PARA QUE SERVE (a) HISTÓRIA?

Dia destes, perambulando a pé pela Av. Jabaquara, ao passar diante de uma escola estadual pessimamente conservada, apesar de localizada em região nobre, fui levado a pensar em meus filhos estudantes e nas impertinentes perguntas que costumam me fazer: "Para que serve (a) História?", por muitas vezes me questionaram, à época de exames escolares, quando se atulham de livros e anotações, tentando perigosamente apreender o conteúdo de todo um bimestre ou semestre em poucos dias ou horas. É certo que algumas vezes a displicência era dos próprios, mas noutras por falhas pedagógicas, professores incapazes de transmitir valores além do conteúdo e em casos extremos, falta de professores. É uma velha história – a considerar o período de algumas décadas para cá, quando o magistério se tornou um ofício como outro qualquer ( meros operários das instituições de ensino, peças de um “processo de produção”, no qual não têm noção do todo). Cumprem rituais, a maioria aos trancos e barrancos, correndo de uma escola para outra para completar o salário. Preparar e elaborar aulas, verificar as peculiaridades e capacidades dos alunos tornou-se utopia, "cronogramas pedagógicos" - guia básico que devem nortear o processo de aprendizado conrtendo os processos regulares e também os excepcionais e/ou imponderáveis - são modelos xerocados, preenchidos rapidamente nos intervalos entre as aulas. Para inglês ver? Nem isso, apenas "para constar" nas chamadas "fichas" ou outro nome que dão ao mero ítem burocrático.

Professores e educadores de verdade, existem, felizmente, mas o mérito é pessoal. O sistema publico educacional é mero simulacro, refletindo outro simulacro que ostentamos, a democracia, essa pílula que douramos sabe-se lá a que preço. Como a maioria das coisas que dependem dos governos, não existe planejamento à longo prazo. Raríssimas são as escolas, verdadeiras gotas no oceano, que se preocupam em educar a sério – o problema não é dinheiro, é gestão, dizem os manuais, ignorados. No grande mar social, perdidos entre vorazes tubarões, alguns abnegados professores resistem, encaram o ofício com a seriedade e competência que a função exige – lembrei-me nesse instante de minha comadre Iara Fernandes, mestra das letras, lá em Uberaba. Não sei se ela concorda comigo, mas sei que compreende o que quero dizer... Professores, médicos e magistrados são os ofícios mais importantes, pelo “simples” fato de decidirem vidas humanas.
De quem é a culpa? Dos alunos que não entendem porquê tem de estudar História, achando tudo uma chatice, empanturramento de acontecimentos passados, recheados de datas e figuras exóticas, a seus olhos completamente deslocadas no tempo e no espaço, sem qualquer conexão com o presente? De quem é a “culpa”? Dos alunos “desinteressados” ou de professores que não conseguem cativar e muito menos transmitir a noção básica de que a História é o processo de desenvolvimento das sociedades? Ou de um modelo ultrapassado e irresponsável de ensino?(No ensino médio, encontrei professores de história tão desastrados que tive de fazer um esforço enorme para não desaprender o pouco que sabia...)
Pois bem: à pergunta que meus filhos me faziam – pra que serve história? – eu tinha um jargão pronto, que com o tempo se tornou gasto e de sentido obscuro: costumava dizer que “...estudamos a história para compreender o presente.” Percebi que essa explicação não lhes bastava, pela simples razão de não existir uma lógica, uma ligação imediata que os conectasse ao conceito “compreensão do mundo”, com qual eu tentava lhes mostrar a razão do estudo da História (o que é e para que serve). “Compreender o mundo”, isso deve ser importante para estudiosos ou políticos, porém, sem sentido para quem precisa de respostas imediatas, cujas vidas se inserem numa práxis objetiva, como as soluções dos jogos de videogame, por mais que as mesmas sejam ilusórias – eles tem a sensação de terem resolvido o enigma, quando na verdade o mesmo já estava inserido pelo criador do jogo e ter encontrado a solução ou o caminho, foi uma questão de habilidade e não de reflexão (ok, podem dizer que na vida também é assim, que a solução dos problemas geralmente está abaixo de nossos narizes, que sempre esteve ali. E também podem argumentar o que é e para que serve “reflexão”... Aumentaria o salário?). A instrumentalização rege não apenas as ideias da geração videogame, mas os próprios governos, empenhados em justificar fins: o importante é ser eficaz no momento, pouco importa se sequer sabe para onde vai...
