A VIOLA DO FUTURO, parte 2:

Faz algum tempo publicamos neste Ser-tão Paulistano um texto denominado “Viola do Futuro”, que versava sobre a presença da viola caipira na música e na cultura brasileira ao longo do tempo, seu desenvolvimento e a capacidade e facilidade de dialogar com outros estilos e gêneros musicais. Retomamos aqui o tema, tecendo mais algumas considerações sobre esse instrumento de origem remota que se tornou tão brasileiro, amalgamado que foi ao caldo cultural que fervilha por esses trópicos – é correto falar de origem européia, precisamente da Peninsula Ibérica, mas suas variantes se espalham pelo resto do continente, pelo Oriente Médio, até o Extremo Oriente. (Atenção para as músicas Meu São Gonçalinho, de Luiz Salgado e Kátya Teixeira e São Gonçalo do Brasil, de Kátya Teixeira e do poeta Paulo Cesar Nunes, dois temas que na verdade formam um continuum e que tratam de maneira admirável a transformação de São Gonçalo do Amarante ao” migrar” para o Brasil e travar contato com os índios, negros e caboclos, quando mudou sua indumentária negra vetusta para calças e camisas coloridas, além de deixar crescer os cabelos. Em poucos versos os artistas escrevem um pedaço interessante da História Cultural do Brasil e de Portugal. Vide o CD 2Mares, de Kátya e Luiz . Há também um post tratando diretamente do assunto tema: “2Mares, Luzes Sobre Nossa História”).

E foi meditando a respeito que me ocorreu a idéia de imaginar se algum dia, no futuro, seria possível a viola caipira, não obstante seus recursos sonoros infinitamente mais modestos, superar a guitarra elétrica. Melhor explicando: a guitarra elétrica deixaria de existir como tal, sendo substituída com ganhos sonoros por outro apetrecho qualquer enquanto a singela violinha, em seu passo de mula, seguiria viagem na estrada do futuro...
Não pretendo de nenhum modo abrir polêmica, pois não se trata de ser melhor , ou coisa que o valha; são instrumentos extraordinários, com mestres que para sempre serão lembrados pela genialidade. No nosso caso, trata-se de mera hipótese e através da mesma, refletir sobre os referidos instrumentos e o que possuem de simbólico. São ambos especialmente representativos de suas respectivas épocas – a viola tem a favor de si a antiguidade, provavelmente uma Aura mais definida - considerando que os objetos de Arte são impregnados pelo ‘espirito’ de quem faz - a viola sendo normalmente produção artesanal, difere da guitarra elétrica, produzida em escala industrial. Não consideramos aqui as especiais relações que os músicos têem para com seu instrumento preferido, lembremos aqui, a guisa de comparação, Jimmy Hendrix com a guitarra elétrica, Gedeão da Viola com a viola: relação que se aproximava do amor por uma mulher! A viola caipira seria, digamos, um “instrumento-mãe”, a partir do qual outros se desenvolveram, se aprimoraram. Por isso, superou modismos, seus praticantes e apreciadores nunca foram considerados personas exóticas ou excentricas, ou seja, desvinculados da vida cotidiana, sempre estiveram dentro do contexto, sempre presença viva em seu meio social – para o caipira de fato, a viola é uma espécie de indumentária, assim como a enxada, o canivete para picar fumo de rolo, o facão na cintura, o chapéu: Zé Côco do Riachão dizia “chapéu é documento!”. Ao longo tempo, séculos, a viola sempre foi praticada e cultivada vivamente em algum lugar, seja por moradores pobres do litoral (caiçaras) ou do interior (caipiras), a gente que habitava o sertão profundo (no passado, num tempo que cartas levavam meses para chegar ao destino e o meio de comunicação mais eficiente era o radio, ao se mencionar sertão, era praticamente um divisor territorial, de mundo e de pensamento: o distanciamento era completo, era o adentrar num mundo completamente desconhecido). Assim sendo, o alentado vigor que a viola caipira tem experimentado nas últimas duas ou três décadas no Brasil, não é nenhuma surpresa: descobriu-se sua adaptação para outros estilos e seus recursos ainda estão numa fase incipiente. Imagino nalgum momento a viola sendo utilizada na música improvisada, a exemplo do que acontece com sua companheira dos velhos tempos do repente, a rabeca: por onde andará o Thomas Rohrer violeiro?
