O PÉ QUEBRADO DO THOMAS

Quem acompanha o circuito da chamada música regional ou independente - eufemismo para designar quem não faz parte da denominada musica comercial das grandes gravadoras - conhece o Thomas Rohrer, suíço radicado no Brasil há mais 15 anos, apaixonado que se tornou pelos nossos ritmos. Por conta de seu envolvimento com nossa cultura genuinamente popular, se tornou um dos maiores conhecedores do que ainda resta da gigantesca pesquisa que o então Secretário da Cultura de São Paulo, Mário de Andrade, empreendeu a partir de 1938, a Missão de Pesquisas Folclóricas.
O trabalho orientado por Mário ainda está para ser descoberto pelo grande público, passados mais de 70 anos de seu empreendimento. Há alguns anos, A Barca, grupo do qual o Thomas faz parte, refez o percurso dos pesquisadores orientados por Mário, resultando o documentário em DVD Os Sete Curtas, seguido do CD A Trilha, da Barca. No mesmo rol, o belíssimo disco Baião das Princesas, com a participação da comunidade Casa Ashanti, do Maranhão. Todos os trabalhos, assim como a Missão de Pesquisas Folclóricas, são desconhecidos do grande público, ao contrário da obra “éguinha pocotó”, entre outros.



Pois quem vê o Thomas, sua figura pacata e tranqüila, é difícil imaginá-lo como um dos sujeitos mais irriquietos do mundo da música, formando as parcerias mais inusitadas, transitando por toda parte entre Évora, Portugal, onde participa regularmente de um festival de música étnica, Bálcãs, EUA, sua Suíça natal, Recife, Reino Unido, naturalmente São Paulo. Compõe e toca música para teatro, cinema e dança. Entre seus parceiros encontramos músicos populares, violeiros e expoentes do jazz e da música experimental: seu Nelson da Rabeca, o saudoso Zé Gomes, o percussionista Fábio Freire, Abaetetuba, Chris Stout, Hans Koch, a cantora Saadet Türköz do Cazaquistão, Michele Agnes, dentre tantas e tantos. A propósito, no terceiro CD da musa Kátya Teixeira, é do Thomas a rabeca que lá ouvirão, assim como no disco de seu Manoel de Oliveira, o violeiro do Grande Sertão do Urucuia, produzido por Paulo Freire. Faz parte regularmente do Quarteto Original com Carlinhos Antunes, Chris Stout e Rui Barossi. Um verdadeiro andarilho planetário, ávido por descobertas, parcerias e linguagens, que iniciou-se na música com o violino, estudou saxofone e atualmente é conhecido como rabequeiro



Quando ouvi “Pé Quebrado”, composição de sua autoria, não foi dificil imaginar como uma homenagem a um dos estilos de repentes (quadra de sete silabas, sendo que a 4ª tem número inferior, daí o pé quebrado) mais comuns do nordeste brasileiro, fartamente documentado por Câmara Cascudo no magnífico Vaqueiros e Cantadores. Abaixo, um exemplo:

Em verdade lhes digo
Que não tenho desavenças
E em matéria de crenças,
Sou ateu...


...ao que o desafiante rebate e assim prossegue. O estilo é de origem ibérica – na Espanha quinhentista chamado pies quebrados, em Portugal o mesmo que aqui. Há quem diga que a denominação se associa á simples quebra de ritmo da poesia, mas eruditos já se debruçaram sobre o assunto, denotando uma origem clássica, segundo conta Armindo Trevisan, citado por Froilam de Oliveira em seu blog (www.froilamoliveira.blogspot.com) :

"Na poesia clássica, ou seja, greco-latina, a menor unidade de verso era o pé, formado por duas ou mais sílabas, divididas em dois elementos: a tese e a arse. Para os gregos, a tese indicava o tempo forte, no qual se batia o pé (donde procede o nome); e a arse, o tempo fraco, no qual se erguia o pé. Para os latinos, invertiam-se as denominações.
"Transportados para uma língua neo-latina - como o português - os dois termos indicam as sílabas tônicas e as sílabas átonas. Em termos de versificação isossilábica (ou seja, na qual todas as sílabas tem peso igual), os esquemas clássicos podem ser reduzidos a quatro, dois binários e dois ternários".


O curioso de toda essa história é que o “Pé Quebrado” do Thomas nada tem a ver com o ritmo e à poesia típica do nordeste de fins do século XIX e inicio do XX, o mesmo até mesmo desconhecia a existência do tal! – não se pode saber tudo, né mesmo? No entanto, não deixou de ser homenagem, quiçá produto do sub inconsciente do gringo com alma brazuca, o que os junguianos chamam de sincronicidade.
Um comentário casual do nosso amigo Zé Mangabeira - aquele que se diz Herdeiro do Trono do Brasil -, que cumprimentou um espantado Thomas pela “homenagem a um dos mais genuínos ritmos brasileiros, merecendo com isso uma comenda assim que assumir o trono de rei do Brasil”, fez com que a observação fosse citada no CD do Chris Stout, inédito no Brasil, Chris Stout’s Brazilian Theory – Live in Concert (2011).

Abaixo, o Quarteto Original:



É o “pé quebrado” que aqui chegou junto com a viola portuguesa e a rabeca, ganhando características puramente brasileiras e retorna aos palcos do mundo pela mesma rabeca e o fiddle, como é chamado o violino no irlandês tradicional...



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