PARA ONDE CAMINHAMOS?
Muitas coisas na vida servem para qualquer época ou seremos escravos da tecnologia. Há quem fique em pânico se não tem à mão um celular ou um computador para consultar emails ou mensagens, que entram em desespero se não acessarem dregularmente, quase como obrigação religiosa, sua página no facebook. A vida, entretanto, ou melhor, viver a vida, prescinde da técnica, embora a mesma sirva e muito para melhorá-la. Cervantes inventou o gênero romance e escreveu o melhor deles, sem máquina de escrever – o que não nos impede de achar que poderia ter sido melhor se tivesse um computador e o Google; Bach fez tudo sobre música apenas com papel, tinta, pena e uns poucos instrumentos disponíveis em sua época; Antonio Stradivári desenvolveu há quase trezentos anos uma técnica de construção de instrumentos até hoje insuperável (claro que se tivesse à disposição potentes softweres poderia ter feito muito mais e melhor!). Mas, o que dizer do divino trabalho de Gustave Doré, sem uso de programa de computador? O exemplo abaixo diz por si...
O desenvolvimento do capitalismo e a consequente velocidade do progresso despojou a atividade laboral da sua original natureza humana. A busca pela lógica imediata, não admite erros ou dúvidas, não há espaço para experimentações. No raio de ação da pessoa comum, onde se luta para ser bem sucedido, não se permite dúvidas, muito menos de suas próprias capacidades; reconhecer limites pode ser sinal de fraqueza, de baixa estima, para quem se recomenda um psicólogo ou um intensivo curso motivacional. O deus mercado não perdoa; no mundo globalizado, para se vencer na vida é preciso pensamento e atitudes positivas.
O grande problema, talvez chamaria de equívoco, é que cursos motivacionais não foram feitos para melhorar necessariamente a vida das pessoas e sim, maximizar a produção, seja na linha de montagem ou nos escritórios. Ser um “sucesso” é aspiração justa, indiscutível; o impasse surge ao se aplicar à vida pessoal, sobretudo nas relações familiares. As técnicas e métodos foram desenvolvidos tendo como alvo o mundo corporativo, onde literalmente (por mais que se lhe dêem outros nomes!) são “armas” para sobreviver no mercado de trabalho. Muitas delas surgiram em períodos pós-guerra, visando a reconstrução de países devastados, daí a se ter ideia das razões que levaram os então dirigentes a medidas tão extremas. A utilização , pois, de métodos de tempos de guerra para a vida corporativa e quotidiana, a principio não me parece razoável, haja vista o altíssimo índice de suicídios no Japão, país que desenvolveu a conhecida técnica dos cinco "S", de largo uso nas empresas e mesmo no serviço público... (Saliente-se que a técnica dos cinco "S" não é motivacional, mas sim, organizacional. A citação do país do país de origem é devido apenas e somente a ser o que mais uso faz dos métodos usados no pós-guerra na vida corrente, tornando até certo ponto brutal e intolerável a vida dos jovens, obrigados por si mesmos a ser nada menos que o "melhor").
Nas corporações – minha amiga Naza Braga que o diga - não obstante as camadas de verniz civilizatório e cordial, exige do participante a representação de papéis, nem sempre de acordo com a índole e a natureza individual. São padrões, nos quais se minimiza as diferenças com rótulos temporários, ao gosto da ocasião, onde se abrandam ou escamoteiam as diferenças. No trabalho ou em empreendimentos privados, atitudes como deixar de beber, fumar ou perder peso podem ter como principal razão a imagem perante os superiores e as consequentes vantagens, e não um desejo e necessidade pessoal. Ao se olhar no espelho, quem o indivíduo enxerga? O modelo cristalizado pela necessidade de destacar entre a multidão ou o produto de sua história e do seu tempo? COmo, de que maneira maneira aplicar tais regras para a vida pessoal e familiar, cujos códigos são regulados por outros valores, entre eles o afeto? É conhecida a condição vivida - hipoteticamente - em lares cujo chefe de familia seja militar e quando o mesmo trata filhos e esposa como subordinados... tirania e terror é mínimo que ocorre, entre outras consequencias devastadoras...