A viola sobreviver à guitarra elétrica é, claro, uma mera hipótese, considerando o que ambas tem de simbólico, de representativo. A guitarra, mais do que símbolo de um gênero, é símbolo de uma Era, a eletrônica: através da eletrônica, a Modernidade chega ao máximo de seu paroxismo: dela, eletrônica, como que infinitos ramos e fios brotam, incessantemente, com efeitos sobre todos os aspectos da vida humana, em múltiplos desdobramentos. (Muitos falam, por toda parte, em pós-modernidade. Parafraseando o poeta e pensador da cultura Octávio Paz, não acredito nisso. “Pós” é após alguma coisa e não me parece que a Modernidade seja coisa do passado. Para existir uma “pós modernidade”, precisaria que esta estivesse totalmente superada para que se colocasse algo no seu lugar. Há mais de 80 anos que se fala nas artes de “pós, pós, pós”, do que se conclui que “pós modernismo” é apenas um rótulo que determinado grupo de pessoas determinaram de maneira absolutamente arbitrária. Os artistas “modernos”, sabemos, são uma classe totalmente diferente dos da antiguidade clássica. São capitalistas, apesar de renegarem completamente tal denominação. Por isso inventaram o selo “pós modernismo”, que na verdade nada diz além da marca. As marcas, bem o sabemos, são os novos deuses, abençoam e são abençoados pelos mercados – sendo ele próprio “mercado” o supremo sacerdote-mór com super poderes, capaz de condenar alguém ao ostracismo ou conduzir aos píncaros da glória e da riqueza. A Modernidade surgiu com as máquinas a vapor e a carvão e continua se desenvolvendo, a eletrônica e suas variantes são sua face momentânea. No universo musical, a eletrônica demorou a ser incorporada, com exceção das técnicas reprodutivas, uma novidade que a seu tempo deve ter tido um efeito fascinante e ao mesmo tempo dramático sobre as mentes. Pela primeira vez na história da Humanidade a música erudita poderia chegar às grandes massas e o acesso só tende a crescer – ressalva para o item qualidade: é possível comprar as árias da Carmina Burana ou sinfonias de Beethoven por 50 cents de dólar, porém... Mas foi somente a partir da segunda metade do século XX que surgiram os instrumentos puramente elétricos: teclados, pianos , etc.; a eletrificação dos instrumentos de corda e dentre esses, o mais representativo: a guitarra elétrica, aperfeiçoada por Lês Paul, cuja pujança, efeitos e novos recursos se tornou o veículo ideal para o novo gênero musical que surgia, decididamente capaz de abalar as estruturas: o rock-and-roll.
Entretanto, apesar de tudo, a Era Eletrônica – não obstante a incorporação e dependência da Humanidade em grau cada vez maior, invadindo de forma avassaladora cada aspecto da vida cotidiana: comunicações, transportes, lazer, abastecimentos, comércio, segurança. Uma paralização prolongada do setor elétrico, por exemplo, levaria ao caos com conseqüências inimagináveis: as grandes metrópoles seriam ambientes mais perigosos do que florestas habitadas por monstros. A sobrevivência dos grupos sociais, portanto, depende exclusivamente da eletrônica, pelo menos até que se invente outros recursos – um exercício fantasioso nos faz imaginar pequenas e eficientíssimas unidades de energia (solar, eólica ou qualquer outro elemento da natureza que não seja finito, como é hoje) que permitisse aos indivíduos e suas famílias sobreviver. O certo é que o modelo energético atualmente em vigor – baseado na eletricidade e seus congêneres, tem data marcada para ser transformada ou mesmo desaparecer em algum lugar do futuro.
E da mesma forma como as Eras se sucedem umas às outras, sucede o mesmo com o encanto, o fascínio correlatos. Ou talvez antes disso o fetiche correspondente se desfaça; já é um consenso nos tempos atuais a volubilidade do consumo; estudiosos há muito se debruçam sobre a necessidade de conter o consumo por si mesmo, dada a cada vez mais crescente exiguidade dos recursos disponíveis.; os fetiches resultantes do simples prazer de consumo em muitos casos é até mesmo considerado uma anomalia e não está longe o tempo em que se buscará adquirir produtos pela sua durabilidade e utilidade não simplesmente pelo deslumbramento que o mesmo causa. A finitude e a dependência dos recursos encaminha a humanidade para a produção de bens duráveis, e não apenas voltado para o consumo. E com o desencanto, é possível considerar a possibilidade do desaparecimento de seus símbolos?
Não resta dúvida que o advento da Modernidade, ao mesmo tempo que iniciou uma era de progressos e benefícios para toda a humanidade, ao mesmo tempo lançou-nos todos numa crise que é um abismo sem fim, como bem interpretou Walter Benjamin ao considerar Edgar Allan Poe e Charles Baudelaire como os espíritos que melhor identificaram a angustia dos tempos que se iniciavam.
