2MARES, O SHOW!

Domingo, 18 de agosto. Uma semana já se passou, mas a emoção vivida continua grudada na pele, como se tivesse acabado de acontecer! Sesc Belenzinho, Show 2Mares.

Foi dado o pontapé inicial para a finalização do esperado CD 2Mares, parceria entre Katya Teixeira e Luiz Salgado. Já publicamos neste mesmo espaço sobre 2Mares há pouco tempo, tem o site oficial do CD, ou seja, o que não falta é informação. Ao me encaminhar para o SESC Belenzinho, não tinha em mente a postagem, apesar de desconfiar que teria motivos para fazê-lo, pois sempre é possível esperar algo surpreendente de Katya e Luiz; ambos tem de longa data um trabalho de pesquisa no campo da cultura popular: o encontro é sobretudo, resultados de mais investigações nesse manancial riquíssimo, praticamente inesgotável, da cultura popular, ao qual os chamados “músicos eruditos” sempre recorrem. Os casos mais célebres e emblemáticos que me ocorrem no momentos são de Bela Bartok e Vila-Lobos, mas de modo geral, todos os músicos clássicos recorrem à música do povo e são muitos os casos em que a citam diretamente, como fez Joaquim Rodrigo ao reproduzir na íntegra a dança popular “Canários”, recolhida e registrada pelo padre músico Gaspar Sanz, na Fantasia Para Um Gentil Homem.
Luiz Salgado no palco: figura singela, quase pacata, a “mineirice” em sua mais notável tradução, não nos deixa enganar: no palco, transforma-se e ao dedilhar sua violinha e soltar a voz, encarna todo o poder e força dos míticos cantadores de todas as épocas. Luiz é uma perfeita mestiçagem do lirismo de Dércio Marques, do canto livre e forte de Eliezer Teixeira e da poética corajosa de Vital Farias.
A seguir, Katya Teixeira em altíssima voltagem, inspirada mais do que nunca, soltando seu canto de guerra, de fé, de paz, de alegria. Canto mestiço, canto forte, amalgamado, transpondo e aglutinando os mares português e brasileiro: savanas de África, caatingas nordestinas, terreiros, planícies ao longo do Tejo, recantos de Trás-os-montes: cânticos ao Menino, Ternos de reis, Congadas, Moçambique, etc. Irmanados e distintos, versos se transmudam, se transformam, se transfiguram – São Gonçalo que o diga! A Senhora Rainha do Império Luso se muda pro interior de Minas e de lá abençoa soldados que partem para a guerra:
“Senhora rainha
Venha na janela
Venha ver marinheiro
Que já vai pra guerra”.
Foram muitos os momentos memoráveis do show, mas reporto-me a um especificamente, que a meu ver sintetiza a ideia do projeto: lá pelas tantas, se ergue do meio do povo um inconfundível sotaque lusitano com os versos da “Grandola, Vila Morena”, de Zeca Afonso, a antológica canção-símbolo da Revolução dos Cravos (sua execução exatamente a meia noite e 20 minutos da madrugada pela Radio Clube Português foi a senha para os tanques do Movimento das Forças Armadas saírem às ruas de Lisboa e derrubar de vez o salazarismo. ). A “Grandola”- referência a um bairro operário da cidade, na voz de Susana Travassos, caminhando lentamente pelo meio do povo nos fez sentir nos ruas de Lisboa na noite do 25 de Abril...
Grandola, Vila Morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó Cidade!”
...voz, palmas, o ritmo marcial da presença especialíssima dos Barbatuques. Com Suzana no palco e nós, plateia, a nos preparar para a salva de palmas, eis que emerge como que de um distante pé-de-serra a voz “negra” de katya com o jongo “Tava Durumindo” (ou drumindo). A voz vem dos grotões, dos quilombos, das chapadas, campos, favelas, acampamentos de refugiados, de sem-terra! O grito vem das ruas, das prisões desumanas; de toda a parte onde houver opressão, o canto de guerra ecoa, desassombrado. Voz de fogo da mestiça Katya, incêndio nos corações, alta temperatura, geral, sob o comando:
“(...) levanta, povo
Cativêro já acabô!”,
“bordado” de cantigas e versos que certamente José Afonso e José Mario Branco, arranjador e diretor musical do álbum Cantigas de Maio, que lançou a Grandola, aprovariam, imagino!
Sempre é tempo de lembrar a liberdade! E sempre é tempo de lembrar aos poderosos que o cativeiro acabou. Sim, oficialmente, acabou, mas o preço da nossa tão prezada e concomitantemente, desprezada liberdade, é a eterna vigilância, sempre!

Vejam aqui um trechinho do show.Logo, logo mais trechos.



Mais um trecho do show:



Vejam o site oficial do CD 2mares: http://www.cd2mares.wix.com/2mares/



3 comentários:

  1. Anônimo disse...:

    Adorei!!!! Muito obrigada mais uma vez, por dar palavras a nossa arte... Bjkas

    Kátya

  1. Tonny Fenix disse...:

    parabéns por tudo de bom que lhe tem acontecido... depois da tempestade sempre tem um lindo dia de sol...valeu Salgado!!!...

  1. Naza.Braga disse...:

    Parabéns Joel, parabéns pela redação.

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