O MAESTRO JULIO MEDAGLIA E A BUROCRACIA

De um lado, o Maestro Julio Medaglia, mais de 50 anos de seus 74 de vida dedicados à cultura brasileira. Figura inquieta, navega muito além dos mares eruditos, onde conviveu com os maiores ícones da musica da segunda metade do século XX, tendo se formado, com distinção, em Regência Sinfonica, pela Academia de Freiburg (ah, esses alemães!). Antes de viajar á Europa, realizou um importante trabalho de divulgação do então desconhecido Barroco Mineiro, trabalho em conjunto com o musicólogo Francisco Curt Lange. De volta ao Brasil, participou como arranjador do mais visivel movimento da chamada Música Popular Brasileira, a Tropícália; organizou os inesquecíveis Festivais da Record, então a mais importante emissora da televisão brasileira. Concomitantemente, envolveu-se com a Poesia Concreta dos irmãos Haroldo e Augusto Campos e Décio Pignatari. E ao longo dos anos seguintes montou, dirigiu e apresentou programas de rádio; montou óperas na selva amazônica; compôs trilhas para televisão e cinema; escreveu livros; montou cursos sobre trilha sonora na USP e FAAP; dirigiu o Festival de Inverno de Campos do Jordão. E etecetera, etecera.

E do outro lado, a centenária Organização, criada para ordenar e organizar o Mundo Moderno: a Burocracia (de bureau=escritório, mais kratos=poder ou regra) . Esta Entidade, de caráter supranacional, tem como missão, evitar que o mundo mergulhe no mais sombrio Caos (Kaos). Dos princípios, escritos em letras de fogo, podemos destacar "...organizar, regular e estruturar através de regras e procedimentos explicitos , divisão de responsabilidades e especialização, por meio de hierarquias e relações impessoais..." E mais: "...administrar com quantas divisões se façam necessárias, de modo que o Sistema funcione de maneira segura e eficiente..." Os mais renomados lupanares da filosofia e sociologia fundamentaram, organizaram e orientaram a formação dos grupos de oficiais burocráticos através de princípios autorreguladores, onde cada funcionário tem a autoridade necessária para sua função, sendo que, ao exceder sua autoridade delimitada, automaticamente outro oficial assume a autoridade e assim por diante, indefinidamente, até o mais alto grau de responsabilidade, ou seja, o mandatário supremo, o Governo. Simbolizando a autoridade e as respectivas responsabilidades, uma intrincada rede de cargos, assinaturas, carimbos, autorizações, de modo a que o cidadão tenha plena e indiscutível garantia de que seus direitos serão plenamente respeitados e assegurados.
Diga-se que o confronto não era para existir. Tudo era para ser um encontro de sucesso e harmonia, o talento de Julio Medaglia e a Entidade Organizadora do Mundo e da Vida Moderna, a Burocracia, tudo visando um Bem Comum. Contudo, não demorou para o caráter anárquico da personalidade de Medaglia se chocar com a fria e impessoal ordem. E o Maestro sempre se deu mal: em abril de 2011, depois de mais de 20 anos de serviços prestados à Fundação Padre Anchieta - a qual pertence a Radio e Televisão Cultura - foi chamado à sala do Oficial Burocrata-Mór (denominado Presidente da Organização), um renomado intelectual, ali contudo, revestido do Poder Decisório, e no exercício do mesmo, demitiu o Maestro, educadamente, ressalve-se, de acordo com seus finos hábitos de lupanar refinado.
O Maestro não se fez de rogado: trabalho não lhe falta e do alto de seus mais de 50 anos de experiência, foi dirigir a Filarmonica Vera Cruz, em São Bernardo e assumiu a direção artistica do Teatro São Pedro, em São Paulo, estreando com louvas, cumprimentos e aplausos o espetáculo O Elixir do Amor. Contudo, passada a festança, desavenças: bateram boca, se desentenderam, dizem que por causa das partituras da ópera "Medium", que o Maestro pediu com antecedência para as estudar e ensaiar.
Bem, o Maestro pode entender de partituras, ensaiar, reger,compor, etc., mas não entende patavina de carimbos, assinaturas, normas, despachos, estudos técnicos e logísticos de complicadas operações burocráticas, coisas para entendidos. Não se conhece os termos do bate-boca (quem viu e ouviu garante que foi barraco dos grandes!), mas ao fim e ao cabo, o Maestro recebeu através de email, o seguinte comunicado: “Em conformidade com o disposto na legislação trabalhista, comunicamos a Vossa senhoria que a partir da data de 26/07/2012, considera-se desligado de nosso quadro de pessoal. Destarte, declaramos rescindido seu contrato de trabalho por justa causa, nos termos da aliena ‘k’ do artigo 482 da CLT, por motivo de Ato lesivo da honra e boa fama ou ofensas físicas praticadas contra o empregador e superiores hierárquicos. Comunicamos ainda que V.Sa, deverá comparecer em nossa empresa na data de 30/07/2012, para receber seus haveres, e, homologar sua Rescisão de Contrato de Trabalho perante o sindicato de sua categoria.”
Resumindo: Julio Medaglia, 74 anos, mais de 50 de carreira, Maestro de renome internacional, empenhado no desenvolvimento sóciocultural de seu País, foi demitido por não saber se entender com seus superiores hierárquicos... Uma frase indignada ilustra seu atual estado de espírito e (digamos) um "estado geral das coisas": - O Brasil é uma ópera bufa!



2 comentários:

  1. José Maria disse...:

    Salve Joel Joca, belo texto, bela lembrança e homenagem ao Velho e Bom Julio Medaglia. Está na história das musicas brasileiras populares e clássica. Será que está entre os 100 maiores brasileiros da eleição do essebetê?.

  1. Joca disse...:

    Amigo Zé: eu não hesito em qualificar Medaglia como genio da raça brasilis. Não só um homem de vasta cultura - não apenas musical - e visão arguta do presente e do futuro, naturalmente decepcionado, especialmente com a Educação.

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