LAMPEÃO E LANCELOT




Um encontro improvável: o cavaleiro Lancelot, ícone da mitologia britânica e o cangaceiro Lampeão, figura histórica brasileira, o mais famoso dos cangaceiros, movimento controverso que teve seu apogeu no nordeste brasileiro de fins do séc. XIX e inicio do XX. Pode-se, grosso modo, dizer que ambos são produto da ausência do Estado organizado, onde predomina a personalidade do chefe ou senhor regional.
A trama é improvável, porém, não absolutamente inverossímel, pois, não obstante as distâncias abissais de toda ordem entre os séculos, alguns dos princípios que regem os códigos morais do sertanejo, em grande parte se origina nos rígidos códigos dos cavalheiros medievais. Tal não é acaso: as histórias transpunham mares e ganhavam versões abrasileiradas, reproduzidas à exaustão nos folhetos de cordel. Histórias como A Donzela Teodora (ou Tiadora), Princesa Magalona, Carlos Magno e os 12 Pares de França, de origem européia, foram mitificadas por cantadores repentistas. Ao longo dos séculos houve uma profunda interação unindo a novela cavalheiresca aos folhetos de cordel, tudo isso entremeado pela música adaptada ao meio.
A versão teatral unindo os dois personagens, que estreou no SESI no dia 14 de março, explora no curto espaço de pouco mais de uma hora, todos esses elementos, de forma tão enxuta que mal se percebe o tempo passar: Fernando Vilela, Bráulio Tavares, Débora Dubois e Zeca Baleiro se entendem perfeitamente. Destaque para a produção musical: Zeca, nordestino com transito fácil entre o urbano e o regional, consegue traduzir e harmonizar elementos aparentemente díspares: cultura regional/tradicional e música tipicamente urbana, como o samba e o rock, sem ofender os espíritos ditos puristas, de ambos os lados.
Lancelot, lançado através de feitiço por sua amada rancorosa e ciumenta, a feiticeira Morgana, se depara com Lampeão e o choque é inevitável: começa pelas esquisitices que um observa no outro, como o vestuário, a linguagem, etc., iniciando um jogo que fatalmente conduzirá a um combate mortal à base de espada Excalibur e peixeiras e punhais. Porém, após rápidas escaramuças no abrasante sertão, como num passe de mágica, transforma o duelo numa disputa poética, onde fluem as pastorais medievais, cantigas de amor e de amigo e ritmos alucinantes nordestinos como xaxado, baião, embolada, etc., ao som de sanfonas, flautins, pandeiro, rabeca e violão, culminando numa grande festa sertaneja. Destaque para o encontro entre Morgana e Maria Bonita e igualmente merece menção o impecável trabalho dos atores, especialmente Cássio Scapin no papel do narrador que guia o espectador na trama.
Na minha opinião faltou uma viola nordestina para azeitar o forrobodó. No final, predominou o recurso fácil e previsível de Mulher Rendeira – com alguns versos acrescentados por Zeca – mas não podemos nos esquecer que a trama visa um amplo público, especialmente jovem, para o qual, a clássica Mulher Rendeira ainda é novidade... Enfim, vale a pena. A peça é representada de quinta a domingo, sendo gratuita as sessões de quinta e sexta feiras.
“...podem existir povos sem linguagem de prosa. Mas é impossível uma cultura sem poesia, isto é, sem canções, sem mitos, sem rituais.” (Octávio Paz)



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