NEGACEIOS & NEGÓCIOS

Numa das cidades de minha infância lá no Pontal do Paranapanema – não sei se Junqueirópolis, Irapuru ou Flora Rica, onde dei inicio às “primeiras letras”, no Grupo Escolar local – havia uma lojinha, com apenas duas portas pequenas, com uma curiosa fama: ninguém que lá entrasse saía de mãos vazias: e era compra mesmo, não brindes de propaganda ou agrados. Era a loja do “turco” Salim e me lembro vagamente de sua cara risonha, o bigodinho preto aparado, as mangas de camisa sempre arregaçadas e a barriga rotunda, da qual se orgulhava.



A mesma imprecisão que tenho com relação à cidade, hoje tenho com respeito a seu nome e etnia: “turco” era como se designavam todos os imigrantes do Oriente Médio,especialmente libaneses, os mais comuns. Como seus passaportes eram emitidos pelo consulado da Turquia, no porto de Santos já eram designados "turcos". E “Salim” deveria ser o codinome preferido por quase todos que abraçavam a profissão de comerciantes. Geralmente eram “mascates”, que percorriam as estradas ou mesmo “picadas” abertas na mata com o malão de bugigangas: a principio carregavam nas costas, depois em lombo de burro ou mula e os com mais sorte se estabeleciam nas incipientes cidades e vilas em meados do século passado.

A lojinha do “turco Salim” – em Junqueirópolis, Irapurú ou Flora Rica – apesar de minúscula, tinha de tudo: doces, agulhas, linhas, material de pesca, fumo, munição de caça, arroz, feijão, açúcar, café, cachaça, quinado, ervas para chá, “peças” de tecido, chapéus, etc. etc., parecia A Venda do seu Lidirico, da musica do Miltinho Edilberto, com participação de Xangai.Abaixo, foto do legítimo Seu Lidirico (é nome próprio, não apelido!), em sua venda, lá no vale do Jequitinhonha.



O “turco” fazia todo tipo de negócio: dava descontos, vendia fiado, empreendia todo tipo de escambo (um famoso “causo” que meu pai sempre contava se referia a um matuto que entrou na loja para comprar fumo e sem dinheiro, o “turco” ficou com o canivete em troca de meio metro de “fumo de corda”. Chegando em casa, não tinha como picar o fumo voltou a loja com uma galinha, que o “turco” aceitou em troca do canivete... Um economista poderia dizer que a estratégia do “turco” produziu valores agregados superiores ao da mera compra de meio metro de fumo. Introduziu no mercado a industria fabricante de canivetes e a incipiente indústria baseada na avicultura com um produto hoje considerado de excelência, uma legítima galinha caipira, boa poedeira de ovos e que tempos depois, ao fraquejar a produção de ovos e pintainhos daria um insuperável ensopado...)

Um empreendedor, um pioneiro, o “turco” Salim: a regra principal para se fazer negócio com ele era o regateio, cujo final era sempre favorável para as duas partes, freguês e comerciante.


O “turco” seguia antiqüíssimas tradições, das quais a presença vivíssima talvez seja O Grande Bazar de Istambul, onde pechinchar é regra absoluta: entrar numa loja, perguntar o preço, pagar sem questionar e sair com o produto é considerado uma ofensa, é o tipo do “mau” freguês! Veio-me à mente tais cenas ao lembrar das atuais regras de comércio nos grandes centros urbanos. Basta ir aos tais “shoppingues”, lanchonetes de rodoviárias e aeroportos: um cafezinho pode custar 200, 300% do preço regular dos bares da vida! E não tem como negociar: o próprio PROCON alerta: o preço é livre, assim como a liberdade de comprar. Não tem mas, nem meio mas. Alguém atrás do balcão cerra os lábios e se limita, quando muito, a mostrar o quadro de preços. Qualquer insistência em regatear é considerado ofensa, impertinência, o tipo do mau freguês.

Felizmente, para quem conhece os “caminhos do Peabirú” que ainda existem no grande sertão paulistano e outros sertões do Brasil, ainda é possível encontrar lugares onde alguém nos recebe com um sorriso cordial por trás do balcão; e ainda existem as famosas cadernetinhas dos fregueses e amigos mais chegados... Mas tais histórias deixo a cargo do Zé Maria, nosso guru e memorialista, que as conhece de montão...

A venda do "Seu" Lidirico (trecho),
letra de Milton Edilberto


(...)
Nessa venda tem de "tudi"
passoquinha roliúde
bomba de matar mosquito
tem peneira furadeira
tem esteira tem pirulito
comprimido pra tonteira
bola camisa e apito
e "espeio" pro caboclo se achar bunito
É lá na venda do "seu" Lidirico..
.

(...)



5 comentários:

  1. José Maria disse...:

    Joel Joca Suassuna: alguns "armarinhos" modernos aqui em Sampa e mesmo alguns do interior adotam a regra (regra?)dos mkt moderno e "deixam o freguês á vontade". Muitas vezes me sinto portador do poder da invisibilidade. Vá lá no velho e bom Brás, ainda encontra "uns turco" na porta. Se entrar compra pelo menos um par de meia.Que me desculpe a Chefa, Fernanda, a Lenda mas... bons tempos aqueles. Se procurar ainda achamos. E a Iara, lá de Minas, Uai, que não conta destes armarinhos que ainda existem por lá?.Grande abraço, José Maria (em caso de não conseguir e sair como anônimo)

  1. Dassanta disse...:

    Joca, esse pôsti fez lembrar a Mercearia Paraobeba, lá do interior de Minas http://www.youtube.com/watch?v=aUiWgtIGJwU

  1. Joca disse...:

    José Maria: morar em Sampa é ter esse raro privilégio de poder conviver com a tradição, é só abrir os olhos para se dar conta dos traços históricos ainda presentes: é a charrete que ainda circula em meio aos carros em bairros periféricos, é o atendimento "personalizados" como no Bar do Frango ou a lanchonete do Seu João, o da melhor calabreza!
    Dassanta: eu tb pensei no Paraopeba, mas acabei optando por citar a Venda de Seu Lidirico. Curiosamente os dois são de Minas Gerais, uai! Comadre Iara que explique isso!

  1. José Maria disse...:

    Joca, os pingos nos is: é Bar do Seu João, não tem mesas e cadeiras.Em Heliópolis tem "uns boteco" em que o dono convida para entrar, independente de conhecer ou não, de tomar uma ou não, de comprar ou não.O Brasil Real do Suassuna.

  1. Anônimo disse...:

    Grande Joca, feliz aniversário!!!!!!!!

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