A irmã mais velha do clã “Marques” chega aos 80 anos e felizmente não vai passar em branco. Neste março, dias 28 e 29, Doroty Marques – uma das maiores referências em música e cultura raiz deste país – estará se apresentando, respectivamente, nos SESCs 24 de Maio e Belenzinho. Ela chega aos 80 anos e nos dá de presente a possibilidade de reflexão sobre a importância da música popular na vida de cada um de nós e para o povo. Doroty Marques é daquelas que acredita na arte brotada no seio das comunidades, arte que em qualquer tempo pode ser capaz de romper o efeito narcotizante imposto pela repetição sistemática nos ouvidos cansados pela realidade alienante.
Dia 28 de Março, SESC 24 de Maio,: Doroty Marques e a Turma Que Faz. Sábado, as 19 horas.
GRÁTIS!
Um disco dos irmãos Dércio e Doroty Marques de 1984, “Criança
Faz Arte”, parte gravado ao vivo na
praça de Penápolis, interior de São Paulo, espetáculo realizado em 25/10/1984,
onde temas livres folclóricos de vários lugares do Brasil e América do Sul se
misturam: Miquelina, Boi de Janeiro,
Fundo da Mata, entre outros. O outro lado do LP foi gravado em estúdio,
provavelmente buscando um equilíbrio “didático”, parte realizado no calor e na
emoção e um registro mais cuidadoso, em termos estéticos, para a posteridade. Um
exemplo característico da atuação dos irmãos. “Arte” para eles não era mero
entretenimento, pra se distrair: se tratava, de fato, de uma aula de Arte
Popular, abordando várias de suas possibilidades, através de improvisos,
adaptações livres. Toda singeleza da poesia popular e a força e vigor dos
ritmos, tudo coêso, cordenado. E tudo isso revestido de algo mambembe e
circense. Era esse o modus operandi dos
irmãos Marques: tratavam coisas muito sérias, divertindo. Não foi à toa que a alcunha eterno menino foi colada em Dércio por seu amigo e contemporâneo
Deo Lopes. Porém, uma definição bastante plausível dos irmãos andarilhos da
música foi feita pelo produtor Marcus Pereira: Os Saltimbancos, texto da contracapa no disco de estréia de Doroty,
“Semente”, lançado ela gravadora Marcus Pereira em 1979.
Para os irmãos ser saltimbanco
foi missão de vida: andar pelo mundo divertindo, descobrindo, recriando,
ensinando, construindo pontes simbióticas entre público e artista, onde a
principal moeda sempre foi a emoção.
Sempre lembrarei de um momento lá pelos finais dos anos 1980
quando assisti a uma apresentação de Dércio, no vão livre da entrada do SESC
Consolação, onde ouvintes atentos disputavam espaço com transeuntes que não
escondiam a surpresa de um show no lugar que deveria ser passagem...
Eram tempos em que havia descobertos os artistas rotulados
de “alternativos”. Era fascinante
redescobrir em plena selva de concreto ouvir cantares ue haviam marcado
profundamente a infância vivida no Pontal
do Paranapanema, que julgava ter ficado definitivamente para trás? Era mais que
uma redescoberta, era o resgate de um mundo do qual fora obrigado a deixar para
trás, como milhares de outros agricultores diretamente atingidos pela “Geada
Negra”, de 1975, que devastou as plantações.
Não era somente pelas cantigas, cujas sonoridades remetiam às
Folias de Reis, catiras, cateretês, toadas, modas-de-viola, etc., tão comuns na
região; chamava a atenção a maneira como Dércio manuseava com destreza o
violão, formando com sua voz, uma harmonização única. E com que facilidade a
música fluía, dava mesmo vontade de cantar junto.
Ao fim do espetáculo juntei-me a um pequeno grupo que
discutia febrilmente o show recém terminado. Eram tempos em que vivia certos desencantos
com a “indústria musical”, o clube
fechado onde “quem está dentro não sai e que está fora não entra”, conforme sóbria
definição do músico Zé Gomes num artigo digital que ninguém leu... Nada contra as
“vacas sagradas” da MPB. Nada contra, apenas não me diziam respeito, a música
comercial não me interessava.
