UMA MULHER DA VIDA

Seu nome era o seu território inviolável: entrincheirada no mesmo, era capaz de lançar desafios ao mundo.

Trata-se de um episódio de minha infância: a história de Francisca Blanco, uma paraguaia solitária que vivia nas proximidades da colônia de agricultores de café, na zona rural de Junqueirópolis. Dizia-se “paraguaia” mas poderia ser de qualquer outro país latino - dada à certa proximidade fronteiriça, peões paraguaios eram comuns como trabalhadores nas fazendas - e todos que enrolavam a língua no espanhol, eram imediatamente chamados paraguaios. Certa era sua descendência indígena, seus fortes traços morenos, cabelos lisos e espesso, corpo robusto, não muito gracioso. Ela mesma jamais confirmou ou contestou suas origens, como se a questão da nacionalidade lhe fosse indiferente. Não tinha – provavelmente jamais os teve - documentos.
A lembrança mais viva que tenho dela, diria mesmo o traço mais importante de sua personalidade, é do quanto ficava furiosa por as pessoas não saberem pronunciar seu nome corretamente: nome que não seria somente a forma de denominá-la, mas algo além; era a própria expressão de seu ser. (Essa convicção, seguida à risca em cega determinação, parecia refletir algo bíblico, do Genesis, onde a Criação do Mundo surgira da palavra de Deus.) Ou como se o nome fosse seu refúgio protetor, pois era tudo o que possuía, e consequentemente, seu único modo de firmar sua condição neste mundo. O nome e a sonoridade correspondente como que mantinha sua integridade: por isso exigia, in extremis, radicalmente, a pronúncia correta.
Ela não se preocupava em construir qualquer tipo de reputação positiva para si, não buscava agradar ou parecer gentil. Somente quando lhe perguntavam o nome, erguia o queixo e o afirmava, acompanhando-se com um sorriso orgulhoso: “Francisca Blanco”, do modo que só ela conseguia pronunciar corretamente, e nisso, nessa orgulhosa afirmação contundente, residia todo o seu equilíbrio. O oposto disso, ou seja, o descontrole e a raiva, sobrevinha quando alguém errava – parecia que ela tomava tal como sendo deliberado. Lembro-me de algumas vezes na venda do Jurity ela bradando de dedo em riste:
- Não é “Branco”, meu nome é Francisca Blanco, B-L-A-N-C-O, comprendes? Ante a resposta afirmativa e nova pronúncia errada, bufava e rangia os dentes e danava-se a cuspir imprecações que ninguém entendia: - mierda ignorante, yo soy una persona, tengo un nombre!” Ante a inutilidade das tentativas, convencionou-se chamá-la, em sua ausência, Francisca Bilanco, ou Viúva Bilanco. Diante dela, simplesmente Francisca. Ou quando queriam irritá-la e se divertir, deliberadamente diziam Branco ou Bilanco, diversão perigosa, muito próxima de um vexame.
Dona Francisca não tinha amizades, não demonstrava afeição por ninguém em especial. Quando muito respondia aos cumprimentos, algumas poucas vezes conversava cordialmente com minha mãe. A cara enfezada era sua marca e seu escudo. Entretanto, reagia com olímpica indiferença aos ataques verbais que as más línguas lhe desferiam: poderiam chamá-la de todo tipo de nomes feios, que ofendessem gerações passadas ou futuras; que denegrissem sua classe ou sua raça. Mas saía do sério, se transfigurava e virava fera se desrespeitassem – segundo ela – o seu nome e então a chusma de impropérios desabava (quando não desabava outras coisas ao alcance da mão sobre a cabeça do incauto).
