrá-la, ainda na década de 1970, num compacto simples. Em 1987 o grupo Rock Brasileiro 365 a incluiu num álbum, chamada simplesmente Vila Morena. Em 2013, foi a vez de Katya Teixeira e Luiz Salgado, no CD Mares.
Impossível separar Zeca, a Grândola, o Cravo, a Revolução. Estão todos, irmanados intrinsecamente com a história recente de Portugal e de certas regiões de Espanha. Em quaisquer situação de crise, mesmo de identidade, eis que a Grândola torna-se voz ativa, retorna ao povo de onde saiu.



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