Magos modernos, supostos arautos da antiga ciência criada originalmente para curar lesões cerebrais e que modernamente é chamada neurolinguística, elaboram modelos e neles enxertam conceitos e ideias ao gosto do deus mercado e prometem reprogramar o indivíduo, ressignificar, alterar para melhor o modo como veem o mundo. É o velho Mito da Transformação, cuja versão popular podemos encontrar nas histórias do Patinho Feio, nada mais que uma fantasia motivacional para crianças. Como todos os mitos, tem dupla via: de um lado, a provável e instantânea elevação das potencialidades inerentes ao indivíduo e do outro o súbito afastamento de si mesmo. As motivações direcionadas ao rápido sucesso, é versão oposta e canhestra do mergulho no inconsciente junguiano; na busca imediata da padronização adequada ao deus mercado, o salto é “para fora” ou “para cima” e o individuo pode incorrer num brutal e irreparável afastamento de sua vontade original, da qual leva consigo apenas algumas máscaras descartáveis. Acreditar na eficácia de uma real transformação no decurso de algumas horas ou da leitura de alguns livros, pode ser tão ilusório quanto acreditar que uma mulher ficará tão bela quanto a modelo de lingerie contemplada no outdoor...
Os mitos modernos, a exemplo dos antigos deuses pagãos que exigiam sacrifícios em sangue, são igualmente exigentes, vaidosos, inconstantes e ficam facilmente irados; em vez de sacrifícios rituais, exigem submissão, o anulamento da vontade própria. (Faço questão de reiterar aqui, ante a possibilidade de mal-entendidos, que a crítica não se destina aos adeptos do estudo de neurolinguística, mas sim aos processos de lavagem cerebral que ocorrem em muitos dos cursos, a maioria sabe, de vasto e largo uso no chamado mercado da fé.)
Mas a vida segue seu curso, inexorável, por mais que ao longo do tempo os homens tentem transcendê-la Os processos de aprendizagem podem mudar de método, entretanto, disciplina é imprescindível. Estudar e aprender, amar, trabalhar pode ser simples (não confundir com superficial) ou complexo (não confundir com complicado): a escolha é sempre nossa. Um passeio de mãos dadas na Av.Paulista pode ser tão significativo quanto nos boulevares de Paris; ou um piquenique ser tão emocionante quanto uma estação de esqui. Tudo depende do estado de espírito ou do ponto de vista, sem renegar um ou outro. A vida tornou-se complexa (ou a tornamos complexa, a ponto do filosofo, sociólogo e educador Edgar Morin criar a expressão “sociedade complexa”, pois, segundo ele, o homem precisa ser compreendido em todas as dinâmicas nas quais está inserido: biológica, social, cultural, espiritual). Uma ciência para estudar o homem, teria o estranho nome de biosocioantropologia. A ideia, entretanto, não é nova: desde Diderot e sua Enciclopédia, que se tenta decifrar esse ser tão complexo e enigmático – contraditório, peculiar, singular, imprevisível: o Homem.
Enfim, podemos ser simples, levar a vida simplesmente como nos aconselha Paulinho Nogueira em sua canção Simplesmente. Entretanto, nenhuma teoria ou rótulo abarca o homem e o encerra: talvez um elemento comum seja a busca pela felicidade e em nome de tal busca, alguns de nós podemos nos ligar em fraterna rede, que podemos chamar afinidade ou coisa parecida. Numa sociedade efetivamente múltipla e complexa como a nossa, necessariamente tendo de lidar com as diferenças, conceitos como “simples” e “complexo” podem e devem caminhar lado a lado...
“A História nos auxilia a compreender certos traços de nosso caráter, com a condição de que sejamos capazes de isolá-los e denunciá-los previamente. Somente nós podemos responder às perguntas que nos fazem a realidade e o nosso próprio ser.” (Octávio Paz)



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