MUDAM-SE OS TEMPOS E OS COSTUMES. E DAÍ?

Mudam-se os tempos, mudam-se os costumes (por vezes as vontades, conforme a musica de José Mário Branco). Tem sido assim desde que o mundo é mundo, como se costuma dizer, o que é bem verdade, considerando-se todos os ângulos e todos os possíveis pontos de vista.

Que sejam as mudanças geológicas, os acidentes naturais, nada mais “normal” ao longo da história de um planeta vivo e dinâmico. Que sejam as mudanças políticas, as reviravoltas históricas e algo que corre paralelo a tudo isso, aparentemente sem lhe darmos a devida importância: as mudanças de costumes que influenciam e reciprocamente são influenciados pela História. O filósofo Edgar Morin, uma de minhas leituras de cabeceira, encontrou uma fórmula interessante para tentar desvendar esse enigma: “o ser humano faz a História que o faz!”
A realidade, aquela construída nos detalhes cotidianos, à luz de constantes e necessárias análises, bem o sabemos ser outra: mudanças abruptas nem sempre significam mudanças verdadeiras. Tomemos por exemplo, a tecnologia. Os povos em geral mas especialmente os de sistema educacional menos evoluído – e aqui, falo sem nenhum complexo de inferioridade do nosso querido Brasil, de cultura riquíssima, porém extremamente mal gerida pelas elites que nos governam.
Por aqui, no Brasil, em exemplo citado em entrevista pelo historiador Evaldo Cabral de Melo (da tradicional família nordestina, de onde vieram o poeta João Cabral e o ex-presidente Fernando Collor), temos uma facilidade irresistível em aderir a modismos como o uso de celular e suas múltiplas variantes (ipod, iped, tablets, note, ultra e nets books), mas temos dificuldades enormes em assimilar mudanças sociais que envolvam, por exemplo, a posse da terra. Até hoje, por exemplo, nunca foi feita uma reforma agrária a sério no Brasil (posses e assentamentos precários, geralmente realizados por força de denuncias ou para aplacar a ira de grupos descontentes, paradoxalmente, ocultando interesses políticos). Nenhuma mudança que afete o grande capital, as grandes fortunas, os interesses de grupos empresariais deslancha no Congresso amplamente dominado pelas elites. Parlamentares oriundos das minorias representativas negras, indígenas, de trabalhadores rurais ou urbanos, de orientação sexual diferenciada, etc., são irrelevantes e ainda por cima muitos são facilmente corrompidos de modo que os projetos de mudanças políticas, fiscais e econômicas ficam engavetados por décadas.
Todos no Brasil sabem que trabalhadores assalariados pagam proporcionalmente mais impostos que os ricos; todos sabem que um fazendeiro ou industrial eleito com mil votos tem o mesmo peso de outro que precisou de um milhão; todos reconhecem o absurdo da existência de municípios com pouquíssimos milhares de habitantes, sem nenhuma capacidade de arrecadação, mas que sustenta os salários de prefeitos e vereadores que praticamente não tem o que fazer, enquanto falta dinheiro para comprar soro fisiológico nos postos de saúde onde geralmente sequer existe médico; todos sabem que nas escolas dos rincões profundos do país - especialmente no Maranhão dominado pela família Sarney – faltam cadeiras e lousas! Não faz muito tempo que em São Paulo, a cidade mais rica do Brasil, responsável por quase um terço do PIB nacional, existiam as famigeradas “escolas de lata”! Para quem não sabe ou lembra, as tais “escolas “ eram semelhantes àqueles abrigos precários feitos pelas construtoras para guardar material, servir de escritório avançado e algumas vezes de abrigo temporário a trabalhadores avulsos da construção. Imagine-se crianças pequenas dentro de casinholas de zinco e latão sob o verão paulistano! E olhe que as tais “escolas de lata” existiram por muitos anos.
Exemplos como os citados acima, poderiam se seguir por páginas e páginas, apenas de memória, sem recorrer a nenhum banco de dados oficial ou extra-oficial. Poderíamos assim, detalhar em milhares de páginas as mazelas impunes que nossas elites governantes perpetuam descaradamente. Assim, pois, quais os efeitos práticos de melhoria real para as nossas vidas e especialmente o nosso futuro, se simplesmente aderimos aos modismos tecnológicos, sem efetuar as mudanças estruturais? E falo, não das estruturas básicas como estradas, portos, aeroportos, segurança, sistema sanitário, coisas obrigatórias em qualquer governo do mundo, mas da principal de todas: educação, pois povo educado pode minimamente desenvolver senso crítico. No Brasil, uma pessoa semianalfabeta pode ser capaz de manipular com absoluto sucesso todos os recursos de um moderno celular, mas dificilmente será capaz de mencionar o que faz um deputado... E menciono tais distorções em termos absolutos, não estou falando dos analfabetos funcionais, daqueles que são incapazes de compreender o parágrafo de qualquer texto que acabou de ler!
Assim termino o post. Peço desculpas aos milhares (sic) de leitores do blog, acostumados que são a temas mais amenos, especialmente louvando mui justamente nossa cultura, nossa música, nossos artistas maravilhosos e maravilhosas. Perdoem-me a quizília em tempos de festa, confraternização! Quero festa, quero furria, quero alegria, mas quero justiça, quero menos corrupção! E que assim, a alegria faça sentido! E tudo isso em 2013! Que se consagre a profecia dos poetas Gilberto Gil e Capinan (todos os poetas tem o dom da profecia!):
Sou viramundo virado
Pelo mundo do sertão
Mas inda viro este mundo
Em festa, trabalho e pão
Virado será o mundo
E viramundo verão
O virador deste mundo
Astuto, mau e ladrão
Ser virado pelo mundo
Que virou com certidão
Ainda viro este mundo
Em festa, trabalho e pão



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