- Bastardos! Trastes ignóbeis! Que el perro lhes devore as línguas, porcos infames! – e os capiaus, ofendidos e humilhados, apavorados e especialmente apalermados por não compreenderem a maioria das palavras, riam amarelo e saíam de fininho, temendo a mulher e as palavras ferinas, duas coisas indomáveis. Certa vez um nortista, sujeito soturno e sorumbático, baixo e atarracado, chegado há pouco à fazenda e que não conhecia seus trejeitos e manias, na vã tentativa de fazê-la calar-se, deu-lhe um soco na cara provocando o hematoma abaixo do olho. A violência, em vez de a calar, fez despontar os mil demônios dentro dela, o ímpeto de cólera aumentado na mesma proporção que a variedade de vitupérios:
- Degenerado! Hijo de puta! Torpe! Mapuão dos infernos! Espúrio! Canalha! – e como uma onça furiosa, saltou sobre o peão golpeando-o com dentadas, coices, unhadas e socos; o valentão não teve outro jeito senão fugir às carreiras, levando consigo a fama de covarde. Atrás de si, atroz, o zurro infernal: - Corno! Corno cobarde! Tipos como tu dentro de mi piernas nunca llega, impuro! Abaité! maricón! - a soar em seus ouvidos, eco maldito, vibrando terrível: “dentro de mi piernas nunca...” foi perfeitamente traduzido; maricón foi convenientemente decifrado. Conta-se que os insultos se ouviram à quilometros de distancia. As pancadas sofridas e o palavreado venenoso da paraguaia enlouquecida correram mundo, aumentando em torno dela a aura de feiticeira, sobre quem pancadas físicas não tinham efeito. O nortista, sumiu-se, ninguém nunca soube para onde...
Mas a guerra aberta entre o mundo e dona Francisca tinha outros desdobramentos. As “mulheres de família” especialmente a odiavam e hostilizavam abertamente. Sequer na missa dominical, celebrada na capela do Jurity, a poupavam e ela era obrigada a ficar semi-oculta, nos fundos, isolada. Minha mãe – que apesar de católica, pouco ia às missas – era uma exceção no trato com ela: chegou a recebê-la em casa, conversavam. Numa das vezes, após sua saída, uma das beatas foi até nossa casa e com voz chorosa censurou mamãe por manter “conversinha com aquela tal!” Minha mãe que nunca fazia rodeio, disse bem claramente: “Respeitando minha casa e meus homens, o resto é com ela!”
Naqueles idos tempos de menino de roça, pré-púbere, dona Francisca se constituía um completo mistério para mim e os demais meninos. Por vezes ouvíamos dizer que ela era mulher da vida e não tínhamos ideia do que significava. Pior que tudo eram as negativas categóricas dos adultos da mínima explicação, coisa incomum para aqueles tagarelas metidos a saber tudo. Até meu pai, sempre solícito, quando certa vez perguntei porque a chamavam de “mulher da vida”, se mostrou muito incomodado e respondeu secamente: “...não é assunto de sua seara! Não se meta...”
Que seria de tão terrível isso que tirava aquelas pessoas tão cordatas e pacíficas do sério? Quão pavorosa seria a insídia, com poder de unir de tal forma a comunidade na proteção de seus infantes, a protegê-los do maior dos males do mundo? Ninguém quebrava o pacto. Até que um dia encontrei o Geraldo, um rapaz muito simples e ingênuo, ainda por cima bêbado, e ante minha pergunta sobre o mistério da viúva, não se furtou. Com olhos brilhantes de lascívia e num tom conspiratório, decifrou o segredo: - “Ela se deita com a homarada...”
Deita com a homarada, deita com a homarada”, fiquei a repetir a frase com medo de esquecer a chave do grande mistério e por mais que meditasse, não encontrei nenhum significado oculto. Tudo de volta à estaca zero, aquelas palavras, nada me diziam. Era o mesmo que dizer “onde o céu acaba”. Esse tal “deita com a homarada...” era ainda mais difícil e emblemático que o mistério do horizonte, pois o céu eu sempre via onde acabava, mesmo que nunca o alcançasse... O termo “deita com a homarada” ganhou ares diabólicos quando pedi ao moleque Zé Galdino que perguntasse à sua mãe que diabo era aquilo e como resposta ganhou um soco na boca...