Vivemos plenamente a Era Moderna em todas as suas vicissitudes, e também suas benesses através do aprimoramento das técnicas – outra vez a lembrança e o argumento que praticamente se tornou clichê: a técnica deve servir ao ser humano e não o contrário, isto é, o ser humano não deve ser escravizado, ser dependente de maquininhas produzidas na China. Acho, por exemplo, o fim da picada afirmações do tipo “...ah, sem a internet eu não consigo viver” Ou “...a vida não é possível sem a internet!” Ora bolas, e como o mundo conseguiu sobreviver antes da internet? Simples exercício, simples raciocínio: a internet, assim como o motor à explosão, o telégrafo, o rádio, o forno microondas, a pólvora, o transistor, a roda, tudo isso são técnicas que vieram para tornar a vida mais confortável. Produziram, evidentemente, revoluções, mas não ao ponto de determinar irredutivelmente a existência ou não da vida no planeta ou mesmo da História como um todo. O antropólogo Claude Levi-Strauss dizia que a revolução mais importante da humanidade foi a ocorrida no período Neolítico, quando o ser humano descobriu que poderia cultivar alimentos em vez se coletar. Com isso ele alterou para sempre seu próprio comportamento – ao se sedentarizar – e também a relação com a natureza. Uma forma de vida com milhares de anos foi ali deixada para trás e iniciava-se outra. Ao início do terceiro milênio, o escritor Umberto Eco, ao ser perguntado sobre a invenção mais importante do milênio, não teve dúvidas: o feijão, pois, rico em proteínas e de fácil acesso aos pobres, livrou milhões da morte certa durante a peste negra. Nada, portanto, de luzes, hologramas, botões: tudo isso são variações da técnica, um mundo de possibilidades praticamente infinito. O que assegura e determina a vida em si mesma é a nossa relação com a natureza, um elo que jamais deve ser rompido. Admita-se ou não, ainda somos gerados pelo modo tradicional como desde que a vida teve início na Terra, único lugar do Universo onde a mesma é possível, até prova em contrário.
As crises que vez ou outra nos bate à porta, cada vez com mais insistência, são conseqüências de nossos atos enquanto humanos e como tal, carregam em si a potencialidade da solução: são sugestões e avisos de que cabe a nós encontrar a solução e que a mesma existe: perante a crise, só resta a solução; a permanecer na crise, não saberemos até quando poderemos resistir, não saberemos até quando o atual modelo de desenvolvimento continuará, não saberemos se a ruptura será catastrófica a ponto de ameaçar a própria vida. Nosso destino, o destino das sociedades, porém, é inevitável: ou reagimos ou saltamos para o abismo. A experiência histórica nos ensina que nos momentos agudos de crise, sempre buscamos uma via de escape e geralmente recorremos esse novo sentido na origem, no principio de tudo.
Após o deslumbramento, ao fim do oba-oba trazido pela Modernidade, entre eles o consumo desenfreado que alimenta por sua vez o grande capital, quiçá haja uma revalorização pela busca dos elementos mais simples. A sobrevivência do mundo onde vivemos exige medidas que quanto mais o tempo passar, tornar-se-á mais radical. Uma nova consciência está nascendo, lentamente: nessa nova consciência reside uma grande esperança que se expressa claramente e com imensa aceitação nas artes. A valorização viola caipira como instrumento de concerto – quem duvidar, preste atenção nas composições do Indio Cachoeira, do Renato Andrade, no trabalho do Wilson Dias, Paulo Freire, Jaime Além, Valdir Verona, Ivan Vilela, Levi Ramiro, e tantos outros artistas. Nesse retorno à pureza, nada mais simbólico do que a violinha caipira e os instrumentos acústicos em geral – é um claro sintoma do que o futuro pode nos reservar. Lembremos finalmente da rabeca, a rústica e medieval rabeca que nas duas últimas décadas tem provocado verdadeiras revoluções quanto às suas possibilidades e recursos. Trabalho e pesquisa iniciada e desenvolvida por dois mestres, o Zé Gomes e Zé Eduardo Grammani. Beleza e riqueza que o suíço Thomas Rohrer leva para o mundo inteiro secundado por seu parceiro e também mestre, o luthier Nelson da Rabeca. Seu Nelson é especialmente valioso, pois, não se contentando ao estilo tradicional e secular, mergulha nos improvisos do Thomas, do percussionista Panda Gianfratti e de outros. A Arte é e sempre será uma excelente metáfora: imita a vida e vice-versa. O ser humano é uma ponte; um elo indissolúvel o liga ao passado e concomitantemente ao futuro.
O Anjo da História, quadro de Paul Klee que inspirou Walter Benjamin num de seus textos mais inspiradores, mira o passado mas seu dedo aponta adiante, rumo ao futuro...



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