O grupo ao qual me juntei nas escadarias do SESC Consolação falava
de Dércio com reverência e propriedade, sabiam tudo sobre ele, muitos tinham
viajado com ele, inclusive no famoso Festival MPB Shell (organizado pela Rede
Globo) no qual Dércio interpretara “Peão na Amarração”, de Elomar, sob imensa
vaia, pois tanto Dércio quanto Elomar eram seres alienígenas naquele meio. Eu,
que então pouco sabia dele e dos demais alternativos, bebia aquelas palavras
que nada tinham do fanatismo que os artistas despertam em parte do seu público.
Ali era diferente, os artistas circulavam entre nós, recolhiam eles mesmos seus
instrumentos, não havia um séquito de produtores ou seguranças entre o “astro”
e seu público. Nisso se aproximou um senhor que, deve ter ouvidos palavras de
admiração pois, com um ar de “sabetudo” e um sorriso confiante daqueles que conhecem
determinado assunto, interveio:
- Vocês! precisam ouvir a irmã dele, a Doroty!
- Não brinca! Onde está ela, que nunca vi?- respondeu alguém
do grupo, com certo ar de incredulidade
- Garanto que foi ela quem ensinou tudo pra ele! Quem manda
é ela, que quando fala, ele escuta! Se ele é a Luz, ela é o combustível que
mantém acêsa a chama! Infelizmente ela pouco se apresenta, cuida mais de
ensinar, é educadora. Mas é uma artista diferente!
Foi assim que descobri Doroty Marques, através de uma conversa informal. Mas aquela foi minha primeira aula de cultura brasileira. Fui fisgado, a partir dali os olhos para o que acontecia em torno e mesmo de minha própria história, que mal percebia. Uma artista “diferente”! Diferente não só pela técnica, mas pela capacidade de descobrir verdades ocultas nos cantares e tocares do povo, sejam folguedos alegres ou de tristeza; importa a força e a esperança que sustenta nossa identidade. (Herança do povo guarani do qual é descendente direta? Não só guarani, mas mineiro, nordestino, andino, de cada pé-de-serra e terreiros do mundo!)
Doroty Marques chega aos 80 anos ainda sob os auspícios de uma artista diferente. Ensinando, descobrindo, pois sua condição de saltimbanco demanda busca constante, pois a fonte é praticamente inesgotável.
Se considerarmos a cultura musical brasileira como uma casa,
Doroty seria um dos troncos, um dos esteios fundamentais. Mesmo quem nunca
conviveu com ela foi fez parte do mesmo barro que moldou a cultura musical
brasileira. Sua atuação foi reverberante, ela é a “outra voz”, a “voz oculta”
por trás das vozes de várias gerações de artistas nas últimas quatro décadas. Devemos,
nós brasileiros, muito a ela, mãe e avó, de muitos e muitas, muito a ela. Todos
e todas em algum momento da caminhada, se depararam com Os Saltimbancos que carregavam em suas “matulas” e “picuás” a alegria,
o amor, a emoção, matéria prima do bom viver.
O Projeto Turma Que Faz será o tema de sua primeira apresentação,
no SESC 24 de Maio. Voltado especialmente para crianças carentes, aponta
caminhos para descobrirmos um Brasil ainda desconhecido, mesmo com tantos
satélites a nos esquadrinhar...
Breve e sucinta DISCOGRAFIA:
- Semente, 1979
- Erva Cidreira, 1990
- Criança Faz Arte, 1984
- Paraíba Encantos, parceria com Zé Gomes (violão), 1997
- Participação em muitos discos,
especialmente do irmão Dércio, (Fulejo, Cantos da Mata Atlantica,
Monjolear, Espelho d’Água), além de obras didáticas voltadas para a
educação musical.





