O filme O Agente
Secreto foi indicado a quatro Oscar – melhor
ator, melhor filme, melhor filme em língua estrangeira e melhor seleção de
elenco. Ser indicado para uma categoria já seria um fato histórico, quatro
indicações garante lugar no hall da fama
do imaginário de todo brasileiro que tem alguma afinidade com o universo
cinematográfico. Atualmente vivemos um raro momento de unanimidade nacional, excluindo a extrema direita, claro. Até milagres tem seus limites.
O que chama a atenção, de forma agradável, é que o filme não foi feito seguindo receitas de modo a aumentar suas chances de participar da grande festa da Academia de Cinema, como foi feito, por exemplo, com o seu antecessor, “Ainda Estou Aqui”, que utilizou largamente o prestígio de Walter Salles e fez um meticuloso trabalho de divulgação, junto a imprensa que influencia na votação. Não há dúvidas, entretanto, que o sucesso de público e crítica de “Ainda Estou Aqui” tenha feito público e crítica prestar mais atenção nesse cinema produzido fora dos padrões costumeiros, embora o cinema nacional tenha uma longa e fértil história de sucessos. Contudo, convenhamos, alcançar a primazia de estar no topo – e não por acaso – é um fato extraordinário e, por dois anos seguidos. E mais: nesse ínterim, o cinema brasileiro produziu muitos outros filmes dignos de indicação para concorrer em todos os grandes festivais. Cito, de memória dois: Malês, de Antônio Pitanga e A Melhor Mãe do Mundo, de Anna Muylartt. Portanto, O Agente Secreto e seu principal protagonista, Wagner Moura, não foi golpe de sorte, não são obras fortuitas. Wagner constrói a anos a reputação da qual hoje colhe merecidos louros! Na linha documentarista, O Governador do Sertão mereceria melhor sorte, o pecado no quesito divulgação.
O Agente Secreto rompeu paradigmas. Difícil detalhar quais em poucas mal traçadas linhas, mas vale a pena mencionar alguns e mostrar que estamos pisando em terra firme e não sob efeito de nenhuma alucinação coletiva: o cinema brasileiro está onde está, não por acaso, mas consequência de um longo processo. Um desses paradigmas rompidos foi ser indicado como melhor filme em língua estrangeira e melhor filme no geral. Um grande feito, creio que seja inédito, embora eu não seja um especialista na história do Oscar. De facto, não me lembro de situação semelhante. Até então, parece que havia um certo estigma não assumido, onde seria inadmissível (não nesses termos, claro) um filme que não falasse inglês pudesse ser classificado como melhor. Por outro lado, a categoria de melhor filme em língua estrangeira seria um prêmio de consolação para uma obra primas que apenas tiveram a má sorte de não nascer nos EUA ou Inglaterra! Embora o argumento possa ser supérfluo, não podemos negar um certo Imperialismo na Arte Cinematográfica ou como chamaríamos a hegemonia do melhor, como sendo necessariamente de língua inglesa? Teria Hollywood (a Academia) admitido uma correção de rota ao reconhecer, mesmo sub-repticiamente, que além do seu umbigo gigantesco existe vida inteligente, capaz de fazer filmes tão bons como os melhores americanos? Antes tarde do que nunca...
Além de romper paradigmas, algo mais chama atenção: O Agente Secreto é um filme autoral, o que soa quase como provocação na terra onde cinema vencedor é sinônimo de grandes estúdios, grandes produções e onde o diretor é apenas um funcionário graduado. O Agente Secreto custou cerca de 33 milhões de reais – incluindo a pós produção – preço do cachê de um astro consagrado. Na grande festa de gala do Oscar, onde o termo “milhões” é algo corriqueiro, O Agente Secreto – parodiando o próprio título -, soa ironicamente como um infiltrado!.
O filme de Kleber Mendonça vai além de uma mera discussão de valores. A ação, toda ela tendo a cidade do Recife como cenário, nos torna a todos partícipes das manifestações culturais que ocorrem simultaneamente, como pano de fundo e de maneiras distintas, o carnaval, o frevo e o modo de ser pernambucano. Ponto alto para o tratamento dado à conhecida lenda urbana da “perna peluda”, que, não obstante o aspecto exótico/bizarro, tem origem nas prováveis práticas por parte dos agentes da ditadura de despedaçamento e dilaceramento de corpos de quem era considerado inimigo do regime, muitos dados como desaparecidos. O surgimento das aparições da “perna peluda” é, talvez, uma forma de suavizar o ou tornar mais palatável do horror que acontecia nos porões do Estado. Um dos períodos mais sombrios de nossa história é referido de forma escrachada e que aqui se acrescente a capacidade do povo de fazer piada do horror. De certo modo, torna as forças maléficas ridículas, eis a vingança. A lenda da “perna peluda” de fato existiu e as referências à mesma , além do inevitável sensacionalismo, visava amedrontar os incautos cometedores de delitos de menor importância, notadamente de cunho sexual (atentados ao pudor) ou roubos de pouca monta. Outra pitada de humor negro é oferecida da cena de abertura: um cadáver parcialmente coberto por jornais na beira da estrada sob a indiferença geral, inclusive da autoridade policial. A única preocupação de quem nota o corpo é o incomodo fedor que em poucas horas será insuportável.
Além de filme de autor, O Agente Secreto é um filme 100% pernambucano, só faltando a trilha do Quinteto Armorial – tal trilha não seria adequada, pois o filme não trata do chamado sertão profunfo e sim ocorre no espaço urbano da capital no ambiente universitário e o transito pelo mesmo ambiente das forças policialescas. O modo de falar, as formas de abordagem, a forma calorosa de demonstrar afeto ou aversão, o “descolamento” do discurso; os pernambucanos fazem isso com autenticidade, sem resvalar para o estereótipo que torna o regionalismo uma tábula rasa, unificando sotaques, tornando-os parecidos. O jeito de “ser” pernambucano não se confunde com o modo de “ser” baiano, mineiro, gaúcho, paulista, goiano, mato-grossense, nortista, etc.
Em tempos em que se incentiva o discurso “universalista” – expressão que a seu tempo muito ajudou a definir o cinema argentino – Kleber Mendonça Filho e seus criadores apostaram suas fichas numa forma de regionalismo muito específica, um modo pernambucano para o mundo, que até então estava um tanto submerso. Kleber Mendonça Filho reabriu portas da memória nacional recheada de importantes ícones, como Miguel Arraes, Gonzagão, Dom Helder Câmara, Chico Science, Lenine. Para muitos, ou ao menos uma certa maioria, o nordeste existe em muitas falsas consciências de modo pejorativo, sinônimo de pobreza e atraso, quando, de fato é o oposto, portador de riquezas incomensuráveis nos campos acadêmico, cultural e econômico – como todo os nordeste, diga-se.
Consideremos as indicações ao Oscar – melhor ator, melhor filme, melhor seleção de elenco e melhor filme internacional – pelo que valem em si mesmas e já temos elementos suficientes para suscitar a tão sonhada reflexão, a principal função de toda obra de arte, além, é claro, de entreter e emocionar.
Sempre lembrar que o reconhecimento alcançado pelo cinema nacional é um processo iniciado lá atrás, ainda na primeira metade do século passado com o fenômeno Mário Peixoto, Humberto Mauro. Ao longo do período atravessamos os fulgurantes anos do Cinema Novo, oferecemos ao mundo gênios como Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Júlio Bressame, Rogério Sganzerla, Lirio Ferreira, Cacá Diegues, Tizuka Yamazaki, tantos e tantas. Hoje colhemos os frutos, não por acaso...


