VIOLETA TERNA E ETERNA: O MUNDANO TOCA O DIVINO

O Wikipédia apresenta Violeta Parra como a fundadora da musica popular chilena. Não é exagero uma afirmação desse gênero, contudo, creio que a própria Violeta não haveria de concordar : com a firmeza habitual que caracterizava sua forte personalidade, provavelmente afirmasse que se existe um(a) fundador(a) da música chilena ou de qualquer país, isso deve ser creditado ao povo, precisamente aquele mais simples, o campesino, as lavadeiras, o vaqueiro, o operário, etc. A história da cantiga “Calderito de Tostar Café” (Mi Calderito) endossa, a meu ver, esse ponto de vista. O tema de Compay Segundo narra de forma terna e bem humorada os pequenos dissabores causados pelo sumiço de um torrador de café de uso comunal. Procura que procura por toda parte, nas costumeiras casas onde se torra café e nada do “calderito” aparecer. O episódio corriqueiro e comum, aos olhos do poeta cantador ganha vida e atua mesmo como um catalizador de tensões. É engraçado e também dramático, pois, só quem gosta de um bom café torrado na hora pode avaliar o desespero de faltar o bendito “calderito”, com o qual vai torrar os grãos, e seguida moer e finalmente saborear o infalível café. Embora tenha a assinatura de um autor, não há dúvida que se trata, no fundo, de obra coletiva, pois o conjunto da comunidade “participa” do evento. A obra de Violeta, sejam as recolhas populares ou escritas por ela própria, está repleta de situações semelhantes.

