Revolução de 24

Ela tinha 20 anos quando veio de Caçapava para São Paulo. De paulista a paulistana, chegou na capital no ano da Revolução de 24 (ato de rebeldia dos tenentes contra o Governo Federal, cujo objetivo manifesto era a deposição do Presidente Arthur Bernardes que, para os jovens militares, encarnava interesses oligárquicos dos grande proprietários rurais) e viu uma cidade destruída por canhões e granadas. 83 anos depois ela ainda se lembra: "quando cheguei em São Paulo vi o casario derrubado por conta da revolução". Hoje dona Francisca tem 103 anos, 10 netos, 20 bisnetos (eu como predileta!*) e 3 tataranetos. Hoje, dia das mães, ela estava se sentindo uma Miss. É que o pessoal do jornal foi entrevistá-la por ela ser a mãe mais idosa do bairro. Mas e esta tal Revolução de 24, que pouco ouvi falar?
"Foi triste esta revolução. A minha casa era um sobradinho de madeira e ficava na Rua Santa Rosa, numa vila do Brás, pertinho do Palácio das Indústrias. Lutavam na Mooca e jogavam granadas. Eu as via passarem por cima da cabeça. Pareciam garrafas de cerveja e assim, grandes, assoviavam. E porque em cima era perigoso, passávamos a noite debaixo de uma escada de cimento. Até que um dia caiu uma granada atrás de minha casa, fez um buraco enorme e matou uma moça que estava na janela. Quando foi no dia seguinte, começaram a cair no Palácio das Indústrias. Caiu uma fora e não explodiu. Era tudo de paralelepípedo. Então eles levantavam os paralelepípedos e faziam trincheiras no meio da rua. As granadas caiam nas trincheiras e jogavam os paralelepípedos por todos os lados. Caiu uma no Cinema Olímpia e matou um monte de gente que, de medo, deixou suas casas para ir morrer lá. Havia saques em todos os lugares, no Mercado. Foi triste essa Revolução. Não tinha pão, não tinha nada. Fugimos do Brás e fomos para a Lapa. Fomos a pé, pela Avenida São João, e no caminho a gente via aqueles caminhões cheios de cadáveres, que eles carregavam. Deixamos tudo em casa. Lembro que minha mãe estava com um fogareiro fora, cozinhando feijão. Ficou lá o caldeirão e tudo. Fugimos porque estavam caindo granadas lá pertinho. Caiu uma que não explodiu, mas nós vimos quando caiu. A outra fez aquele estrago. Então nós fugimos e ficamos na Lapa até acabar a Revolução. Nem sei quantos dias foi. Na minha idéia parece que foram 23 dias. Não tenho boa lembrança."**
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* Me explico:
"Vó, quem é sua bisneta predileta?"
"A Fernanda!".
** Relato oral de Dona Eudóxia Navarro Guerreiro, transcrito por Neuza Guerreiro de Carvalho. Eu modifiquei algumas coisas, mas o texto original pode ser encontrado em São Paulo, Minha Cidade.



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