"POR ONDE VAMOS," SEGUNDO CD DE GIANCARLO BORBA, O CANTOR MILITANTE

O gaúcho radicado em Minas Gerais, Giancarlo Borba lança um novo disco. Já se passaram alguns anos desde o lançamento de sua estréia em disco, o álbum “Milongador”, seu cartão de visitas, material que pode resumir sua missão, como artista, neste mundo:

 Giancarlo pertence à antiga estirpe dos cantadores militantes, que a cada época pode apresentar denominações diferentes. “Militantes” é como são chamados esses artistas, geralmente ambulantes, que fizeram história especialmente na América do Norte na segunda metade  do século XX. Alguns desses nomes se tornaram conhecidos do universo pop, como Woody Guthrie, Leadbelly, Peter Seeger, que foram inspiradores para artistas do porte de Joan Baez e Bob Dylan.Mas eles existem desde a Idade Média, andarilhos que viviam de transportar e recolher noticias. Eram uma espécie de cronistas da época: o epopeita (narrador de epopéias) era uma atividade, uma profissão.

Tais artistas pioneiros privilegiavam músicas de caráter nitidamente popular, que refletiam as agruras e alegrias da gente pobre. Possíveis antecessores do movimento hippie, pois existia uma estreita conexão com o grupo d’Os Vagabundos Iluminados, de Jack Kerouac, e outros expoentes da contracultura, da chamada geração beat, embora, aparentemente, não se conhecessem entre si. Contudo, as afinidades são evidentes. Afinal, todos eram outsiders, viajando pelo país de carona ou clandestinamente nos trens de carga e em razão disso, não tinham boa relação com as autoridades policiais: eram implacavelmente perseguidos.No Brasil, mais precisamente no Nordeste, os repentistas tinham mais ou menos a mesma função, conforme relata Câmara Cascudo no clássico "Vaqueiros e Cantadores".

Podemos dizer que no Brasil e América do Sul em geral, os chamados “cantores de protesto”, que tiveram seu auge desde finais da década de 1960 até meados da década de 1980, foram o que mais se aproximaram dos equivalentes norte americanos, sendo, no nosso caso, muito forte o conteúdo político, uma vez que se lutava, praticamente em todo o continente sul americano, contra ditaduras. Daí a correta definição: artistas “militantes”. Giancarlo Borba, a meu ver, é um herdeiro desta última linhagem, dos cantores de protesto, dos militantes.

A explosão dos artistas “independentes” (assim chamados por não terem vez no mercado fechado da indústria cultural brasileira) deu voz a dezenas, centenas de artistas que, se por um lado são excluídos do “mercado”, por outro tem plena liberdade de ação, fazendo uma arte puramente autoral, de acordo com suas convicções. Nesse rastro, podemos citar, entre outros, Dércio Marques, João Bá, Vital Farias, Diana Pequeno, Elomar, Noel Guarani, Cátia de França, etc. Podemos dizer que esses citados, dentre tantos e tantas, são “troncos fundadores” dessa nova modalidade de artistas e que o passar dos anos criou e gerou frutos de inegável qualidade: Kátya Teixeira, Amauri Falabela, Consuelo de Paula, Levi Ramiro, Valdir Verona, Socorro Lira, etc.

Se o acesso ao mercado foi de certo modo barrado por interesses puramente financeiros, de outro lado a plena liberdade de ação e a construção de uma identidade junto a parte do público carente de autenticidade, ansioso por uma arte que de fato representasse sua condição: fosse do próprio povo marginalizado ou do público carente de  arte não limitada pelos interesses mercadológicos. A entrada em cena dos “independentes” veio preencher um vácuo que sempre existiu. Contudo sua peleja é inglória e o preço de sua coragem  resulta muita luta e abnegação: a proposta de uma nova interação publico/arte/vida foi algo construído ao longo do tempo, de décadas, mostrando ao fim das contas, que o entretenimento, os folguedos, também são formas de conscientização, que, afinal de conta nos define e nos faz protagonistas na busca da construção de uma nação, que só deve ser digna de tal nome havendo justiça social. A arte não precisa ser o circo que complementa a ocultação daqueles que querem as grandes massas escravizadas, em troca de migalhas de pão.

O movimento “Dandô – Circulo de Musica Dércio Marques” veio dar voz e corpo a esse extenso grupo, agregando gente do país inteiro e até do exterior: Marcelo Taynara, Giancarlo Borba, Sol Bueno, Osni Ribeiro, dentre outros artistas/educadores, espalham pelo país o que corria risco de ser esquecido. A “militância” ampliou-se para muito além da política.

 Giancarlo Borba, desde o contundente, “Milongador”, não é somente o poeta e cantor da causa, ele que sempre esteve envolvido diretamente, razão porque os políticos – ou pessoas com interesse politico – sempre o olharam de modo arrevesado, pois sua luta não cede a colorações ideológicas. “Milongador” é uma expressão que pode ser dúbia: pode se referir ao ritmo musical pampeano, que domina as planícies do extremo sul do planeta. Ou também ao sujeito contador de vantagens, o “milongueiro”, o tapeador. Acredito que também pode ser compreendido como o pobre caminhador, como sugere a capa do disco, pés maltados mal protegidos por frágeis sandálias.