Eu olhava que olhava dona Francisquinha quando ela passava pela estrada rumo ao Jurity ou pelo carreador que cruzava a Fazenda Santa Helena, na direção da Boiadeira, já no município de Irapurú. Olhava que olhava à cata de algo revelador, mas a cada vez, me parecia uma mulher “normal”, dentro dos padrões: pele acobreada, olhos cinzentos, volumosos cabelos lisos-escorridos, robusta de corpo e única coisa nela que destoava das demais mulheres era seu costume de lavar roupas na beira do córrego, ao contrário das outras que usavam “tábua de lavar” ao lado da tina, nas proximidades das casas, junto aos poços. E lá na beira do córrego, costumava levantar a saia até a metade das coxas morenas e roliças e então se acocorava, esfregando suas poucas peças e os lençóis em frangalhos, mas tudo ficava imaculadamente branco, resplandecendo ao sol. Se notava algum homem espionando atrás das moitas de taboa, ria maliciosamente e dizia com uma voz deliberadamente meio rouca: - “venga, venga curiboca! Demuestra que usted es hombre” e ria, abrindo desmesuradamente a boca mostrando os grandes e poderosos dentes. Geralmente o sujeito ia embora, o palavreado soando como sentença de maldição, pois havia quem jurasse que ela conhecia rezas brabas e aquelas palavras estranhas e incompreensíveis, eram um tipo qualquer de invocação demoníaca... Os homens em geral falavam dela entre cochichos e risinhos um tanto infantis. Era notório que publicamente todos evitavam se encontrar e muito menos lhe dirigir a palavra. No entanto, se sabia claramente que fulano ou beltrano a visitavam à noite e mesmo nas tardes de sábado ou domingo...
De tanto ficar à cata, um dia o mistério desabrochou de modo muito prosaico, sem maiores emoções: um moleque na escola, um daqueles que estavam há cinco ou seis anos na segunda série primária, disse que “deitar com a homarada” era o mesmo que fazer neném de mentirinha....” Ah!, mas era isso? Uma espécie de brincadeira, um faz de conta, um joguinho de adultos? Onde, pois, o diabólico? Foi um dos momentos de minha infância em que acreditei que os adultos realmente nos subestimavam!
Sabia-se pouco dela, além de seu jeito enrolado de falar e que chegara à região na junto de um caminhoneiro que aproximadamente a cada três ou quatro meses cruzava por ali e tinha lugar cativo na venda do Jurity. Sentava-se numa das mesas e todos se reuniam em volta dele e da garrafa de cachaça a ouvir suas histórias de estrada. A reunião só não acontecia quando ele vinha com alguma mulher, quando então sentava-se na mesma mesa, mas somente em companhia da mulher, onde almoçavam em silencio, as pessoas fingindo não conhecê-lo, pois uma mulher estranha exercia uma espécie de temor nos capiaus. Quando chegou com a paraguaia, mal sentaram-se e o fusca da policia de Junqueirópolis chegou rangendo pneus, levantando poeira num estardalhaço inesquecível. Levaram ambos presos, algemados, os dois pratos-feitos ainda fumegantes deixados na mesa com a garrafa de tubaína e os dois copos americanos. Foi quando se soube que o caminhoneiro era um contrabandista há muito procurado por todo o Estado. Levaram-no com caminhão e tudo, ninguém soube para onde exatamente. E a paraguaia, de nome Francisca, foi solta. Segundo um dos guardas, em seu depoimento, ela disse que era somente “...una pobre viuda, que seguían montados a la ciudad...” “Solta” , diga-se, um mero eufemismo, pois, más ou boas línguas espalharam que antes da tal “soltura” serviu a todos que se interessaram por ela... Ao fim do festim, a colocaram no mesmo Fusca e a “liberaram” a alguns quilômetros da cidade.
Um prato de comida aqui, outro ali, um “favor” daqui, outro dali e assim, ela foi ficando pelos arredores, sendo sistematicamente expulsa pelas mulheres de cada lugar onde tentava aportar. De expulsão em expulsão, acabou por seguir a rota que fizera antes com o caminhoneiro chegando até a estrada que levava ao Jurity. Se arranchou no casebre que diziam ser mal assombrado, que se localizava depois do Grupo Escolar, numa espécie de “zona neutra”, numa roça abandonada já perto da bifurcação de onde se partia para Irapurú e Junqueirópolis, nas terras de um sujeito que nunca aparecia por ali, parente dos italianos Vaíni, Como não lhe incomodaram, foi ficando. Reativou o poço, plantou horta, milho e abóbora no quintal, umas roseiras, onze-horas e maria-sem-vergonha na frente. A casinha ficou bonita, um brinco, mas ela “pegou” fama de feiticeira, pois domara os maus espíritos que ali habitavam: feitiçaria de índia paraguaia não tinha quem tirasse, dizia-se! Era odiada e temida, sabia-se que “os homens a procuravam”, enfeitiçados por seus poderes, o que todos negavam veementemente. Foi por essa época que proibiram às crianças de qualquer possibilidade de explicação, cerrando fileira em torno do assunto que virou tabú. A nós, crianças, não era permitido sequer tocar-lhe o nome, nos ameaçando com os castigos mais infernais e horrendos jamais imaginados: fogo eterno a nos consumir e o tinhoso dando voltas em torno nos chuchando com a forca de aço incandescente.
