"Dos amoladores"

Sou frequentador diário de onibus urbanos, que teriam a função de atender às necessidades de locomoção do paulistano, de nascimento e adoção. Um ex-prefeito colocou um cartaz nos coletivos, eram chamados assim, e não faz muito tempo, com a frase "Onibus: um direito do cidadão e um dever do Estado". Bonito, civilizado e, como diz o Joca Ramiro "de boas intenções o inferno está cheio", a frase de efeito não resultou em nenhum feito bom para a população e o transporte coletivo por estas bandas continua "maus".

Em algumas situações a viagem exige uma paciência de monge, de vários monges. Alguns passageiros precisam e necessitam de conversar com alguém, outro, ou outra, de fazer um comentário para se mostrar simpático (a), civilizado (a). Um dos mais comuns para puxar uma conversa é sobre o tempo. Como dizia Nelson Rodrigues "é batata", com a primeira entrada ser a clássica observação "que chuva, heim" ou "que calor, heim?" ou "que frio, heim?". Para deixar o companheiro, ou companheira, de banco desconsertado (a) digo sempre "a Rosana Jatobá já tinha feito a previsão ontem à noite e à tarde o tempo vai mudar completamente". É um banho de água fria e muitos desistem de continuar a conversa.

Machado de Assis em uma crônica publicada no dia 4 de julho de 1883 "fala" de uma novidade que chegava naqueles dias: "ocorreu-me compor uma certas regras para o uso dos que freqüentam bonds. O desenvolvimento que tem sido entre nós esse meio de locomoção, essencialmente democrático, exige que ele não seja deixado ao puro capricho dos passageiros. Não posso dar aqui mais do que alguns extratos do meu trabalho; basta saber que tem nada menos de setenta artigos. Vão apenas dez.".

O maior dos nossos escritores. também um dos maiores dos nossos cronistas, não poderia jamais imaginar que depois do onibus viriam o trem, o metro, as kombis, as vans e taxis. Já postei aqui o primeiro artigo e, com a permissão do Grande Mestre, mais dois

"Art. III - Da leitura dos jornais

Cada vez que um passageiro abrir a folha que estiver lendo, terá o cuidado de não roçar as ventas dos vizinhos, nem levar-lhes os chapéus. Também não é bonito enconstá-los no passageiro da frente.

Art. V - Dos Amoladores

Toda pessoa que sentir necessidade de contar os seus negócios íntimos, sem interesse para ninguém, deve primeiro indagar do passageiro escolhido para uma tal confidência, se ele é assaz cristão e resignado. No caso afirmativo, perguntar-se-lhe-á se prefere a naração ou uma descarga de pontapés. Sendo provável que ele prefira os pontapés, a pessoa deve imediatamente pespegá-los. No caso, aliás extraordinário e quase absurdo, de que o passageiro prefira a narração, o proponente deve fazê-lo minuciosamente, carregando muito nas circustâncias mais triviais, repetindo os ditos, pisando e repisando as coisas, de modo que o paciente jure aos deuses não cair em outra."

Este artigo, sei não, acho que foi também pensado para os motoristas de táxi, ou no tempo de Machado, dos cocheiros?.

É um costume de alguns homens, as mulheres não fazem, entrarem nos onibus e se dividirem em bancos distantes, acho que para ter a oportunidade de paquerar - lembram-se desta expressão? - a passageira que pode sentar ao seu lado. Ficam conversando alto, evidente, sobre os acontecimentos do dia e todos ouvem as aventuras. Machado de Assis já observava esta situação.

"Art. VIII - Das conversas

Quando duas pessoas, sentadas a distancia, quiserem dizer alguma coisa em voz alta, terão o cuidado de não gastar mais de quinze ou vinte palavras, e, em todo caso, sem alusões maliciosas, principalmente se houver senhoras."

O ser humano, ou o sofredor do transporte coletivo, continua o mesmo muitos e muitos anos depois.



1 comentários:

  1. Anônimo disse...:

    Amigo Zé,
    privilegiadíssimo, pois ja deve ter em mãos o magnifico disco da Musa katya.
    Olha, as conversas nos coletivos, mesmo as mais boçais são até suportáveis, mesmo um "que calor, hein?", pode nos fazer refletir sobre a situação do mundo atual, seja econômica ou ecológica! O flagelo de nossos tempos se dá quando se depara com um pregador, seja religioso ou político. Por isso ando sempre com um livro a mão: ao sinal de perigo, finjo estudar! Ah, e nos velhos tempos, quando existia o costume da paquera, fingir-se intelectual, às vezes funcionava! Como diria Nelson: "Batata!"

    Joca

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