 


O segundo disco, “Por Onde Vamos”, veio como consequência de um processo, que implicou muitas caminhadas, permeado por trabalhos e experiências, dentre elas o de construtor e divulgador do instrumento handpan, instrumento cuja prática e sonoridade remetem chamamento e agregação social; induz à movimento/dança/balanço e também  a reflexão. Podemos dizer que a vida artística de Giancarlo de tempos pra cá tem a presença onipresente do handpan, cuja fabricação e comercialização lhe toma tempo considerável. Curiosamente o instrumento no qual se tornou especialista, para nossa surpresa, não está presente em “Por Onde Vamos”. Parece-nos que ele guarda a sonoridade peculiar do instrumento para um disco solo. Parece-nos que o artista/artesão ainda está desenvolvendo “conversas” com o mesmo, (re)descobrindo segredos, o que torna necessário um período de imersão na relação artista/instrumento... Giancarlo e o handpan: uma dupla que promete novidades para breve, na nossa música instrumental.

 



POR ONDE VAMOS?

 O trabalho pode ser um manifesto –  artístico, político, social, poético – qualquer deles será verdade.

“Por Onde Vamos” é ao mesmo tempo pergunta e afirmação. São situações contrastantes, mas, porem, fiéis ao homem e ao artista: fala de revolução e de luta com voz doce , ornamentada com primorosos arranjos que “suavizam” o combate, tradução perfeita do famoso verso guevariano: “Hay de endurecer, pero sin perder la ternura jamás!”, como podemos constatar na canção “O Antigo Medo do Escuro”:

 “...criam a vida sem vida

Na raça pura dos clone

Negando os milhões que morrem

Na infame estrada da fome”.

 

Um disco para se ouvir de alma aberta, mesmo correndo o risco de se deixar levar tomado pelo encantamento de um lirismo que permeia todo percurso, tornando indistinguíveis os traços populares das intervenções que, à falta de melhor denominação, chamemos “erudito”. Vale aqui lembrar versos do disco anterior, o “Milongador”, onde lá pelas tantas o “Cantor Militante” avisa (reparem o contraste, embora não seja de propósito):

 

“...milongador prepare uma canção

Que faça adormecer os homens

E acordar as crianças.”

(Da faixa Milongador, do disco de mesmo nome)


 

“Por Onde Vamos” são versos pungentes de uma poesia forte que se infiltra pelas nossas almas, entretanto sem alardes, suavizada; música e poesia que prepara os corações para os dias de hoje, da luta presente (como convém a um militante digno do nome) mas também para o futuro, para nossos filhos e além deles. Pois a luta que devemos empreender não a mera luta pelo poder. Chegar ao poder é apenas uma pequena parte do caminho percorrido. O poder pode ser ilusório. Uma vez chegando ao poder, é necessário estar atento ao principio “o preço da liberdade é a eterna vigilância”, pois ao menos descuido, podemos cair na própria armadilha e o prejuízo advindo deste erro pode ser irreparável...

 

As 12 faixas de “Por Onde Vamos” poderiam dar nome a uma Cantata, graças às inúmeras pontes entre ritmos e instrumentos populares dialogando com elementos eruditos – atenção ao inequívoco cello que empresta a exata dramaticidade necessária em muitas passagens. E também dadas as inter-relações das composições/peças (árias?) entre si.

O cantor/poeta fala e faz festa. Festa no terreiro e nos salões dos espíritos nobres, onde parecemos vislumbrar silhuetas das muitas raças e tipos humanos, em harmonia; dá vez aos folguedos e dá voz aos oprimidos, às minorias. Busca meios de sensibilizar o ouvinte para compreender a necessária mensagem de amor e fraternidade, que de tão banalizada e desrespeitada, em tempos de fakenews entra por um ouvido e sai pelo outro, sem se deter onde deveria: na consciência dos seres. A música (e a mensagem) há de chegar, mesmo que seja uma gota num oceano sombrio, pois “um mais um, seremos mais...” conforme ensina a canção “Quem Tem Coragem”.

A propósito, num momento de encarar a batalha iminente e inevitável, “Quem Tem Coragem” se assemelha a um regimento especial: a dos anônimos corajosos: “...quem tem coragem para se preciso for, ser o primeiro a cair...”

Quem terá coragem de contemplar os escombros, que gerações inteiras impiedosamente produziram?

 

E a sua pobre riqueza

É que aperta o gatilho

Quem só pensa nos lucros

Sem olhar para o lado

Vai deixar de legado

Um deserto a seus filhos

 

Terra de alma cansada

Morrendo calada

Aos olhos da fome

Terra senhora dos frutos

Pagando tributo

A ganância do homem”

 (Da faixa “Terra Que te Quero Viva”)

 

“Por Onde Vamos” é uma garrafa lançada ao mar. Não é um pedido de socorro, mas um sério alerta e também uma oferta de esperança, pois ele fala (canta) em nome de muitos, ele, Cantor Militante, voz confiável que nos chega vindo de séculos de distancia. As cores fortes pintadas em sua Carta/Cantata  são de turbulências, de luta, mas ao mesmo tempo convocam para o amanhecer que seguramente virá.

 



Pois no nosso tempo, um tempo em que ainda nos cabe agir, cabe-nos igualmente propor e se dispor à reconstrução, interligando nossos destinos às nossas raízes.

 

“Árvore errante, agora tuas raízes

Cantam sob a terra e em silencio.

Um pouco mais profunda és agora

Agora tens terra e tens tempo.”

 (Pablo Neruda, citado na contracapa do LP Terra Vento Caminho, de Dércio Marques)

 Não a toa Dércio é o inspirador do Projeto Dandô, criado por Kátya Teixeira, que conta com a presença de Giancarlo Borba e sua companheira, Sol Bueno. Citação atemporal, mais que conveniente. Mas, a árvore/natureza tem tempo. Podem arrasá-la que daqui a mil anos ela retorna exuberante. Nós não temos tempo. Se destruirmos nossa casa/nave, Para Onde Vamos?

 


 

 

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