Assim que o mistério veio abaixo e fiquei a saber que “deitar com a homarada” era a mesma coisa que “brincar de fazer neném”, uma irresistível curiosidade me arrastou na direção da viúva, a despeito das ameaças infernais. Diga-se que aqueles eram tempos em que se considerava seriamente que cegonhas traziam de longe as crianças para seus pais criarem: mesmo no Grupo Escolar, o sisudo professor José Eduardo ou a substituta Marlene, se negavam a esclarecer o assunto. Diziam: “isso vocês vão aprender no ginasial”.
Certa tarde deixei de ir ao campo de futebol, driblei a vigilância dos velhos e me dirigi sorrateiro, correndo abaixado por entre o milharal, atravessei a estrada e cheguei à casa da viúva. Plantei-me na frente e fiquei a espera, coração aos pulos sem saber exatamente o que falar quando ela aparecesse. Não demorou e ela saiu, mal se dando conta de minha presença, sentando-se num cepo ao lado da porta, cruzando as roliças pernas morenas, que nunca tinha visto assim tão de perto. Vi que me olhou, mas pareceu fazer de conta que não. Eu, ali, plantado, imóvel e calado. Então, ela finalmente deu-se conta que eu estava vidrado nela, deu um longo suspiro e me olhou de um modo que me pareceu meio malévolo, algo que lembrava vagamente um sorriso:
- Que queres, fedelho? – E descruzou as pernas de um modo tão ágil e natural, desconcertante e eu me perguntei porque as outras mulheres não cruzavam e descruzavam as pernas daquele mesmo modo, tão espontâneo. Mesmo com a iniciativa de sua pergunta, eu prosseguia incapaz de emitir qualquer som, pasmo-mudo diante daquela força da natureza: uma mulher que era capaz de mostrar as pernas. Ela disse novamente: - Que queres, guri? Perdeu a língua?
Então, saí momentaneamente do torpor e sorri malandramente, olhando vivamente suas pernas morenas. A viúva Bilanco deu uma risada escrachada e aquilo me pareceu muito ofensivo. Tive ímpetos de lhe atirar uma pedrada. Mas então ela cessou a gargalhada e me disse com inesperada suavidade:
- Vae-te, Guri! No tengo nada que possa lhe servir! Vae-te! Moleque descarado!
Como me neguei a sair, ela se levantou e fez a cara de enfezada. Mesmo na minha meninice, era visível que queria somente me intimidar, por isso, não arredei pé:
- Vamos, vae-te daqui, peste! Já disse que nada que eu tenho te interessa, Xô! Xô! É o que me falta! Some! Xô!– e se levantou, sacudindo as ancas e chacoalhando os grandes peitos soltos sob o surrado vestido. Com raiva, chutou uma lata vazia de óleo comestível e cerrou os dentes, desfigurando a cara de um modo realmente assustador, olhos injetados, esbugalhados, uma careta horrível. Não arredei pé, mesmo tremendo, hipnotizado pela visão das pernas roliças tão próximas, exalando um desconhecido magnetismo que me fazia ficar pregado ao chão. Ergui os olhos para sua cara enfezada e por um momento tive a impressão de ver no fundo de seus olhos uma suavidade quase maternal, parecendo esboçar-se no canto da boca uma espécie de sorriso. Em algum lugar daquele rosto sulcado de marcas de sarampo e cicatrizes na face e pescoço, pareceu-me perceber um resíduo de longínqua ternura. Mas no momento seguinte, sua voz readquiriu o tom esganiçado e estridente que ouvira d’outras vezes:
- Vae-te simbora, ou conto pra tu padre, porra! Perrozito safado! Some-te daqui! – Ante a confusão que deve ter sido exposta pela minha expressão ante a palavra padre, ela bateu a mão espalmada na própria testa como a lembrar algo e então, falou bem devagar e firme: - Vae-te daqui, piazito deslavado ou então vou contar para seu pai! Vou chamar teu pai! Entendeste?
Então, tudo estava mesmo perdido! Esse era um ponto inquestionável: com a mão pesada e a cinta de couro cru não tinha meios termos, não se discutia! Girei sobre os calcanhares e desembestei a correr na direção de casa. Nunca mais voltaria a passar perto da casa da viúva Bilanco.



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