JOGOS INDIGENAS

Está acontecendo nos dias finais de outubro de 2015, em Palmas, capital do Tocantins, Norte do Brasil, os I Jogos Mundiais dos Povos Indigenas.

Embora não seja destaque midiático, trata-se de um acontecimento que deve ser festejado, comemorado, refletido.
É o equivalente às Olimpíadas, pois estão presentes povos nativos de muitos países ou pelo menos daqueles onde alguns povos originais estão suficientemente organizados socialmente para garantir a participação.
Trata-se de uma competição esportiva, mas é mais do que isso: a bem da verdade, de competição esportiva propriamente dito, o mundo está cheio e saturado. Cheio não do esporte, algo sempre saudável, belo e divertido, mas do exagerado interesse comercial. Praticamente em todas as competições esportivas existentes no mundo, na grande maioria das modalidades existem suspeitas de fraude, o que aniquila com tudo aquilo observado lá atrás – ‘algo sempre saudável, belo e divertido.’ O futebol, o esporte das multidões, grande paixão mundial, sempre foi marcado por polêmicas, mas cada vez piora! Pudera! Com tantos bilhões envolvidos num mundo regido – ainda! – pelo cego egoísmo, falar em esporte limpo e decente é doce utopia. Por toda a parte, no Brasil e no mundo, a maior parte dos resultados na arena esportiva são suspeitos de favorecimentos e manipulações onde a última coisa a contar é o desporto... sem falar dos escândalos de loterias que vez ou outra explode num país civilizado ou outro.
Nas competições indígenas o esporte ainda é praticado com o que resta de pureza – além do universo infantil (e olhe lá! Nos colégios, crianças mal saídas das fraldas são instigados a competir, ovacionados por pais ensandecidos nas arquibancadas). Entre os indígenas, o que mais interessa é a “alegria de vencer.” Certa vez, ao assistir uma feroz disputa numa “Corrida da Tora do Buriti”, na grande aldeia de São Marcos, MT, perguntei a um dos componentes da equipe vencedora: “..., mas, o que vocês ganham, de premio?” Sorrindo, o jovem me respondeu: “Alegria! Nós, vencedores, podemos dançar a ‘Dança da Vitória’, eles não podem, vão ficar tristes desta vez!” E de fato, dali a pouco chegavam os ‘outros’, a facção derrotada, todos emburrados, empurrando a Tora com os pés até o centro da aldeia. Em seguida, entretanto, se dispersaram, cada um pro seu canto, porém, mais tarde se incorporariam á Grande Festa – na ocasião se celebrava um ritual ‘wapté’, passagem do adolescente para adulto...
Além de tudo, o evento é uma amostra, a nível mundial, de variadíssimas manifestações culturais absolutamente autócnes: de regiões frias, quentes, temperadas, montanhosas, planaltinas, do gelo, de toda parte. Rituais, artesanato, musica, culinária.
Saliente-se que os povos ali representados são acima de tudo sobreviventes. É, portanto, cultura de resistência! Mesmo expoliados, massacrados, dizimados ao longo de milênios – continuam sendo! – mesmo assim, resistem. As culturas predominantes da técnica chegaram ao limite. Conquistaram tudo o que havia para conquistar em termos de territórios. Chegaram ao limite extremo que não tendo mais o que conquistar, na ânsia de competir, destroem o seu próprio meio ambiente, ou seja, destroem a si mesmos. As culturas aborígenes insistem, há milênios em dizer que é possível a convivência pacifica entre homem e natureza.
Uma das grandes novidades do evento é a interação digital que está acontecendo. Muitos podem criticar os chamados indígenas portando celular, fazendo selfies, participando de debates online, aprendendo recursos da mais moderna técnica. Mas isso é extremamente salutar, positivo! O indígena não vai deixar de se-lo por ter um celular ou um computador. A tecnologia pode ser um grande aliado na luta contra a degradação ambiental, está mais do que provado; é possível ser moderno sem degradar o meio ambiente. É como na tese benjaminiana (ideias do filosofo Walter Benjamin) do Anjo da História: um olho no passado infinito, e outro no futuro igualmente infinito!
Como dizia a antiga canção: “Alô alô marciano,” aqui quem fala é da terra! Em algum lugar daqui, alguma coisa ainda existe e que escapa à regra mercantilista! Uma uma competição, onde o que importa não é o resultado em si, mas a alegria de vencer.
Paises participantes:
Argentina, Austrália, Canadá, Chile, Colômbia, Congo–Brazzaville, Costa Rica, Equador, Estados Unidos, Etiópia, Paraguai, Guatemala, Guiana Francesa, México, Nicarágua, Nova Zelândia, Panamá, Peru, Rússia, Uruguai, Venezuela, Mongólia.
Etnias brasileiras participantes:
Assuriní, Bororo, Boe, Guarani-Kaiowá, Javaé, Itya Mahãdu, Kamayura, Karajá, Kayapó, Mebêngôkre, Kyikatêjê/Parakatêjê, Matis, Paresi, Pataxó, Tapirapé, Terena, Wai Wai, Xavante, Xerente, Kaingang-Manoki, Kura, Bakairi, Kanela, Kuikuro, Erikibaktsa.



3 comentários:

  1. Parabéns, por esta matéria, muito oportuna, divulgadora e esclarecedora....
    Como colocado, "um evento, que näo interessa a mídia atual" ....porém, de uma verdadeira riqueza cultural, e acrescento, ignorada por muitos Brasileiros.....lamentável, digo, para nós, os perdedores.....

  1. Tengo acompanhado, através do link:
    http://www.jogosmundiaisindigenas.com/

  1. Joca disse...:

    Há muito tempo que se sabe do inestimável valor da cultura indigena e muito se deve a Claude Levi-Strauss, para quem a cultura tem igual valor para a sociedade onde é praticada. É uma pena que esse grande acontecimento não tenha a devida cobertura pela mídia. Mas, o importante é que o pior já passou, Nos dias de hoje, graças a tecnologia, os crimes não são impunes. Então, a batalha se trava num outro campo, o da informação e contra informação. O recurso que temos é o boca a boca, então vamos com ele. Como disse o grande cacique Ahopowe (chamado pelos brancos Apoena): "o branco precisa ser amansado." Sim, amansado, quiçá para salvar a si próprio!

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