Violeta , mais do que fundadora da musica popular chilena, é um dos troncos fundadores da musica e da arte sulamericana e mundial - também era tecelã, ceramista, pesquisadora, poeta. Sua impressionante discografia é um enigma para alguém que teve vida relativamente curta: tinha apenas 50 anos quando deixou esta vida, mas deixou uma obra extensa, de alcance incalculável, capaz de abranges várias gerações. Pudera! É como se ela concentrasse em si a própria alma chilena, uma alma bipartida e também ponto de encontro, de distensão das culturas americana e européia, e que uma vez amalgamada gerou um povo forte, tão forte e denso como o ferro e o cobre presentes em abundância no subsolo chileno, tão rico como todo o ouro explorado em todo o continente; os colonizadores levaram as pedras, mas não apagaram a essência aurífera, que é mais que a pedra.
Nascida numa família de artistas populares, desde os 9 anos já se apresentava em bares e circos com seus familiares. A tradição artística/musical do clã Parra deveria tornar-se patrimônio imaterial da humanidade, tradição se materializa em seus filhos Angel e Isabel e a neta Tita.
Nos tempos eternamente conturbados que a America Latina sempre viveu, Violeta provavelmente seja o maior ícone – e olha que não estamos falando de pouca coisa, numa terra que deu ao mundo o maior dos payadores, o argentino Atahualpa Yupanqui, o poeta cubano Nicolás Guillén, o também poeta chileno Pablo Neruda, o mexicano Octávio Paz, os cubanos Compay Segundo, Benny Moré, Eliades Ochoa, la negra Merdedes Sosa, o portenho Eduardo Falú, os brasileiros Noel Guarani, Luiz Gonzaga, dentre tantos outros. Nenhum rótulo ou definição seria suficiente para abarcar o que significa a matriarca dos Parra, mas arrisco uma: Violeta é uma síntese da alma chilena e sulamericana, abarca a imensa Hermandad que habita esse continente exuberante e sofrido; Alma que atravessa séculos, desde a ancestralidade pré-colombiana até os dias de hoje e que se estenderá ao futuro.
Antecipando em 2 anos o centenário de Violeta, que em 2017 completaria 100 anos e que com certeza será alvo de inúmeras homenagens, o grupo Sexteto Mundano lança um trabalho que lança muita luz sobre a importância dessa singular artista para todos nós: "Violeta Terna y Eterna".
Formado por Carlinhos Antunes, Danilo Penteado, Maria Beraldo Bastos, Beto Angerosa, Rui Barosi, Sarah Abreu, o Sexteto realiza uma viagem pelo universo de Violeta abordando aspectos pouco conhecidos da mesma. É razoavelmente conhecido o lado ativista de Violeta, comprometido com as causas sociais, que fazia sua obra no mais das vezes ser intempestiva e de certo modo dura, o que não poderia ser de outro modo, para que seu recado tivesse o alcance almejado; o que poucos não conhecem é o lado lírico e terno, doce e meigo, de uma alma amorosa.
Sarah Abreu e Carlinhos Antunes
Ouvindo o trabalho do Sexto Mundano nos sentimos gratificados. São os frutos da árvore viçosa gerada a partir do que foi semeado pela Grande Dama. O Sexteto tem identidade própria e não se limita a reproduzir as canções com arranjos modernos: verdadeiramente, eles interagem com o mundo de Violeta e o resultado são novas cores, novas sonoridades enriquecidas, como tão bem convém e é característico da obra de arte que tem raiz na cultura verdadeiramente popular: está em constante transformação e sem jamais perder o fio da meada do tronco fundador: o povo, do qual o artista é porta voz.
No disco, ao longo de 10 faixas, estão os grandes êxitos de Violeta, como Gracias a la Vida, La Jardinera, Casamiento de Negros, etc. e duas faixas do Sexteto, se harmonizando perfeitamente com a obra de Violeta, estabelecendo um diálogo perfeitamente possível e atual – mais uma vez, nunca canso de repetir, provando a perene atualidade da arte de origem popular.
Parte do Sexteto com Tita Parra, filha de Isabel, neta de Violeta
Todo o disco é um vôo delicado e tranqüilo, de descobertas sutis. Deve haver certa nostalgia, sim, mas não é de tristeza, e sim da emoção de quem pratica arte em estado puro, e se entrega sem concessões ao sentimento.
Como alguém poderia interpretar “Volver a Los Diecisiete”, uma das canções mais gravadas da história, e ainda surpreender? Prestem atenção na surpreendente introdução com o baixo. No decorrer, delicadezas de teclas de acordeon e piano, efeitos percussivos no ritmo do coração e um clarinete que só falta falar. E para completar, a participação vocal de Tita Parra, filha de Isabel, neta de Violeta.
Ao final da audição, o que podemos dizer que a turma do Sexteto Mundano e a obra de Violeta Parra foram feitos um para o outro. Sarah Abreu, a principal voz, apesar de jovem, tem história. Como diz o nosso amigo Zé Maria, aqui do ser-tão paulistano, “não é apenas um rostinho bonito.” Integrante do Nhanbuzim, um grupo de jovens que viajam solertes pelo universo de Guimarães Rosa, a voz de Sarah transmite emoção sem trejeitos ou outras vícios oriundos de “técnicas vocais”; seu cantar é pontuado com a segurança de quem traz impressas no corpo e na alma, musica e poesia, que chegam integras aos nossos ouvidos e corações; Carlinhos Antunes é velho conhecido de todos, músico completo e versátil, toca o que lhe apetece no disco: viola caipira, cuatro, violão, charango e ronroco. É dos melhores do Brasil apesar de não ter o reconhecimento popular que merece – entre seus pares, entretanto, é unanimidade. Está por trás de alguns dos mais interessantes projetos dos últimos anos, como a Orquestra Mediterranea, que rendeu CD e DVD impecáveis, participou da Breve História da Musica Caipira, o antológico disco do violeiro Passoca, participa do Quarteto Original, uma mini legião estrangeira, com o mesmo baixista Rui Barosi, o suíço Thomas Rohrer e o escocês Chris Stout, além de trabalhos solo e outras parcerias. Nesse trabalho, assina a direção artística e produção executiva, junto com Sarah Abreu.
A ultima faixa é emblemática e uma derradeira surpresa: ao final do tema “?Adónde Vas, Jilguerillo?”, popular recolhido por Violeta, um sussurrar lembra uma antiga cantiga de ninar brasileira – ou poderia ser de qualquer outro povo, pois as crianças são as mesmas por toda parte. Ficou no ar uma leveza impregnada de emoção, parece que ouvimos a própria Violeta cantarolando junto. Os Parra entendem disso, musica infantil para eles é coisa séria: nos anos 1970, Angel gravou um antológico e premiado disco: “Al Mundo Niño, le Canto.” É o retorno ao mundo encantado, perdido a medida que nos tornamos adultos, mas sempre reencontrado a cada vez que reencontramos a criança em nós; e assim, com a evocação da cantiga brasileña, o elo se completa, o ciclo se fecha. É chegado, então, o tempo de pensar e refletir sobre musica e vida! Gracias a La Vida por nos permitir que por vezes o mundano possa tocar o Divino!
Pa’ cantar de improvisos
se requiere buen talento,
memória y entendimiento,
fuerza de gallo castizo.
Cual vendaval de granizos
han de florear los vocáblos,
se há de asombrar hast’el diablo
con muchas bellas razones,
como em lãs conversaciones
entre San Peiro y San Paulo
(Fragmento de La Carta, autobiografia en verso)
Ya se murió la negrita,
qué pena pa’l pobre negro.
La puso a’entro de un cajón,
cajón pinta’o de negro.
No prendieron ni una vela:
!ay, qué velório tan negro!
(Última estrofe da conhecida Casamiento de Negros)
Como foi produzido:
O Cd “Violeta Terna y Eterna” foi produzido de forma independente, segundo a modalidade de financiamento coletivo. Tem sido uma saída interessante, essa forma de venda antecipada. Se não me falha a memória, João Bá foi o primeiro a fazer algo parecido, lá pelos fins dos anos 1970: a pessoa pagava e o artista dava um recibo e quando o disco, ficava pronto, trocava- o pelo LP, sem dúvida uma grande inovação.
Atualmente é mais simples e prático, existem vários modelos (Catarse e Benfeitoria são dois que conheço). O interessado acessa o site, cadastra-se, escolhe o valor que deseja colaborar e ao ficar pronto, é enviado pelo correio. Como escreveu o jornalista Julinho Bittencourt por ocasião da produção do 2Mares, de Katya Teixeira e Luiz Salgado: “Chega de falar que só produzem música ruim. Voce pode escolher um bom projeto e ajudar a fazer musica boa!”
Posso testemunhar que funciona direitinho. Meu CD chegou direitinho e foi uma honra ter colaborado com esse trabalho.
Onde encontrar? Não estou autorizado a dizer, mas creio que Sarah Abreu (ou outro membro do grupo) terá muito prazer em enviar pelos Correios. Sarah pode ser encontrada no facebook.



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